O Estereoscópio
10 A intrusa
Notas iniciais
Será que tudo aquilo que acontecia era para ser mesmo daquela forma? Henrique se questionava. As coisas passavam debaixo do seu nariz e ele queria saber se tinham necessidade de ser assim e não de outro jeito. Ele nunca formulara nenhum conceito de destino ou algo do tipo, nem parou para estudar sobre o assunto. Pensar muito lhe seria penoso; um só raciocínio poderia lhe custar muito. Em vez disso, deixava-se penetrar em suas impressões. Se sentisse algo e a sensação fosse real o bastante, permitia-se mergulhar nela e se convencia. Embora estivesse acostumado a agir assim, era-lhe praticamente impossível justificar-se diante dos outros; seu raciocínio ora parecia intrincado, difícil, ora demasiadamente simples, mas quase sempre subjetivo e carecendo de fatos. Também lhe ocorria com frequência chegar a certas conclusões, pensando distraído, meio dormindo, e depois se esquecer do caminho que traçara para alcançá-las. Mais tarde, tinha certeza dessas conclusões e por experiência sabia que era melhor não desconfiar delas, ainda que tivessem a forma de revelações.
Dependendo da situação, pensava ele, as coisas aconteciam porque tinham necessidade de ocorrer. Outras vezes, tudo parecia muito incerto, cinquenta por cento de chance de ser de um jeito, cinquenta de ser de outro, e se acontecesse, mesmo após o fato ter se consolidado, ele hesitava, pasmava, incrédulo. Um objeto mal pendurado poderia cair a qualquer momento e ele nunca saberia dizer o que raios fazia isso ser antes ou depois. Também lhe admirava quando equilibrava coisas, simetricamente, e elas caiam ou para a esquerda ou para a direita; nesse caso, ou convencia-se de que tinha que ser de um jeito, ou não dizia nada e aceitava que poderia ter sido de outro, embora isso o deixasse confuso.
O caso mais raro, contudo, mais terrível, era quando Henrique ficava com a impressão ― sempre forte, quando ocorria, ― de que o destino havia cometido algum erro. Ele coçava os olhos, limpava os ouvidos e beliscava-se. Sim, por estranho que fosse, até mesmo o carma tinha as suas falhas e, eventualmente, como ocorre aos melhores computadores, podia dar pau.
Então, concluiu ele, com um bom senso inesperado, se algo não era para ser, talvez isso não pudesse nem devesse ser previsto, nem mesmo por um mágico vidente, nem mesmo por Freia. E ainda não estava clara a razão pela qual Luciana apareceu na casa da vidente, com o cabelo pintado, com veneno nas mãos.
...
Fez-se noite. Luciana havia feito amizade com as moças da pensão. Tomara um banho, vestira algumas roupas emprestadas de Clara, enrolou uma toalha na cabeça. Sentara-se no sofá, mantinha as pernas esticadas sobre uma cadeira, bem à vontade, lia um romance que pegara no quarto de Henrique.
― Dostoiévski não devia entender de economia. ― Observou quando o rapaz se aproximou. ― A velhinha usurária que ele matou também tinha uma importância social. Não tem nada de mais emprestar dinheiro a juros.
Henrique ignorou.
― Eu contei de você para as outras moradoras. Elas não sabiam que tinha um homem aqui, acredita? Nem desconfiavam que Clara tinha um filho.
― Por quanto tempo você pretende permanecer aqui? ― Cortou Henrique, brusco.
― Por tempo indeterminado. A sua mãe não te contou? Agora eu moro aqui, sou a nova hóspede. Dê-me boas-vindas.
― Seja bem-vinda. ― Disse Henrique, seco. ― Mas eu pensei que todos os quartos estavam ocupados.
― Você pensou que todos os quartos estavam ocupados? Então você se esqueceu? Foi você mesmo que disse que iria sair de casa, que estava na hora de morar sozinho.
