Eu girei o frasco entre os dedos, era belíssimo como um frasco de perfume.

– tem um brilho mortal – suspirei

– como você – disse ele tirando a mecha de cabelo que caia nos meus olhos e colocando atrás da mina orelha, senti um arrepio fazer um passeio da base da minha coluna até o topo da nunca eriçando os cabelos como um elevador dentro da minha pele.

As luzes fracas das lamparinas de níquel já bruxuleavam fracas e a beira da morte, estava no colo dele vestida num pijama fino de seda que lembrava a nudez e aderia ao meu corpo como uma segunda pele, o meu calor foi refrescado por uma loção que besuntei na minha extensão de pele, era um balsamo de cânhamos e erva d’água que me fazia fervilhar refrescantemente.

Dante trajava apenas calças compridas folgadas que o deixavam com um aspecto de musico vadio, o seu calor emanava e sua respiração batia forte no meu rosto, estávamos ali apenas conversando naquela situação desde depois do jantar e já passavam das duas da manhã.

Com o frasco de venenos agora na palma da mão comecei a pensar na quantidade de morte que continham ali naquelas gotas, eu me sentia exatamente como ele, estava ali por fora bela, passível, delicada, eu era o frasco mas por dentro estava cheia de veneno, e não sabia para que lado destilar ou o dos rebeldes ou dos Embaixadores permaneci na dúvida se atuava ou não.

Suas mãos desceram até a minha cintura e pra quebrar o silencio resolvi repassar a estratégia:

–então vamos simular minha fuga no dia marcado para minha execução, direi a eles que houve uma festa a noite e que consegui escapar fugindo na distração de todos e que caminhei a floresta a noite toda em busca de ajuda, chego até as portas da Ala dos Panos, é lá que ocorre a entrega de suprimentos semanais, vou encontrar os vassalos do Jardim, eles me levam pra dentro da cúpula e lá dentro eu me encontrarei com Franco, eu serei uma heroína pois revelarei supostas informações importantes como nomes e localizações falsas, até ai tudo bem – pausa para respirar, reviso na mente – ah, sim a cerimônia de casamento... será um grande evento como de praxe, Quando a Embaixada estiver a mesa eu despejo o veneno em suas tinas de cidra, vocês estarão a postos , todos os exércitos rebeldes de todas as zonas estarão reunidas como você já tem o feito, doze mil como você pode calcular, estarão tão distraídos e desesperados com a morte de Franco e da embaixada que não verão a invasão até que ela se alastre, você e os outros líderes tomaram o lugar da embaixada e darão carta branca para entrada dos povos para usufruir das terras, como lideres acabaram com a escravidão das províncias, e felizes para sempre. Falei certo?

Ele sorriu.

– corte o felizes para sempre, o depois é incerto mas daremos passo por passo, o importante agora é derrubar a Embaixada, o depois é outra peça do xadrez...mas tirando isso, você é uma garota esperta, o plano está correto, é simplório, bastante falível mas é uma chance em um milhão, você é praticamente nossa última esperança;

E acariciou meu rosto.

Senti o ar fugir das minhas narinas e foi difícil me recompor, ainda não tinha decidido em que lado estava mas era fácil esquecer de tudo ébria de uma paixão completamente física.

– já conversamos o que tínhamos pra conversar Costureira, deseja voltar pra sua cabana? – ele tinha um tom aveludado na voz mas ao mesmo tempo preocupado.

– deseja que eu volte? – joguei

– desejam os peixes viver em terra firme?

Ele agarrou minhas pernas e colocou-me sentada entre seu colo, seus dedos quentes me puxavam pra perto e os desenhos de suas mãos me tocavam me deixando elétrica, a pressão e o calor do cômodo me faziam suar e exalar a loção para o calor, meus lábios se uniam aos dele como imãs e me deixavam tonta, minhas coxas tremiam em espasmos nervosos e seu peito pulsava e tinia como sinos presos a pele.

– preciso – ouvi seu uivo fraco sibilar me deixando em hipnose.

Quando me dei conta já estávamos sem roupa, o suor nos untava e nossas respirações pareciam locomotivas, nossos corpos pareciam prestes a explodir de tão rígidos e sensíveis ao mesmo tempo, quando Dante me penetrou tudo que eu sabia sobre sexo até agora deixou de existir, a dor e a humilhação causadas por Rick, a pele se partindo, a agonia e o sufoco foram afogados por um mar eufórico de prazer intenso, eu estava em topor e elétrica ao mesmo tempo, seus movimentos avançavam e iam com força e rapidez até que mutuamente entre grunhidos indiscerníveis alcançamos uma espécie de topo e satisfação maravilhosa como uma droga rápida e eficaz, ele caiu ao meu lado sorrindo e me tomando num abraço alegre, quando finalmente conseguimos estabilizar nossa calma nos beijamos delicadamente cheios de carinho.

Não lembro como adormeci, mas foi um sono como se eu pairasse numa nuvem deliciosa que subisse cada vez mais altos até sumir no espaço.

...

