Ainda estava escuro quando Yla, a rebelde bonita de cabelos brancos e curtos e olhos que lembravam fundos perolados de xicaras de chá chegou em minha cabana, eu estava deitada no colchão e não tinha dormido, fiquei rolando naquela cabana abafada pensando em mil maneiras de me matar agora que minha faca havia sido confiscada e o meu jantar servido a meia noite só dispunha de batata cozida, pétalas de flores doces e uma colher.

A imagem de Rick sendo dividido com um machado como um cabrito fazia meu corpo vibrar, se eles fizeram isso com um próprio membro o que fariam comigo quando o prazo do resgate passasse e ninguém a pagasse? Eu podia imaginar e essa ideia me dava crise de choro.

Yla se agachou até mim e ajeitou uma corda em meu pescoço, quando minha coleira estava bem ajustada a ponto de me deixar sem ar, começamos a caminhar para fora, uma fina listra da manhã nascia no horizonte e os grilos ainda cantavam. Todos já estavam de pé fazendo atividades como carregar feches de lenha e colher raízes, mas havia um tenso silencio no ar e com ele uma mancha de sangue gorda na terra bem próximo a fogueira.

– para onde estamos indo?

– calada!

Fomos para uma cabana ainda maior, lá havia um arsenal gigantesco de armas e prateleiras com remédios e venenos feitos de coisas da floresta, no final da cabana-galpão havia uma cesta com vários trapos e pedaços de tecidos que iam de lona cinza de caminhões a tecidos altamente rasgáveis com estampas florais; a minha frente iluminada por uma vacilante lamparina de níquel, um maquina de costurar muito ultrapassada e três rolos de linha.

– você não achou que sua estadia aqui seria comendo e dormindo não é?

– isso nem passou pela minha cabeça – suspirei

– bom pra você – rebateu ela amarando a corda num gancho soldado ao chão – suas mãos precisa, ficar livres, por isso te prendemos pelo pescoço.

Perguntei a Yla o que precisava costurar e isso a vez gargalhar ironicamente.

– comece por vestidos de baile, soldados acham eles muito uteis –pigarreou – costure uniformes grande, macacões com os pedaços que encontrar, coloque pelo menos um bolso em casa um deles e tiras de tecido na cintura para apoiarem os cintos. Boa sorte

E Yla foi saindo devagar.

– espere – tinha uma coisa que estava me incomodando desde noite passada

– fale logo – suspirou ela com tom cansado.

– ontem a noite – meu tom de voz tinha abaixado, era prudente fazer perguntas pessoais a um sequestrador? – você desejou que Rick fosse para o inferno antes de ser executado. Porque?

O rosto de Yla empalideceu por um ligeiro segundo, depois seus lábios crisparam de ódio.

– mãos a obra Costureira, há milhões de uniformes para serem feitos.

E saiu correndo do galpão.

Meu trabalho era simples. Comparado aos vestidos de baile e roupas com muitos babados que tinha que costurar para o Jardim, emendar panos para macacões folgados não custou muito aos meus dedos e ao meu cérebro, comecei tentando usar panos com padrões de cores semelhantes para que os macacões não lembrasse roupas retalhas de palhaço, estava quase terminando o decimo primeiro uniforme quando senti que alguém me espreitava na sombra.

– continue trabalhando Costureira, estou só supervisionando – disse a voz no escuro.

Reconheci sendo como a do garoto de máscara de porco, Dante.

– você parece ser o chefe, porque perde tempo me vendo costurar? – falei desafinando no final da frase. Insolência era uma característica que minha tia Nora julgava como cem por cento minha personalidade, mas era necessário lembrar a mim mesma que não estava na Ala do Pano onde um tapa no rosto da tia Nora bastava, eu estava com perigosos inimigos que me retalhariam como esses tecidos dispostos no balde.

Tudo que ouvi foi um riso curto na escuridão e passos de bota de borracha que revelaram o rapaz até a claridade, ele se encostou no meu balde de retalhos mascando uma lasca de palha.

– não existem chefes aqui, qualquer um pode fazer qualquer coisa a qualquer momento, e nesse momento quero ver você costurar. Vamos.

Entendi isso como uma ordem e meio hesitante votei aos tecidos, emendei o restante do fecho do macacão com uma linha comprida e precisa dando pontos duplos para que ficasse resistente, em seguida preenchi os furos que moldei com os botões dispostos nas caixinhas da prateleira e por fim retirei os fiapos de pano rebeldes com as tesouras, joguei o macacão na pilha no chão dos prontos, Dante bateu duas palmas irônicas e eu desliguei a máquina.

– quão inteligente precisa ser pra saber fazer trapinhos?

– menos que você eu suponho – não resisti e rebati com a língua afiada.

