O Herói da Profecia
17 Zoran
Arya abriu os olhos com dificuldade, e voltou a ver sua cela nas masmorras. Mas sentia seu corpo tão fraco, que mal conseguiu erguer a cabeça para olhar em volta. Extremamente cansada, ela olhou para seu cordão no pescoço. O cristal ainda brilhava, mas agora era um brilho fraco e constante.
— O que foi que aconteceu?
Ela pensou alto, enquanto tentava compreender o que tinha acabado de acontecer. Mas algo a surpreendeu. Escutou uma voz:
— Foi a sua primeira premonição.
Assustada, Arya olhou em volta, mas não viu ninguém. Não havia nem sequer uma pessoa naquele lugar além dela mesma.
— Quem está aí? — Perguntou.
— Não tenha medo. Arya, filha de Helori. Já nos conhecemos antes.
Ao ouvir o nome de sua falecida mãe, ela arregalou os olhos surpresa.
— Você conheceu a minha mãe? Quem é você? — Perguntou.
— Meu nome é Conan. O primeiro soberano de Fairth.
— Você é o rei aprisionado no cristal!
Arya ficou feliz ao se recordar da voz dele. Era uma voz grave e imponente. Passava a sensação de um legítimo rei.
— Correto — ele disse.
— Por que você não apareceu para mim dessa vez?
— Escute bem, minha jovem, há muitas coisas que você deve saber.
— O que você quer dizer com isso?
Ela perguntou curiosa, enquanto se ajeitava e encostava na parede. Ainda se sentia cansada, mas agora já conseguia mexer melhor seus braços e pernas.
Conan continuou:
— Você é a descendente dos portadores do cristal. Os chamados Guardiões do Cristal. Só existe um guardião por vez.
— Você mencionou o nome de minha mãe — ela disse. — Isso quer dizer que...
— Sim. Ela foi uma das guardiãs no passado.
— Então você a conheceu?? — Arya se sobressaltou, querendo sabe mais coisas sobre sua mãe. — Você pode...
— Perdão, mas infelizmente eu não posso lhe dizer nada além do necessário.
Arya se entristeceu, pois queria escutar mais sobre sua mãe. As únicas coisas que sabia sobre ela, eram as poucas que se lembrava e que costumava escutar dos empregados pelo castelo. Seu pai se recusava a falar sobre ela. Nem ao menos mencionava seu nome. Não por ódio ou raiva, mas porque ela havia sido uma perda tão significativa para todos do reino, que uma simples lembrança já era doloroso.
Vendo que ela não iria mais falar, Conan prosseguiu:
— O cristal concede à seu portador um poder único. O poder de enxergar o futuro como ele o é agora.
— Mas se é o cristal que faz isso. — Arya ficou confusa. — Como eu tive aquela premonição no vilarejo?
— Aquilo não foi uma premonição. Já havia acontecido...
— Então... Eu não podia fazer nada?
— Não.
Ela se manteve em silêncio. Depois de uma pausa ele continuou:
— Nós, os reis aprisionados nos cristais, não temos poder algum. O cristal utiliza a energia do seu portador. E naquele dia, ele estava realizando sua última tarefa com o resto de energia acumulada que ainda lhe sobrava: estava chamando o próximo guardião.
— Então aquele dia você estava me chamando?
— Exatamente — ele disse.
Arya pensou por alguns instantes assimilando tudo o que havia escutado.
— Você disse que eu posso ver o futuro... Então você pode me mostrar o Alex?
— Não funciona dessa forma... O dom foi dado a você, mas não quer dizer que possa controlá-lo. Não há como escolher o que ou quando você quer ver... Ele simplesmente acontece. — E ele acrescentou. — Mas não se preocupe, com o tempo você se acostumará e ficará mais fácil. Suas visões serão melhores, não vai se sentir tão cansada, e alguns guardiões conseguiam até mesmo controlar quando tinham suas premonições.
Já se sentindo melhor, ela se levantou e começou a pensar, andando de um lado para o outro da cela. "Então... Agora eu posso prever o futuro? Mas o que eu devia fazer? Estou presa aqui..." Ela olhou alguns instantes para a porta da cela e resolveu finalmente perguntar:
— O que você acha que eu devo fazer?
— Você ganhou um dom... Deve usá-lo com muita sabedoria. Eu sugiro que pense com cuidado em suas ações daqui em diante. Tudo o que fizer pode influenciar o que está por vir.
— Entendo...
— Meu tempo chegou ao fim, guardiã. Devo me retirar agora...
— O quê? Não! Espera!
