O Espelho De Plartya

5 Tempestade de desespero


Notas iniciais
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Senti meu coração bater mais rápido. Muito mais rápido. Dei um cutucão no Renan, peguei-o pelo braço e o puxei para o quarto. Fechei a porta delicadamente, e a tranquei subitamente. Sentei na cama ao lado do Renan.

– Você viu também? – perguntei paralisada, olhando para meu mural de fotos na parede

– Sim.

Eu não tinha resposta, muito menos ele. Era como estar presa dentro de uma gaiola, dentro de um grande baú, dentro de um saco, dentro de uma caixa de vidro, dentro de um navio no fundo do mar. Não tinha saída. Ele estava aqui, e ninguém poderia se proteger.

– Ele veio buscar o livro e a chave Renan. Sabe onde eu moro, deve ter me seguido desde a praça. Precisamos ir para outro lugar.

Nesse momento, alguém tentou virar a maçaneta, mas a porta não se abriu, por glória de quem inventou a fechadura.

– Mirella, abra essa porta, não sei o que os dois estão fazendo nesse quarto, e espero que não seja nada para que eu possa te bater pela primeira vez.

Ah sim, nem minha mãe e nem meu pai nunca me bateram. Depois do que minha mãe disse, fiquei preocupada.

Levantei, e abri a porta.

– Viu? Não estamos fazendo nada de mais...

– E então por que trancaram a porta? – podia ver o sangue dela fervendo em seus olhos – Quero conversar com você ali no nosso quarto. – ela me pegou pelo braço, e bateu a porta


Renan ficou no meu quarto, sozinho. Já eu? Bom... Acabei levando a maior bronca da minha vida.

– Mirella Bardio! Você mal conhece o menino, e já chama ele pra vir na sua casa, pra ir no seu quarto... – ela aumentava o tom da voz cada vez mais

– Mas mãe, conheci-o o suficiente e não gosto dele! Talvez eu vá para a casa dele hoje e...

Ai. Apenas senti que minha cara ardia. Minha mãe não gostou nada do que ouviu, e virou um tapa na minha cara. Senti as lágrimas quentes escorrerem pelas minhas bochechas. Levantei, fui para o meu quarto, e tranquei a porta.

– Abre logo essa porta! Você que pense em não abrir, pois uma hora vai precisar e vou te bater pra nunca esquecer meu conselho! – ela batia, chutava, literalmente explodia a porta de raiva

– Mirella, melhor abrir, amanhã nos encontramos... – ele sussurrou cabisbaixo

– Talvez não tenha amanhã, Renan. Vamos fugir. Karanto sabe onde eu moro, e ele ainda tem o colar de Órum.

– Tem certeza disso?

– Talvez minha mãe entenda isso quando eu poder explicar.

Pulei da cama, puxei uma mochila do armário. Peguei algumas roupas e fechei-a. Deixei a luz acesa do meu quarto.

– Como vamos sair?

– Bom... Se tem uma coisa que aprendi muito bem lendo livros de ação, é como fugir! – dei uma risada irônica – Você com certeza vai achar um grande clichê... Mas pegue os lençóis. – ele riu – Amarre as pontas um nos outros.

Fiz o mesmo, e finalmente terminamos. Amarramos no pé da cama, e jogamos da janela. Ele desceu primeiro, levando o livro nos braços, e a chave de Tarantum no bolso. Desci depois, me despedindo com uma lágrima do meu quarto. Já estava entardecendo – puxa, passamos muito tempo em Plartya, e pelo jeito o mesmo tempo corria aqui na Terra também – e andávamos preocupados na calçada, como se alguém estivesse nos olhando o tempo todo.

– Karanto deve estar em algum lugar. – disse Renan, extremamente preocupado

– Seus pais não se importam de você sumir assim? Não tem perigo de ser sequestrado?

