Notas iniciais
Bem, aqui conhecemos a misteriosa mulher. ^.^

Relutei até o último minuto em comparecer àquela maldita entrevista marcada pro interior do estado.

- Aproveite pra descansar nos tempos de folga — diziam os amigos que viam nisso uma oportunidade.

Arrumei minha mala, peguei o carro, o mapa e três horas de estrada. O rádio não funcionava, então aproveitei pra ouvir algumas fitas K7 esquecidas — The Who, Beatles, Stooges, é, já daria pra mais da metade do percurso.

Cheguei à recepção.

- Reserva para David Bowie, entrevista...

- Preencha este papel, senhor, assine aqui. O seu quarto é o cento e três, fumante.

- Obrigado, levo eu mesmo a minha mala, não se preocupe, obrigado, obrigado.

Subi ao meu quarto e tinha de descansar para a entrevista do dia seguinte. O quarto estava vazio, eu estava só, pedi um uísque pra relaxar.

A madrugada chegava e eu não conseguia dormir.

Desci até o bar do hotel, copo vazio nas mãos.

- Completa. — disse para o garçom que parecia estar com sono. Esperei que alguém me ligasse pra perguntar se eu tinha chegado bem. Pensei em ligar pra avisar alguém que estava bem:

- Oi, cheguei, o hotel é legal, volto semana que vem. Beijo, tchau.

Mas já era muito tarde pra ligar. Sentia a necessidade de falar com alguém, mas o garçom não parecia muito a fim de me dar atenção.

Ele atendia uma mulher que se sentou dois bancos à minha esquerda.

- Um martíni, por favor. — disse ela ao garçom.

Pegou um cigarro da bolsa, não tinha fogo, olhou pra mim, o que me fez desviar o olhar. Chamou novamente o garçom:

- Tem fogo? — e foi atendida prontamente.

Tragou o cigarro, olhou pra mim novamente. Dessa vez não desviei o olhar, e notei que ela usava uma camiseta surrada do Velvet Underground.

- Gosta? — pergunto eu, olhando pra sua camiseta. Ela olha para a camiseta, mas não me responde.

Começo a olhar pra ela, cabelos escuros longos presos, rosto delicado, gestos delicados.

- Gosto das músicas que tocam a minha alma — responde, assoprando a fumaça do cigarro pro outro lado.

Pergunta porque eu vim até ali, eu respondo que vim pra uma entrevista, e ela já não aguentava mais aquele lugar, queria ir embora,

- Mas o dinheiro que pagam é bom, fico até a semana que vem.

- Pelo menos teremos companhia, fico uma semana aqui também, e te digo que já não aguento mais mesmo tendo chegado há cinco horas.

Ela riu do meu comentário, eu também e ficamos conversando sobre o nada a madrugada inteira.

- Vem ver a Lua. — disse ela.

Eu disse para irmos correndo caso contrário iríamos ver o Sol nascendo. Saímos pela porta principal do hotel, olhamos pra Lua cheia, deslumbrante, Lua de outono.

- Está tarde, preciso dormir. Te vejo amanhã?

- Sim, ela respondeu — E depois e depois...

Rimos e voltamos pra dentro do hotel.

Acordei atrasado para a entrevista, mal tinha conseguido dormir graças à noite anterior.

Não me lembro de nada que falei ou ouvi, estava completamente ausente.

Esperei a noite chegar pra me encontrar com ela de novo. Não sabia nem seu nome, de onde era, nada.

Sabia apenas que gostava de músicas que tocavam sua alma. Tomei um banho com a televisão ligada, que falava alguma coisa sobre os atrasos nos aeroportos, o barulho do chuveiro não me permitiu ouvir mais nada.

Vesti-me, despropositadamente, e desci pro bar do hotel. Ela estava lá. Notei que estava diferente desta vez, vestido vermelho, maquiagem, cabelos soltos.

Sorriu quando me viu aproximando-se dela.

- Já pedi um martíni enquanto te esperava. — disse ela.

Aquelas últimas palavras mexeram comigo. Não acreditava que ela me esperara, mesmo não sabendo meu nome.

- A propósito, meu nome é Angelina. — falou, como se lesse meu pensamento.

- Prazer, David — disse eu, agarrando sua mão e sentando-me ao seu lado.

- Eu sei quem você é. — disse ela sorrindo.

Ela me perguntava coisas sobre minha vida, meu trabalho, meus gostos pessoais, sexo, drogas, rock n’roll, enquanto fumávamos um cigarro.

Discutimos livros, música, filmes. Aproximamo-nos pelas semelhanças.

- Quero um beijo seu — falei, e ela me beijou, assim, intenso, impensado.

Envergonhados, cada um foi pro seu quarto com a sensação de que, naquela noite, a missão tinha sido cumprida.

A semana já estava no seu último dia quando passamos a noite juntos.

- O que os outros hóspedes vão pensar se nos virem assim, tão agarrados? — sussurrou ela no meu ouvido.

Retruquei dizendo que achava que devíamos ir ao meu quarto, afinal não queria espantar ninguém.

Subimos, nos beijando, agarrei-a pela cintura quando entramos no meu quarto.

Tirei sua roupa e acariciei todo o seu corpo, sentindo sua respiração ofegante no meu ouvido.

Deitamos nus, nos abraçamos, tornando-nos um só corpo. Sentia aquele momento especial, me entreguei como ela se entregou a mim, inesquecível.

Gozamos, exaustos, felizes, e ela disse que gostaria muito de me ver novamente quando voltássemos à vida normal.

Ela confessou que me via como alguém especial.

Sim. — eu disse — Vamos nos ver sim. Nos falamos, prometo.

Despedi-me dela no dia seguinte. Peguei minha mala, pus no carro, mapa, viagem de volta de três horas, fitas K7, Angelina na cabeça.