O Lado torpe da Glória

5 Uma Fita da Embaixada


Dante só voltou a me procurar três dias depois do beijo.

Graças ao salvamento que proporcionei a ele algumas coisas no meu dia a dia de prisioneira mudaram, não usava mais coleira e podia me juntar aos outros combatentes na fogueira durante a noite ao invés de comer confinada no quarto, logo descobri que a comida do lado de fora era surpreendentemente mais saborosa do que a servida a mim anteriormente, as pessoas chegavam até a sorrir pra mim e fazer reverencias engraçadas por eu ter salvado o principal de seus integrantes mesmo sendo uma refém.

Durante esse tempo que perdi Dante de vista enquanto costurava calças moleton e casacos de frio comecei a ensaiar discursos perfeitos para levar as coisas no meu curso, o meu rio ia fluir exatamente no caminho perfeito para liberdade.

Eu conversava com Samuel e Lílian sobre minha vida na Ala dos Panos quando Dante se aproximou, estava uma noite estrelada e fresca e todos os residentes se amontoavam perto da grande fogueira que crepitava deliciosamente, estávamos rindo e nos servindo se salsichas caseiras, sopa de macarrão e batatas, cozido de algum animal não identificado da floresta muito bem temperado, as risadas me preenchiam e eu me sentia confortável até me lembrar de que estava atuando, odiava essa pessoas, eram todos assassinos das minhas amigas e dos meus sonhos.

Fiz questão de que ele me visse bonita como era de fato e não uma costureirazinha miserável e opaca. Lavei o vestido de lavadeira para que ficasse perfumado e o ajustei na cintura com um laço de fita, os cabelos receberam uma boa escovada para retirar a poeira dos dias sujos e ganharam uma trança em forma de tiara no topo da cabeça como tia Nora costumava faze. Estava estonteante e o brilho do fogo se juntava a minha pele como devia ser.

– Boa noite Costureira.

– Boa noite máscara de porco.

Nós sorrimos num flerte mútuo e discreto, ainda estávamos cercados de combatentes que andavam pra lá e pra cá com pratos de comida, ele não pareceu perceber que eu o correspondia pois olhava com desconfiança meus dentes expostos.

Roubei descaradamente uma coxa de frango de seu prato e joguei no meu.

– isso foi pelo beijo roubado – sussurrei lambendo os lábios sem desviar o olhar.

– sua língua não acha que foi roubado.

Contive a raiva e a vontade de joga-lo no fogo, mas tinha que manter o jogo vivo se quisesse ser convincente.

Respirei fundo.

– ela realmente não acha. – me restringi fazendo-o arquear as sobrancelhas de interesse – desculpe por cuspir, só não quero ser uma estupida vítima da síndrome de Estocolmo. Vamos levar as coisas com calma, estou até gostando da sua comida. – e ergui o prato.

Ele riu de jogar a cabeça pra trás. Seus olhos pareciam sinceros, quentes e ternos, o mistério por um milésimo de segundo parecia ter acabado.

– você tem o senso de humor da minha mãe. Ela me dava soluços de tanto rir as vezes.

Depois que raspamos o prato alguém começou a cantar uma música sobre a revolução, pés batiam sob a poeira e tiros foram soltados pra cima em meio a urros de felicidade, arrisque-me em passos improvisados nas rodas dos rebeldes e eles me lançavam sorrisos e braços estendidos para passos.

Quando dei por mim eu e Dante dançamos em círculos perfeitos em torno da fogueira, como um satélite em torno de um imponente planeta, ele era tão mais alto que meu rosto se fixava em seu pescoço, meus pés pequenos tentavam acompanhar seus passo largos.

– Quero ser sua família Celeste.

Aquelas palavras bateram em mim como um raio, me afastei um pouco pra mira-lo, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Elemy, o velho se aproximou de nós um embrulho envolto em papel.

– desculpe interromper o baile senhores – e olhou feio pra mim – mas isso estava a oeste daqui perto de Moinho das Pedras, a cabeça de um dos nossos estava perto disso, leve a mocinha pra assistir. – e entregou o volume.

Intrigado e confuso Dante tateou o volume e deve ter deduzido do que se tratava, porque me puxou pelo braço a longos passos por meio da mata onde se encontrava o estúdio, aquele lugar onde a ameaça foi gravada quando acordei aqui na Clareira.

Alguns botões foram clicados e um gerador começou a tremer e girar, luzes se acenderam no teto e monitores se acenderam nas paredes, era a tal da eletricidade, incrível vista a noite e tão abundante num único espaço.

Dante rasgou o papel do embrulho e lá estava uma fita, ele colocou a fita numa máquina que fez o monitor chiar e a imagem se formar aos poucos, partículas de couro revelavam um homem calvo e suado, o bigode espesso lembrava uma ratazana presa debaixo da narinas.

– Saudações Porco. – começou ele – deve não se lembrar do meu aspecto, a última vez que fizemos contato com vocês, a ralé, eu tinha um aspecto um pouco mais jovem, e vocês que se dizem guerreiros ainda estavam no estágios catarrentos da infância, muito disso não mudou.

Meu coração estava na garganta, Dante ao meu lado parecia duro como pedra, quando dei por mim agarrei a mão dele.