Yla reforçava a minha trança com os dedos finos e tranquilos. Eu, ela é Geremy estávamos entre galhos de arvoes, observávamos Dante abater gansos-de-lua com flechas rápidas e fatais, pensei que nunca mais fosse voltar aqui onde vi Dante ser atacado pelo lobo, quanto mais vestida em farrapos rebeldes, tomando banho na cachoeira, caçando e escalando arvores para espantar o calor aproveitando a doce brisa do topo.

Quando a trança ficou pronta era firme e regular me dava um aspecto mais malvado, eu e Yla deixamos o jovem Geremy, um garoto de quatorze anos tocando sua gaita na parte mais baixa e nos arriscamos nos galhos mais finos e altos; quando conseguimos chegar em um que podíamos e dividir eu estava ralada, suada e Dante era um ponto minúsculo lá embaixo caçando jantar.

Yla me observou com cinismo por um longo minuto, depois pousou as mãos no ventre com os dedos entrelaçados.

– dormiu com ele não dormiu?

Senti meu rosto virar uma brasa, corar deve ter sido resposta o bastante pra ela porque ela riu.

– ah, doce Dante... herdaste dom incontestável pra malandragem – ela disse pra si mesma, esticou a mão para um galho e roubou uma grão não identificado, passou a descasca-lo ainda falando para si – eu bem que podia prever, se não pela dor, o amor é capaz de todo tipo de convencimento.

Comecei a maquinar em seu ritmo.

– o que quer dizer?

– você não é burra garotinha – seus olhos perolados agora me furavam ao meio, ela exalava soberania e desprezo, a doce Yla violada por Rick deixara a máscara cair e revelara toda sua arrogância – Dante te trancafiou, te forçou a trabalhar e viu que com isso você não cooperaria... ele foi rápido em te levar pra cama, agora você dança conforme a música.

Tive que me segurar pra não escorrer do galho com os meus tremores de fúria.

– está dizendo que...

– exatamente –ela me interrompeu – se não pela dor, o amor é capaz de todo tipo de convencimento.

Ficamos em silencio.

– ouça Celeste. Sou uma guerrilheira e quero uma revolução, mas não acho que nossas vidas vão ser menos piores se todo o plano foi posto em prática, não vou prender minha língua na boca e abandonar minas convicções perante o obvio. Dante usou você, tanto que aposto que concordou em envenenar a Embaixada, estou errada?

Contive as lágrimas, devo ter chorado por debaixo da pele porque meu rosto ardia e minha máscara de pedra parecia pesar mil quilos me puxando pelo braço da gravidade para queda mortal.

– estou errada? – insistiu ela.

–não – disse secamente, depois tirei o frasco de veneno do bolso do macacão – não está.

Como puder ser tão burra.

– disse a si mesma que ia jogar o jogo dele, disse a si mesma que não ia se envolver, sei disso porque sei das coisas, sei disso porque já vi e vivi muito mais do que você possa imaginar, disse a si mesma que quando entrasse pelas portas da cúpula ia jogar o veneno fora e ia nos denunciar, mas está apaixonada, está disposta a matar o mundo por ele. Você se enrolou com a própria corda, e não continua jogando... – ouvimos Dantes anunciar lá embaixo que era hora de ir embora, ele havia abatido o ultimo ganso – ele nunca parou de jogar. E sabe bem o quer por amor a causa, por isso deitou com você. Pro seu bem, e pro bem de nós que vivemos aqui, atravesse aqueles malditos portões amanhã e esqueça do plano, esqueça da nossa existência... viva sua vida de rainha, logo nos conformaremos, estamos bem como estamos e não precisamos de guerra.

– Yla – disse antes de começarmos e descer – de que lado você joga afinal?

– do meu – a voz monocórdia sussurrou – chega de derramamento de sangue na minha vida.

Quando lá embaixo Dante me envolveu em seus braços não sentia mais calor, quando me beijou não sentia mais fogo, e mais tarde depois do jantar quando me tomou em sua cama meu corpo parecia uma estátua de pedra afundando lentamente no quarto.

Era amanhã o dia em que ia finalmente para o Jardim Nobre, não sabia se isso era sonho ou pesadelo.

Afinal, de que lado estou jogando?

Dante me abraçou no escuro e sussurrou palavras de incentivo, revisou o plano de envenenamento.

– eu amo você Costureira. Não me desaponte.

– não desapontarei.

Não desapontarei a mim, pensei silenciosamente maquinando em como esquecer esse pesadelo depois que passasse as portas da cúpula.

– eu não vou fazer isso

– então me dê cá esse canivete

Tentei puxar a arma das mãos dele mas ele o puxou pra longe do meu alcance me fazendo pular em direção a sua mão estendida.

– quer que eles acreditem ou não? – suspirei raivosamente, os tons de roxo da madrugada tingiam o céu, estava na cabana de Dante já vestida adequadamente, o vestido de lavadeira que esfarrapei e sujei de terra e sangue das caças, meu cabelo já estava desgrenhado e cortado em algumas partes com uma navalha, arranhões e cortes das escaladas nos meus braços e pernas já eram bastante uteis, e os hematomas dos apertos de amor de Dante sugeriam violência, mas precisava de algo mais convincente. – você tem duas opções ou soca meu olho ou corta meu lábio.

