– Mais para a esquerda. — Nadeshiko indicou, e dois garotos arrastaram uma enorme mesa para o lado. – Hum... Não, mais para a direita. – A loira mudou de ideia, e novamente os garotos voltaram a mover a mesa para o lado indicado. – Não, espera... – Ela pediu, usando os dedos para focalizar melhor a imagem. – ...acho que ficaria melhor do outro lado do salão.– Não vamos levá-la de volta pra lá! – Protestou um dos garotos.– Por favor, decida-se logo, Hotori-senpai. – Pediu o outro.– Desculpem, mas é meio difícil quando eu sou a única Guardiã trabalhando por aqui! – Nadeshiko resmungou.Ela e os outros Guardiões estavam arrumando o auditório para a formatura deste ano. Era incrível como o tempo passava rápido, parecia que fora ontem quando entrou para os Guardiões como Rainha. Mas não, já faziam dois anos– Nadeshiko, você está bem? – Indagou Mizura meio temeroso, se aproximando da amiga.– Não, eu não estou bem! Pra falar a verdade, estou péssima! – A loira respondeu. – Esse lugar tem que ficar pronto para amanhã e não estamos nem na metade. Sem falar que a Rene disse que iria ajeitar umas coisas no Royal Garden e até agora não voltou; a Taiga também prometeu vir ajudar e ainda não deu as caras; e o pior de tudo... Aquilo!! – Nadeshiko apontou acusadoramente para Shaoran, que estava sentado em uma das poucas cadeiras já colocadas.– Ué, mas a formatura é minha, eu deveria ajudar também? A própria Rene, que é toda perfeccionista, não está aqui. – O ruivo respondeu.– Não me interessa. Se não fosse pelo Mizu-kun, eu estaria fazendo tudo sozinha. Me ajuda aqui! – Nadeshiko rebateu, fazendo birra.– Tá bem, não precisa de pirraça. – Shaoran rendeu-se, começando a enfileirar algumas cadeiras.Mal Nadeshiko virou-se, decidida a arrumar de vez uma posição para aquela mesa, uma voz atrás de si gritou seu nome.– Naddyyyyy! – Taiga gritava, correndo até a amiga.– Está atrasada. – Nadeshiko logo declarou, assim que a Sanjou freou ao seu lado.– Desculpe, dormi demais. – Ela respondeu. – Mas tenho uma ótima notícia! Olha só!! – Taiga tirou do bolso um Ovo que parecia estar coberto por uma colcha de retalhos, todos coloridos e com diversas estampas. Não havia dúvidas, era um Shugo Tama. – Finalmente nasceu! – A ruiva exclamava eufórica.– Parabéns. – Nadeshiko sorriu. Sabia o quanto Taiga se sentia mal por ficar atrás de Mizura, já que, embora não tivesse ainda um Shugo Chara, o Ovo do Valete nascera a tempos. – Quer dizer que ano que vem você será realmente nossa nova Ás.– Estou ansiosa, vai ser ótimo! – Taiga pulou de alegria. – Se bem que ser obrigada a ficar no mesmo cômodo que o Fujisaki não me agrada nem um pouco. – Trocou o belo sorriso por uma carranca, encarando Mizura que estava do outro lado do salão.Nadeshiko também seguiu o olhar da amiga, e dessa vez foi o sorriso da Rainha a desaparecer. Shaoran estava conversando animadamente com Mizura, mas esse não era o problema, e sim que nenhum dos dois estava fazendo absolutamente nada!– Até você vai ficar de moleza agora, Mizu-kun?! – A Rainha questionou, aparecendo instantaneamente ao lado do Fujisaki, que sentiu seu sangue gelar. – Se é assim, por mim tudo bem, já cansei! Jogo tudo pro auto e deixo nas mãos de vocês!!Sem mais nem menos, Nadeshiko andou até a porta e saiu do local. Os outros três e alguns alunos que também observaram a cena, estavam chocados. A loira sempre fora meio esquentadinha, mas chegar a tanto por uma bobeira?– Você tinha razão Mizura, a Nadeshiko não está bem. – Comentou Shaoran. – Mas eu acho que sei o que ela tem.– O que? – Mizura e Taiga indagaram ao mesmo tempo.O Valete até reparou no fato, mas não deu muita importância e continuou a esperar a resposta do mais velho. Coisa que Taiga não fez. Percebendo que não adiantaria fuzilar o garoto com os olhos, ela apenas inflou as bochechas e virou o rosto levemente vermelho.