O Espelho De Plartya
4 Emaranhado de surpresas
Enquanto atravessava o espelho, era como se eu estivesse queimando, mas não ardia, nem era quente. Mas sentia algo passando por mim. E então caí de costas em um chão nem um pouco macio. Estava escuro, não pude ver muita coisa.
– Renan? – tossi por causa da poeira
– Mi! Estou aqui, venha. Você está com seu celular aí?
– Sim!
– Certo, pegue-o e use-o como lanterna. Já estou fazendo isso com o meu. Procure um ponto de luz, sou eu!
Busquei cegamente ao escuro, e encontrei. Saí correndo, mais tropecei em algo. Iluminei com o celular.
– RENAN! – soltei um grito estridente
– O que foi? – ele veio correndo na minha direção e iluminou
Eu havia tropeçado num esqueleto de alguém, provavelmente. Alguém mais baixinho que eu mesma.
– Como você acha que ele morreu?
– Esse lugar está fechado, deve ter ficado preso. Venha.
Ele me deu a mão, e saímos andando. Tentamos iluminar as paredes, mas eram muitas teias de aranha, e em alguns locais, algumas raízes de ervas-daninhas. Foi então que enxerguei, com muito esforço, algo que parecia uma alavanca. Era alta demais para eu alcançar sozinha, e demoraria até para que achássemos uma cadeira.
– Ali! Mas não alcanço.
– Suba no meu ombro, e tente puxar.
Pulei no ombro dele, e consegui alcançar. Puxei com toda a força, e um barulho extremo de terra se movendo estremeceu o local.
– Uma mesa aqui! Venha, parece que algo vai cair de lá de cima. – disse Renan, já me puxando
E ele estava certo. Uma chuva de terra caiu do teto, sobre tudo. A terra estava sendo segurada por uma rede, quando puxamos a alavanca, a rede estourou, e a terra caiu, destapando um vidro, que mais parecia um vitral. Luz, finalmente luz! Aquilo iluminou totalmente o salão, que parecia muito um tribunal dentro de um templo. Era um salão oval, com dois castiçais de vela, um em cada lado de uma mesa grande, com uma cadeira grande, que provavelmente era onde alguém importante sentou um dia. Havia um degrau, e essa mesa ficava mais alta que piso do salão. Perto das paredes, havia quatro outras mesas e outras quatro cadeiras para cada, um pouco menores que a maior mesa, que ficava no degrau. Uma mesa estava com aparência de que estivera afundada na água durante anos. Outra, como se houvesse sido queimada. Havia uma que estava suja por terra, e por fim, a última, que estava fora do lugar, como se um vendaval tivesse a empurrado.
Renan foi verificar a que parecia estar molhada, e eu, a desajustada. Passei a mão sobre a parte da frente da mesa que estava empoeirada, e havia um símbolo.
– Renan, venha ver! – veio imediatamente – Que símbolo é este?
– Não me é estranho... Ah sim, é o símbolo do ar! Dos quatro elementos.
– Veja se há nas outras mesas.
Ele correu para a queimada, e eu para a suja de terra.
– Essa aqui tem o símbolo do fogo! – gritou ele apontando para a mesa queimada
– E essa provavelmente a da terra, e aquela ali a da água!
– E a grande mesa?
Corremos os dois, e ele limpou a poeira. Era o símbolo de Plartya. Ele olhou para o piso, e saiu correndo. Abaixou, e tirou a terra e a poeira. Era um círculo dividido em quatro partes, cada uma com um símbolo de um elemento. Havia um relevo da Chave de Tarantum no meio de cada um. E no meio do círculo havia um vitral dentro de um cilindro. Parecia que estava apontando para cima. Olhamos os dois, e lá em cima, havia outro vitral, com bordas de ouro, e havia algo escrito, porém, numa língua que nenhum de nós já tínhamos visto.
– A mesa do Finicci deve ser aquela lá! – apontei para a mesa fora do lugar – É a mesa do elemento ar.
– Então deve haver outros quatros representantes dos elementos, não é?
– É a lógica... Mas, Plartya é um elemento?
– Provavelmente sim.
– Como saímos daqui? – respirei fundo
– Deve haver uma porta.
Revistamos, porém não achamos nada.
– Isso é horrível. Estamos presos aqui? – caminhei até a mesa do Finicci, me sentei na cadeira, e comecei a chorar – Nós teremos o mesmo fim que aquele cara ali. – apontei para o esqueleto que eu havia tropeçado
Então um vento entrou de sei lá onde, e parou perto da grande mesa, como se estivesse apenas naquele lugar. A poeira começou a subir, e algo começou a se formar. Era um homem, um homem parecido com um humano. Usava um casaco branco, uma calça jeans, e um tênis bege. Usava um capacete de piloto de avião. Ele era branco como a neve, e não parecia muito velho. Pulei da cadeira e agarrei no braço do Renan. Estava com medo, mas vi o pulso dele. Era o símbolo do ar. Corri ao encontro dele, e pulei no seu peito, gritando.
