O Lado torpe da Glória

1 Uma noiva fora do altar.


O tecido tinha um caimento perfeito, parecia uma nuvem.

Depois que minhas mãos cortadas pelo eterno vai e vem de trabalho com as lançadeiras e maquinas de costurar tocou aquele pano macio, parecia que um processo de cicatrização acontecia instantaneamente em minha palmas, a roupa tinha um brilho branco intenso, um véu que se punha com suavidade até o peito e mangas peroladas de outro tipo de tecido que provavelmente se ajustariam aos meus braços finos.

Falta pouco tempo, não haveria mais lançadeiras de tecido, não haveriam mais dez horas de trabalho e ignorância, eu seria uma das Ofertas deste mês e de bom grado teria uma vida boa no Jardim Nobre com tudo aquilo que sempre sonhei: comida refinada, bailes, e uma vida fútil e isenta de preocupações corriqueiras aqui da Ala dos Panos.

Minha tia Nora chegou reclamando da minha fixação pela roupa, realmente, eu passara a ultima semana admirando aquela costura como uma completa psicopata: desde o dia que o Coletor do Jardim Nobre escolheu as nove jovens mais bonitas daquela área para dar em casamento aos barões como era tradição a cada festival da fertilidade, eu não parava de pensar em como seria a coisa toda. Eu poderia me casar com um hipopótamo bigodudo que cheirasse a madeira mas não me importaria que ele rasgasse meu corpo ao meio em sua lascívia contanto que eu saísse daquele inferno de miséria, agora eu seria uma baronesa, agora eu seria feliz.

– você está parecendo uma mendiga – declarou minha tia me puxando pelo braço, passamos a cortina da nossa casa até a área de banhos coletivos, não havia chuveiros particulares na Ala dos Panos, só públicos que deveria ser alugados com antecedência para os banhos semanais, cada prédio tinha seu banheiro, e o banheiro do prédio sete estava até limpo e organizado considerando que eu ainda não vi nenhuma ratazana correr dos entre as divisórias dos chuveiros.

Havia uma tina de plástico posicionada na extrema esquerda do enorme banheiro, uma janelinha deixava cair nela uma luz do sol que fazia desenhos cristalinos na água, fui lançada na água que já tinha esfriado e esfregada com loções e óleos, mimos e presentes do Jardim Nobre, vindos para mais nova residente; sorri com a perspectiva desses produtos para todo sempre.

Sim eu aceito ser chamada de fútil. Posso ser chamada de prepotente, ambiciosa e pretensiosa, sim, aceito todas essas coisas. Mas não me importo, pois só que vive nas zonas fabris sabe como a vida funciona aqui. Desde a Guerra das Guerras, quando tudo foi devastado, os homens ricos e de poder se esconderam em paraísos subterrâneos, eles esperaram o fim de caos e que uns matassem os outros nas superfície, em seguida subiram, e reergueram um império. O Jardim Nobre era a cidade mais importante agora, uma província protegida por uma cúpula, onde há paz e prosperidade, cada homem que fosse construindo seu palácio e seus negócios ganharam um título de nobreza, mas então houve um longo processo: a descoberta de que ainda haviam homens lutando a superfície, revoltados com a magnitude do Jardim Nobre, tronaram-se rebeldes a fim da queda de tamanho império; e bom... rebeldes fazem filhos, nobres também são ativos, muitos e muitos anos se passaram, houveram outras guerras mas o Jardim permaneceu de pé, os rebeldes foram domados e colonizados, e cada um que tinha certa habilidade era destinado a uma zona e nela vivia até sua morte, pagando como imposto seus trabalhos: O Vale dos Ferreiros faz maçanetas, talheres e até armas, A Praia Salgada mantinha os pratos dos barões temperados e o peixe fresco, O Bosque da Lenha mantinha as lareiras dos barões acessas, A Alameda Diamante os pescoções e dedos das madames enfeitados, nós, a Ala dos Panos cuidávamos da alta e baixa moda para que os barões não andassem nus.

A poligamia em nossa região era admitida, para que o povo ficasse um pouco mais feliz com sua condição e não se revoltasse destruindo todo sistema, havia um Ano de Ofertas, uma espécie de olheiro chamado Coletor vinha nas principais províncias fabris atrás de garotas que se encaixassem de discrição dos barões interessados para futura esposa, a cada garota que o Coletor levasse para o jardim, a família e a comunidade receberiam grandes quantidades de dinheiro, mantimentos e em alguns casos até recebiam privilégios como redução no imposto e nas horas de trabalho.