O rapaz ficou estupefato. De fato, na correria de tudo o que estava acontecendo, ele havia se esquecido completamente do seu propósito de procurar uma casa ou apartamento. Principalmente agora, tendo perdido o emprego, isso já não se passava mais pela sua cabeça.
― É, estou vendo que você se esqueceu mesmo. Mas sabe o que mais? O seu quarto agora é meu. ― Acrescentou.
O rapaz sentiu um pequeno choque passar pelo seu corpo, como se agora tivesse perdido tudo. Viu-se expulsado de sua própria vida ― que aliás nunca lhe pertencera ― e agora precisava preparar-se para pegar um colchão e um cobertor para dormir na rua, embora estivesse em plenas condições de ir para um hotel um alugar uma moradia. Contudo, Luciana, como se lesse sua mente, foi rápida em acalmá-lo.
― Não precisa se preocupar, Henrique. Estou brincando com você. O que é seu é meu; o que é meu é nosso. É claro que você não precisa sair. Vamos ficar juntos, não é ótimo? ― A moça sorriu. ― E você acha que eu pensei nisso tudo sozinha? Na verdade, a ideia foi da sua mãe. Ela me convenceu, acredita? Que mulher sagaz, que inteligência! É boa com as palavras. Sim, ela me convenceu. Estou convencida que essa é a melhor opção.
Apesar da intimidade de que desfrutavam, agora parecia a Henrique que Luciana era grande e ocupava muito espaço, sendo que sempre achara o tamanho dela normal. Ele olhava com uma atenção distraída ― porque quem presta profunda atenção em alguma coisa parece desligado de todo o resto ― o rosto da moça, com um zoom para os detalhes de sua pele, que parecia um deserto, e os poros, e os pelos. Devagar, aquilo lhe irritava. De perto, Luciana era feia. Nos seus cílios, havia minúsculos ácaros, pequenos monstros em forma de caranguejo. Na língua, havia espinhos curvados. Ele já não sabia se seria capaz de aguentá-la tão perto por muito tempo. Adorava-a, mas de longe, desejando-a mais perto, em sonho. Ao seu lado, ela era apenas um corpo, sem magia alguma.
No entanto, isso era só o que o rapaz sentiu, por um momento, e talvez as coisas não fossem realmente assim. Podia ser que Luciana fosse mais esperta do que ele pudesse supor. Quem sabe, a mágica estaria justamente em tê-la por perto, o campo gravitacional dela no dele, a vibração da voz dela tocando-o, e o cheiro.
Mais tarde, os dois foram deitar-se. A cama era de solteiro, então tiveram que ficar abraçados, o que não era nenhuma novidade. A noite não estava quente, então não havia problema. A única diferença era que Luciana agora ficaria por tempo indeterminado. De madruga, quando tudo estava apagado, Henrique dormia em paz, sem sonhar. Luciana estava quieta, mas atenta. O pássaro que voa no escuro aproveitou que o rapaz dormia e saiu... de trás do guarda-roupa, com o bico aberto, a língua para fora, de olhos arregalados, assustado. Caminhava devagar, com as unhas batendo de leve no chão, virando pescoço nu e enrugado. Quando esticou as asas, preparando-se para o voo, algo estranho aconteceu. Henrique, de súbito, piscou, ao ouvir o som de um tapa, mas ignorou e voltou ao seu sono quase pesado. Luciana, apesar da escuridão, apesar dos braços de Henrique nela, não se sabe como, pegara um chinelo ao pé da cama e acertara em cheio o bichinho, que debaixo dele permaneceu, no chão, esmagado. A despeito da posição, Henrique dormiu muito tranquilo, de uma forma que não fazia havia muito tempo.
De manhã, mesmo com sono, Luciana levantou-se primeiro, sem acordar o outro, e discretamente pegou, com a ponta dos dedos, o pássaro ― que não derramara sequer uma gota de sangue ―, jogou no vaso sanitário e deu descarga.
Fale com o autor