O Herói da Profecia
16 Um Velho Amigo
Alex ficou parado no meio da rua, enquanto o homem continuava andando. Vendo que não lhe restava outra escolha, começou a seguí-lo, e apertou o passo para acompanhar.
— Qual é o seu nome?
Disse Orrin, enquanto caminhava rua abaixo.
— Alex.
— Alex?
— Sim, por que?
Perguntou Alex, intrigado.
— Não, nada — Orrin respondeu.
Mas eles estavam se afastando demais dos cavalos, e Alex não queria perder tempo. Ele queria ir o mais rápido que pudesse atrás de Arya.
— Ei! Espera! — ele disse. — Os cavalos estão para lá! — E apontou na direção oposta.
— Eu sei disso — disse Orrin.
Alex se irritou com a calma dele. Parou no meio do caminho e disse bravo:
— Olha, eu não tenho tempo para isso! Eu vou atrás dela.
Ele saiu andando irritado na direção dos cavalos. Mas quando chegou ao lado de Saphira, pronto para montar, percebeu que Orrin havia o seguido.
— Você não vai encontrar a fortaleza sozinho.
— Então por que não vem logo e me mostra o caminho? — Alex continuava segurando a sela de Saphira, se preparando para montar.
— Você não vai chegar a lugar nenhum com esse ferimento...
— Mas nós não temos tempo!
Alex gritou, largando a égua. Mas logo em seguida, recostou os braços e a cabeça sobre o animal. Se sentia impotente diante da situação. Orrin, que ainda assistia tudo com calma, se aproximou, colocando a mão no ombro dele.
— Eu sei que o que você mais quer agora é encontrá-la... Mas pense no que vai acontecer, você não está em condições de defendê-la.
— E o que você quer que eu faça? — Alex olhou para ele.
— Escuta, eu só quero ajudar — ele disse. — Prometo que vamos encontrá-la. Mas você vai ter que confiar em mim.
Orrin estendeu a mão direita na direção de Alex, esperando uma resposta. Mas Alex estava hesitante em aceitar. Afinal, nem sabia quem era aquele homem. Porém, essa era a única chance que ele poderia ter, de resgatar Arya. Ele olhou para a mão do homem, ainda estendida em sua direção. Pensou por alguns instantes, e finalmente se decidiu.
— Tudo bem.
Alex declarou, apertando a mão de Orrin, selando uma aliança entre os dois. E só agora, que ele prestou atenção direito. Era um homem velho, se fosse chutar, diria que tinha por volta de 40 anos de idade. Mas era alto, forte e parecia em ótima forma. E se não fosse pelo cabelo e a barba que já apresentavam vários fios brancos, aparentaria ser bem mais jovem.
— Ótimo!
Disse Orrin com um sorriso no rosto, chacoalhando a mão de Alex. E assim que soltou ele, Orrin pegou as rédeas de Saphira, começou a caminhar e disse:
— Vamos! É melhor trazer os cavalos também.
Alex pegou as rédeas de Thunderbolt, que estava ali perto, e seguiu Orrin, apressado.
Os dois começaram a caminhar pelas ruas de Abeorn, lado a lado. Alex se mantinha sério e em silêncio. Orrin havia percebido que o jovem não estava completamente seguro em relação a ele. E a fim de criar um ambiente mais confiável, tentou puxar algum assunto.
— Então — disse Orrin, escolhendo suas palavras. — Você trabalha para o Rei, é um membro da Guarda Real?
— Não mais... Se você não soube, o rei morreu.
— Sim. É verdade, foi uma tragédia para todo o reino... Mas enquanto houver um guerreiro de pé, a Guarda Real ainda existe.
— Sim... Você tem razão... Mas eu não sou exatamente um membro.
— Como assim? Se você conseguiu entrar, é claro que é um membro... Eu ouvi dizer que poucos conseguem fazer parte da Guarda Real, e são apenas os mais habilidosos de todo o Reino.
— Na verdade, eu só entrei para a Guarda, porque ganhei o torneio de Fairth.
— Ah, eu ouvi falar desse torneio. Então foi você quem ganhou?
— Sim...
— Agora eu entendo, o vencedor seria nomeado guardião da princesa... — Orrin olhou alguns instantes para Alex pensativo. — Você deve ser um espadachim excelente.
— Eu só faço o possível para salvar quem eu amo.
— Esse, Alex — disse Orrin sorrindo. — É o legado de um verdadeiro herói.
Eles continuaram caminhando. Um silêncio havia se instaurado. Nada mais parecia precisar ser dito. Enquanto eles passavam por casas e mais casas, Alex ia observando todo o caminho. Mas ele ficou curioso quando percebeu que estavam indo cada vez mais para longe do centro da cidade.
— Para aonde estamos indo? — Alex perguntou.
— Ver um velho amigo meu...
— E em que esse seu velho amigo vai nos ajudar?
— Ele vai dar um jeito nesse seu ferimento.
— Só se ele fizer milagres. Pelo que eu sei, esse ferimento vai levar dias para...
— Ah, aqui estamos!
Orrin o interrompeu, parando em frente a uma casa. Não havia nada de extraordinário nela. Era apenas uma casa simples, na periferia da cidade.
