O LEGADO DE VIDRO , Os Lâfrer

7 ​CAPÍTULO 7: O Gelo e o Aço




​A manhã seguinte ao baile não trouxe a paz esperada. Thomas estava sentado na poltrona do seu escritório particular, com as mãos enfaixadas e o rosto inchado. Maya estava ajoelhada à sua frente, limpando um corte acima do supercílio dele com uma delicadeza que contrastava com a força que demonstrara no ginásio.

​O braço mecânico dela emitia um zumbido suave enquanto ela usava os dedos de titânio para segurar uma gaze com precisão milimétrica.

​— Você tem a cabeça mais dura que o blindado de um tanque, Lâfrer — Maya murmurou, o deboche habitual tingido de uma doçura rara. — Bater em um oficial superior no meio de um baile de gala? Minha sorte é que seu pai é o dono do lugar, ou você estaria limpando latrinas em uma base no Alasca agora.

​Thomas sorriu, sentindo a fisgada no lábio cortado.

— Ele mereceu, Maya. Ninguém chama você de ciborgue na minha frente e sai com o nariz intacto.

​Maya parou o movimento, os olhos cinzas encontrando os azuis dele. O silêncio que se seguiu não era de tensão, mas de uma entrega mútua. Ela aproximou o rosto, e por um segundo, o mundo lá fora não importava.

​— Obrigada por me defender — ela sussurrou. — Mas não faça mais isso. Eu não preciso que ninguém lute minhas batalhas, Thomas. Eu só preciso que você esteja aqui quando elas terminarem.

​Ela inclinou-se e depositou um beijo suave no canto da boca dele. Foi o momento em que a armadura de ambos finalmente caiu. Mas, antes que Thomas pudesse responder, o som estridente de um helicóptero militar sobrevoando a fundação quebrou o momento.

​Minutos depois, o salão principal estava tomado por oficiais de alta patente. Richard e Hadassa estavam de pé, com expressões que Thomas não via desde a sua formatura: era a face da guerra.

​Um coronel do alto comando colocou uma pasta sobre a mesa.

​— Tenente Thomas Lâfrer. Sargento Maya. Vocês estão sendo convocados para mobilização imediata. Uma nova célula insurgente, ligada aos antigos contatos do General Vance, capturou uma refinaria na fronteira. Eles querem sangue Lâfrer, e o Pentágono quer vocês lá para encerrar o ciclo.

​O mundo pareceu girar. Thomas olhou para Maya, que já estava em posição de sentido, o rosto voltando à máscara de mármore da Sargento de Ferro.

​— E quanto ao Capitão Richard e à Dra. Hadassa? — Thomas perguntou, a voz firme.

​— Eles ficam — o Coronel respondeu. — A Fundação Lâfrer é vital para a retaguarda. Richard Lâfrer e Hadassa Nymerelle são lendas, mas a guerra agora pertence à nova geração. Vocês partem em seis horas.

​Hadassa deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma dor que ela tentava esconder sob sua ironia habitual.

— Seis horas? Vocês mal tiveram tempo de se recuperar do baile. Thomas ainda tem pontos no rosto!

​— Dra. Hadassa, o inimigo não espera os pontos caírem — o Coronel rebateu friamente.

​Richard colocou a mão no ombro de Hadassa, mantendo a calma de um velho guerreiro, mas Thomas viu o aperto de seus dedos. Richard olhou para o filho e depois para Maya.

​— Thomas... Maya... — Richard começou, a voz profunda. — Vocês passaram os últimos meses curando feridas de guerra. Agora, a guerra quer abrir novas. Não deixem. Protejam-se um ao outro. Maya, cuide da retaguarda dele. Thomas, seja os olhos dela quando o aço esquentar.

​Maya bateu uma continência perfeita.

— Com a minha vida, senhor.

​Hadassa caminhou até Maya e, para a surpresa de todos, abraçou a moça.

— Traga meu filho de volta, Sargento. E traga você também. Eu ainda não terminei de te ensinar a usar esse braço para coisas mais úteis do que socar idiotas.

​Thomas e Maya se olharam. O romance recém-nascido agora teria que sobreviver sob o fogo cruzado.