Notas iniciais
Boa leitura!

Eis a visão de Henrique ao observar Clara com o estereoscópio. A visão da juventude da mãe e do pai dele.

Sua mãe tinha a mesma idade. Onde estaria o seu pai, que ele nunca chegou a conhecer? Luzes coloridas no escuro, sons, uma festa. Na balada, um homem atrás da penumbra. Quando ele entra, a música para. Todos ficam mudos, menos ela.

― Aumenta o som DJ! A festa vai rolar solta até amanhã! E bota para fritar! Hoje é meu aniversário! Essa é minha música preferida, porque hoje eu amo! ― Gritou clara, reanimando todos à sua volta com seu entusiasmo e energia.

Na euforia da dança, ela se perdeu. Era tudo o que queria e que sempre procurou. Já não era mais dona do próprio corpo. Braços e pernas tomaram vida própria. Com o Diabo no corpo, ela girava e requebrava. A doença do sangue quente tomava conta dela e já principiara a contagiar os outros.

O atrito da sola dos calçados com chão fazia faíscas.

Em um canto, ele observava. Era alto, um pouco corcunda e grisalho. Um olhar vazio e sem brilho, como preso em outro plano. Hesitava. Não sabia como se comportar para atrair a atenção dela no tumulto. Sentou-se e esperou, pacientemente. Naquela época, ainda não havia smartphone. De dentro da carteira, retirou uma foto três por quatro de Clara.

A música ficava mais rápida. Os pés tentavam acompanhar. As gargalhadas davam lugar a uma respiração ofegante. Em uma noite de sábado, pessoas dançavam convulsivamente o que quer que fosse, funk, sertanejo ou eletrônica. Ele, Saturno, calmamente observava. Ora aplaudia, ora fitava Clara. Quanto mais cansado o povo se tornava, mais renovado ele se sentia. Quando saísse, deixaria ali alguns anos.

Após algumas horas sem perder o ritmo, as pessoas da festa começavam a reclamar de dores e a querer ir embora. Exceto Clara, para quem a noite era uma criança.

Contudo, logo Saturno teve o suficiente. Na direção e sentido de Clara, apontou um dedo com um anel e sussurrou:

― Vem.

Mas ela não foi. Ela só iria se e quando tivesse vontade. Só mais tarde, quando ela quis, ela foi. Clara era feminista sem saber.

Os dois saíram, abraçados, para um lugar mais privado, atrás de um poste, onde se beijaram e se olharam. Já se conheciam antes. Era preciso voltar para casa; amanhã seria domingo, dia de sol. Mas ela não se lembraria de nada; sua vida era uma história contada por um idiota. O Sono e a Morte eram, ambos, filhos da Noite. Disso ela entendia bem. Como muitas moças da idade dela, pensava que, se não recordasse de algo no dia seguinte, era porque não fizera. Assim, depois de fazer coisas que assustavam até Saturno, ela voltava com uma consciência pura. Entraram em um carro e foram para a casa dele, que também era dela, porque tudo o que era dele era dela também, conforme ele dissera uma vez. Não eram casados, nem namorados, nem nada. Eram alguma coisa que só viriam a saber mais tarde.

No mundo em que viviam, era sempre o mesmo. Era como se a condição a que chegaram fosse definitiva. Poderiam permanecer assim eternamente. Até que, um dia, Clara apareceu grávida, dizendo que o filho era dele.

“Mas nem tudo o que é dela é meu”, ele pensou. Ainda que a criança fosse mesmo dele, ele não precisava admitir. Ainda que fosse feito um teste de DNA, ele poderia alegar que a probabilidade de essas coisas funcionarem era ínfima. Quem foi que colocou um poste no meio do caminho do pássaro que voa no escuro?

Ele poderia sair e não voltar nunca mais. Isso seria um sumiço. Cavaria um buraco em que coubesse o seu tamanho e nunca ninguém iria desconfiar. Ele não atenderia mais o telefone. Se se reencontrassem novamente, um dia, diria que o aparelho estava desligado e que não tinha crédito para retornar à ligação. Poderia pegar um ônibus diferente. E o estranho dessa relação era que, apesar de tudo, ele ainda gostava dela. Era um homem frio que queria experimentar o amor. Ele procurou, ele encontrou.