"Adeus", ela ouviu sua voz desaparecendo e voltou a escutar o silêncio sepulcral das masmorras. O cristal havia parado de brilhar. Ela olhou em volta. Tudo estava exatamente igual.
Como faria para sair daquele lugar, ela não tinha ideia.
Horas se passaram, e nada. Se encontrava novamente sentada ao chão da cela, mas dessa vez, estava morrendo de fome. Mas tudo o que se passava na mente de Arya, eram as palavras do Rei Conan que repetiam sem parar, como se tentasse encontrar alguma resposta para seus problemas naquilo tudo. Mas deixou que seus pensamentos a levassem a outro lugar: Alex. Queria saber como ele estava, se estava bem. Ela viu quando o soldado de Zoran, aquele que se chamava Hector, o acertou em cheio no seu ferimento. Aquilo com certeza não foi bom... Ela queria apenas que ele estivesse bem, e a salvo. E sentia seu coração apertar toda a vez que pensava na hipótese de algo ruim ter acontecido a ele. "Isso que significa amar alguém?", ela pensou consigo. "Se eu ao menos soubesse como ele está..."
Um barulho interrompeu seus pensamentos, e ela virou sua atenção para a porta da cela. Um homem entrava, e vinha em sua direção. carregava uma bandeja de prata nas mãos, a qual continha um prato e um copo. Dava para perceber pelo seu jeito de andar que era um homem bastante atrapalhado, e por duas vezes quase derrubou tudo no chão. Ela ficou imóvel onde estava, apenas o observando.
Por fim, ele colocou a bandeja à sua frente, mas o cheiro que saia do prato era tão repugnante que ela sentia nojo apenas de olhar para ele. O servo então disse:
— O jantar está servido.
Arya virou a cabeça o ignorando. De jeito nenhum ela comeria aquilo. Ele olhou por alguns segundos, e por fim, se levantou e começou a caminhar para a porta da cela. Mas algo chamou a atenção de Arya, um som diferente e agudo. Ela virou a cabeça novamente em sua direção. E ficou pasma, ali no chão da cela, poucos centímetros afastada dela, havia uma chave. Ela se sobressaltou. "É claro!", se lembrou da visão teve algumas horas mais cedo. Tinha que agir rápido. Não sabia o que fazer, mas sabia que precisava pegar a chave. Ela respirou fundo e se aproximou, esticando o braço para pagá-la. E bem na hora que conseguiu voltar á sua posição, o servo deu falta de uma das chaves. Ele parou e deu meia volta.
Ele foi na direção de Arya, inspecionando o chão em busca do objeto. Ela estava nervosa, não tinha tido tempo de esconder a chave, por isso tinha apenas fechado sua mão, na esperança de que ele não notasse. Ela evitava olhar em sua direção, mas quando ele chegou na sua frente, foi inevitável. Ela o encarou, e estava torcendo para que ele não falasse nada. Mesmo assim, precisava fazer algo, ou ele não sairia dali nunca. E da melhor maneira que pôde, ainda o encarando, ela disse:
— Diga ao cozinheiro... Que eu me recuso a comer isso. — Vendo que ele ficou um pouco confuso ela continuou. — Como você pode chamar isso de comida. O cheiro é horrível. Minha vida corre perigo apenas por sentir esse cheiro!
— É melhor você comer, ou então terá problemas com Zoran.
— Eu vou ter problemas?? Quem vai ter problemas é você quando Zoran souber que estão deixando sua prisioneira morrer de fome!
Ela pôde perceber que ele começou a ficar nervoso e hesitou. Antes que ele pudesse retrucar ela acrescentou:
— Eu ouvi dizer que o último que ousou desafiá-lo...
— Tudo bem, tudo bem! — Ele disse. — Eu vou trazer outra coisa.
O servo pegou a bandeja irritado, e saiu da cela, batendo a porta. Assim que ele sumiu de vista, Arya respirou aliviada. Ela abriu sua mão e admirou a chave dando um sorriso contente. Tudo que tinha a fazer agora era sair.
Arya esperou que o servente voltasse trazendo a comida, assim talvez ele não notasse sua fuga. E para sua surpresa, até que a refeição que ele havia trazido dessa vez estava aceitável, na medida do possível. Ela comeu rapidamente para ir. Afinal, não queria acabar perdendo as forças como da última vez.
