O Herdeiro das Sombras- Livro 2- Os Vanne Rossi
6 Capítulo 6: Cicatrizes e Súplicas
Dentro do quarto, o silêncio era pesado. Isadora sentou-se na beirada da cama, observando Maya, que soluçava com o rosto escondido nos travesseiros. Ela não tocou na garota imediatamente; sabia que o toque, naquele momento, pareceria mais uma algema.
— Você acha que ele é um monstro, não é? — a voz de Isadora era calma, mas carregava um peso oceânico. — Que ele é um tirano que quer te roubar do mundo.
Maya levantou o rosto, os olhos vermelhos de indignação.
— Ele não tem o direito, Dona Isadora! Eu não sou uma boneca que ele guarda na gaveta!
— Você tem razão. Ele não tem — Isadora deu um sorriso triste, olhando para as próprias mãos. — Mas deixe-me te contar uma história, Maya. Uma história sobre um homem que me trancou em um quarto anos atrás, exatamente como Leo fez hoje. Esse homem era o Julian. E ele fez isso porque me amava tanto que o medo de me ver sofrer o transformou em alguém que ele odiava.
Maya parou de chorar, hipnotizada pela revelação.
— O... o Sr. Julian fez isso com a senhora?
— Fez. E eu o odiei por isso. Mas o que eu demorei a entender, e o que Leo ainda não entende, é que o amor dos homens desta família é uma doença antes de ser uma cura. Eles carregam um histórico de sangue e perdas. Para o Leo, te ver naquela praia não foi ciúme de posse... foi o medo de que o mundo te quebrasse, e ele não pudesse juntar os pedaços. Ele está repetindo os erros do pai, achando que está nos protegendo.
O Caos no Corredor
Enquanto isso, do lado de fora, a discussão entre pai e filho atingia o ponto de ruptura. Leo estava com os punhos cerrados, o rosto a centímetros do de Julian.
— Você não entende, pai! O mundo hoje não é o mesmo de quando você era segurança! — Leo rugiu. — Se eu não for o muro entre ela e esses idiotas, quem vai ser? Você? Que prefere ficar esculpindo madeira enquanto a nossa vida pode desmoronar?
— Eu prefiro a paz porque eu sei o preço da guerra, seu moleque insolente! — Julian rebateu, a voz vibrando como um trovão contido. — Você está agindo como o Marco Rossi no seu pior dia! Você quer ser respeitado ou quer ser temido? Porque se for medo, você já conseguiu. Olhe para o que você fez com aquela menina!
— Eu fiz o que precisava ser feito!
— VOCÊ A QUEBROU! — Julian avançou, segurando Leo pela gola da camisa, os olhos brilhando com a antiga fúria que ele tentara enterrar.
O confronto físico era iminente, os dois homens mais fortes da casa prontos para se destruírem, quando um soluço agudo e desesperado cortou o ar, vindo do final do corredor.
— PAREM! POR FAVOR, PAREM!
Era Elena. Aos oito anos, ela era a luz daquela casa, o elo que mantinha todos unidos. Ela estava parada junto à porta do seu quarto, vestindo seu pijama de seda, as pequenas mãos cobrindo os ouvidos. Lágrimas grossas desciam pelo seu rosto, que era a cópia fiel da mãe.
— Eu não quero que vocês se matem! — ela gritou, caindo de joelhos no chão, o corpo tremendo de tanto chorar. — O Leo está assustador e o papai está com cara de mau! Eu odeio essa casa! Eu quero a minha família de volta!
O efeito foi instantâneo. A fúria de Julian evaporou, substituída por um horror imediato ao ver o trauma nos olhos da filha caçula. Ele soltou a camisa de Leo e correu em direção à menina, pegando-a no colo e apertando-a contra o peito.
— Shhh... calma, minha pequena. Calma. O papai está aqui — sussurrou Julian, a voz falhando, enquanto beijava o topo da cabeça dela.
Leo ficou parado, com os braços pendidos ao lado do corpo. Ver Elena naquele estado, quebrada pela agressividade que ele mesmo trouxera para dentro de casa, foi como um soco de realidade que a briga com Julian não conseguira dar. Ele olhou para as próprias mãos e, pela primeira vez na noite, sentiu o peso do que estava se tornando.
A porta do quarto de Maya se abriu. Isadora e Maya saíram, vendo a cena desoladora no corredor. O silêncio que se seguiu não era mais de raiva, mas de uma dor profunda e compartilhada.
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