O LEGADO DE VIDRO , Os Lâfrer

5 ​CAPÍTULO 5: Fragmentos na Escuridão



​A madrugada na Fundação Lâfrer era o território dos fantasmas. Thomas, ainda com o nariz imobilizado e o ombro protestando a cada movimento, não conseguia dormir. Ele caminhava pelo corredor silencioso, usando a desculpa de buscar um copo d’água, quando ouviu o som.

​Não era um grito. Era um arquejo sufocado, seguido pelo barulho de metal batendo violentamente contra a parede. Vinha do quarto 104.

​Thomas não hesitou. Ele entrou sem bater, mas desta vez não havia deboche em seu rosto. O quarto estava mergulhado em um caos de sombras. Maya estava no chão, encurralada entre a cama e a parede, com o braço mecânico girando de forma errática, os dedos de titânio arranhando o gesso da parede num movimento reflexo de defesa.

​— Maya! — Thomas chamou, mantendo a voz baixa e firme.

​Ela não o viu. Seus olhos cinzas estavam arregalados, mas focados em um campo de batalha a milhares de quilômetros dali. Ela soluçava, uma respiração curta e desesperada.

​— Eles estão voltando... Miller, saia da linha de fogo! — ela sussurrou, a voz carregada de um terror puro. — O detonador... eu não consigo alcançar o detonador!

​Thomas percebeu que o braço mecânico estava em curto-circuito emocional, reagindo ao estresse do trauma. Ele se aproximou lentamente, ajoelhando-se no chão frio, ignorando a dor no próprio ombro.

​— Maya, olhe para mim. Não é Kandahar. É a Fundação. Você está em casa.

​Ela girou o braço mecânico na direção dele, as garras de aço parando a milímetros da garganta de Thomas. Ele não recuou. Sequer piscou.

​— Maya — ele repetiu, a voz agora suave, quase um sussurro. — Sou eu. O idiota que você deu uma surra ontem. Lembra? Meu nariz ainda dói. Você não pode me matar agora, eu ainda não terminei de te irritar.

​O som da voz dele, carregado com aquele tom familiar de ironia e cuidado, pareceu romper a névoa. Maya piscou. O foco voltou aos seus olhos. Ela olhou para a mão de metal encostada no pescoço de Thomas e, horrorizada, desativou o braço, que caiu inerte no chão com um baque surdo.

​Ela desabou. Toda a força de "Sargento de Ferro" evaporou, deixando apenas uma mulher fragmentada. Thomas a puxou para perto, deixando que ela escondesse o rosto em seu peito. Ela chorava convulsivamente, o corpo tremendo tanto que Thomas temia que ela se quebrasse.

​— Eu sinto o cheiro da fumaça, Thomas... — ela soluçou contra a camiseta dele. — Eu sinto o peso deles... eu sobrevivi e eles não. Por que eu tenho esse braço de aço e eles só têm covas de areia?

​Thomas acariciou o cabelo ruivo dela, mantendo-a firme.

​— Minha mãe diz que os sobreviventes não ficam para trás por sorte, Maya. Ficam por missão. A sua missão não era morrer com eles. Era garantir que o sacrifício deles significasse algo.

​Eles ficaram ali, no chão escuro, por um tempo que pareceu eterno. Aos poucos, a respiração de Maya se acalmou. Ela se afastou um pouco, limpando o rosto com a mão de carne, enquanto a de metal repousava pesada entre eles.

​— Você é um péssimo travesseiro, Lâfrer — ela disse, a voz ainda trêmula, mas tentando recuperar o sarcasmo defensivo. — Esse seu curativo no nariz espeta.

​Thomas deu um sorriso fraco, sentindo o coração desacelerar.

— É o preço que se paga por ter um herói de plantão, Sargento. Mas aviso que o serviço de acolhimento noturno cobra caro. Amanhã eu quero que você limpe a minha sala.

​Maya soltou um riso curto, um som raro e precioso. Ela olhou para Thomas, e pela primeira vez, não havia uma barreira de metal entre eles.

​— Obrigada, Thomas. De verdade.

​— Não agradeça ainda — ele retrucou, levantando-se e oferecendo a mão para ajudá-la. — Agora, volta para a cama. Se eu te encontrar no corredor de novo, vou contar para a minha mãe que você está negligenciando o sono e ela vai te dar um sermão de três horas sobre neurociência.

​Maya aceitou a mão dele, e por um breve momento, o toque não foi militar, nem médico. Foi humano.

​Na manhã seguinte, Thomas estava na cafeteria, tomando um café extra forte, quando Richard sentou-se à sua frente. O pai o observou por um longo tempo, notando o cansaço nos olhos do filho e a forma como ele olhava para a porta da ala médica.

​— Noite longa, Tenente? — Richard perguntou, com um brilho de compreensão nos olhos.

​— Longa, Capitão. Mas acho que a "sucata" começou a entender que o aço não precisa ser frio.

​Richard deu um tapinha no ombro do filho.

— Cuidado, Thomas. Foi assim que eu comecei com a sua mãe. Um pesadelo, um curativo e, de repente, eu estava entregando o meu comando por um sorriso dela.