O Espelho da Ancestralidade
1 O Reflexo no Lago
O outono tingia os terrenos de Hogwarts com dourados e vermelho-ferrugem, enquanto o sol da tarde projetava sombras longas na grama. O lago negro, semelhante a uma joia escura, refletia o céu sereno. Sentada à margem, Luna Lovegood balançava preguiçosamente os pés descalços sobre a água. Seus cabelos prateados, movendo-se com a brisa, brilhavam sob a luz do sol como fios de luar.
"Adivinha quem é?" diz uma voz, claramente tentando — e falhando — esconder sua identidade com um tom mais grave e forçado.
Luna sorri, sonhadora, enquanto seus brincos de rabanete tilintam com o movimento. "Hmm..." murmura, inclinando a cabeça. "Pela tentativa adorável de disfarçar a voz, diria que é você, Cassian. Os Zonzóbulos ao seu redor têm uma assinatura única. Sabia que eles dançam de um jeito especial quando você está por perto?"
"Sempre perspicaz, senhorita Lovegood," Cassian responde com uma formalidade exagerada, deixando escapar uma risada enquanto senta ao lado dela. O aroma doce do outono paira no ar, misturando-se com o perfume cítrico que sempre acompanha Luna e a fragrância úmida que vem do lago.
Luna sorri, um som cristalino que ecoa sobre a água. "Oh, não seja tão formal, Cassian. Embora..." seus olhos azuis brilhando com diversão, "seja bastante divertido ver um você tentando soar tão pomposo quanto os fantasmas do castelo." Ela inclina-se ligeiramente em sua direção, baixando a voz como se compartilhasse um segredo. "Como você está? Os Narguilés não têm te incomodado muito, né? Eles ficam especialmente agitados nessa época do ano."
"Não muito," Cassian responde, seus olhos vagando pela superfície do lago, onde a Lula Gigante acabava de fazer surgir um novo conjunto de ondulações preguiçosas.
Luna o estuda com aquele olhar penetrante que parece enxergar além das palavras ditas. "Você parece preocupado," ela observa suavemente. "É por causa do espelho?"
Cassian deixa escapar um suspiro. "Preocupado não, só pensando," admite, sua voz carrega um tom de determinação. "Precisamos dar um jeito de entrar na seção reservada."
Luna sacode levemente a cabeça, seus olhos cor de névoa brilhando. "Você sabe que às vezes o caminho mais óbvio é o melhor. Talvez possamos pedir ajuda à Madame Pince?" — "Ela pode ser severa, mas tenho certeza que aprecia alunos genuinamente interessados em conhecimento." Um sorriso travesso surge em seus lábios. "Ou você prefere algo mais estilo Cassian?"
Cassian inclina-se para trás, apoiando-se nos cotovelos enquanto considera as palavras de Luna. "Acho que sem uma autorização explícita ela não vai nos deixar entrar."
Os grandes olhos azuis de Luna varre a área como se procurasse ouvintes indesejados. Aproxima-se mais de Cassian, e sussurra "E se usássemos um feitiço de confusão simples? Não para prejudicar ninguém, claro," sua voz soa animada e inocente. "Apenas o suficiente para desviar a atenção por alguns minutos."
"Tenho outra ideia,"
Luna encara Cassian com uma curiosidade genuína. Seus brincos de rabanete oscilam suavemente. "E qual seria essa ideia, Cassian?"
"Posso usar um feitiço que me deixa invisível, e me esconder lá até a hora de fechar."
Os olhos de Luna se arregalam ligeiramente. "Feitiço de invisibilidade?" sussurra. "Isso é magia bem avançada, Cassian."
"Sim, aí depois que estiver com a barra limpa podemos fuçar sem medo, mas o problema é" hesita um pouco, passando a mão pelos cabelos num gesto nervoso, "nunca usei-o em mais de uma pessoa ao mesmo tempo.”
Luna franze a testa pensativa, sacode a varinha distraída, fazendo um vento suave empurrar as folhas secas para longe. O sol começa a se pôr no horizonte, pintando o céu com tons de rosa e laranja que se refletem nas águas do lago. "Que tal fazermos em duas noites então?" ela sugere. "Você pode me ensinar o feitiço depois. Assim não corremos o risco de a magia falhar num momento crucial."
"É uma boa ideia sim, mas seria melhor agirmos juntos" O pôr do sol agora pinta o céu em tons cada vez mais profundos, e o reflexo no lago negro cria um espetáculo de cores que parece dançar na superfície da água.
Luna sorri, um leve rubor colorindo suas bochechas pálidas. "Eu gosto da ideia de irmos juntos" sua voz carrega aquela honestidade desarmante de sempre. "É mais seguro, e..." ela hesita por um momento, seus dedos agora brincando com uma mecha de seu cabelo prateado, "...mais divertido também."
"Claro," Cassian responde. "E sobre a Floresta dos Sonhos, você tem alguma teoria?’ — "Quanto mais penso, mais parece uma lenda"
Luna permanece em silêncio, seus olhos fixos no horizonte, onde o sol mergulha lentamente atrás das montanhas. "Tenho uma teoria," diz ela, sua voz adquirindo um tom quase etéreo. "A Floresta dos Sonhos pode ser um lugar onde sonhos e realidade se encontram, um ponto onde o véu que separa os dois é mais tênue. Talvez seja isso que a conecta ao Espelho da Ancestralidade." Os dois podem ter alguma relação com ver além do que é visível aos olhos comuns."
