O Homem Invisível
1 O Homem Invisível
Notas iniciais
Lembro de ter ouvido alguém que tentava chamar a minha atenção ao dizer que ninguém sabe do que realmente precisa até realmente encontrar.
- Encontrar o quê? — eu disse, tipicamente mal-humorado, e aquela pessoa continuava tentando me explicar a teoria de que passamos a vida procurando algo que não sabemos.
Estava provavelmente bêbado, o coitado, e fiz questão de ignorá-lo. Não acredito em teorias que tentam explicar as razões para que aconteçam algo bom ou ruim na sua vida, senão sofreríamos por opção.
A minha opção em evitar o sofrimento foi me tornar um homem que costuma viver à sombra dos acontecimentos, indiferente a qualquer demonstração de carinho ou afeto.
Um homem invisível.
Ela riu de mim quando eu comentei a teoria.
- Então quer dizer que eu sou aquilo que você sempre procurou e não sabia? — disse, olhando para mim com aquela cara de boneca e um baseado na mão, o que me irritava profundamente.
Estávamos nus, ouvindo alguma música dos Stones , na casa dela, rodeado de taças de vinho e velas.
Plano perfeito pra me deixar completamente perdido com relação aos meus sentimentos por ela.
- Deixa esse papo pra lá — eu disse.
Ela sorriu calmamente, apagou o baseado num cinzeiro em cima do criado mudo, beijou meus lábios.
- Te adoro — ela disse, como se eu ouvisse isso todos os dias da boca dela.
Ajeitei o meu travesseiro, ela juntou seu rosto próximo ao meu ombro e fechou os olhos, colocando o braço sobre o meu colo.
A música parou no exato momento em que eu apaguei as luzes do quarto, dei-lhe um beijo carinhoso na testa e disse boa noite.
Era a nossa segunda noite juntos. Fechei meus olhos, mas não dormi.
Sentir seu corpo nu próximo ao meu era algo que me despertava para algo que eu nunca havia sentindo antes.
Tocava seu cabelo com a ponta dos dedos, como se fizesse um carinho despretensioso, um agradecimento às suas palavras e seu gesto doce.
Ouvia um sussurro vindo dela, que guiava minha entrega aos poucos para juntar-me a ela e, finalmente, dormir.
Acordei mais cedo no dia seguinte. Decidi levar-lhe um café da manhã na cama, pus a roupa, ainda cheirando a fumaça de cigarros, bebidas e suores da noite anterior, e corri pra cozinha.
Preparei-lhe o café, com pão e manteiga sem sal. Selecionei alguns frios que estavam na geladeira, suco de caju light, tudo o que eu pudesse encontrar que aparentasse uma refeição matinal, afinal quase não nos conhecíamos pra saber o que ela gostava de comer pela manhã.
Pensava em casais saboreando juntos os seus cafés, apaixonados, e me peguei sorrindo como se estivesse acabando de entrar para um clube privado de pessoas felizes e completas.
Diriji-me ao quarto, bati na porta, acordando-a.
- Onde você estava? — ela perguntou, até ver em minhas mãos uma bandeja com o café que tinha preparado.
Ela sorriu, levantou-se, nua, o que me deixou completamente perdido, arrumou as roupas jogadas pelo chão.
Beijou-me a face, pegou a bandeja da minha mão e voltou pra cama. Me olhava com um rosto angelical, puro, o que destoava completamente da noite anterior.
Ela tinha dormido uma mulher e acordado uma criança. E eu, encantado, percebia que o homem invisível ganhava cores e sons.
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