Ela finalmente juntou toda a coragem e se aproximou da porta da cela. Colocou a chave e a girou devagar sem fazer muito alarde, até que ouviu o "Tlec" da fechadura e um sorriso se formou em seu rosto. Começou a seguir o mesmo caminho que havia percorrido quando entrou. Subiu as escadas com cuidado. e finalmente se encontrou nos corredores. "Mas qual será o caminho agora?", ela olhou em volta mas não se lembrava.
Ela começou a andar pelo corredor, talvez pudesse encontrar o caminho. Mas ao se aproximar de uma porta, ela ouviu uma conversa. Eram os capangas de Zoran.
— A princesa fugiu!
Um homem chegou gritando na sala, e Arya se assustou.
"Então eles já sabem!" ela pensou nervosa. Tinha que sair dali o mais rápido que pudesse. Ela ouviu os homens se agitando e vindo em sua direção. Saiu rápido de perto da porta e seguiu no corredor, mas eles pareciam estar se aproximando cada vez mais. Ao longo do corredor ela encontrou uma porta, que era o único lugar que podia ir para tentar fugir deles. Ela entrou e sem nem tirar os olhos da porta, a fechou rapidamente.
Depois de ouvir os homens passando pelo corredor e fazendo uma grande algazarra, ela ficou aliviada. Mas essa sensação durou por muito pouco.
— Vai a algum lugar, princesa?
Ela escutou uma voz atrás dela, e se virou assustada. E foi então que ela o viu. Era um homem alto e forte. Um manto preto ia de seus ombros até os tornozelos. Teve de inclinar a cabeça para ver seu rosto. Tinha uma expressão aterrorizante. Seus olhos a fixavam como se fosse uma mera presa pronta para ser devorada. Tinha uma cicatriz logo abaixo do olho direito, e seu cabelo e sua barba eram negros. Por fim, completando tudo aquilo, tinha uma coroa sobre sua cabeça.
Arya ficou com medo apenas de olhar para ele. Tinha uma sensação horrível, como se pudesse sentir uma aura assassina saindo dele.
— V-você é... — Estava completamente atônita.
— Zoran, o seu mais novo rei!
Ele disse e deu um gargalhada. Arya começou a ficar furiosa.
— Deixe-me ir embora!! — Ela cerrou os punhos, retomando a postura.
— Mas vejam só... — Ele se aproximou, fazendo com que ela desse alguns passos para trás. — A princesa é corajosa.
Ele dizia tudo em um tom de sarcasmo, o que deixava Arya cada vez mais com raiva.
— O que você quer de mim? — Ela perguntou.
— Imagine só: o novo rei salvou a vida da princesa indefesa, e ela ficou tão grata que resolveu se casar como forma de agradecimento...
— O quê?? Você é doido, eu nunca faria isso!
Ele se aproximou bruscamente pegando ela pelo braço.
— Isso é uma ordem!! — Ele gritou. E acrescentou em tom ameaçador. — Sugiro que controle suas maneiras quando estiver falando com seu soberano.
— Eu prefiro morrer!
Em sua última tentativa de se libertar das mãos de Zoran, ela lhe deu um chute, e continuou se debatendo como pôde. No entanto, ele era muito forte, e não importava o que ela fizesse, não conseguia se soltar.
— Já chega! Eu já perdi a paciência com você garota!
Ele deu um puxão forte no braço dela, segurando-a com força, e colocou sua mão livre na cabeça dela.
No mesmo instante, Arya sentiu uma pressão absurda em sua cabeça. Ele finalmente a soltou, mas ela estava desorientada. Tentava se manter em pé, mas era quase impossível, e sua vista começou a falhar.
— O que... Você fez... Com...
Mal terminou de falar e perdeu os sentidos, caindo no chão. Zoran continuava parado apenas observando.
Logo, um dos soldados de Zoran chegou correndo. Ao olhar a cena ele ficou pasmo.
— Z-zoran! Não sabia que já estava em Darthull!
— Eu acabo de chegar, e que eu encontro? A prisioneira fugindo! — Ele se aproximou devagar, passando por cima do corpo de Arya.
— E-eu não vou deixar isso acontecer de novo, majestade!
— Mas é claro que não vai!
Zoran pegou o homem pelo pescoço, e sem hesitar, o matou.
Um dos outros homens chegou logo em seguida, também nervoso com tudo o que acabara de ver.
— Você! — disse Zoran. — Limpe essa bagunça, e leve a princesa para sua devida cela! E dessa vez... Certifique-se de que ela não fuja, ou eu não serei tão misericordioso!
— Sim, majestade!
Zoran olhou para a princesa ainda caída no chão e sorriu, ao pensar nos inúmeros planos diabólicos que passaram por sua mente.
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