– supôs corretamente – disse com um tom entediado – as pessoas de aldeias rebeldes são infinitamente mais espertas que vocês das províncias, vocês crescem aprendendo uma só coisa e delas se alimentam até a sua morte, você cresceu creio eu rodeada de agulhas, linhas e tecidos caros que nunca teve chance de usar, nós aqui crescemos aprendendo matemática, história, gramática de dia com os anciãos e a noite aprendemos a cortar lenha, socar alguns rostos e manter uma fogueira acesa; se não estivéssemos cansados demais corríamos com os lobos da montanha, quem chegasse vivo do outro lado do rio ia pra casa como campeão.

– uma vida cheia de possibilidades – admiti tentando disfarçar minha pontada de inveja.

Ele pareceu notar e sorriu largamente saboreando a situação com os olhos.

– gostaria de uma vida de possibilidade? – propôs ele brincalhão.

Eu gostaria. Da possibilidade de sair daqui e casar-me com o Barão a minha espera e esquecer todo esse pesadelo.

– seria agradável poder escolher de vez em quando – me limitei a dizer.

Dante estudou-me por meio minuto, a luz da lamparina de níquel ele brilhava como uma moeda de ouro polido, seu rosto era carrancudo e malvado como se tivesse sido esculpido em pedra, os braços traziam volumes suntuosos de possíveis longos anos de escaladas fugindo dos tais lobos da montanha mas neles cicatrizes róseas criavam padrões, os cabelos eram curtos e arrepiados e lembravam tempestades de areia, os olhos cinza se esconderam por fim em cílios longos e curvados que o feminizavam mais do que eu acho que ele gostaria.

– quero que me acompanhe numa caminhada, e você terá uma ou outra escolha a ser feita. – ele quebrou o silencio – quando optar será uma vez e não poderá mudar de ideia.

– porque isso? Porque você quer me dar algum tipo de escolha? Eu não vou mesmo ser esquartejada daqui a poucos dias? Que tipo de escolha relevante eu poderia fazer diante disso? – choraminguei tentando permanecer firme.

Dante pegou um canivete disposto em seu cinto, a lamina era perfeitamente prata e tinha um resplendor afiado, Dante o encostou no meu pescoço e eu fechei os olhos de medo mas logo em seguida senti um súbito alívio; ele cortou a corda que prendia meu pescoço e senti o ar fluindo gostosamente.

...

As folhas farfalhavam debaixo dos nossos pés. Andando a pelo menos meia hora podia-se dizer que estávamos bem longe da clareira do acampamento, andávamos em silencio e pertinho ouvia o gorgolejar de águas e um cheiro de frutas silvestres.

– pode começar a me contar quais minhas possibilidades agora?

– paciência Costureira, admire a paisagem.

Eu admirei, a mata tinha esparsas arvores de copas grossas e com galhos que lembravam mãos de dedos finos, pássaros voavam sob nossas cabeças e pequenas borboletas amarelas brincavam sob pedras pontiagudas que brotavam do chão, um conjunto de dentes de leão e relva se perdiam numa imensidão dourada onde eu adoraria deitar e cochilar até o cair da noite.

– chegamos – ele abriu espaço por dois grandes arbustos como se fossem portões, e lá estava uma cachoeira magnificente com pedras pontiagudas em tono que a faziam lembrar um caldeirão de bruxa gorgolejando, flores do campo cresciam na margem verde e viscosa das pedras e folhas secas boiavam inquietamente na superfície.

Soltei um suspiro de contentamento e isso pareceu intrigar Dante que aprumou um espaço no chão para sentarmos.

– não tem medo que eu fuja? – provoquei fazendo movimentos circulares no pescoço para me livrar da dor da coleira apertada.

Ele riu presunçosamente.

– você não se atreveria. Qualquer parte além daqui seria suicídio, nada de água num raio de oitocentos metros, lobos da montanha a leste e selvagens que não são nada bonzinhos e organizados como os que você teve a sorte de encontrar, além do mais eu tenho uma arma – e bateu na cartucheira presa ao cinto.

Fiz uma careta de desgosto.

– então já que não está me dando a possibilidade de dar o fora que outra possibilidade tenho pra você me trazer aqui tão longe, se está pensando em estupro seja rápido, minha vida não pode ficar pior.

Ele gargalhou de jogar a cabeça pra trás o que me fez sentir raiva e vergonha ao mesmo tempo.

– não, não, nada de estupros – ele limpou a lágrima do canto do olhos e soluçou na interrupção do riso – não sou como Rick, não tomaria uma dama a força.

Estalei a língua.

– mas não pensou duas vezes em me agarrar pelos cabelos e me ameaçar diante de uma câmera – resmunguei

Ele pareceu pensativo.

– tem coisas necessárias e desnecessárias na vida Costureira entenda, você devia estar grata por estar viva, tive que fazer aquilo, mas uma coisa é usar sua imagem outra usar seu corpo; estupro é um crime grave em nossa comunidade, presamos a felicidade de nosso grupo, parecemos selvagens e de fatos somos mas até os selvagens precisam de direitos.

Arqueei a sobrancelha com o raciocínio interessante.

– não quero saber dos direitos dos seus selvagens, quero saber dos meus... quais possibilidades quer me dar? – questionei

Foi a vez dele de arquear as sobrancelhas escuras, parecíamos estar jogando xadrez;

– você é tão insolente...

