Eu corria com como uma flecha pela mata fechada, os galhos me açoitavam e a corrida fazia meus pulmões queimarem como se eu tivesse bebido ácido, e lá estava o Jardim Nobre no topo de uma colina reluzente como palha ao sol, não pude deixar de gargalhar a bater palmas de tanta felicidade.

Meus braços foram puxados e meu corpo jogado na lama como um único golpe, Rick estava por cima de mim com um enorme focinho de porco e emitindo gemidos bestiais enquanto me violava.

– vá para o inferno Rick – disse ele com a voz de Yla.

Segurou minhas pernas e me rasgou no meio como uma folha de papel.

– pare de gritar! –Yla me segurava pelos braços, estava na minha cabana e lamparinas de níquel tinham sido acesas, eu estava sentada em meu colchão empapada de suor e em meio a uma respiração curta e violenta. – você estava sonhando.

Balancei a cabeça em negativa espantando a imagem de Rick da minha cabeça.

– era ele? Era Rick? – sussurrou ela enquanto meus pensamentos entravam em ordem. – ele estava abusando de você de novo?

Ela não deixou que eu respondesse, empurrou uma vasilha de água na minha boca e bebi a água fresca com lasquinhas de barro que se soltaram. Quando finalmente parei de arfar Yla pegou uma touceira úmida e começou a limpar os cortes e arranhões da minha testa me fazendo choramingar.

– o primeiro mês são os pesadelos, vai ver o rosto de Rick quando a luz da lamparina se apagar, vai achar que ele está no escuro esperando você dormir para pegar você, com dois ou três meses você pensa que vai diminuir o ritmo mas qualquer homem que se aproxime de você vai ser um monstro miserável, você vai chorar com a ideia de ser tocada de novo, mas quando resolver se entregar pra alguém na tentativa de que isso te cure, os pesadelos voltam, é muito provável que ele nunca mais saia da sua mente. – Yla dizia isso com os olhos marejados e pressionando meus ferimentos com mais força do que eu julgava necessário.

Conclui tudo num estalo surpreendente de dedução.

– ele estuprava você!

Ela me olho feio.

– quanto tempo?

Yla me encarou com os olhos queimando em lágrimas claras e cheias de ódio prestes a explodir como se os olhos fossem represas.

– eu cheguei aqui com nove anos, eu e meus pais fugimos da Alameda das Pílulas pois meu pai se endividou com jogo e não tínhamos dinheiro pra pagar os impostos pro Jardim, era isso ou sermos enforcados. Meu pai tinha um camarada aqui na Clareira chamado Jim, era o pai de Dante, começos a trabalhar na produção de remédios já que era a especialidade da nossa província... bom, era meu aniversário de dez anos, eu e outras garotas estávamos nadando no lago, me afastei um pouco pra caçar um coelho que ficaria saboroso assado, mas era um truque, Rick amarrara um coelho morto em um fio para atrair qualquer uma que fosse burra o bastante para seguir – seus bochechas agora coraram e os punhos se fecharam no colo – nunca senti uma dor tão repulsiva em minha vida, foi humilhante voltar mancando pra casa, Rick disse que se eu contasse a alguém ele mataria meus pais dormindo, fiquei em pânico, deixava que ele entrasse toda noite no meu quarto pela janela e ele me machucava tanto... bom, eu me acostumei a humilhação, foram oito anos de ameaças, quando meus pais morreram ano passado com Jim numa emboscada do Jardim nas Florestas Sangrentas jurei a ele que contaria a todos, ele virou pra mim e perguntou quem acreditaria numa safada que dava pra ele desde criança, já não era mais estupro, era casamento.

Fiquei sem folego de ódio.

– eu sinto muito – gaguejei.

– não sinta – disse ela se levantando bruscamente. – Rick já esta morto, e eu não vim aqui pra falar da minha vida. Dante te chama na cabana, ele quer agradecer por você ter tirado ele do lago quando ele bateu a cabeça.

Mordi o lábio e olhei pro chão, pedi tempo para Yla que me deixou sozinha na cabana, disposta na cadeia estava um vestido de lavadeira bordado com retalhos e uma jaqueta jeans, vesti tudo rapidamente e corri para fora da minha cabana.

Não foi difícil de encontrar a cabana de Dante, era decorada com uma videira e as bandeiras da revolução estavam cravadas em todos os lugares, manchas de tinta vermelha aleatória, bati na porta duas vezes e logo foi aberta por uma senhora; Cimara, a curandeira, como ela mesmo de apresentou.

Quando a porta se fechou atrás de mim fui capaz de olhar a cama alta em que Dante deitava, estava corroída por cupins mais tinha um fino e delicado dossel de cortinas finas como papel e numa cor de mal gosto de creme, uma espingarda na parede, uma mesinha de cabeceira com uma tigela da qual escapava fumaça e uma foto num porta retrato, aproximei-me e sentei no chão.

