O Lado torpe da Glória

2 O porco que executou Rick


Meus olhos parecia amarrados a sacos de areia de tão pesados.

A medida que os abria sentia a dor de cabeça se aplacando em mim, tomei consciência antes de acordar por completo que estava sentada num chão gelado e que meu corpo estava amarrado por cordas grosseiras que cortavam as áreas livres e pinicavam nas áreas cobertas por roupas, senti gosto de sangue, um luz forte se projetou em meu rosto.

– um, dois, três, gravando... – uma luz vermelha se acendeu no teto, alguém puxou meu cabelo para cima e me fez gritar, era um homem musculoso e encapuzado, usava uma máscara de porco feita de plástico, um trabalho que provavelmente envolveu o plástico artesanal da Casa dos Polímeros e foi moldado na Cidade dos Artigos, minha garganta queimava de sede.

– Boa noite Jardim Nobre – a voz do homem de máscara de porco saia metálica, modificada por algum aparelho moderno, não sei onde essas cosias como a câmera a minha frente eram produzidas. – uma noite realmente agradável, devo dizer que a mais deliciosa em anos. Creio eu que muitas calças estão coçando essa noite, vocês esperaram belas e virginais damas para se derramarem em seu deleite mas receberam uma cabeça, obra nossa, admito. Uma tragédia, aquelas garotas eram realmente bonitas... tanto que trouxemos a melhor delas.

O homem de mascara de porco balançou minha cabeça pelo cabelo me fazendo berrar.

–silencio meu bem, não vamos querer o pior pra você agora – disse ele chegando perto demais – sabemos que essas vadias não significam merda nenhuma para vocês, seria tolice pedir um resgate, então faremos uma negociação bem mais inteligente: todas as províncias sabem que muitas de suas garotas foram vendidas a vocês em troca de um pouquinho de ração e uns trocados, mas como a ignorância é o sustentáculo do seu sistema ninguém sabe do atentado que aconteceu na Ala do Pano, vocês não iam querem que ninguém soubesse? Iria criar uma ira muito grande... pânico, e o medo pode ser o começo de uma revolução; então, paguem a quantia que vamos mandar a vocês, garantam a nós a entrada pacifica e uma boa quantidade de terra no Jardim para mim e meu povo, ou... essa deliciosa e pobre noivinha, vai ser enviada em pequenos pedaços para cada província, e vocês serão responsabilizados, contaremos que ao invés de casar, vocês estupram e matam suas Ofertas, um manifesto será entregue convocando o povo para uma nova guerra. Bom... vocês tem um prazo, deixem a quantia intacta em caixas separadas no local do atentado de hoje dentro de sete dias. Boa noite Jardim, a Revolução chama.

As luzes foram apagadas, o homem com mascara de porco soltou meu cabelo, cai e bati o queixo com força no chão, com o estalo senti o sangue se unido a minha saliva, meu corpo parecia dor e não mais corpo, uma grande embalagem de carne com facas espalhadas nele.

O homem tirou a máscara de porco, me encarou, tinha uns vinte anos me olhava com ódio como se eu tivesse culpa de alguma coisa, ficou me encarando enquanto eu tentava falar me mover.

– Irina e Edite – duas garotas saíram da escuridão, usavam roupas esfarrapadas porem limpas e portavam armas.

– levem a garota para um aposento, limpem-na, deem água e comida, mantenha essa merdinha viva e vigiada.

Elas obedeceram, de forma brusca me tiraram daquele galpão, e percebi tudo a minha volta, estava numa clareira gigante, haviam cabanas de madeira e uma grande fogueira no centro, o dia era quente e angustiante naquela floresta, todos viraram os olhos pra mim enquanto eu era rebocada para algum lugar, aquele era um pesadelo, eu estava dormindo ao lado do meu marido e logo iria acordar pra viver meu belo primeiro dia no Jardim. Havia uma bandeira preta pintada com cortes transversais que lembravam ter sido feitos por uma pata de tigre e dentre estes cortes o desenho da silhueta de um homem de braços erguidos.

– não olhe pra onde não deve – grunhiu uma das garotas me aplicando um empurrão.

Fui escoltada até um riacho, com uma corda presa ao pescoço entrei no rio rasgando os restos dos vestido de noiva, pela primeira vez senti as lagrimas descendo no meu rosto, porque justo comigo? Ouvi as meninas debochando do meu lamento enquanto eu me banhava, quando estava totalmente limpa a corda foi puxada, humilhante. Levada nua e molhava como um cachorro, presa a uma corda no pescoço em meio a uma multidão de homens que me devoravam com os olhos, uma cabana me esperava, será que eles estavam na Ala do Pano festejando uma hora dessas? Comendo, bebendo pra comemorar as prodigiosas garotas de ouro sem saber que oito estavam mortas e uma era refém? com certeza sim. o Jardim gostava de manter as aparências, lembro que com nove anos recebemos um toque de recolher inesperado no horário de trabalho, três dias depois fomos liberadas sem receber nenhuma explicação, ao contrário, na praça da cidade esperavam por nos comida, roupas novas e brinquedos para as crianças, só soube anos mais tarde que havia tido uma guerra entre províncias controlada pelo Jardim, eles abafaram tudo, estávamos felizes e seguros e ponto final.