– Não se preocupem, eu já volto com a nossa Rainha. – Shaoran declarou depois de um tempo. — Vão ajeitando as coisas vocês dois.Tudo bem, ele sabia que pedir para Mizura e Taiga arrumarem o salão era o mesmo que desejar que sua formatura fosse um desastre total, mas que podia fazer? Tinha de buscar Nadeshiko; e os outros alunos não deixariam que aqueles dois acabassem se matando... não é??******************– Nadeshiko, o que foi aquilo? Por que saiu de lá daquele jeito? – Nakuro questionava. Estava para dizer que aquele não era o comportamento para uma princesa, mas vendo a tristeza nos olhos de sua dona, achou melhor se conter.– Eu estava tentando... – A loira murmurou, apertando os olhos. – Sei que o onii-chama e a Rene tem de se formar, eles se esforçaram muito esse último ano... e eu tentei sorrir, ajudar a preparar uma boa despedida, mas...– “Despedida”? Credo, parece até que vamos morrer. – Falou Shaoran, chegando por trás da garota, que ao percebê-lo ali apenas o fitou. – Eu sabia que você estava quieta demais sobre isso. Sem fazer um escândalo ou bater o pé, só aceitando de boa. Nem parece você, Nadeshiko!– Onii-chama... – A loira murmurou num muxoxo. Seus olhos brilharam com a previsão de lágrimas que os faziam tremelicar. Para fazer par com estes olhos, sua boca transformara-se num biquinho, o biquinho mais fofo que Shaoran já poderia ter visto na vida.Maldita queda do ruivo por tudo o que fosse kawaii! E ainda sendo sua irmãzinha... ah, cara, ele não resistia.– E-espera aí, pelo amor de Deus, não chore! É... Que tal um sorvete? – ele ofereceu, pensando que talvez com aquela oferta Nadeshiko pudesse desistir da choradeira que estava por vir.A face da loira de repente se fechou. A garota se levantou e, com as mãos firmadas na cintura, indagou:– E onde raios você vai arrumar sorvete na escola, onii-chama?Uma enorme gota apareceu na cabeça de Shaoran. Como podia Nadeshiko ser tão tsundere? Pior, como podia ele ainda se surpreender e cair nessa??– Está bem, sem sorvete, então. – Encerrou o assunto, sentando-se no banco. – Você está bem?Nadeshiko soltou um suspiro e sentou ao lado do ruivo. Abaixou a cabeça, cobrindo os olhos com a franja.– Por que o tempo passa? – Perguntou chorosa.– Porque as coisas acontecem. As pessoas mudam, o mundo muda... – O garoto fez seu papel como irmão mais velho, passando a mão de leve pelos cabelos da mais nova.– Ás vezes dá vontade de parar o tempo, congelar um pouco as coisas como estão.– É para isso que servem as fotografias, sabia? – Shaoran brincou. E pareceu dar certo, pois Nadeshiko deu um pequeno sorriso.– Mas me incomoda pensar que, a partir de amanhã, tudo vai ficar diferente. – O sorriso da loira desapareceu, voltando a ficar tristonha. – Você e a Rene não serão mais Guardiões. Tudo bem que a Taiga vai ser a Às, mas... como fica? Podemos ir nos separando aos poucos. – Nadeshiko quase soltou uma lágrima. Perder seus amigos era seu pior pesadelo.– Não se preocupe, nada vai separar a nossa turma. Estamos juntos desde sempre, esqueceu? – Relembrou o ruivo. – Além do mais, nunca fomos unidos por causa dos Guardiões. Eu e você, por exemplo, somos vizinhos; Taiga e Rene são irmãs, e não acho que elas queiram se afastar; e quanto ao Mizura... vocês dois nasceram no mesmo dia, quase na mesma hora, estão praticamente unidos por uma linha no tempo.– Onii-chama... – Nadeshiko fungou, limpando os cantos dos olhos. Não se segurou, atirou-se nos braços do irmão. – Obrigada.– De nada, pestinha da minha vida. – Fez graça, mas correspondeu ao abraço.***********************– Pessoal, voltamos! – A Rainha declarou alegremente, abrindo as portas do auditório.– Nadeshiko!! – Taiga gritou, surgindo de repente na frente da amiga, e não estava com a cara muito boa. – Quer fazer o favor enfiar na cabeça desse tapado que a minha ideia é melhor?! – Questionou, apontando acusadoramente para Mizura.O Fujisaki estava parado no meio do salão, carregando três caixas que, de tão lotadas, não se conseguia fechar. Sua expressão também não era das melhores, parecia se controlar para manter a calma. Todos os alunos que ajudavam na preparação, estavam agora encolhidos ao redor do salão. Nem alguém de pouca consciência, se atreveria a ficar entre esses dois.