O Espelho De Plartya

1 O dia cinza mais brilhante de todos


Diante do horizonte, estava eu. Sentada na grama, ouvindo as formigas conversarem. Há alguns meses atrás, eu não estaria aqui onde estou. Sempre fui aquela menina tímida e sem amigos, como de qualquer história triste, sobre alguém que não teria felicidade na vida. Meu nome é Mirella Bardio. Todos me chamam – os que pelo menos sabem o meu nome – de Mi. Mi pra cá, Mi pra lá. Aquele tipo de apelido, que pra tocar instrumento é tedioso.

– Toque mi.

– Está me mandando tocar a nota mi, ou só me mandando tocar?

Esse gênero de confusão.

Meus cabelos são pretos. Algumas pessoas diriam negros, porém prefiro logo dizer que são pretos. Meus olhos são azuis, por incrível que pareça. Não acho que sou gorda. Mas também não sou um palito de fina. Acho meu nariz pequeno de mais, porém meus pais dizem ser perfeito para meu rosto. Estou rindo do que escrevi. Moro numa cidadezinha pacata, chamada Blanche, na França. É literalmente do lado do Reino Unido, se você atravessar um pedaço de mar, pode chegar lá. Falamos inglês e francês aqui, mas vim da Itália. Nasci lá, e com seis meses, vim para cá. Mas vamos lá, meus dedos já estão me pedindo para contar, e contar, e contar, e contar tudo à vocês.

Era uma quarta-feira. 16 de novembro do ano passado. Estava frio, como qualquer dia de novembro. Os dias de aulas já estavam acabando, mas eu preferiria faltar a ir à escola. Acordei as 6h, como sempre. Eu podia ver as finas gotas de chuva na minha janela. Coloquei minhas pantufas e fui tomar café. No corredor, já sentia o cheiro de pão na chapa, o meu favorito, e meu copo de leite com café.

– Bonjour! – que quer dizer bom dia em francês, disse minha mãe Caroline – Já preparei seu café, o que você mais gosta.

– Bonjour mãe, senti o cheirinho logo do corredor. Bom dia pai!

– Bom dia filha. – meu pai Franccesco me respondeu. Antes que você enlouqueça tentando descobrir como se diz o nome dele, é “frantchesco”.

Começamos a comer, ouvindo o leve barulho da chuva lá fora, e as batidas de pratos, copos e variados na mesa.

– Carol – como era o apelido da minha mãe – consegui uma boa parte do jornal para publicar minhas descobertas jornalísticas.

– Parabéns amor. – respondeu minha mãe, como se já soubesse o que iria acontecer

Minha mãe era professora, não na minha escola. Meu pai era jornalista. Terminei meu café, e olhei no relógio, a hora havia voado, ou um duende havia mexido nos ponteiros do relógio? Faltavam vinte minutos para a aula começar, e eu ainda estava de pijama e pantufas. Subi as escadas desvairadamente, entrei no meu quarto meio azul, meio branco, bati a porta e comecei a me trocar. Enquanto tentava enfiar a meia, o meu tênis já ia atrás, empurrando tudo. Enfiei a blusa no corpo, e coloquei minha calça jeans. Peguei meu gorro, e fui correndo escovar os dentes.

– Já está pronta? – uma voz abafada vinha do lado de fora do banheiro, era minha mãe

– Como você consegue ser tão rápida?

– Pare de falar e escove os dentes, Mirella!

– Hmmmmmfff... – murmurava para mim mesmo com pasta de dente na boca

Cuspi. Lavei meu rosto – com uma água gelada – e enxuguei-o. Abri a porta, peguei minha mochila, joguei no ombro e desci correndo as escadas.

– Tchau pai, tchau Oliver! – me esqueci de contar para vocês, mas tenho um gato branco, marrom e preto chamado Oliver.

Entrei no carro, e bati a porta. Alguns minutos de carro, observando a paisagem daquele dia cinza. Minha mãe parou na porta da escola, desci do carro, antes de fechar a porta, me despedi dela. Pronto, o inferno da manhã havia começado. Saí correndo, passei na portaria, quase caí no corredor, mas cheguei a tempo, meus “colegas” estavam entrando na classe ainda. Antes de virar na esquina do corredor da minha classe, me arrumei superficialmente, e vi através da janela que havia no fundo do corredor. Entrei na classe. Dezenove alunos. Todos falantes. E a aula de literatura começou, a minha preferida. Cynthia, a professora, começou seu pronunciamento:

– Bom... O professor Charlie quebrou a perna, e não virá por algum tempo. Vocês sairão mais cedo hoje da escola, só terão as minhas duas aulas de literatura, e as duas de matemática.

Ótimo. A primeira notícia boa do dia, sem querer ofender. Já estava vendo meus planos para essas duas horas que eu teria livre. Pensei em ir à biblioteca. Mas acho que meus “colegas” já haviam pensado em um lugar para eu ir.

– Acho que a Mirella vai ficar na sala, estudando, até amanhã! – risadas, e mais risadas. Graças ao chato da minha sala, Rodrigo. No começo eu ligava, mas aprendi a ignorar, e responder se fosse possível, mas nunca respondia. Mas algo dentro de mim me disse que eu podia confiar e dizer.

– Se isso foi uma piada, desista. Pra mim foi um elogio, só comprova o quão sou mais esperta que você.

Todos se calaram, e olharam para mim, todos com uma cara de surpresos e assustados ao mesmo tempo. Pensei que grudariam no meu pescoço, arrancariam meus braços, e bateriam em mim mesma com eles. Ou me tacariam batatas. Mas não, deram risada, e alguém disse:

– Tomou da excluída! – risos, e mais risos

Garanto que naquele dia, Rodrigo não deu nem mais um pio sobre qualquer um da classe.

Depois da aula, a chuva parou. Fui caminhando até a biblioteca. Meus sapatos ficaram um pouco molhados. Entrei.

– Olá Elizabeth, – como era o nome da bibliotecária – como vai você?

– Olá Mirella! Vou muito bem, lindo dia de chuva, não acha?

– Sim. Vou mergulhar nos livros, certo?

– Ah, claro! À vontade.

Corri. Passei os olhos nas prateleiras, reconhecia o pó de cada uma, de tantas vezes que já tinha entrado naquela biblioteca. Com meu delicado jeito de andar, tropecei, e caí numa prateleira. Ouvi o barulho de páginas se batendo e algo pesado caindo no chão de madeira.

– Acho que achei meu livro. – disse pra mim mesma

Peguei-o. A capa dizia “Plartya” e mais nada. Na parte de trás, havia apenas um relevo de um símbolo. Parecia um triângulo de cabeça para baixo com uns rabiscos regulares cobrindo-o.

Abri. Havia um espelho de verdade, grudado dentro do livro, na primeira folha. Havia alguns escritos, a mão. “Quem achou, por favor, cuide bem. Este não é um livro de biblioteca, leve o mais longe possível, e leia-o em segredo.” Fiquei assustada. Joguei-o dentro da mochila, e saí andando, nervosa, da biblioteca.

– Não vai levar nada hoje, Mirella?

– Não Elizabeth, obrigado!