– eu não vou te machucar mais – grunhiu ele nervoso atirando o canivete no breu da acomodação – já não sabe como dói suficiente te entregar para eles?

Mentiroso. Pensei

– você disse a mim mesmo que tem males que são necessários, se não me machucar no rosto vão saber que estou mentindo e vão me matar quando eu atravessar as portas, é isso que você quer?

Ele apertou os olhos de fúria e bateu os punhos nas coxas.

– droga Celeste! Porque você me manipula?

Ele andou até a escuridão habilidoso como um gato e retornou como um canivete, a lâmina era suja de pontos de ferrugem mas tinha um brilho afiado, ele parou na minha frente e encostou o metal frio no meu lábio inferior a ponta já queimava na minha pele, fechei os olhos esperando a dor, de súbito Dante desencostou a lamina do meu lábio e aplicou nele um beijo sugando-o, seus carinhos subiram do meus pescoço para minha orelha quando meu corpo já se arrepiara por inteiro e formigava ainda de olhos fechados senti a pele da boca se rasgando com um barulho de zíper, a dor fina me tomou de assalto e o sangue escorreu pelo queixo até atingir meu pescoço, mas parece que não esperar pela dor a tornou incrivelmente menor.

Abri o os olhos, o canivete e o punho de Dante estavam melecados de sangue, ele largou o instrumento no chão e deixei as lagrimas quentes caírem, ele me abraçou nos sujando de sangue.

– logo estarei com você de novo. Você será minha rainha.

Então se esgueirou até a ponta do meu queixo e limpo ou sangue com seus beijos, atingiu meu corte e sorveu o sangue, doloroso e reconfortante quando alguém deu três baques na porta.

– senhorita Celeste. Estamos prontos pra partir.

Nos despedimos, e sabia que era a última vez que veria Dante na vida.

Lutei contra a lagrimas com toda minha força, eu não iria sofrer, jamais me permitiria sofrer novamente.

Elemy e Cibo os anciãos me amarram o pescoço como uma corda, as marcas seriam necessárias pra uma prova convincente, o sangue da boca ainda descia quando alcançamos a pé as florestas sombrias seguindo o curso de um caudaloso rio pelos vales encarapitados e apinhados de verde seco, o rio era quieto como uma serpente mortífera e quando a luz do sol começou a surgir minhas pernas já queimava de dor e as cordas me sufocavam e arranhavam a carne viva, chegamos a um antigo depósito abandonado para tomarmos sopa feita de mato da floresta e carne de pato, a peregrinação durou mais dois dias e duas noites sem muito descanso, na última noite tive uma crise de tosse que me custou sangue e as costelas queimavam como se estivessem sendo furadas, mas o dia chegou e finalmente por trás de uma mata mais rala e estradas mais longas avistamos os portões da Ala dos Panos com mais guardas do que nunca, espiamos e me permiti chorar, inundada por uma serie de emoções conflitantes: eu tinha uma vida pobre e de muito trabalho, mas tinha uma cama quente, uma tia que me amava e amigas com que conversava... eu tinha tudo e só soube quando perdi porque almejei demais, sonhei demais e cai no chão como Ícaro quando suas asas de mentira derreteram.

– já sabe o que fazer menina – disse Cibo dando dois tapas camaradas no meu ombro – vemos você atrás dos portões com a graça de Deus.

– que assim seja – sussurrei secamente.

Quando os dois se afastaram por uma hora inteira fiz o que tinha que ser feito, sai em disparada por detrás dos arbustos gritando e chorando em direção aos portões, nada poderia ser tão propicio pois no exato momento, um helicóptero do Jardim fazia pouso na estação demarcada, o vento das hélices me despia e revelava minha magreza e meus machucados, meus cabelos eram quase arrancados para trás, o choro se misturava a poeira e grudava no meu rosto.

– socorro! Ajudem-me! Ajudem-me!

O cansaço e o desgaste emocional foram tantos que cai no chão com um forte impacto, por uma graça do destino cai nos pés de alguém que não tinha visto de aproximar, aterrissei com os seios dolorosamente em sapatos finos e lustrados e pude ouvir um grito baixo de terror.

– ajude-me! Eu fugi! Consegui escapar.

– Santo deus de misericórdia – sussurrou o homem do qual eu não via o rosto – é você mesmo?

Apoiei as mãos raladas no chão e comecei a inclinar a cabeça para o alto, o sol ofuscava seu rosto que ainda assim era belo, austero, cabelos alinhados para trás terminavam em pontas retas e bem cortadas, sua gravata reluzia como a lua.

– garota Celeste? – falou ele sem fôlego – por Deus, você está viva! E continua bela.

Antes mesmo que ele estendesse a mão e me ajudasse a levantar eu já sabia de quem se tratava.

– Barão Franco? O que faz aqui? – arfei

Ele gargalhou e beijou minha mão suja com um selinho reservado e meio receoso.

– vim para outros fins, mas já que achei você, nenhum deles é mais necessário. Vamos pra casa garota Celeste, e não sou Barão Franco, sou seu marido, Franco basta.

...