O Herdeiro Da Luz

3 Um nariz nem tão feio.


Notas iniciais
Um capítulo até romântico. Gostei de escrever ele, mesmo estando bem cansado. Boa leitura!

Senti um calafrio ao saber que meu melhor amigo era filho do deus da guerra. Os versos da profecia ressoaram em minha cabeça: “A guerra vai ter fim com a morte”. Rachel olhou para Pietro com um olhar de pena, depois para mim, com olhos que pareciam já dizer meus pêsames. Decidi não pensar nisso, já havia o visto morrer uma vez, pelo menos era o que eu achava, não suportaria sentir aquelas mesmas emoções novamente.

O chão ao redor de Pietro ainda brilhava de vermelho, e uma mochila jeans preta apareceu lá, com o mesmo símbolo que estava em cima da cabeça de dele estampado em linha vermelha, uma lança ensanguentada. Ele a apanhou no momento em que todos os seus irmãos correram para abraçá-lo. Ergueram-no como acima de suas cabeças e seguiram gritando, comemorando a vitória do seu mais novo irmão.

— Ares! Ares! Ares! Ares! Ares!

Ele me olhou e deu uma piscadela com o olho direito, fazendo um legal com seu polegar esquerdo. Tudo o que pude fazer foi dar um breve sorriso e assentir com a cabeça. A insegurança tomava conta de mim.

Annabeth fuzilou os filhos de Ares com o olhar. Quando um dos seus irmãos foi ajudá-la a se levantar, ela afastou o braço dele, erguendo-se sozinha. Ela seguiu com passos pesados em direção a floresta, frustrada.

Depois da luta, fui caminhar um pouco pela floresta. Peguei os presentes que meu pai havia me dado, o broche e o anel, e uma revista de música que eu havia comprado dos filhos de Hermes há alguns dias. Aiacos me seguiu. Chegando ao ponto que eu sempre ia, uma árvore grande, um carvalho, no qual eu gostava de subir e ficar sentado lá em cima, observando a natureza. Subi e sentei lá, com Aiacos dormindo no meu colo.

Coloquei a revista sobre o galho, e abri-a em uma página qualquer, com uma letra de música muito bonita, mas não me foquei muito nela. Pus-me a refletir sobre a missão, e coloquei os presentes sobre a revista.

Dei por mim observando o sol, sentindo o calor no rosto e pensando se meu pai estaria ali, dirigindo o carro do sol. De repente, o calor ficou mais intenso, e não era mais só no rosto. Ele vinha de baixo. Observei a revista, que agora chamuscava com o brilho dos presentes. Fiquei assustado, então Aiacos começou a miar, o que, de alguma forma, acalmou-me.

Percebi que a revista não estava virando cinzas, mas que estava se transformando em um papel cinza. As pequenas chamas foram se extinguindo aos poucos, eu pude entender aquele objeto.

Meu pai estava me devendo uma nova revista de música, mas eu talvez perdoasse. Ele havia me dado um mapa.

-x-

Quíron me chamou de noite, depois do jantar. Segui para a Casa Grande, ao seu encontro. Levei os meus presentes, incluindo o mapa, cuja existência ninguém sabia, além de mim.

Ao chegar lá, encontrei Diana e Pietro. Diana me cumprimentou com um abraço carinhoso. Meu Zeus! Ela estava muito cheirosa, além de bonita. Ela estava com uma camisa vermelha, um short preto e uma sandália comum, de dedo, além da flor, que era tão vermelha com a blusa. Pietro também me abraçou, e perguntou como eu estava. Ele estava com uma camisa preta de manga longa, uma calça jeans rasgada e um all star. Respondi que estava bem, e lhe fiz a mesma pergunta, tentando esconder a minha insegurança sobre mais cedo.

— Estou muito feliz, cara! Meus irmãos me receberam calorosamente, e meu pai me mandou excelentes presentes!

— Rapazes. Diana. – cumprimentou-nos Quíron.

— Boa noite, senhor. – dissemos quase que em uníssono.

Demos um riso de leve. Quíron pigarreou.