Cassian reflete por um momento sobre as palavras de Luna, seus olhos vagando pela superfície do lago que reflete as últimas luzes do crepúsculo. "Ver além do que é visível..." ele repete, sua voz baixa, pensativa. "Seria bom se as pessoas conseguissem fazer isso no mundo real também."
Luna vira o rosto para ele, curiosa. "Como assim?"
Ele suspira, gesticulando vagamente em direção ao castelo, onde as primeiras luzes começam a brilhar nas janelas. "Se pudessem ver além dos estereótipos, das aparências... não achariam que todos os Sonserinos são maus." Cassian hesita antes de continuar, sua voz carregada de uma emoção contida. "Você parece ser a única pessoa de fora da Sonserina que acredita nisso."
Luna vira seu rosto para ele, seus olhos azuis brilhando com uma intensidade que rivaliza com o último raio de sol no horizonte. "As pessoas costumam ver apenas o que esperam ver, Cassian," — "Eu prefiro ver o que realmente está lá." — "E o que eu vejo em você é alguém corajoso o suficiente para ser diferente, mesmo quando seria mais fácil não ser. Como um Testrálio entre unicórnios — igualmente magnífico, mas incompreendido por aqueles que não conseguem realmente ver sua beleza."
"Tem muitas pessoas lá na Sonserina que são boas, que só querem viver suas vidas." — "Mas o afastamento das outras casas torna-os mais vulneráveis a assédios dos mal-intencionados. É como se..." ele hesita, procurando as palavras certas, "como se o próprio isolamento nos empurrasse para as trevas."
Luna pega a mão de Cassian, seus dedos gelados apertam com carinho. "Você está certo," ela diz suavemente. "O isolamento só alimenta preconceitos dos dois lados. É como um ciclo que se perpetua"
"Você é uma das poucas pessoas fora da Sonserina que faria amizade comigo." Cassian admite.
"E você sabe por que eu sou sua única amiga fora da Sonserina, Cassian?" — . "Porque eu prefiro olhar além do óbvio, além da superfície."
"Sim," Cassian responde sorrindo, "e isso faz de você a melhor pessoa que já conheci."
Luna fica com o rosto levemente corado. Mas quando fala sua voz é firme e suave como sempre "Você também é um dos meus poucos amigos. Poucos querem ser vistos perto de Di-Lua Lovegood. — Luna sorri e uma leve mágoa surge em seu rosto, mesmo que por poucos segundos.
Cassian se deita na grama ainda aquecida pelo sol, repousando a cabeça no colo de Luna. Acima deles, as primeiras estrelas começam a pontuar o céu, brilhando como diamantes sobre o veludo da noite. A brisa suave do lago traz o aroma de água fresca e vegetação aquática. Os dedos de Luna deslizam pelos cabelos escuros de Cassian com uma ternura que parece congelar o tempo. Por um instante, o mundo além daquela margem do lago deixa de existir.
"Acho que seria mais fácil se eu tivesse ido para outra casa." Cassian murmura, seus olhos fixos no céu que escurece.
Luna continua o carinho em seus cabelos "O caminho que trilhamos é o que nos torna quem realmente somos, Cassian. A Sonserina é parte de você, assim como a Corvinal é parte de mim. Mas nenhuma casa define completamente quem somos."
Cassian respira lentamente, quase sonolento, sente o peso de seus pensamentos se dissipar um pouco. "Você realmente sabe usar as palavras certas"
Cassian se levanta e com um aceno preciso de sua varinha, remove as folhas e fragmentos de grama das roupas de ambos, o feitiço executado com a graça que só anos de prática podem proporcionar.
"E você realmente sabe usar a magia da maneira certa." Luna comenta rindo, levantando-se também. Seus olhos voltam-se para o céu, agora completamente escuro. "Acho que está na hora de entrarmos. O jantar deve estar sendo servido, e dizem que vai ter pudim de sobremesa." Seus olhos brilham com um prazer infantil à menção da sobremesa.
Caminham em silêncio até o castelo, seus passos ecoando suavemente pela grama úmida do orvalho que começa a se formar. O ar da noite está mais frio agora, carregando consigo aquela característica brisa outonal de Hogwarts. As luzes do castelo brilham acolhedoras à frente, como um farol guiando-os de volta à realidade.
O Salão Principal os recebe com seu costumeiro burburinho de vozes e o tilintar de talheres contra os pratos. O teto encantado acima espelha perfeitamente o céu que acabam de deixar, estrelas cintilando entre nuvens ocasionais.
"Nos vemos depois," Luna sussurra, seus olhos encontrando os de Cassian uma última vez antes de se dirigir à mesa da Corvinal, seus passos leves como sempre.
Cassian se dirige para a mesa da Sonserina. Enquanto caminha entre as mesas, carrega consigo o calor daquele momento compartilhado à beira do lago, um pequeno sorriso brincando em seus lábios. Talvez Luna esteja certa — algumas coisas precisam ser diferentes para serem especiais.
Fale com o autor