– Para começar, eu só dei uma ideia. Também estou aqui, posso dar minha opinião. – Mizura se pronunciou, finalmente mais calmo.– Só porque você pode opinar, não quer dizer que deve! – A Sanjou ralhou. – Além do mais, por que devemos fazer o que você quer, hein??– De novo, eu só dei uma ideia! – Gritou o Valete. Era uma pessoa tranquila, mas Taiga conseguia tirá-lo do sério como ninguém!– Não fale nesse tom comigo! – A ruiva explodiu de vez, andando a passos duros.– Onii-chama, como você deixa esses dois sozinhos?! – Nadeshiko brigou, apontando para a recém discussão entre Mizura e Taiga.– Ué, mas eu tinha que ir atrás de você. – Rebateu o ruivo.– Sem desculpas. – Decretou a loira, balançando a cabeça em negação. Logo após, soltou um suspiro e virou-se para a bagunça. – Está bem, Taiga, Mizu-kun, já chega!Os alunos que estavam escondidos, suspiraram de alívio. Sabiam que, se tinha alguém capaz de pôr a casa em ordem, esse alguém era Hotori Nadeshiko.No dia seguinte; depois da cerimônia de formatura, no Royal Garden:– Parabéns à vocês dois!!Essa foi a saudação que Renesmee e Shaoran receberam ao adentrarem a estufa. Uma enorme faixa escrito “Congratulations” estava pendurada, a pequena mesa em que realizavam as reuniões tinha vários doces e salgados de festa, além de um belo bolo. Na frente do mesmo Nadeshiko, Mizura e Taiga os esperavam.– Olha, mais que surpresa. – Sorriu Shaoran.– Para que tudo isso? – Renesmee indagou.– Ué, a formatura foi uma grande coisa, mas foi para todos os alunos. Nós precisávamos celebrar direito a saída da Ás e do Rei. – Explicou Nadeshiko. – Ou pensaram que a gente esqueceria de vocês?– Mas nunca que eu deixaria passar um momento tão importante para a minha onee-chan. – Taiga surpreendeu a todos com essa declaração, principalmente quando abraçou Renesmee no final. As duas eram unidas, mas sempre se tratavam mais como amigas do que como irmãs.– Tá legal... o que você quer? – Questionou a Sanjou mais velha.– Nada... Só estou feliz que você se formou; assim deixando o posto de Ás vago, que será ocupado por mim no ano que vem. – Declarou com a maior cara de Santa. Ocupar o mesmo posto que sua mãe nos Guardiões era o sonho de Taiga, e ela finalmente poderia realizá-lo!– Interesseira, nem um pouco, né Sanjou? – Mizura cutucou. Mas antes que Taiga pudesse rebater, Nadeshiko convidou todos a se sentarem.– Ah! Mas agora que você falou, Taiga, eu deveria te preparar para o cargo de Ás. – Renesmee comentou, fazendo a irmã se engasgar com o refrigerante que bebia. Rene só não era pior do que Kairi quando o assuntou é ordem e regras! – Então, para começar, você precisa seguir todo um sistema de... – E desandou a falar.Taiga não reclamou, até porque não adiantava discutir com a mais velha. Enquanto isso, Mizura acompanhava o sofrimento da Sanjou de camarote, e Shaoran e Nadeshiko comiam salgadinhos a granel.– Ahh, eu vou sentir falta disso. – Shaoran comentou, mandando goela a baixo uma bolinha de queijo.– Do que? Nós não comemos salgadinhos todos os dias. – Falou Nadeshiko.– Não, é disso. – Olhou para seus amigos. – Vir todos os dias aqui no Royal Garden... ouvir as ordens da Rene... tomar o chá do Mizura... ver você esbaforindo o tempo todo que quer ir embora... Ai! – Shaoran esfregou o braço, onde Nadeshiko lhe deu um singelo beliscão.– Eu não reclamo tanto assim. – Defendeu-se a loira. Logo trocando a carranca por um sorriso. – E além do mais, nada dura para sempre. O que podemos fazer é guardar os bons momentos com carinho, e esperar que as pessoas com quem os dividimos continuem conosco.– Alguém aprendeu a lição. – O ruivo parabenizou. – Ainda bem, porque aquele meu discurso de ontem foi ótimo e eu não anotei em lugar nenhum hehe.