Ficamos em silencio.

– bom... – ele começou – eu e o os conselheiros da comunidade andamos bolando um plano a algum tempo, é algo audacioso e muito arriscado mas se assim não for corremos o risco de ficar pra sempre como ratos da floresta sem direito algum. Nós a trouxemos Celeste Efraim, como um propósito maior... você não foi escolhida por acaso por Rick aquele dia, nosso olheiros de dentro da Ala dos Panos selecionaram você dentre todas as sacrificadas...

– assassinadas – corrigi – eram minhas amigas.

Ele baixou os olhos e fingiu que não ouviu, prosseguiu falando:

– seja como for Celeste, acontece que de todo meu coração quero lhe dar a possibilidade de não ser esquartejada no sábado da negociação; queremos que você seja uma de nós Costureira, gostamos do seu jeito, gostamos de como não se esgoelou em nenhum momento desde seu rapto, gostamos de como sorriu durante a execução de Rick, gostamos da sua insolência.

– quer que eu me torne uma rebelde? – cuspi as palavras – pode começar a me cortar em pedaços então.

Seu rosto se cobriu de fúria.

– sua vida está condenada garota, não pode perceber? Acha mesmo que vai ser feliz atrás da cúpula? Vai ser uma mulherzinha medíocre fodida todas as noites por um porco que vai entupir seu rabo de dinheiro e quando se encher de você vai fazer você limpar as bolas dele com a própria boca. Veja como somos felizes aqui, somos irmãos, somos amigos, tudo que queremos é direito a um pedaço de terra do Jardim e que haja direitos iguais as províncias.

Permaneci calada.

– nosso plano é simular sua fuga no dia do esquartejamento, uma comitiva secreta vai lhe levar até o porto do Jardim, tudo que você tem que fazer é dizer que conseguiu escapar e entrar pelas portas.

Gargalhei

– vai me dar de bandeja?

– não exatamente – ele olhou pro lago jogando as palavras – vão fazer do seu regresso um ato heroico, vão fazer de você a lendária garota que sobreviveu aos bárbaros, uma grande cerimônia de casamento va ser preparada sem dúvida alguma, e uma cerimonia importante exige uma presença importante.

– a Embaixada. – conclui eu

Ele sorriu desajeitado

– esperta pra uma costureira. os doze homens que controlam tudo, as finanças, os exércitos, as províncias e todo o sistema, ele e corte estarão lá. – então ele pegou no bolso de seu macacão grosso um frasco preto com um conta gotas de borracha na ponta e balançou freneticamente.

Conclui o raciocínio sem que ele precisasse dizer as palavras.

– não – gritei me levantando – não vou envenenar a embaixada!

Ele se levantou e puxou o meu braço nossos corpos estavam colados numa dança dura e ofensiva da qual um mínimo movimento poderia me causar um hematoma.

– a tragédia causaria tamanho topor e pânico que ninguém perceberia nossa invasão silenciosa, tomaríamos as terras e sob nosso domínio o jardim seria um celeiro aberto para todos os povos, estabeleceríamos a liberdade a unidade e...

–... é um belo discurso meu jovem – gritei sentindo o braço dele se apertar mais – porém, não se pode salvar o mundo com belas palavras, sem o Jardim milhões vão morrer de fome porque perderem seus empregos, haverá caos e uma nova guerra, um sistema por mais cruel que seja sempre foi necessário, além de tudo eu não sou assassina, pode preparar o machado pra me cortar.

Ele afrouxou os dedos em torno do meu braço que ficou dolorido.

– você não quis a possibilidade então – Dante recitou a sentença com desprezo. – vamos voltar.

Fizemos meia volta mas algo que espreitava entre as sombra nos fez recuar, peludo como um carpete recheado por carne, exibia presas afiadas como aço e olhos púrpuros com fendas penetrantes, as paras tinham o tamanho do fundo de uma panela grande.

– lobo – sussurrou Dante senti o ar lhe fugir das narinas a cor da pele – não devia estar aqui.

– mas está – tremi a voz.

O lobo andou mais dois passo em nossa direção e cavou a terra como se calculasse seus movimentos a seguir, recuamos até chegar a margem do riacho que nos ameaçava, as aguas eram profundas e escuras.

O lobo saltou em minha direção, tudo aconteceu rápido demais, Dante me empurrou na terra e caiu com o impacto da fera nas águas escuras, o baque estalou e espirrou em todas as direções, me arrastei até a margem e gritei, o eco triste da floresta foi a minha resposta, pouco tempo depois o lobo voltou a tona sem vida com um punhal perpassado na garganta o sangue lhe manchava a pele de prata, porém Dante... este não submergia.

Já dera tempo suficiente para ele morrer e eu permanecia petrificada na margem.

eu posso fugir, posso correr e achar o Jardim... posso encontrar o caminho se deixar ele morrer.

Eu tinha que decidir agora.

Notas finais
os comentários me incentivam. ajude-me com isso.