​A sala de estar da mansão nunca pareceu tão vasta e, ao mesmo tempo, tão claustrofóbica. Elena havia adormecido nos braços de Isadora após o exaustivo choro, e fora levada para o quarto. Agora, o núcleo do conflito estava reunido: Julian e Isadora em um sofá; Maya, com os olhos inchados, em uma poltrona lateral; e Leo, de pé junto à lareira apagada, como um prisioneiro aguardando a sentença.

​A porta se abriu e Dona Rosa, a mãe de Maya e governanta da casa, entrou. Ela não usava o uniforme, mas um vestido simples de algodão. Sua postura era reta, imbuída da dignidade de quem não tem posses, mas tem honra.

​— Sente-se, Rosa — pediu Julian, com um respeito que fez Leo se mexer desconfortavelmente.

​Rosa não se sentou. Ela olhou diretamente para Leo, ignorando o poder que o sobrenome dele carregava.

​— Eu aceitei este emprego porque confio na Dona Isadora e no Sr. Julian. Achei que minha filha estaria segura aqui — a voz de Rosa era firme. — Mas hoje eu vi o herdeiro desta casa agir como um carcereiro. Leo, você diz que a ama, mas você sabe o que acontece com uma menina como a minha se o mundo pensar que ela foi "usada" pelo filho do patrão?

​— Eu não estou usando a Maya! — Leo explodiu, dando um passo à frente. — Eu a amo. Eu morreria por ela!

​— Morrer é fácil, Leo — interrompeu Julian, sua voz cortante. — Viver com as consequências é o que separa os homens dos moleques. Você a trancou. Você a expôs. Se a notícia dessa sua "crise" de hoje chega aos ouvidos da cidade, a reputação da Maya é que termina na lama, não a sua. Você continua sendo o Rossi rico. Ela vira apenas "a filha da empregada que tentou subir na vida".

​Isadora interveio, sua voz suave tentando acalmar os ânimos:

— Leo, a Rosa tem razão. O que você sente pode ser real, mas a sua forma de expressar é veneno. Você está agindo por posse, não por cuidado.

​O Acordo de Sangue e Tempo

​Maya, que estivera em silêncio até então, levantou-se. Ela olhou para Leo, não com o ódio de antes, mas com uma decepção que doeu mais que qualquer soco de Julian.

​— Você diz que me protege, Leo, mas de quem você me protege? — ela perguntou. — Dos meninos na praia que só queriam dançar, ou da sua própria sombra? Eu não quero ser protegida por paredes. Eu quero ser respeitada por você.

​Leo baixou a cabeça, o peso das palavras de todos finalmente esmagando sua arrogância.

​— O que vocês querem que eu faça? — ele perguntou, a voz rouca.

​Julian levantou-se e caminhou até o centro da sala.

— A trégua é esta: Você fica na mansão, mas Maya é intocável. Até que ela complete dezoito anos, você não vai entrar no quarto dela, não vai levá-la a lugares sozinhos e, acima de tudo, não vai agir como o dono da vida dela. Você vai tratá-la como a filha de uma convidada desta casa. Com distância e decência.

​— E se eu não conseguir? — Leo desafiou, o fogo ainda aceso nos olhos.

​— Se você quebrar essa distância, eu mesmo te levo para o aeroporto — Julian respondeu, sem piscar. — E você, Rosa, tem a minha palavra de que nenhum homem nesta casa, nem mesmo meu filho, faltará com o respeito a Maya novamente.

​Rosa olhou para a filha, buscando uma confirmação. Maya assentiu levemente. O acordo estava selado.

​O Silêncio do Desejo

​Leo olhou para Maya uma última vez antes de sair da sala. A distância de poucos metros parecia agora um oceano. Ele teria que conviver com ela todos os dias, vê-la sorrir, vê-la caminhar pelos jardins, sem poder tocá-la, sem poder reivindicá-la. Era um tipo de tortura que Julian conhecia bem, e que Leo agora teria que aprender a suportar.

​Enquanto Leo subia as escadas, ele ouviu a porta da biblioteca se fechar. Ele sabia que os próximos meses seriam uma guerra de nervos. Ele tinha o sangue de Marco Rossi, um sangue que não aceitava "não", mas teria que cultivar a paciência de Julian Vane se quisesse, um dia, ter Maya de verdade.

​Oito meses separam Leo de Maya completar 18 anos. Como esse tempo de "tortura silenciosa" vai afetá-los?