– Aff, onii-chama...E assim foi o resto da tarde. Renesmee, por incrível que pareça, não atormentou Taiga com seus sistemas de tarefas (mas ela teria que estudar todos ou seus diagramas durante as férias). Eles conversaram, riram e aproveitaram o tempo com a turma completa.Ou quase...#############Nos arredores da cidade havia uma propriedade enorme, que quase parecia o pedaço de uma floresta. Nos fundos do terreno, estava uma grande mansão, rústica e com as cores marrom e laranja colorindo-a. Um carro simples, porém bem moderno, parou em frente à casa, e dele logo saiu uma mulher, com os olhos róseos brilhavam de ansiedade.– Mon Dieu, essa casa está incrível!! Está bem como eu me lembrava dela! Você não achou bonita, Ikuto? – Perguntou para o marido, que também saia do carro.– É, ela é boa. – O homem se limitou a dizer, observando a casa de cima a baixo.– Boa? Boa?! É ótima, perfeita! – Antes que Ikuto notasse, Amaya já tinha aberto a casa e olhava seu interior com esplendor. — Meus avós cuidaram muito bem desse lugar, quero deixar do jeito que era.– Mas depois de uma boa limpeza, né? – Disse o azulado para si mesmo, reparando em algumas teias de aranha aqui e ali, sem falar no cheiro de mofo que parecia vir de todo canto. — Não é muita coincidência justamente a rede TV Tokyo daqui querer o seu mangá, Amaya? – Ikuto perguntou desconfiado. Sua esposa sabia aprontar quando queria.– Deixa de desconfiança e pegue as malas, por favor. – Amaya mandou.Já ia começar a abrir as janelas quando deu pela falta de algo, o que era mesmo... Ai, não! Estava tão contente que nem reparou na falta dele.– SAITO!! Sai já desse carro, menino! – Gritou de dentro da casa mesmo, sabia que ele ouviria.Dentro do carro, um garoto suspirou pesadamente. Levantou o rosto, pela primeira vez desde que entrou no taxi em Paris, e fitou a grande mansão. Sem escolhas, pôs a mão na maçaneta e fez menção de abri-la.– Você vai mesmo se render assim tão fácil? – Questionou uma vozinha.– Eu não tenho escolha, o que mais posso fazer? Morar no carro pelo resto da vida? – Saito riu amargamente. – Além disso, eu não tinha nada lá em Paris, a não ser a minha escola. – Ele abaixou os olhos, fitando as próprias mãos. — Vir pra cá foi até melhor.– Mas não é o que você queria! – O ovo se partiu e dele surgiu o que parecia um garotinho com um pijama e touca de gato. E sua cara não era das melhores. – Você vai mesmo tentar mentir pra mim, seu próprio Shugo Chara?!– Kone, sem sermão, vai? – Saito pediu, e o chara apenas suspirou.– Olha, eu sei que é difícil e que você não queria estar aqui, mas numa coisa você está certo: Agora não tem volta.– Valeu pela injeçãozinha de ânimo. – Ironizou o garoto.Uma batida na janela do carro chamou sua atenção e Saito viu seu pai com uma caixa. Ele reconheceu, eram as coisas dele. Ikuto estava o mandando subir para guarda-las. Com mais um suspiro, longo e profundo, ele saiu do carro e pegou a caixa.Por dentro, o lugar era antigo, mas muito bem conservado e tinha um ar aconchegante. Saito não se demorou olhando ao redor e logo subiu as escadas. Parou em frente à porta de onde seria seu novo quarto, as hesitou em abri-la.– Qual o problema, Saito? – Perguntou Kone.– De que vai adiantar tudo isso? – O garoto murmurou, mais para si do que para o chara. – Nada vai mudar, eu vou continuar sendo um zé ninguém sem amigo nenhum...– Pode parar, mocinho! – Kone interrompeu, agora bravo. – Era isso que eu queria dizer; Agora não tem volta, mas você deve ver isso como um recomeço! Você é ótimo, Saito, então aproveite a oportunidade e faça quantos amigos aguentar!Saito sorriu, pela primeira vez desde que soube da mudança. Realmente, se tinha alguém melhor para lhe encorajar que sua mãe, era Kone. O chara estava certo, se lamentar por amizades nunca feitas no outro continente não iria adiantar de nada. Se esforçaria e faria amigos!– Hai, Kone