Apesar de algumas excentricidades aparentes, e algumas idiossincrasias, Saturno era, em essência, igual a todo o mundo. Ser diferente comumente implica ser igualmente diferente, em vez de diferentemente igual, o que seria estranho até para um pássaro cego. Afinal, todos seriam iguais. Um estômago ambulante anda por aí com pernas, patas, asas ou nadadeiras. Antes de se nutrir, ele tinha que mastigar.

E Clara entendia bem. Ela sentia bem o cheiro que as coisas tinham. Certa vez indagara, em suas reflexões (porque ela era uma pessoa que pensava), o que cada profissional usava em seu ofício. Alguns trabalhavam com as mãos e eram hábeis nisso, os costureiros, dentre outros; alguns usavam da língua para falar o dia inteiro. Majoritariamente, usava-se a cabeça para fazer cálculos. Ela tentava valer-se de tudo, na medida do possível, mas confiava mais no seu nariz e não tomava nenhuma decisão importante sem consulta-lo. E funcionava. As pessoas sempre davam muita importância para aquilo que viam e que ouviam, sem nunca perceber que, muitas vezes, não se tratava de nada além de aparências transitórias ou de mentiras grotescas, já que o ar vibra com qualquer coisa que se pronuncie. Por isso ela usava o olfato. Distinguia entre o verdadeiro e o falso, o certo e o errado, o belo e o feio.

Talvez ela nem pretendesse incomodar muito Saturno com a notícia da paternidade. Ela não pensava em pensão, em chantagem, vantagem ou casamento. Mas, se ele tentasse fugir ou, de alguma forma, passar-lhe a perna, ela saberia. E ele, com seus truques sujos e suas trapaças, não poderia se igualar com ela em esperteza. Seu orgulho era ser uma mulher astuta. E o orgulho de um homem é um balão inchado que se espeta com um alfinete.

É que Saturno era um tipo vampiro. Não um desses vampiros que aparecem nos livros que depois viram filmes, que tiram a camisa e beijam a mocinha; que bebem sangue vegetariano, lutam contra o mal e brilham no sol. Ele sugava a energia vital das pessoas inocentes, a fim de prolongar a sua existência. Roubava-lhes a beleza e a saúde, a força e o vigor. E não via problema nenhum nisso. Se se sentasse por muito tempo perto de uma planta, um vaso de flores, ela murcharia. Ele era um mago negro, um desafiador da morte. E se alimentava de energia sutil.

Com efeito, Quando Henrique nasceu, não era a cara nem o focinho do pai. Mas isso é outra história. É que Saturno não podia ter filhos.

Quando as pessoas querem, elas podem. E cada um está sempre certo no seu comportamento, de alguma forma. O ladrão que te rouba distribui a riqueza, diminui a desigualdade. A moça gordona é assim porque foi ela quem quis, porque a sociedade tenta ditar que só o magro é bonito, mas ela sabe que isso é mentira; ela se garante. Tem alguém que fala e escreve errado. Mas não existe certo nem errado. Saturno não tinha preconceitos, era tudo muito relativo. Por que ele deveria ajudar a criar o próprio filho? Que patriarcalismo era esse? Onde estaria escrito isso? Se a pessoa nascia torta, então ser torto era direito. Era por isso que ele não podia ter filhos. A humanidade com certeza era um erro que não deveria ser perpetuado, quanto menos perdoado.

Prossegue que Henrique não deveria ter nascido. Mais tarde ele viria a saber o que herdou de cada um dos pais.

Saturno estava constantemente sugando as pessoas, às vezes até levá-las à exaustão. Seus lugares preferidos eram quartos onde casais mantinham relações. Reuniões, assembleias políticas e julgamentos também serviam. Na casa noturna que possuía, desenhara símbolos debaixo da pista de dança, que, como canos, conduziam até a sua sala a energia dos outros. Quando a sede era grande, mandava o DJ aumentar o som e obrigar as pessoas a dançarem até passarem mal. Entretanto, não havia pretexto para vampirizar ninguém, apenas preferências. Evitava hospitais tão somente por gostar da coisa fresca.