– Mirella, irei contar uma coisa. Isso pode parecer muito história, mas nunca quiseram o meu nascimento. Foi acidental. Eles me ignoram. Sempre fui criado por babás, e não tenho vontade de chama-los de “pais”. Dão-me presentes o tempo todo, achando que podem me fazer esquecer a vontade de ter o amor deles... Isso dói. – lembro-me bem de como foi ruim pra ele contar tudo isso

Acho clichê como o destino escolhe as pessoas mais desoladas, para terem uma reviravolta na vida. Pensei que isso era só de livros, mas vejo que não.

– Não te conheço nem há um dia. Aconteceu tudo muito rápido. Quando te vi hoje, senti confiança em você. E depois descobri que você era meu irmão... Ou quase. Não tenho amigos na escola. E pensando bem, nunca pensei em ter. Sou egoísta, sou estranha, não sou tão bonita quanto me descrevo. Eu faço isso, porque sempre falaram que sou feia, estranha, excluída. Tento mudar, achando que respondendo um valentão, eu seria amada e adorada. Mas sou retribuída com um “Tomou da excluída!”. Também dói.

– Nossas vidas são clichês. – ele riu, como se zombasse de nossa existência, e eu também ri, pois concordei

O vento parou de mexer as árvores, e os sons de qualquer animal se cessaram.

– Droga. Corra Mirella!

Saímos correndo, quando o poste que estava à nossa frente, bambaleou e soltou uma faísca da lâmpada, caindo ao chão, quase nos acertamos. Desviamos, e continuamos correndo.

Uma tempestade que já estava formada nos céus soltou um grito em forma de raio seguido de trovão, que balançou toda a cidade. Já não era mais duvidoso, Karanto estava na cidade.

– Nós não podemos ir para minha casa, ele está nos seguindo, vai nos pegar lá também! – disse Renan, ofegante

– Já sei onde podemos ir! Vire aqui!

Senti uma gota da chuva gelada cair sobre meu rosto, e depois várias outras elas começaram a vir com toda a força, explodindo na nossa pele, e no asfalto.

– Onde estamos indo? – perguntou Renan, que começou a ficar molhado pela chuva

– Pra biblioteca! Construíram um abrigo para furacões o ano retrasado, e creio que lá seja um bom lugar para nos escondermos, até pensarmos no que fazer

A tempestade só piorava. Agora um vendaval se misturava à pesada chuva. Vimos um clarão caindo na nossa frente, e fomos atirados para trás. Minha mochila voou em direção à outro pedaço da rua.

Aquela chuva árdua, que batia as janelas de todos os cidadãos da cidade, que revirava as folhas das árvores, parecia que estava aumentando.

Não vi muito nitidamente depois daquilo, fui cegada pela tempestade. Mas consegui avistar minha mochila, o que parecia um borrão. Mas estava mais preocupada com Renan.

– RENAN! ONDE ESTÁ VOCÊ? – eu gritava, com lágrimas e gotas misturadas no meu rosto

Vi um borrão, o que pensei ser ele. Corri, e vi seus olhos fechados. Ele estava desacordado.

– Renan! – solavanquei seus ombros – Acorde Renan! – dei um tapa no seu rosto

– O que houve?

– Não temos tempo, levante!

– Minha cabeça dói...

– A biblioteca está logo ali, seja forte, precisamos da mochila! Fique aí, sei onde ela está!

A tempestade realmente piorava a cada minuto. Ninguém precisava ser meteorologista para saber que aquilo não era uma simples tempestade. Eu lutava contra o vento, mas consegui novamente avistar o borrão-mochila. Peguei pela alça, e uma árvore que estava do meu lado foi arrancada pela raiz, convidando um poste para ser arremessada junto a ela. O poste de luz literalmente explodiu em faíscas, e a cidade inteira se apagou. Corri ao encontro do borrão-Renan. Começamos a caminhar para a biblioteca, e a tempestade se tornava muito, mas muito forte. A rua começou a inundar, e eu sabia que o único jeito de parar tudo isso, seria com uma ameaça.