Ele estava quebrado, uma faixa grande cobria sua cabeça e os braços estavam cobertos de loção branca para que os mordidas do lobo não ficasse pútridas, o peito meio esfrangalhado estava nu com cheiro forte de óleo de nozes e pedaços de uma planta selvagem moída tapando o sulco que a chegava até o umbigo.

Seria muito fácil mata-lo ali, mas já não fizera isso antes, não era hora d me arrepender.

– você me deu uma nova possibilidade costureira – disse ele soltando um grunhido que lembrava uma gargalhada – entre vivo e morto, estou vivo mas parecendo com pedaço mal mastigado de carne.

– um belo pedaço mal mastigado – brinquei eu – já vi pedaços piores em que a carne fica branca de tão deglutida.

Ele fechou os olhos.

– agora é sério Celeste. Entende porque é uma de nós? Entende porque não merece trocar sua vida pela vida da Embaixada? Você tem caráter de uma rebelde, não de uma dondoca moradora de uma casa cheia de chás e cavalos domados.

Suspirei e baixei os olhos, não ia discutir com um quase morto.

– me desfazer aos pedaços é decisão sua não minha.

Ficamos em silencio, até Dante bater no colchão como um gesto de quem quisesse que eu sentasse na cama, meio hesitante dei dois passos e afastei mais a cortina do dossel, sentei na cama fazendo-a ranger como um gato engasgado.

Ele bateu um dos dedos na gaveta do criado mudo o que me indicou que eu deveria abrir, lá havia uns cigarros e um isqueiro.

– jura que está de brincadeira – ri

– um homem da floresta precisa do seu ópio. – desdenhou ele.

Dei de ombros, coloquei o cigarro entre os dentes e acendi o fogo para que a ponta queimasse com lentidão, aspirei aquela fumaça doce e quente que fez meu coração bater como tigres em corrida e soltei o gás com vontade.

Dante gargalhou.

– uma Costureira salva vidas e fumante. O mundo está repleto de loucuras – então pegou o cigarro dos meus dedos e esperei longos dez minutos até que tudo que restasse fossam cinzas despesas em seu dorso.

– me trouxe aqui pra eu receber gratidões – lembrei encarando aqueles misteriosos e malvados olhos.

– bem lembrado. Obrigada por me tirar do lago, se não fosse você estaria morto.

Silencio mortal em seguida.

– então até amanhã. – comecei a levantar mas fui puxada para baixo até meus joelhos se dobrarem no canto da cama para que eu não perdesse o equilíbrio e a cabeça se inclinar de forma com que nossos narizes se encostaram. O momento foi tão tenso que fiquei petrificada e gelada como uma estátua glacial.

Ele franzia o cenho e respirava pela boca fazendo minhas narinas se encherem de ar insuportavelmente quente.

– há uma atração fatal do destino que nos faz querer o que não podemos, como os oceanos querem engolir a terra, como o sol e a lua querem ficar juntos mas a luz de uma nunca alcança a da outra, e quando pensam que vão misturar seus calores um sempre some. Uma atração fatal que faz o meteoro querer beijar a terra, e flecha o corpo da vítima, a morte e a vida se querem e não vivem sem a outra. Bem como tudo isso, eu quero você Celeste Efraim, desde o dia que espiei você tomando banho no rio e rasgando seu vestido de noiva, desde o dia que vi nos seus olhos a vontade de fugir de mim, a repulsa, o ódio que te fez sentir prazer na morte de Rick, eu quero a sua ironia indefesa, eu quero a sua vontade de me matar como nunca quis nada da vida.

Ele colou nosso lábios num beijo feroz e dolorido, a sua língua se debatia contra minha e me sufocava e seus dedos agarraram minhas costas me impedindo de fugir, sentir o calor me fazer tremer por dentro e me deixar completamente satisfeita e em pânico.

Bati os punhos em seu peito exposto fazendo-o grunhir de dor, logo estava tonta naquele cômodo como se os olhos de Rick me espiassem em todos os lugares, como se fosse Rick naquela cama.

Cuspi com força no chão. Limpei a boca.

– se e tocar de novo eu viro aquele lobo e te mato.

Ele gargalhou.

– boa sorte com isso.

Sai da cabana e bati com força a porta, correndo com as lagrimas prestes a desaguar, não tomei o caminho da cabana, tomei o caminho do galpão, acendi todas as lamparinas que pude com o ódio me sufocando, costurei macacões com a última sobra de pano até todo meu corpo estar contrito e não existir uma miséria sobra de pano nos baldes, o sol já estava alto quando Yla chegou completamente espantada com meu progresso e me mandou para minha cabana tirar o resto do dia de folga, enquanto lavava as mãos sangrentas do trabalho árduo cheguei a conclusão racionalíssima que Dante estava apenas me seduzindo, me seduzindo para que eu cooperasse com o seu plano e matasse toda Embaixada, me seduzindo para que eu traísse meus reais sonhos e objetivos de vida em nome de um pouco de proteção e amor falsos.

Podia ser uma garota pobre e ignorante mas não era de todo burra.

Sequei as mãos feridas sorrindo com a grande ideia que tive.

Eu vou jogar esse jogo, então veremos quem seduziu quem no final das contas.