Por outro lado, tinha algo que ele escondia. Apesar do orgulho de ave de rapina que cultivava, de águia caçadora com seu olhar penetrante e bico afiado, do desprezo que nutria por seus colegas abutres, que ficavam só com as vítimas mais fracas, ele estava mais para o morcego-vampiro. Com seus olhinhos que não enxergavam nada com coisa nenhuma, seus dentinhos pontudos, seus pulinhos risíveis. Acima de tudo, tinha que ser discreto. Esses morcegos que, na verdade, lambem o sangue e mordem nas extremidades, tentando causar o mínimo de incômodo. Por isso pegava as pessoas distraídas. Seus alvos preferidos eram os homens de negócios, tão materialistas que não enxergavam nada que não coubesse em uma planilha. Esses poderiam ser totalmente drenados e não atinariam com a causa. Já com as crianças e com os animais era mais complicado.

Uma das coisas que o pai de Henrique fazia era entrar em um lugar bem-humorado e absorver ou, por maldade, dispersar as energias positivas, fazendo todos se aborrecerem instantaneamente. A única pessoa que não sofria esse efeito era Clara. Por isso ela era especial ― não havia outra mulher que seria capaz de amá-lo. Talvez ela também não pudesse amar outra pessoa senão ele. E era aí que o livre arbítrio se confundia. Nem mesmo ela, tão entendida, tão culta, saberia explicar de onde vinha essa imunidade. Todos os homens eram iguais, sim, e as mulheres também, então por quê?

Naquela época, Clara era jovem demais para entender. Ele, já vinha roubando a vida das pessoas há mais de duzentos anos. Presenciara muitas coisas, o avanço das ciências e das artes, a queda da monarquia, a mudança nos costumes. “Tudo mudara”, diriam os historiadores, mas tudo permaneceu igual. Ele ficara esperando por mais de duzentos anos para conhecer Clara.

Porque, ainda que você não perceba, o tempo vai passar para você e para todo o mundo. Ele é, independentemente de ser reconhecido. Não importa a sua opinião. Você pode até provar que ele não existe. Ele estará aí, fazendo o que tem que fazer. Mas algumas coisas são mais teimosas do que você pode imaginar. O cavalheiro pós-moderno ama com o mesmo coração que o antigo, e a vênus pré-histórica era tão sedutora quando a dama de hoje. Uma usa o nano batom infravermelho, a outra passava nos lábios a essência da planta do mato, sofisticado segredo das amazonas.

E era nessa estaticidade em que viviam. Uma necessidade, uma fatalidade constante. Clara esbanjava, por isso é que nunca lhe faltava nada. Nunca deixava para viver depois. Não tentava economizar a vida, como se isso fosse torná-la mais comprida. Agora era para sempre. Até que Saturno viu que teria que matá-la, porque ela falou que estava grávida.

Uma peculiaridade de Clara é que ela temia poucas coisas. Aguentaria com uma calma estoica baratas voando ao seu redor. Não tinha medo de bandido, nem de política, nem de fadas, vampiros ou magos negros. Não faria alarde se chovesse pedras na sua cabeça, mas perdia o autocontrole quando via alguém fazendo algo que não acreditava. Como poderia ela ser imparcial em uma hora dessas? Se a regra era aceitar e agir conforme a natureza, isso simplesmente não fazia parte da sua natureza. Não podia sentar e observar alguém se autodestruindo. Porque, quando se faz algo que não se acredita, sabota-se a si mesmo. Como poderia apenas fazer o que era esperado dela? Uma mulher deveria vestir tons pastéis e calar-se.

Talvez, se o seu coração quebrasse, não iria chover e a natureza não iria chorar com ela. Talvez o céu não ficasse nem um pouco nublado, nem o sol deixasse de brilhar em luto, se sua vida findasse em desgosto. Dessa vez os gênios da natureza não lhe confortariam as dores, nem lhe deixariam beber da água do Lete. O Universo lhe reservaria seu quinhão de indiferença. Os psicólogos diriam que o que ela sente é comum, que a dor é normal. Os psiquiatras receitariam antidepressivos. Os lógicos mostrariam como uma coisa causa a outra, e assim por diante, e que cada ação tem uma consequência.

Foi então que Henrique deixou o estereoscópio cair, estupefato.

Notas finais
Se algo não estiver muito claro, é só dizer nos comentários. Estou aceitando feedbacks.