O LEGADO DE VIDRO , Os Lâfrer
6 CAPÍTULO 6: O Baile da Armadura
A grande salão da Fundação Lâfrer brilhava. Chandeliers de cristal refletiam nas fardas de gala e nos vestidos de seda. Era o evento beneficente anual, onde a alta sociedade militar e política vinha doar dinheiro e fingir que se importava com os veteranos quebrados que viviam nos andares de cima.
Richard e Hadassa eram os anfitriões perfeitos, movendo-se com a elegância de veteranos que conheciam aquele jogo. Hadassa, vestindo um vestido verde-esmeralda que realçava seu olhar irônico, observava a porta com uma expectativa mal disfarçada.
— Você acha que ela vem, Richard? — ela sussurrou para o marido.
— Thomas passou a tarde toda no quarto dela, Hadassa. Se ele não a convenceu, ninguém mais consegue.
No topo da escadaria, o silêncio se fez por um segundo. Maya apareceu. Ela não vestia um vestido bufante ou romântico. Ela usava um vestido de gala tático, preto e minimalista, de corte reto e ombros descobertos. O tecido caía como uma segunda pele, revelando, com um orgulho desafiador, as cicatrizes em seu ombro e braço.
E a peça central: o braço mecânico de titânio e fibra de carbono. Thomas passara a tarde polindo o metal até que ele brilhasse como joia sob as luzes. Maya caminhava com a postura de quem não estava ali para ser admirada, mas para ser respeitada. Ela era uma valquíria moderna em um mundo de porcelana.
Thomas caminhava ao lado dela, em sua farda de gala impecável. Ele não a tocava, mas seu olhar azul era uma muralha de proteção. Ele enxergava cada milímetro daquele metal como uma prova de sobrevivência.
A recepção foi mista. Olhares de choque, cochichos abafados, mas também olhares de admiração dos veteranos que estavam nas sombras da sala. Maya mantinha a expressão neutra, a máscara de "Sargento de Ferro" devidamente ajustada.
A noite transcorria até que uma voz familiar e indesejada cortou o ar.
— Vejam só o que o exército está financiando agora. Um projeto de ficção científica em carne e osso.
Thomas e Maya pararam. No centro do salão, cercado por uma roda de oficiais, estava o Capitão Eric Miller, o ex-noivo de Maya. Ele estava impecável em sua farda, com um sorriso de escárnio que Thomas odiou instantaneamente.
— Eric — Maya disse, a voz gelada, o braço mecânico emitindo um zumbido sutil de ativação reflexa.
— Maya, querida — Eric aproximou-se, com uma falsa empatia. — Você parece... bem. Para alguém que foi remontada em uma oficina mecânica. Eu confesso que fiquei chocado quando recebi a notícia de Kandahar. Mas, veja pelo lado bom: pelo menos agora você nunca mais vai esquecer de fechar o zíper da mala, não é? O seu "ciborgue" interno deve ter um aplicativo para isso.
Um murmúrio de choque percorreu o salão. Hadassa deu um passo à frente, com a intenção de intervir, mas Richard a segurou.
— Espere — Richard sussurrou, o olhar focado no filho. — Thomas ainda não terminou.
Maya manteve a postura, mas a cicatriz em seu rosto vibrou com a intensidade de sua fúria. Thomas, ao lado dela, sentiu o sangue ferver. Ele esqueceu do braço mecânico de Maya, esqueceu que ela era uma Sargento que sabia lutar. Ele só viu uma mulher sendo humilhada pelo homem que deveria protegê-la.
— Capitão Miller — Thomas disse, a voz baixa, letal e carregada com o peso do sobrenome Lâfrer. — Eu acho que o Senhor excedeu o seu tempo de folga e o seu QI aceitável para este evento. A Sargento Maya é uma guerreira que sobreviveu a mais do que o Senhor jamais sonhou. E se o Senhor abrir essa boca de lixo novamente para insultar a ela ou ao seu "legado de vidro", eu vou ser obrigado a lhe ensinar o verdadeiro significado da palavra "sucata".
Eric riu, um riso curto e arrogante.
— Lâfrer... o filho prodígio que brinca de ser médico. Você acha que essa farda te protege, garoto?
A provocação foi o gatilho. Thomas esqueceu de protocolos, esqueceu de manuais de ética. Ele avançou.
— Thomas! — Maya gritou, tentando segurá-lo com o braço mecânico, mas ela estava paralisada pelo choque.
Thomas não deu um soco. Ele usou a força do próprio corpo para derrubar Eric no chão com um tackle controlado, mas devastador. O Capitão caiu de costas no mármore polido com um estrondo sordo. Thomas ajoelhou-se sobre ele, ignorando a dor no próprio ombro, e desferiu o primeiro soco de direita.
— Você! — Thomas gritou, desferindo um soco de esquerda, que quebrou o nariz de Eric. — Não! — soco de direita. — Abra! — soco de esquerda. — Essa! — soco de direita. — Boca!
O salão explodiu em caos. Oficiais tentavam separá-los, mas a fúria de Thomas era como uma força da natureza. Ele esqueceu de anatomia, esqueceu de tudo. Ele só via a dor nos olhos de Maya e a arrogância de Eric.
Finalmente, Richard e Miller conseguiram puxar Thomas para trás. Ele estava respirando ofegante, com as mãos machucadas e o rosto cortado, mas o olhar vitorioso ainda estava lá. Eric estava no chão, tonto, sangrando pelo nariz e pela boca, a farda de gala em desordem.
Hadassa ajoelhou-se ao lado do ex-noivo, verificando o pulso e o nariz quebrado com uma expressão de puro deboche.
— Excelente interceptação anatômica, Tenente Lâfrer — ela disse, olhando para o filho com um brilho de orgulho mal disfarçado. — O Senhor acabou de diagnosticar um caso grave de "estupidez crônica agudizada". Eu vou ter que processar o Senhor por exercício ilegal da medicina de emergência.
Maya caminhou até Thomas. Ela olhou para as mãos machucadas dele e depois para o rosto. O braço mecânico estava silencioso ao lado do corpo dela. Ela não disse nada, apenas estendeu a mão de carne e osso e tocou levemente o rosto de Thomas.
— Você é um idiota, Lâfrer — ela sussurrou, a voz trêmula, mas sem o sarcasmo de costume.
— Eu sei, Sargento — ele sorriu, apesar da dor. — Mas eu sou o seu idiota de plantão. E eu garanto: o aço no seu braço é muito mais humano do que o coração de qualquer homem que tente te diminuir.
O baile da fundação continuou, mas o verdadeiro evento beneficente acabara de acontecer: Thomas Lâfrer provara que o amor não precisa de carne e osso para ser real.
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