— Acredito que vocês estejam se preparando para a missão.

— Estamos mais que prontos! – Pietro falou alegremente, puxando eu e Diana para um abraço.

— Bem, vocês partirão amanhã, bem cedo. E mais uma coisa, vocês tem um prazo a cumprir numa missão que vocês não sabem onde começar. Não sei o que dizer a vocês. Rachel está muito preocupada com suas visões, e ainda mais com a profecia. Não posso garantir nada a vocês.

— Quíron, — pigarreei – acho que sei por onde podemos começar. Isso apareceu para mim hoje.

Entreguei o mapa em suas mãos. Ele olhou o mapa e fez uma careta de preocupação. Ele nos fitou bem sério, num olhar quase que paterno.

— Então, se vocês já sabem para onde ir, não tenho mais nada a falar.

— O prazo. – lembrou Diana.

— Isso. Hoje é dia 17 de dezembro. Vocês têm até o meio dia da véspera de natal para voltar com a lira de Apolo, ou seja, se vocês vão amanhã pela manhã, vão ter sete dias para cumprir a missão com sucesso. Não havia entendido o prazo, inicialmente, mas com a localização da lira, tudo faz sentido.

Diana tirou o mapa das minhas mãos e o abriu, convidando Pietro a olhar também. Ela arregalou os olhos, enquanto que Pietro soltou um assobio.

— Nossa, vamos passar alguns dias no submundo. Que legal. – ele falou sarcasticamente.

Ele estava certo. O mapa assinalava Hollywood como ponto principal da missão, e é lá que fica a entrada para o submundo, domínio de Hades.

— O submundo fica fechado no dia da véspera de natal. Hades sempre faz isso, fazendo com que os mortos desse dia possam ficar entre os vivos por mais tempo, como uma confraternização. – Quíron explicou.

— Então, — começou Diana – Só temos no máximo até o meio dia para poder sair de lá?

— Sim. Se vocês ficarem lá quando o submundo fechar, vocês morrerão. É como um radar da morte. Tânatos não podendo recolher as vidas no mundo externo, logo reconhecerá vida no submundo, e irá até vocês para recolher suas almas.

Suspirei. Teríamos que percorrer 2880 quilômetros, resgatar a lira de Apolo em algum lugar do submundo e voltar em sete dias. Que legal.

Diana pareceu compreender o que eu estava sentindo. Não. Não pareceu, ela entendeu. Como filha de Afrodite, ela naturalmente tinha o charme na sua voz, convencendo as pessoas a fazer o que ela pedia. Mas, além disso, ela também podia ler as emoções de uma pessoa só de olhá-la, além de conseguir manipular estas com um toque e um pouco de poder na voz.

Ela se aproximou de mim e tocou meu braço carinhosamente.

— Acalme-se Febo. Tudo vai ficar bem.

Por um momento, parecia que eu estava flutuando, então todas as sensações ruins saíram de mim, como se nunca tivessem existido. Nunca fiquei tão agradecido por ser tocado.

Despedimo-nos de Quíron e fomos caminhar um pouco. Sentamos numa pedra próxima ao lago e começamos a conversar.

— Ganhei uma coisa bem legal. – Pietro falou.

Ele pôs a mão no bolso e de lá tirou uma bola de tênis vermelha. Ele fez com que ela quicasse uma vez no chão, então, quando ela voltou a tocar sua mão, transformou-se numa lança de dois metros de comprimento.

— Uau! – Diana falou, fascinada com aquilo.

— Uau! – concordei.

— Essa belezinha aqui pode se transformar em quase todas as armas que eu quiser, exceto arco, besta e armas de fogo. Bronze celestial de primeira qualidade!

— Bem, também tenho que mostrar minha própria arma. É a minha primeira missão, não posso perder para um filho do deus da Guerra, nem para o filho do deus do sol. – Diana falou num tom brincalhão, retirando a flor do seu cabelo.

Diana segurou no caule da rosa, que estranhamente não tinha nenhum espinho, e a sacudiu com força. As pétalas se esticaram rapidamente e mostraram um chicote. Ela ficou linda com aquilo na mão, principalmente quando o vento soprou seus cabelos para trás, dando a ela um charme selvagem.