– Finicci! – uma lágrima escorreu dos meus olhos – É tão bom ver você. Como saímos?
– Olá Mirella, olá Renan.
– Como sabe meu nome? – perguntou Renan assustado
– Todos de Plartya sabem. Inclusive quem não deveria saber. – Finicci deu uma resposta breve
– Como assim Finicci? – perguntei assustada
– Isso já foi um tribunal. Naquela mesa queimada – apontou – sentava-se Varemon, o espírito do fogo. Naquela mesa manchada de água, sentava-se Yerilis, o espírito da água, ela era mulher. Ali, na mesa suja de terra, sentava-se Motraide, o espírito da terra, e ela também era mulher. E na mesa grande... Sentava-se Plujius. O deus de Plartya. Aqui tomávamos a maioria das decisões importantes para Plartya.
– E o que aconteceu?
– O forvênio Karanto. O irmão do Plujius. Ele tinha inveja de que seu irmão tinha o amor do povo de Plartya. Então, um dia, roubou o livro e a Chave de Tarantum, as duas coisas mais poderosas de toda a Plartya. Ele ainda possuía o colar de Órum, então se tornou mais forte que nós todos nós juntos. Então nos mandou para o mundo de vocês, e começou a governar Plartya. Antes de irmos, conseguimos jogar a chave de Tarantum e o livro pelo portal, mas caiu em lugares diferentes, e ele nos jogou um feitiço que não poderíamos jamais encostar no livro ou na chave. Mas havia uma falha nesse feitiço, se qualquer outra pessoa juntasse a chave com o livro novamente, nós estaríamos livres. O problema, é que eu não sei onde os outros estão. Cada um acabou caindo em um local diferente.
– O que é um forvênio? – perguntou Renan
– Forvênio, é o irmão de um deus-rei, cujo não conseguiu o amor da luz, e sim o amor das trevas.
– Karanto consegue ir para o nosso mundo?
– Sim. Com o tempo, ele acabou descobrindo outro espelho, que levava ao mundo de vocês. Porém lá, ele não consegue enxergar direito e nem ferir um de nós, espíritos ou deuses. Ele estava na cidade de vocês. Por isso tive que ir atrás de você.
– Só você pode sussurrar em ouvidos?
– Sim. – me senti aliviada
– E por que justo nós fomos os escolhidos?
– Vocês dois nasceram no mesmo momento em que o livro e a chave atravessaram o portal. O poder da chave se juntou à você, Renan. E o do livro, à você, Mirella.
– Em que dia você faz aniversário, Renan? – perguntei surpresa
– 3 de dezembro. E você?
– Também!
Nunca fiquei tão alegre!
– Tenho que contar uma coisa para vocês. O livro e a chave são como irmãos. E o poder de cada um foi para um de vocês...
– Quer dizer que nós somos irmãos? — Renan perguntou surpreso
– Sim. O poder entrou no sangue. Nesse momento, Plartya corre nas suas veias.
Estava realmente bom para ser verdade o meu momento apaixonada. Mas não foi nada ruim descobrir que éramos irmãos. Contentei-me com a verdade, e abracei-o.
– Isso é incrível. Ganhei uma amiga e uma irmã no mesmo dia. Obrigado por nascer no mesmo momento que eu, Mi.
– Vocês não queriam ir embora? – perguntou Finicci, rindo
– Ah sim! – respondi com uma cara um pouco sem jeito
Finicci nos chamou para dentro daquele círculo que havia no meio do salão, ficamos na parte do ar. Então os olhos dele ficaram azuis, e ele começou a sumir, e passou pelo relevo da chave de Tarantum, no piso. Então um furacão começou a se formar na sala, e tudo começou a sumir, fomos puxados para dentro do símbolo também, e caímos no chão do meu quarto.
O livro estava aberto em cima da minha cama, e eu estava com a chave de Tarantum na mão. Estava em uma página que antes estava em branco. Agora, havia algo escrito:
“Templo da Vida
É o tribunal de Plartya. Onde o deus Plujius, e os espíritos Yerilis, Motraide, Varemon e Finicci se encontram para discutir sobre a vida em Plartya. É o coração da magia plartyana. Onde a vida nasce de novo todos os dias.”
Abaixo do trecho, havia uma ilustração do tribunal limpo, com pessoas andando para lá e para cá, e uma porta aberta que mostrava um lindo jardim.
A campainha tocou, e minha mãe foi abrir a porta. Descemos um pouco a escada, e olhamos para ver quem era. Era um senhor careca, que usava cachecol, um paletó, uma calça de moletom e sapatos chiques. Não consegui ouvir tudo, mas a conversa era sobre uma vaga em uma escola. Então o homem entrou, mas trombou com a parede, como se não tivesse a visto, tirou o paletó, e eu literalmente gritei por dentro. Ele tinha o símbolo de Plartya no pulso.
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