— Seu amigo mora um pouco longe, não é?
— Ele não gosta muito de aparecer em público...
Orrin amarrou os cavalos na frente da casa, e foi logo batendo na porta da frente. Em alguns minutos, pode-se ouvir os passos de alguém vindo em direção à porta, que logo se abriu.
Era um homem jovem. Tinha uma aparência muito elegante. E embora estivesse com uma espécie de gorro na cabeça, podia se ver seus cabelos. Longos e loiros. Ele olhou desconfiado para os dois ao pé da porta.
— O que vocês querem? — Indagou.
— Boa tarde, Fynair. — Respondeu Orrin.
Fynair olhou para Orrin dos pes à cabeça, com muita atenção. Até que por fim, sorriu e disse:
— Orrin! Você ainda está vivo??
— Ja faz bastante tempo, não é mesmo?
— Vamos, entrem!
O homem, abriu a porta, dando passagem para os dois entrarem.
— E quem é o rapaz? — Perguntou Fynair enquanto trancava a porta.
— É uma longa história — disse Orrin. — Mas ele precisa de seus cuidados.
Orrin apontou para a camiseta de Alex, manchada de sangue, e Fynair consentiu com a cabeça, e se aproximou deles dizendo.
— Por aqui.
Os três entraram em uma sala grande. Havia um sofá, algumas poltronas, e uma mesa de trabalho mais ao canto. Mas o que mais chamou a atenção de Alex, foi uma estante enorme, cheia de potes de vidro, e em cada um dos potes, havia algo diferente, desde plantas e ervas, até líquidos com uma coloração estranha. Fynair esperou que ele terminasse de admirar os infinitos potes, e então apontou para que se sentasse na poltrona.
— Então — disse Fynair, dirigindo-se à Alex. — O que temos aqui?
Ao dizer isso, sentou-se em uma poltrona ao lado de Alex, e retirou o gorro da cabeça. Mas assim que o fez, os olhos de Alex se arregalaram em completa surpresa, e ele ficou atônito. Fynair tinha orelhas pontudas!
— Um elfo?!
Disse Alex, finalmente. E Fynair deu uma gargalhada.
— Fynair é um dos raros elfos que vivem fora de Galedhva. — Explicou, Orrin.
— Bom — Fynair levantou num pulo. — Vamos ao trabalho! Mostre-me o que você tem!
Alex levantou a camisa à altura do corte. E parecia estar mais feio, por causa da pancada que levara mais cedo. O elfo examinou com cuidado sem demonstrar nenhuma expressão. Mas Orrin por outro lado, pareceu surpreso.
— O que foi que te causou tanto estrago assim? — Perguntou Fynair.
— Um Drakmon.
— Drakmon?! Você lutou com um Drakmon? — Disse Orrin, surpreso.
— Na verdade eram dois... Ultimamente esses animais têm atacado o vilarejo de onde eu vim, praticamente toda a semana.
— Garoto — Orrin deu um riso. — Você me surpreende cada vez mais!
— Certo. Já chega de conversa! Eu preciso trabalhar!
Disse Fynair, já arregaçando as mangas. Foi até a estante e começou a mexer nos potes procurando por algo. Orrin sabia que seria melhor deixá-lo trabalhar em paz, então foi em direção à porta.
— Vou até o centro resolver umas coisas — disse Orrin. — Cuide bem dele!
Alex pôde escutar o barulho da porta se fechando. E então, voltou sua atenção para o elfo, que já estava na mesa, fazendo alguma coisa.
— Não se preocupe. Amanhã você vai estar novo em folha.
— Acha mesmo que consegue curar isso em um dia?
— Não subestime os remédios élficos! — Fynair olhou para trás, por cima do ombro.
E assim que se virou para a mesa novamente, Alex escutou ele dizer algo em voz baixa. Mas não foi capaz de compreender. Havia pronunciado palavras que nunca escutara antes. "Talvez, aquelas eram palavras élficas", ele pensou.
Fynair finalmente voltou para o lado de Alex. E assim como Arya havia feito diversas vezes, limpou o corte com cuidado e passou uma gosma no ferimento inteiro. Mas dessa vez, a gosma tinha um tom vermelho, diferente da que ela usava.
Algumas horas mais tarde, a noite finalmente chegou. Alex olhava a lua pela janela, brilhando no céu. E era impossível não pensar em Arya. Em como ela devia estar agora. Orrin se aproximou pelo lado dele.
— Não se preocupe, ela está bem.
— Como você pode saber?
— Zoran não quer matá-la. Ele pretende usar a princesa ao seu favor...
— Isso tudo foi minha culpa... Se eu tivesse escutado ela e ficado no vilarejo...
— Não faça isso!
Orrin repreendeu. Alex olhou para ele assustado, sem entender.
— Você ainda é tão jovem — ele começou a dizer num tom melancólico. — Não pense no que poderia ter acontecido. O passado já se foi... Pense no futuro. Esse sim, ainda está em nossas mãos.
— Obrigado...
Alex olhou para ele. Orrin fez um leve gesto assentindo com a cabeça, e saiu dizendo:
— É melhor descansar... Será uma dura jornada até a fortaleza.
Fale com o autor