— Eu também não vou ficar atrás. Compreendi esses objetos com a ajuda de Aiacos. – puxei o broche que eu havia colocado na minha blusa amarela e o encostei ao anel que havia ganhado.

Senti um calor saindo daquelas coisas, então elas se expandiram. O anel se transformou num arco de quase setenta centímetros de comprimento, e o broche virou uma aljava mágica que me forneceria tantas flechas de bronze celestial quanto eu precisasse. Percebi o objetivo delas pouco depois de compreender aquele mapa.

Ficamos brincando com nossos presentes, apenas jogando conversa fora. Precisávamos nos distrair, afinal, poderíamos morrer em apenas alguns dias.

Pietro foi para o seu chalé mais cedo, ainda estava arrumando suas coisas na sua nova casa, no seu pequeno espaço entre tantos filhos de Ares. Ficamos apenas eu e Diana.

Fui andando em direção ao lago, e lá observei meu reflexo, pensando se algum dia conseguiria chamar a atenção de Diana da forma que eu queria. Encarei meus cabelos pretos um pouco compridos, minha pele branca e meus olhos um pouco estrábicos. Meu nariz é um pouco crescido demais, não gosto muito dele, e a minha cicatriz da luta contra os autômatos, que repuxava a ponta esquerda do meu lábio, tornando meu rosto levemente desfigurado. Imaginei que ela nunca iria gostar de mim, não da maneira como eu desejava.

Ela foi se aproximando lentamente de mim, e me abraçou por trás, encostando sua cabeça às minhas costas.

— Estou com um pouco de medo, tenho de admitir. Pena que ninguém consegue controlar minhas emoções.

Virei-me e a abracei, colocando meu queixo sobre sua cabeça e alisando seus cabelos ondulados e cheirosos.

— Calma pequena. Não vou deixar nada de mal acontecer com você.

Ela se livrou do meu abraço bem devagar, e disse:

— Estou com medo apenas de não conseguir voltar. Se fosse com medo de me machucar, como meus irmãos e irmãs disseram que eu deveria ter, nem ao menos teria me candidatado a ir nessa missão.

— Agradeço você por querer ir comigo. – afaguei sua bochecha com as costas dos dedos da minha mão direita – Ainda bem que tenho uma amiga como você, que se preocupa comigo. – a palavra amiga me doeu um pouco.

— Claro que me preocupo com você. Mesmo com vinte anos, você é um meninote bem lerdo, e sem essa pequena diva de dezesseis anos pra cuidar do médico do acampamento, como fica a vida dos campistas? – ela sorriu, deixando seu rosto mais perfeito para mim do que ele já era comumente.

— É verdade, filha da beleza. Talvez você pudesse curar todo mundo aqui apenas com esse seu sorriso contagiante.

— É, talvez sim.

Ela se afastou e ficou a fitar a lua, pensativa.

— Vamos logo criança, temos que dormir.

— É verdade. – ela veio em minha direção e deu um beijo na ponta do meu nariz. – Temos uma lira para resgatar.

Ela foi caminhando na frente, enquanto eu fiquei extasiado por aquele beijo.

— Você não vai dormir?

— Vou sim, e espero sonhar.

— Com o quê? – ela sorriu, num misto de timidez e curiosidade.

— Com dicas para essa missão. – menti.

— Ah... – ela pareceu triste – Vamos, temos longos dias pela frente.

Caminhamos lado a lado em direção aos chalés, sem pronunciar mais nenhuma palavra. Separamo-nos e cada um foi na direção de sua cama, com apenas mais um abraço de despedida.

Deitado na minha cama, coloquei o dedo sobre o nariz e pensei um pouco.

— É, — comentei baixinho para o meu nariz – talvez você não seja tão feio quanto eu pensei.

Sonhei com flores, no começo, então cobras apareceram.

Notas finais
De flores para cobras. Será relacionado à vida amorosa de Febo ou à missão? Espere e verás!