O Espelho De Plartya

2 Um buraco sem fundo


Comecei a correr nas escadas para a calçada, que estavam molhadas, e quase levei um tombo. Segurei-me no corrimão. Dei um pulo na calçada, e senti meus pés formigarem pelo impacto. Ainda tinha uma hora para voltar. Fiquei pensativa, e procurando um lugar para sentar. Encontrei um banco em uma praça do outro lado da rua, ele estava molhado, mas eu lembrei que havia uma toalha dentro da minha mochila, caso eu fosse pega pela chuva. Enxuguei o banco, e me sentei. Nunca tinha percebido como aquela praça era linda. Havia uma fonte no meio, e várias árvores em volta. Peguei minha mochila, e respirei fundo. Peguei o livro. Senti a capa com cada dedo. Era couro. Cheirei. Tinha cheiro de cinto. Novamente observei “Plartya” na capa. Perguntava pra mim mesmo o que significava aquilo. Abri.

E lá estava a primeira página, com o espelho nela. Se alguém pegasse o livro e não abrisse, jamais notaria que havia um espelho lá dentro. Folheei as próximas páginas, todas em branco. Apenas a primeira havia algo. O espelho e o aviso. Toquei o espelho, nada acontecia. Percebi que havia algo no meu rosto e usei o espelho para ver. Tomei um susto. Não havia meu reflexo. O meu não, mas tudo que não havia sido construído, sim. Então toquei o espelho. Um fecho de luz tão estridente explodiu em meu rosto, e eu não pude ver nada, apenas ouvir o barulho de pequenos estouros, e meu corpo inteiro formigando, até sentir a queda em algum lugar molhado.

O que havia acontecido? Onde eu estava? Foi então que eu vi o livro jogado. Peguei-o, e misteriosamente algumas coisas apareceram na primeira página. Lembro-me bem o que eram.

“Você obedeceu às ordens. Não se assuste. Por favor, continue seu caminho para a luz.”

No momento, meu coração disparou. Pensei que iria ficar totalmente louca, e começar a falar com o vento. Bom, a não ser que ele conversasse comigo antes.

– Olá Mirella. – uma voz invadiu meus ouvidos – Por favor, fique calma.

– Onde você está? Como sabe meu nome?

– Uma pergunta por vez, mas acho que explicarei tudo. Meu nome é Finicci. Eu sou o vento. Toda brisa, toda ventania, todo furacão... Sou eu. Essa é a mágica de Plartya. – tentei falar, mas todo o ar de dentro de mim, não queria sair – Você foi escolhida. Nós estaremos do seu lado a partir de agora.

Minha respiração foi solta.

– Espere! O que é Plartya?

Nenhuma resposta.

– Você está aqui ainda?

Então senti uma brisa em meu rosto, e depois um vento mais forte. Que foi aumentando, e aumentando, e virou um vendaval, jogando meus cabelos no meu rosto. Algo muito forte começou a arrancar a cor do local, como se estivesse assoprando a chama de uma vela. O livro abriu na primeira página, e comecei a ser puxada para o espelho. Não consegui gritar, ou me segurar.

Acordei com dor nas costas, e percebi que estava caída na escada da biblioteca. Elizabeth chamava meu nome. Fui me recuperando e olhei no rosto dela.

– Mirella! Não corra em escadas, ainda mais molhadas! Você saiu correndo, escorregou e levou um tombo.

Foi tudo um sonho? Levantei-me, pedi desculpas à Elizabeth, e saí andando. Fiquei me perguntando até em casa, se aquilo havia sido apenas um sonho.

Cheguei em casa.

– Oi filha. Vai almoçar agora?

– Não mãe, obrigado.

Cheguei ao meu quarto, abri a mochila e o livro não estava mais lá. Mas, até a parte que eu o vi caindo no chão foi real, ou não?

Não entendi mais nada e fui dormir. Tive sonhos extraordinários, mas nenhum que lembrasse “O Espelho de Plartya”. Até que no meio da noite, senti muito frio. Abri os olhos, e vi que a janela estava aberta, o que era estranho, pois me lembro de fechá-la. Levantei para fechá-la, e uma brisa de inverno suave tocou meu rosto.

– Vá à praça – alguém sussurrou em meu ouvido – ache a árvore marcada com o símbolo de Plartya e cave em volta dela.

Levei um susto, achei que ia voar da janela. Gritei o mais alto que pude, e me joguei em cima da cama. Ouvi minha mãe subindo as escadas, e pensei no que falar.

– O que foi Mi?

– Tive um pesadelo mãe, me desculpe. – se eu dissesse “alguém me sussurrou sobre Plartya” as chances de eu ser internada em um hospital psiquiátrico seriam absurdas

– Ah filha... – ela se sentou na beirada da cama e pegou em minhas mãos – Quer que a mamãe durma com você?

– Obrigado mãe, mas já estou melhor. Um copo de água basta.

Minha mãe foi pegar o que pedi, e voltou para o seu quarto. Não dormi aquela noite. Pensando se o que eu havia ouvido era apenas loucura, ou havia algo na praça.

De manhã, acordei pra tomar café, e disse que iria a pé para a escola. Minha mãe concordou. E então fui, mas levei uma colher escondido. Acho que seria o suficiente para escavar um buraco na praça, e de qualquer jeito, nem imagino como levaria uma enxada em segredo.

Saí de casa, e logo senti uma leve brisa no rosto.

– Bom dia Mirella. – ouvi um sussurro no meu ouvido, mas ignorei – Você é uma menina educada, deveria responder.

Então parei, olhei para todos os lados, limpei os ouvidos com os dedos — que por sinal já haviam sido limpos por cotonetes esta manhã – e pensei que se respondesse no meio da rua, capaz de que não só me colocassem num hospital psiquiátrico, mas também colocassem uma camisa de força, e me amarrassem.

A praça estava à frente de meus olhos. Comecei a procurar a tal árvore com um símbolo. Não foi difícil encontrar. Era a mais grossa e extraordinária da praça. Ajoelhei, e comecei a cavar. No começo não achei nada, e estava quase desistindo, mas então a ponta da colher bateu em algo duro. Cavei em volta, e era uma caixa de madeira decorada com o mesmo símbolo da árvore, e da capa de trás do livro. Havia uma fechadura. E eu necessitava da chave, ótimo. Peguei a caixa, e enrolei na toalha que minha mãe havia colocado na minha mochila, já que eu havia usado a outra, e coloquei na mochila. Coloquei nas costas e saí andando, pensando o que ia acontecer agora. Até que me lembrei de ter esquecido a colher, voltei correndo, e tropecei no piso desnivelado pelas raízes das árvores. Olhei para a fonte. Havia um querubim soltando água pela boca, e em uma das mãos, ele segurava uma réplica de uma chave em pedra. Olhei bem para o piso, e vi que havia o “símbolo de Plartya” desenhado no chão. E justo naquele piso que havia tropeçado, havia o desenho de uma chave. Tentei puxar o piso pra cima, mas era muito pesado. Então vi uma barra de ferro na grama, peguei, enfiei debaixo do piso, e comecei a empurrar para baixo, tentando levantar. E então gelei quando ouvi uma voz grossa atrás de mim.

– O que pensa que está fazendo mocinha?