– como membro mor da Embaixada, e pai do jovem Franco, do qual vocês subtraíram a esposa que aguardávamos receio que acreditaram que este seria um vídeo de rendição, que eu iria chorando através dessa fita pedir pelo amor de deus que devolvessem a putinha pobre pra nós, que românticos! – ele gargalhou – por terras daqui da nossa comunidade, vocês são realmente simplórios em pensar assim, um raciocínio intrigantemente fraco até pra vocês, da resistência. Bom jovem Porco, deixe-me dizer acerca dos fatos: quando recebemos a notícia da sua chacina e a chantagem em vídeo, fizemos decretos para todas as províncias, decretos de alerta a cerca de vocês, reforçamos a segurança, sufocamos as revoltas e enchemos suas bocas de comidas para que não reclamassem, em seguida, fizemos uma nova coleta em outra província qualquer, e a coceira nas calças como você gostou de chamar foi sanada, todos tem sua noiva, exceto o caprichoso do meu filho, Franco insiste em tem a garota costureira, e seu recusa a casar com outra; um garoto de bom gosto confesso, mas basta que vocês estraçalhem essa miserável que vocês acreditaram ser como a mina de ouro e logo ele se conformara com uma égua qualquer, pode levar tempo, mas a longo prazo tudo não vai passar de um festim nefasto e infrutífero de vocês, criaturas detestáveis da floresta. –o vídeo farfalhou e voltou a formais imagem, dessa vez num galpão escurecido — parece que não foi dessa vez que um bando de ratos consegue derrubar o sistema meu querido, conforme-se, se se apiedar da menina, devolva essa qualquer de bom grado e talvez pensemos em dar a vocês alguns restos de comida, caso assim não desejem, não faz falta no mundo, a desfiem como um frango, queimem, matem, enviem-na em embrulhos, não importa.... o problema é de vocês.

Enquanto ele dizia essas coisas entraram duas pessoas no galpão, Dante apertou minha mão como se fosse quebrar os ossos, estas cenas estavam datadas como gravadas a pouco mais de um ano, um casal de magros de cabelos cor de areia, foram amarrados em canos no teto, forma longos cincos minutos de cenas monstruosas, o casal recebia choques, pancadas, a mulher foi violada de diversas maneiras e quando tudo acabou, os dois foram serrados ao meio com um único golpe de um equipamento afiado.

Eu e Dante desabamos de joelhos, meus olhos pareciam cataratas e meu corpo tremia com soluços, Dante queimava em gritos furiosos e os olhos também desaguavam, nossas mãos nos se desgrudaram um único segundo.

Não sei o que me chocou mais.

Ver os pais deles assassinados, ou saber que o Jardim não tinha a mínima intenção de me resgatar, por eles eu viraria pedaços de mim.

– que pessoas horríveis- consegui arfar acima da estática que o fim do vídeo deixou ecoando na sala – que pessoas horríveis!

Dante me abraçou, as lágrimas molhando meus cabelos e as costas do meu vestido, quentes como lava, o contorno dos seus músculos me apertavam e o tremor dos meus soluços nos sacodia, quando cessamos o choro, meus joelhos já doíam.

– vingue eles Celeste. Eu imploro, vingue eles! Vingue a gente, eles não se importam com ninguém, nem mesmo com você – repetia Dante como uma criança que implora.

Eu estava afogada, caindo lentamente na imensidão de mim mesma até finalmente tocar o solo e me quebrar como uma tigela de barro, tudo que eu acreditava se desfarelou tornando os meus sonhos pó, já não sabia mais quem era vilão ou herói, certo ou errado. Tremia, chorava, soluçava minhas crenças haviam sido nocauteadas.

– eu vingarei, eu segurei o plano, dê-me aquele veneno! Eu farei isso eu juro! – não sabia se estava falando sério ou só atuando, mas a força dos sentimentos queria que eu matasse todos dos Jardim.

– você jura?

– eu juro!

Dante agarrou os meus cabelos e me beijou, beijou tanto até ficarmos enrijecidos e exaustos, meus corpo queimava não sei se de fúria ou de desejo.

– sare minha dor Celeste Efraim. Sare minha dor porque eu quero ama-la como um dependente de remédio. Me ensine a não só querer você e sim a amar. Eu preciso amar alguém, e quero que esse alguém seja você.

Sequei as suas lágrimas com beijos que cobriam o rosto e comecei a me desfazer dos botões do vestido, de repente, não havia mais a sombra de Rick.

Ele pousou a mão subindo e descendo da barriga para o pescoço depois arrancou para trás o resto do vestido, quando parecia estar prestes a derreter em seu desejo e saltar sob mim recolheu as mãos bruscamente e respirou fundo para se acalmar.

– você não quer?

– não aqui. Foi aqui que bati em você quando te raptamos.

Meu corpo queimava em suplica mas fechei o vestido e guardei a nudez, levantei-me com a ajuda de sua mão.

Ele parecia desnorteado.

– durma na minha cabana hoje.

– eu não sei se devo – suspirei.

– conversaremos sobre o plano do veneno e a data da sua ida ao Jardim, e somente só, depois disso, com calma e não ébria pelas emoções você decide se me quer ou não.

Avaliei meio segundo.

– parece justo.

Ele me guiou pela mão o caminho de volta para a Clareira mas já não havia mais festa, a fogueira já jazia baixa e as cabanas já estavam cheias, não demoramos muito mas todos pareciam saber que não era tão auspicioso permanecer em festa depois de receber um recado do Jardim, seja ele qual fosse.

– amanhã falarei tudo a todos, o vídeo, o plano e você...

Senti meu corpo estremecer, porque agora estávamos ao pé de sua cabana, a porta me parecia convidativa e a ideia da cama com o dossel me fazia corar.