Notas iniciais
Boa leitura! Qualquer semelhança é mera coincidência.

A comemoração começara, era o trigésimo aniversário da Black Oil Company. Havia sido alugado um salão de festas mais ou menos próximo de uma das sedes da empresa. Mesas e cadeiras forradas de tecido branco se espalhavam pelo espaço. A maior parte dos funcionários já havia chegado e, embora estes não fossem muitos, traziam consigo esposa, marido, amante e conhecidos. Alguns funcionários aposentados e membros do governo também vieram. Podia-se ouvir o leve rufar dos vestidos das mulheres, e sentir um perfume ora fraco ora forte no ar.

Luciana, que era loira e tinha um olhar inteligente, com gestos moderados, estava em uma mesa com dois senhores calvos e bem-humorados, um dos quais era seu professor. Não era exatamente funcionária, embora trabalhasse ali. Era uma cientista; estava fazendo seu doutorado na área de paleontologia. Por meio de alguns contatos, conseguiu permissão para coletar dados para sua pesquisa, o que era sem dúvida uma oportunidade muito rara. Era como que patrocinada pela empresa. Em nenhuma universidade do mundo ela jamais teria acesso aos dados que ela tinha ali, não poderia fazer tantas viagens, nem a bolsa de estudos que poderia receber se equipararia com o que lhe pagavam. Mas tudo isso tinha um preço.

Os principais acionistas e os que possuíam altos cargos administrativos ficavam um pouco isolados, em uma mesa à parte, porém igual às outras. Procuravam ser discretos, embora às vezes chamassem atenção justamente por isso. Falavam baixo, quase sussurrando. Alguma sutileza permeava sua conversa. Logo um secretário do presidente se juntou a eles. Era, talvez, a pessoa mais importante do grupo, e todos sentiam o mesmo. Usava uma gravata roxa e não largava uma pasta fina, de couro, e a carregava consigo para onde quer que fosse. Poderia ter qualquer coisa escondida ali. Um cheque assinado, uma carta de amor, um revólver com duas ou mais balas, uma agulha dourada...

Mas já era quase noite e o clima era de contentamento geral. Aquele não era só um aniversário como qualquer outro. Outra coisa era comemorada – uma missão bem-sucedida, além disso um acordo interessante com o governo –, traria aumento nos lucros, expansão dos negócios, as ações subiriam. Novas perspectivas estavam sendo abertas, novos mercados. Até os operários, que não estavam presentes, receberiam o seu quinhão, talvez, aumento nos salários.

A música de fundo foi diminuindo lentamente até ficar muito baixa. Em um palco de aço de frente para as mesas, subiu uma senhora elegante em um vestido cinza, segurando um microfone.

― Senhoras e senhores, ― começou, com uma voz forte ― boa noite. ― Fez uma pausa para que respondessem. ― Vejo que estão aproveitando o trigésimo aniversário da Black Oil Company. Eu estou aqui para dizer que esse não é o único motivo para comemorarmos. ― A expectativa da plateia aumentou. ― Quero dizer, todos acompanharam, nos noticiários, o caso do Lonjequistão. O governo local não queria permitir o nosso acesso às jazidas do país, às quais, como é sabido, temos um direito natural de utilizar. ― Os ouvintes consentiram. ― Ainda bem que o governo compreendeu as nossas reclamações e enviou algumas de suas tropas para o local. Chegando lá, encontraram a população em um estado deplorável. Não bastando ser teocrático, o estado oprimia as pessoas, sobretudo os mais fracos, com altos impostos, a negação de direitos políticos e julgamentos injustos. O povo era altamente supersticioso e não fazia ideia do que fosse ciência, mal conhecendo a medicina. Foi para libertá-los que esta empresa decidiu fazer uma pequena contribuição pecuniária ao governo e ao exército. Mas não estou dizendo nada que vocês já não saibam.

Ela então tomou ar e continuou.

― Infelizmente, por conta da teimosia do governante deles, cerca oitenta por cento da população foi dizimada. ― Ouviu-se um burburinho de indignação entre as mesas, que logo parou. ― Mas os órgãos de direitos humanos do mundo inteiro já reconheceram que nem nosso país nem nossa empresa não têm nada a ver com isso. E como prova de nossa humanidade, vamos doar dois por cento do dinheiro de todo o petróleo que conseguirmos extrair para ONGs locais. E para preservar a cultura lonjequistanesa, trouxemos até aqui alguns objetos considerados sagrados na religião deles, que em breve serão enviados para o Museu Nacional, a fim de serem pesquisados.

Luciana subiu no palco e a senhora que estava falando lhe passou o microfone. Um projetor que pendia do teto foi ligado, colorindo a parede diante dele. Alguns slides seriam passados.

― Isso é o que a Black Oil espera conseguir extrair da região. ― Começou Luciana, indo direto ao ponto, porém em tom calmo. Com um laser vermelho apontava uma tabela com as principais bacias petrolíferas de Lonjequistão, a área que cobriam, qual o volume estimado em barris, o tempo necessário para as operações e, em negrito, uma estimativa do preço médio do barril e a previsão dos lucros. Essa parte interessou sobretudo os acionistas. Depois mudou de slide ― E agora a maquete das plataformas e a da sede a ser instalada no local. Isso tudo está espalhado por aqui, neste salão. Depois vocês podem ver de perto. Agora vou falar um pouco da história e da cultura deles.