– cadelinha. Vista-se – ordenou uma das meninas.

Estávamos numa cabana com um colchonete desforrado no chão, uma mesa e uma janela gradeada, em cima da mesa tinha pão seco, cozido e água num vaso de barro, estranhamente eu estava faminta, vesti um trapo: um vestido de operário remendando com tecidos camuflados que batia nos joelhos, sentei e comi bestialmente.

– pro seu bem fique quietinha ai – ouvi a porta da cabana se fechar com um baque e o tilintar de cadeados e fechaduras.

Eu era uma cadelinha, presa na jaula.

Enterrei as mãos no rosto e chorei, chorei muito porque sonhei de verdade meu sonho agora era uma abstração cinza, eu torcia para que fosse morta logo e todo esse terror acabasse numa cova profunda, meus ossos estariam mais em paz sob a terra do que aqui. Agora sim eu sabia o que era inferno, a vida pobre na Ala do Pano era o elísio e eu o tinha perdido.

Quando a colher raspou o prato senti uma moleza no corpo inacreditável fiquei lenta e relaxada; retardada para ser mais franca, parecia estar derretendo como uma guloseima muito perto do fogo, percebi assim partículas brancas que se desgrudavam do ensopado.

– dro...do...droga – eu havia sido drogada.

A porta se abriu num baque, o negro que havia matado Joceline entrou gargalhando marotamente, estava limpo agora, cheirava a cobre e temperos, ele me suspendeu e me jogou no colhão, começou a puxar o sinto da calça.

– n...não faça is...eu imploro, por favr... não faça isso – meu corpo parecia mais mole, os músculos não obedeciam a fala sufocava na garganta.

– eu escolhi você por um motivo meu doce. Uma magrela não aguenta o Rick. Eu fiz questão de preparar essa comida pra você, pra você ser a minha comida.

Rick começou a lamber o meu rosto, suas mãos pressionavam todo meu corpo com violência, então... o corpo amoleceu por completo, as lagrimas de derrota escorreram lentamente, enquanto Rick se movia freneticamente pra dentro e pra fora de mim, a dor era insignificante comparada ao nojo, ele urrava como um porco; quanto tudo acabou ele lambeu longamente minha boca, agarrou meu pescoço:

– eu vou voltar.

Esperei o efeito da droga passar o suficiente, havia sangue entre as minhas pernas e meu corpo fedia a cobre e a temperos, comecei a arder em febre e meus joelhos pareciam de gelatina, me arrastei até a mesa, a faca que usei para comer o cozido parecia suficientemente afiada, comecei a pressiona-la contra meu pescoço com toda minha força, a pele já estava se rasgando quando alguém tomou-a de mim, era o garoto da mascara de porco.

– o que porra você esta fazendo?

O quarto já estava escurecendo, ele trouxe uma lamparina e uma arma no cinto.

– não é obvio? – suspirei caindo de joelhos no chão. Eu não ia aguentar isso de novo, se esse também quisesse isso eu juro que me mataria de qualquer jeito...

Ele me arrastou até o colchão, a listra de sangue me acompanhou.

– o que houve com você Costureira? – eramos conhecidos assim em nossa província – ele levantou o pijama viu o sangue que ainda brotava sujando as coxas.

– quem?

Ele me encarou. Não respondi, mordi a língua.

Ele me esbofeteou

–quem?

– Rick.

Ele se levantou.

– ele passou por cima das minhas ordens. – berrou – filho da puta.

Uma garota entrou na cabana com a arma apontada, tinha cabelos curtos e acobreados.

– chame cinco homens, leve Rick para A Fogueira.

– mas Dante... ele é nosso melhor assas...

– agora!

Yla correu para fora com destreza. O rapaz que agora eu sabia se chamar Dante se agachou até mim.

– acho bom você estar falando a verdade, vou matar um dos meus melhores homens – rosnou ele

– eu me arrombei sozinha então – grunhi, eu ia receber outro tapa mas a mão dele pousou no ar segundos antes.

– você não tem medo de mim Costureira? Eu planejei seu sequestro, se eu quiser agora, eu posso te matar.

– você estaria me fazendo um favor. – berrei

Yla voltou.

– ele já esta lá? – Dante questionou

– está.

– levante-se Costureira, venha comigo. – ele e puxou pelo braço, quase me arrastou para fora da cabana, lá, perto da fogueira acesa estava Rick acorrentado por dois homens.

– ela era só uma putinha – gritava ele – o que tem de mal numa putinha?

Dante segurou na minha nuca e colocou a boca no meu ouvido.

– aqui na mina terra, da putinha ao líder todos tem direito a justiça, nós não somos como o Jardim, eu ordenei que ninguém machucasse você e ele te machucou. Aprenda Costureira, assim que é uma cidade justa.

Dante andou até Rick abrindo espaço entre as pessoa, todos pareciam cientes do que iam acontecer porque alguns já se lamentavam.

– Eis que a Justiça é um caminho sem curvas... – gritou Dantes pra multidão.

–...não há atalho para a verdade que nos cerca, o certo é o certo. – completou a multidão em coro.

Yla que me escoltava sussurrou “ vá pro inferno Rick”

Então um machado dividiu meu agressor em dois, o sangue se dilatou entre as minhas pernas e senti uma onda enorme de prazer.

Sorri aliviada.