Notas iniciais
Este capítulo foi inspirado no livro "A Paixão Segundo G.H.", de Clarice Lispector.

Henrique voltou para casa. Ao deixar o local da festa, já estava um pouco escuro e frio, como costuma ser à noite. Passou por uma rua que fedia a urina de mendigo e cocô de gato. Guardara o objeto no bolso do paletó e não olhou para ele quando passou por um poste de iluminação. Agora já não importava mais; podia jogá-lo fora. Podia, mas não fez. Tomou um ônibus.

Morava em uma pensão, da qual sua mãe era a dona. Na verdade, morava na sua casa, que por acaso se tornou uma pensão para mulheres. Tinha um quarto com banheiro só para ele, mas ele ainda era bastante discreto, de forma que havia pessoas que moraram ali por um bom tempo sem sequer perceber a sua existência. Só era um pouco constrangedor quando, eventualmente, se deparava com alguma moça de pijama na cozinha.

A pessoa que era a mãe dele chamava-se Clara. Ele sabia porque ela lhe contara. Nunca tiveram problemas com isso ― tinham olhos parecidos. Ela alugava quartos para complementar a renda; ele trabalhava na Black Oil Company, na parte de TI. Para Clara, ficar em casa, limpar, cozinhar e administrar a pensão, era melhor e mais lucrativo do que ir para o mercado de trabalho. Nunca ficava uma teia de aranha nos cantos sem que ela não percebesse e retirasse, nem poeira nos lugares escondidos, nem um cano com vazamento ou uma lâmpada queimada. Fazia questão de manter a hospedagem no preço de mercado e possuía uma relativa compreensão do impacto das políticas do governo e da situação da economia na sua casa. Sabia quando Henrique chegava pelo ritmo e pelo som da pisada dele. Ouvia o click do interruptor quando ele apagava ou acendia a luz.

A mãe de Henrique tinha a mesma idade que ele, e ele nunca se perguntara como nem por quê. Talvez ele fosse muito velho ou ela muito nova, ou ambos. Estava na hora de sair de casa; afinal, ele já crescera, já estava velho. Ela não.

Para ele, ela era, assim como quase todas as coisas, uma figura bidimensional, uma imagem recortada de uma foto, de uma revista, com um contorno delineado, só com uma frente, sem o verso.

É que algumas pessoas, sem que isso seja, necessariamente, algo negativo, se pareciam, às vezes, com animais. Mesmo que não tivesse nada a ver com a fisionomia, embora geralmente fosse assim. E certas pessoas se pareciam com conchas do mar, outras eram caracóis, aves, peixes, répteis, etc. Um galo no galinheiro e o cobrador no ônibus. Alguns se pareciam com um fito plâncton, ainda que ninguém soubesse o que era um fito plâncton, que nunca tivesse visto, ainda que isso não fosse um animal.

E então que Clara podia não ser deste mundo. Porque ela era uma árvore, verdejava e destilava seiva e fazia sombras e encontrava recursos na terra. Mas, se era um vegetal, tinha que fazer parte do mundo.

Os que cresceram e se desenvolveram debaixo de uma pedra, em uma poça dentro de uma caverna, não aprenderam a luz do sol, são feios e enxergam mal. Quem sabe, Henrique fosse assim. Ele tinha uma alma feia, dava para ver. Por isso decidira acreditar só no que os outros contassem para ele. Porque, se contasse algo para si mesmo, tinha medo do que poderia acontecer. Poderia vir a saber de coisas que só ele sabia.

Quando algo assim sucedia, de alguém fazer uma confidência a si mesmo, a pessoa sentia uma imensa raiva dentro de si, uma raiva que não saberia explicar de onde vinha. Só porque elas contavam para si mesmas. Melhorou um pouco depois que inventaram as aspas. Logo depois, a bibliografia, as referências, a revisão de literatura. Desde então, só se repete o que os outros falaram.

E é compreensível que seja assim. Se descobririam coisas novas completamente antigas. Você fica sabendo o nome de um animal que nunca viu. Você sabe que os historiadores mentiram. E você se sente apertado. É sufocante. Quando você era criança, evitam responder de onde você veio. De onde veem os bebês. Desconversavam. Hoje não mudou muita coisa.

É preciso termos nojo dos germes, das sementes e de tudo o que se mexe. Essa coisa branca que não conseguimos ver, ela nos encontra. É melhor matar, é melhor deixar tudo limpo e seco. Mas ela nos encontra.

E não há nada que você possa fazer para impedir que ele entre no seu país. O estrangeiro vai entrar no seu país, se ele quiser. Você pode colocar um muro, uma grade, uma cerca elétrica e dois cães fila no quintal. Pode colocar uma ponte levadiça; cavar trincheiras; um fosso seco forrado com estacas. Pode atirar flechas de fogo. Mas ele virá. Quando você perceber, você será o estrangeiro dentro do castelo inimigo. E, se tentar fugir, o portão da frente estará fechado. Sentirá o peso do portão de aço.

E eles virão rastejando até você. Porque aquele pássaro que voa no escuro, e grita e não sabe o que está fazendo, nunca vai morrer. Na mesma noite em que o filhote dele cair do ninho, no instante em que ele engasgar com o caroço da azeitona, virá outro igual no lugar.

E não adianta você olhar para o bico do pássaro e dizer que isso é estranho. Porque todo o mundo sabe que o bico, em si, é algo pouco natural. Sempre tem um aspecto postiço. O que há de mais natural parece postiço. Deve ser de outro mundo.

E você fica sabendo que você está aqui por que você quis, e que é tudo culpa sua. Porque ninguém mandou ser curioso. Você sempre fez perguntas demais e deveria agradecer não terem respondido.

Se quiser, jogue luz na cara do pássaro que voa no escuro. Talvez ele fique cego, talvez ele voe mais rápido. Mas não lhe dê um espelho, não diga que ele não faz sentido, que é irracional. Ele vai te achar estranho. Porque tem uma voz que canta no vácuo e ninguém ouve.

Não se podia matar uma barata que se parecesse com uma pessoa. Porque, no fundo, talvez ela fosse humana. Hoje se mata pessoas que parecem baratas. Você tem o direito de jogar óleo quente no estrangeiro que sobe o seu muro e alimentar a barata que mora na sua casa. E pode deixar ela deitar no seu travesseiro. Porque ele é diferente de você.

De chofre Henrique sentiu que uma voz se dirigia a ele. Parou, um pouco sobressaltado, procurando descobrir onde estava. Segurava o estereoscópio contra o peito. As lentes um pouco embaçadas. Uma luz amarela ao final do corredor iluminava o caminho. Era sua mãe.

― Tem uma panela com sopa em cima do fogão ― apontou Clara, em tom baixo, chamando Henrique de volta para o mundo.

― Ah, ok ― consentiu ele, aparvalhado. Quando ela se virou para sair da sala até seu quarto, arrastando os chinelos e mostrando as costas, em um relance, Henrique apontou-lhe o estereoscópio e viu. As lentes já não estavam mais embaçadas.

Notas finais
Ansioso (a) para o próximo?