Mesmo os homens práticos que estavam presentes se interessaram pela “aula” que Luciana lhes dava. Esperavam ouvir mais sobre os lucros, mas a forma como ela contava a religião e o passado lonjequistaneses era mesmo incrível, o respeito, a clareza, o entusiasmo. Vários objetos ligados à cultura deles estava ali. Um deles era um estereoscópio tido como mágico por aquela cultura.

― Para quem não sabe, o estereoscópio é um instrumento parecido com óculos, que serve para examinar pares de fotografias, chamadas de estereogramas, de pontos diferentes, o que resulta em uma única imagem tridimensional. Na verdade, é uma ilusão de óptica. Esse instrumento foi largamente utilizado como brinquedo na Era Vitoriana. Alguns estudantes hoje fazem isso nas feiras de ciências. É um mistério o porquê de ele ter virado objeto sagrado na mão dos lonjequistaneses. Talvez tenha chegado até eles por meio do comércio com o oriente no século XIX. Bom, segundo a lenda, quem o usa tem uma compreensão mística do universo e da alma humana, e uma visão do futuro e do passado.

Luciana continuou falando. Contou algumas curiosidades sobre aquele povo oriental e apresentou outros objetos tão ou mais interessantes do que o estereoscópio. Todos estavam distribuídos pelo salão, protegidos dentro de estruturas de vidro. Alguns eram verdadeiras relíquias, pertencentes a antigos deuses e reis. Comparado a tudo isso, o estereoscópio não tinha quase nenhuma importância, nem histórica nem financeira, pois não se disse que era feito de ouro puro ou de pedras preciosas. Assim, ele foi logo esquecido, como o fruto de um mal-entendido coletivo, de um povo facilmente impressionável.

Terminada a “aula” ― e viam Luciana como uma professora ― alguns, sobretudo os mais idosos e os obesos, continuaram nos seus lugares, e outros, mais impulsivos, levantaram logo para procurar aquelas novidades tão faladas. Havia ainda os que podiam muito bem sair correndo, mas não se interessavam por história.

Daniel estava na mesa dos poderosos. Era moreno e o mais jovem do grupo. Se não fosse a idade, algum observador desavisado pensaria que ele era o dono da empresa, pela forma como estava vestido, pelo corte de cabelo e relógio de marca no pulso. Estava sentado ao lado do presidente, um senhor vermelho e careca. Enquanto Luciana falava, ele fazia pequenos comentários para mostrar que entendia do assunto. Esses comentários eram, todavia, superficiais.

― Ren-Daqi II ― dizia ele, no ouvido do chefe ― foi o filho de de Ren-Daqi I.

Na hierarquia da companhia, ou no organograma, ele estava logo abaixo do presidente. Como estava chegando a hora do último se aposentar, Daniel precisava fazer de tudo para aparentar ser melhor do que seus colegas. E de fato ele conseguira impressionar o chefe, embora não fosse lá muito competente. Era gentil, possuía boas maneiras, era engraçado, embora contasse piadas repetidas, sabia afetar bom humor e perspicácia. Já quanto ao trabalho propriamente dito, conseguia sempre que alguém fizesse por ele. De direito e de administração entendia só alguns jargões, conquanto tivesse um diploma, e com isso se virasse.

Lentamente, as taças de champanhe se esvaziavam. Garçons e garçonetes uniformizados não paravam quietos, andavam de um lado para o outro com garrafas, copos e aperitivos. Em algumas mesas pessoas brindavam e faziam votos. Em algumas ocasiões as pessoas costumam ficar todas juntas, mas naquela festa estavam separadas, em pequenos grupos espalhados, e isso funcionava bem assim. Quem quisesse podia muito bem levantar de onde estava para falar com alguém em outra mesa. A satisfação era geral e o clima amigável.

Henrique, mal se aguentando em pé, se apoiava em uma parede, em um canto mal iluminado, à parte. Suava frio. Estava com quase trinta anos, a altura um pouco a cima da média, o cabelo era a princípio castanho, mas um pouco grisalho. Não ouvira nada do que falaram. Não via nada do que acontecia ao seu redor. Não pensava em nada. Suava frio. As mãos tremiam. Estava acontecendo de novo. Abriu um pouco a boca em busca de ar, ofegava.

O estereoscópio estava bem ali na sua frente, debaixo de um enorme vidro. Ele não sabia o que era, não importava. Não sabia como nem por que. Ele tinha dedos ágeis. Todos estavam tão distraídos.

Henrique suspirou de alívio, seus ombros ficaram mais leves. Agora não existia nada além dele e daquilo no mundo, que ele não sabia o que era, mas com certeza não lhe pertencia. Talvez, depois, até jogasse fora, não tinha importância. Era preciso sair dali.

Mais tarde, quando procuraram pelo estereoscópio, não encontraram.

Notas finais
Espero que tenha gostado!