– Pegue aquela pedra Renan! – ele caminhou e pegou

– O que está pensando em fazer? – ele gritava contra o vento

– Pegue a chave do seu bolso!

– Peguei!

– Coloque-a no chão e ameace tacar o tijolo! – ele fez – Karanto! Pare isso agora, ou nós vamos destruir a chave! Não temos medo algum de fazer isso!

Porém, a tempestade se agravou, e um gigantesco trovão nos derrubou.

– Não adiantou... Vamos ir para a biblioteca!

Algo atrás de nós veio vindo com uma velocidade incrível. Era um tornado. Ele nos puxou e empurrou, mas já estávamos na porta da biblioteca, que estava trancada. Começamos a bater desesperadamente, na esperança que Elizabeth ouvisse. Mas não, ninguém abriu.

– Precisamos entrar, ou morreremos! – Renan disse, gritando aos prantos

A porta era velha, e não aguentaria o furacão por muito tempo. Então eu a chutei, com toda a minha força, mas mesmo assim não abriu. Mas algo me surpreendeu. Um vento extremamente intenso arremessou um pedaço de uma árvore contra a porta. Renan me puxou a tempo, e a porta estourou. Entramos correndo, e percebemos que a biblioteca já estava sendo destelhada.

– Elizabeth? Elizabeth? – eu chamava a bibliotecária, gritando seu nome

– Mi... – Renan me virou

Lá estava ela. Nunca me esqueci da imagem. Lembro-me de detalhe por detalhe. Ela estava num canto da biblioteca. Seus óculos estavam longe. Havia uma grande, mas fina estaca de madeira enfincada no seu estômago. Provavelmente deve ter voado do teto, e a acertado. Mas o que mais me assustou, é o que estava escrito na parede, com sangue da pobre Elizabeth.

“Plartya agora é parte da sua vida.”

Ele matou Elizabeth. Mais um motivo para eu querer destruí-lo.

– MIRELLA! Onde é o abrigo?

– Aqui, nas escadas! – apontei – Vamos!

Enquanto descíamos, o tornado passou por cima da biblioteca, destruindo tudo. Todos os livros, sendo destruídos por uma tempestade. Lá embaixo da biblioteca, havia uma porta, que precisava ser empurrada com força, mas havia sido emperrada por uma viga de madeira.

– Não! Isso não! – Renan puxou a viga com toda a força que ele tinha, e empurrou a porta, deixando uma fresta para podermos passar

Entramos, e ele fechou a porta. O barulho da tempestade cessou. Lá dentro havia um pequeno gerador movido à gasolina. Haviam dois galões cheios, guardados. Pegamos e carregamos o gerador. A luz acendeu. Era um quartinho quadrado, com uma luz fraca. Mas o suficiente para sobrevivermos até tudo aquilo passar.

Eu só conseguia pensar nos meus pais e no meu gato. O que estaria acontecendo lá agora? Mas não tivemos muito tempo para nos acalmarmos. Um estrondo enorme vinha do outro lado da porta, e continuava. Até que ela estourou, voando contra algumas prateleiras. Lá estava ele, na porta. Karanto, em sua forma normal. Não era tão assustador como eu achava que ele pareceria.

A tempestade cessou.

– Olá Mirella. Olá Renan. Serei educado, certo? – ele sorriu ironicamente – Por favor. Entreguem-me o livro e a chave.

– Não. – Renan respondeu

– Não? – suas sobrancelhas franziram – Não? – ele repetiu, e riu – Ninguém me diz não.

Seus olhos começaram a ferver em vermelho, e ele começou a crescer, e sua face começou a mudar.

– Eu pedi educadamente. Eu realmente pedi. Mas vocês preferem do jeito ruim.

Ele começou a levitar, e tudo dentro daquele quartinho começou a ser revirado por uma tempestade que se formou. Ele começou a vir em nossa direção. Parou um pouco antes. Um clarão instantâneo explodiu de seus olhos e começou a vir em nossa direção.


Notas finais
Não esqueça de dar reviews!(comentários) É importante pra mim. :c