Era um salve-se quem puder, no dia que o Coletor vinham muitas mães obrigavam as filhas a saírem sem roupa na rua para chamarem a atenção do olheiro, mas essas dificilmente eram escolhidas e maioria eram estupradas. Uma tragédia.

Lembro-me da semana passada quando fui escolhida, eu estava atônita com a chegada do Coletor, havia usado o perfume da família e deixado os cabelos soltos, havia reservado o banheiro para um banho especial e consegui remover toda a sujeira das unhas, eu estava trançado tecidos para detalhes de um novo modelo quando ele chegou, entrou no galpão da fabrica, todas as jovens prenderam a respiração.

Só ouvíamos os sapatos de couro refinado do Coletor batendo no chão, ele, sua cara de fuinha e bigode espesso se direcionavam para todas nós.

– continuem trabalhando minhas jovens – falou ele amigavelmente – estou aqui só pra observar.

Foi um custo nos fazer obedecer, mas aos poucos o barulhos dos tear e das maquinas tomou conta do galpão até se tornar ensurdecedor de novo. O Coletor parou em frente a Joceline Coben, suas bochechas haviam inflado como melões quando ele desviou o rosto para mim, forcei ao máximo para não encarar desesperadamente.

O Coletor olhou sua lista importante com a sobrancelha arqueada, beliscou o bigode e voltou a olhar pra mim.

– Cabelos pretos, traços pequenos e um tanto rústicos, mas não demais, olhos castanhos quase amarelos, isso é um pouco estranho demais – ele deu a volta em mim e eu engoli seco – você tem descendentes cherokees?

– não senhor – menti. Eu nem sabia o que era um cherokee

– mente muitíssimo mal. – reprovou ele estalando a língua – isso te dá um ar de inocência, quantos anos você tem?

– dezessete senhor. – grunhi

– voz de mulher adulta já. – ele leu meu crachá – Celeste Efrain. Acompanhe-me

Segui ele sem conter meu sorriso.

– você também loirinha assustada. Corra, corra, corra – Joceline ficou estática por meio segundo depois acompanhou o passo comigo, demos as mãos, agora nos duas não podíamos conter o sorriso.

Assinamos uma papelada longa, uma médica que acompanhava o Coletor fez um exame medonho em nós, depois que recebemos um carimbo com em que se lia “Virgem” em letras garrafais e vermelhas no formulário, recebemos a confirmação da partida para o casamento em uma semana , na mesma noite recebemos os vestidos do casamento, cosméticos e um banquete para a família, como minha família era apena eu e minha tia Nora, o Peru transgênico ainda pela metade só já não tinha ficado podre até hoje porque foi salgado e colocado na geladeira comunitária com um belo cadeado na embalagem.

– ai – reclamei

Submergi dos meus pensamento ainda na banheira de plástico, o meu cabelo estava sendo esfregado com uma loção que fazia uma espécie de baba branca que lembrava neve, minha cabeça foi afundada e voltou a tona, meu cabelo tinha uma perfume forte e fixo que lembrava tortas quentes, fui secada e untada com uma nova camada de cremes, vesti uma lingerie confortável que fez minhas antigas peças desse gênero parecerem arame farpado com alças, o vestido caiu em mim perfeitamente, recebi uma cama gosmenta e engraçada nos lábios que os deixou rosados e nas pálpebras que os deixou com brilhinho cintilante prata, o espelho quebrado na parede revelava outra Celeste que não era eu, uma Celeste rica, moradora do Jardim Nobre, Baronesa, promissora.

Sorri

– todos os dias da minha vida, eu sentirei sua falta, minha linda e pequena Celeste – tia Nora estava chorando, nos abraçamos. Ela foi a única pessoa desde que me entendo por gente que cuidou de mim, como muitos aqui nesse inferno eu não conhecia meus pais, nunca fiz questão e nunca perguntei por eles, eu amava e tia Nora e estava feliz porque agora por minha causa ela teria uma vida um pouco melhor aqui, eu nunca mais poderia visita-la, mas sei que ele estará bem com mais alimento e menos dividas aqui neste lugar.

