Notas iniciais
Curto, mas suficiente.

Explicar o motivo pelo qual as coisas aconteciam, em última instância, era sempre só mais um jeito de dizer que elas aconteciam porque aconteciam. Ora, elas aconteciam porque sim, porque tinham que acontecer, ou porque podiam acontecer, ou, ainda, porque houve um erro e elas acabaram acontecendo. Assim, dizer que Henrique roubara o estereoscópio porque ele era um cleptomaníaco apenas era outra forma de dizer que ele roubara porque tinha que roubar, o que não diz nada, só que de fato ele roubou. Ou nem isso, mas não importa.

Naquele dia, Henrique acordou muito bem-disposto. Talvez curado. Mesmo tendo caranguejos nos cílios, Luciana era quente e macia.

Alguma mágica no ato de mudar alguma coisa. Porque, geralmente, se mudava tudo para não mudar nada. Quem sabe fosse um pequeno milagre fazer como os antigos alquimistas e transformar uma coisa em outra, não só em forma, mas por dentro. E, também, compreender algo era difícil, porém, nos raros momentos em que isso acontecia, uma luz era lançada e tudo se clareava, ganhando novos contornos, e Henrique ganhava coragem, para então poder transformar tudo. Entender alguma coisa era um momento quase espiritual.

O oleiro, que molda o vaso em suas mãos, não o faz de qualquer jeito, mas segue uma série de passos e de regras e procedimentos; e de uma coisa mole e sem forma ele tem um vaso. Ele compreendia e criava alguma coisa. Luciana não sabia sequer cozinhar, mas achava que podia modificar alguém ou alguma coisa e dar-lhe a forma desejada. É que ele não fazia a partir do nada, mas de alguma coisa.

Henrique não, mas Luciana, esta sim, estava confiante de suas capacidades de entender e de modificar, e sumir com o pássaro era o primeiro passo do seu plano. Ao contrário de Henrique, ela sabia muito bem o que queria; se não revelava a ninguém era porque era segredo, não porque não conseguia expressar sua intenção.

Com uma curiosidade de arqueóloga, Luciana mexia nas coisas de Henrique. Ao abrir antigas caixas guardadas no fundo do armário, atrás de pilhas de roupas, encontrou, em meio a livros e cadernos da época da faculdade, um diário. Abriu-o sem cuidado. Era um pequeno caderno de um papel liso e amarelo, capa dura e azul. Folheou-o e ali leu um sonho que Henrique tivera certa vez.

Certa vez Henrique fora dormir na casa do pai, em um sobrado branco no meio de uma área verde, um pasto. No andar de cima, Henrique tirou da estante do pai um livro grosso e com as páginas emboloradas. Leu sobre uma tribo que praticava sacrifícios humanos. Periodicamente, um de seus membros era fatiado e colocado dentro de uma sopa. À noite, sem perceber, sem refletir, seus colegas, sonâmbulos, levantavam-se e comiam a sopa.

Sem entender, Luciana passou de página. Aquele era um diário de sonhos.

Em alto mar, até o pescoço em uma água cristalina, debaixo de um céu limpo e azul, Henrique não sentia nem frio nem calor. A água era refrescante e o rapaz vestia apenas uma bermuda verde, mas não se importava com isso porque não havia ninguém por perto. Divertia-se com um peixe prateado, pois eram amigos. Tentava segurá-lo, mas o animal era escorregadio. O peixe mergulhava ainda mais fundo e Henrique o acompanhava sem que lhe faltasse ar. Ambos avistam um navio afundado. O peixe vai na direção dele e Henrique o segue, até enroscar-se em algas e começar a sufocar. Consegue subir, envergonhado. O peixe sobe junto. Henrique pega-o e tenta mordê-lo na cabeça, mas ele escapa e se transforma numa medusa.

O que era o peixe não queria atacar, apenas se defender. Henrique entende, respeita e mantém distância de seus tentáculos perigosos. De chofre um peixe grande e monstruoso surge atrás deles, como uma onda forte, e os obriga a nadar para fora do mar. O peixe volta a ser peixe prateado e vai com Henrique. O rapaz se pergunta se aquilo não era apenas uma onda forte.

De pé sobre a areia, o peixe se transforma em uma mulher, com apenas o longo cabelo escuro lhe cobrindo. Henrique recebe uma roupa feita de algas e que parecia plástico. Eles fazem uma fogueira e sentam-se em volta dela até anoitecer, até uma lua cheia despontar no alto. Henrique questiona a mulher sobre sua origem e ela lhe responde que ela é ele. Intrigado, o rapaz pede para ver a verdade e ela joga o cabelo para trás.

Então tudo, com exceção da própria mulher, se torna claro e transparente, exposto, até mesmo Henrique. E ele olhava para dentro do mar e enxergava monstros e cavernas, e olhava por baixo da sua pele. Podia ver o sol, apesar de ser noite.

A mulher diz que veio de dentro de Henrique e ele a pede em casamento. Com sinceridade, a moça diz que não pode. Quando ele pergunta se ela voltará para dento dele, a mulher fica bem pequena e pula dentro do seu coração. A mulher some, mas Henrique continua podendo ver por baixo das coisas. Então ele fica grande, vai crescendo cada vez mais, até ocupar o Universo inteiro. Aí, ele expira o ar dos pulmões e volta ao tamanho original, sente-se em paz e dorme.

Terminado o sonho, Luciana fechou o caderno, não muito surpresa, e o colocou onde estava, apenas limpando a camada de pó acumulada. Foi até a cozinha, colocou água em um copo até a metade. Vendo que estava meio cheio, despejou uma parte fora, na pia. Assim ficou perfeito. Bebeu. Depois pegou o notebook de Henrique, ligou-o e checou seus e-mails, pensativa. Esperava alguma coisa.

Notas finais
Aguardem ansiosos o próximo!