Alguém bateu na porta, uma mulher alta e bem vestida se apresentou como Cida, a Acompanhante, ela congratulou o trabalho da minha tia girando-me fazendo o vestido rodar com graça, depois de passar um cheque para minha tia ela começou a descer as escadas comigo.

– o Barão Franco vai adorar você, em todos esses anos promovendo festivais de Ofertas, nunca vi alguém que se encaixasse tanto no perfil. – cantarolou ela – você tem sorte, ele tem vinte e dois anos, muito bonito por sinal; você pode chegar até a sentir prazer com ele, ou quem sabe ama-lo; já a sua amiga... Jozy?

– Joceline – corrigi

Cida estalou a língua; eu estremeci.

– Barão Cutes de Loyola, cinquenta anos, já tem duas esposas nada fáceis, mas não podemos discutir que ele trata todas elas como damas e é um dos mais ricos do Jardim.

Chegamos a área comunal da cidade, como medida de segurança a cidade foi esvaziada, só a produção do Jardim e as Noivas estavam nas ruas, mas o prédios, as casas e as lojas estavam cheio de olhos, olhos curiosos como num bosque escuro.

– Erica, Lílian, Amerian, Suzane, Abadia, Rae, Joceline, Celeste e Mirtes. – todas permaneceram com as mãos estendidas mesmo pouco após a chamada, um jatinho moderno começava a descer até a pista pude vê-lo mesmo através dos grandes muros e portões da cidade.

– abram os portões – gritou um agente de segurança para um aparelho moderno de radio, os seguranças locais abriram os portões e fomos postas em fila.

– deem adeus a essa vida garotas- disse Cida com a voz que lembravam sininhos em cordeiros – agora vocês são baronesas do jardim.

Logo eu desceria no Jardim, logo meu jovem marido iria me encontrar e iriamos nos perder um nos braços do outro, o sacerdote iria dizer as palavras e iriamos pra nossa casa numa carruagem enfeitada, iriamos nos amar todos os dias e comer morangos, dançar a luz da lua.

Andávamos, em direção aos portões abertos mas meus joelhos pareciam gelatina, meu sorriso estava tremulo e minhas palmas gotejavam suor.

Eu fui a penúltima a passar nas portas, era isso ai, ouvi o som dos portões se fechando atrás de nos foi quanto tudo aconteceu.

O sonho se vertera num pesadelo inacreditável, parecia uma brincadeira de muito mal gosto, mas vinte homens grosseiros e esfarrapados nos cercaram de todos os lados, sujos de lama e coberto por folhas verdes vivas.

– selvagens! – gritou um dos seguranças antes de levar uma lança que perpassou o olho.

Tiros e sangue para todas as direções possíveis, Joceline e eu nos abraçamos, vimos na hora que Amerian Drea teve sua garganta cortada e que Rae Bonança teve um arpão enfiado nas costas, logo os gritos foram cessando, eu iria morrer sabia disso, os vestidos brancos se misturavam a sangue vivo e lama derramadas no chão; logo todos os seguranças estavam mortos, só restara eu, Joceline e Cida, toda ensanguentada e esfarrapada tremendo; um dos selvagens, um negro musculoso com as roupas se rasgando, pegara a cabeça de Abadia do chão, ainda escorria sangue dela e havia um grande pedaço de osso quebrado para fora. Cida teve um acesso de vomito, o selvagem jogou a cabeça nos braços dela.

– volte para o Jardim e conte o que fizemos com as suas putinhas escolhidas, e diga ao Manda chuva que vamos levar um presentinho com a gente.

Cida correu sem olhar para trás e entrou no jatinho aos prantos, o piloto retirou-o dali na velocidade da luz, agora éramos eu, Joceline e vinte brutamontes ensanguentados e armados.

– quem devemos levar? – rosnou um magro com o rosto todo coberto.

– a loira – disse uma voz feminina também de rosto coberto atrás de mim

O homem negro agarrou as bochechas de Joceline e a ergueu no ar

– não fui com a cara dela. Fraca demais.

Os olhos verde dela, vi as lagrimas de Joceline escorrerem antes do selvagem torcer seu pescoço como quem rosqueia uma vasilha, ela foi jogada a pilha de corpos.

E eu?

Bem...

Eu não ia mais precisar dessa roupa refinada, ela foi longamente rasgada e isso é tudo que me lembro antes de levar uma pancada na cabeça e ver o mundo desaparecer ao meu redor.