AAYRINE



Nasci numa família destroçada.

Não é intenção produzir alguma compaixão através deste fato. É algo que aconteceu. Nada nem ninguém poderia mudá-lo.

Tendo vivenciado o sofrimento de um aborto, meus pais não haviam inserido muitas esperanças naquela nova gravidez. Em meio à uma guerra, sujeita ao estresse e esgotamento físico, muitos achavam que a frágil Mistrel jamais teria aquela criança.

No entanto, eles se enganaram.

Terso Nacabi, vice-comandante da Guarda Real, havia se sacrificado para salvar um pequeno grupo de crianças, ameaçada por uma das tropas de humanos desprezíveis que haviam atacado nosso lar.

Não houve tempo para despedidas.

Assim como meu pai, os corpos de dezenas de heróis e guerreiros ficaram na superfície... juntamente dos sonhos e esperanças de toda uma raça.

E seu legado – a continuação de sua linhagem — foi aprisionado no subterrâneo, junto de todos aqueles que haviam salvado.

Foi ali, num ambiente inóspito e desconhecido, que Mistrel foi forçada a dar à luz sua única filha, a única recordação de um passado feliz.

Aayrine Nacabi.

O primeiro rosto que lembro de ter visto, ao contrário do que se esperaria, não foi o de minha exausta e radiante progenitora.

Recordo-me muito bem daquela imagem. Um rosto pequeno, redondo. A pele escamada, de um delicado tom de azul. Cabelos compridos, da cor do fogo. Um sorriso tímido de dentinhos afiados. Um dos olhos abertos, de um verde elétrico vivo. O outro, escondido sobre um curativo.

— Ela é tão pequena… — esganiçou-se impetuosamente a estranha criatura diante de mim, abrindo um amplo sorriso.

Outro rosto se aproximou. Identifiquei-a facilmente, pelo tom reconfortante de sua voz.

— É linda – vi o focinho da carneira se aproximar de mim, acariciando minha pele – é maravilhosa… tal como o pai.

— Posso segurá-la?

Outra pessoa surgiu ao longe em meu campo de visão, posicionando algo curioso, vítreo e brilhante, diante de nós duas.

— Olhe, querida…. — mamãe sussurrou, erguendo-me diante do espelho – esta é você.

E me vi pela primeira vez na vida.

Minúscula em comparação à monstra que me segurava no colo. Corpo rechonchudo, de pelagem caqui escura, e ralos tufos de cabelos dourados.

Até mesmo para uma recém-nascida, aquela era a coisa mais vulnerável do mundo.

Guinchei alto. A bebê no espelho fez o mesmo, abrindo a pequenina boca.

— Eu quero ver! — teimou a garotinha ao lado, batendo o pé.

— Ah… deixe-a segurar um pouco – sugeriu mamãe.

Fui transferida delicadamente para os bracinhos magros e trêmulos da monstra peixinha. Ela arrulhou, interagindo euforicamente comigo.

— Oi, Aayrine. Eu sou Undyne.

Ainda não sabia. Mas aquela criança de tapa-olho faria parte do meu destino…

E de um jeito mais extraordinário do que eu jamais poderia ter pensado.



Como filha de Terso, fui criada, desde cedo, para ser uma monstra tão forte e corajosa quanto ele havia sido.

Aos três anos, enquanto os demais monstrinhos ainda aprendiam a contar e brincar, eu já brandia meu primeiro espadim de madeira, e me divertia aprendendo todos os golpes que via durante os treinos matinais da Guarda Real, a poucos metros de nossa casa em Snowdin.

Aquilo era tudo para mim. Honra. Coragem. O som das armaduras. O brandir das armas. Toda aquela rigidez e disciplina me deslumbravam. Eu mal me sustentava em minhas patinhas, e já sonhava em, um dia, ter meu primeiro duelo com alguém.

Mistrel se preocupava. Por mais que a orgulhasse ver sua filha dedicando-se à isso, tinha medo do que meu entusiasmo poderia provocar. Como qualquer mãe, receava que eu me ferisse ou me decepcionasse. Temia – mais que tudo – que eu pudesse ter o mesmo destino de meu pai.

Mas nem ela poderia ter refreado a chama que queimava em meu peito. Me imaginava defendendo as leis e regras de nosso reino, protegendo os mais fracos, lutando à serviço do futuro regente, o jovem príncipe Asgore.

Aos quatro anos, aquele já era meu objetivo concludente. Eu me tornaria uma guerreira, não importava o que me custasse.

Portanto, eu só conseguia me ver junto de jovens que pensassem da mesma forma que eu.

Foi assim que conheci aqueles que se tornariam meus melhores amigos.

Eu gostava de Sans. Era um adolescente engraçado, embora um pouco preguiçoso. Tinha um irmãozinho, quase da minha idade, chamado Papyrus – que, assim como eu, queria também se tornar Guarda Real.

Dogamy e Dogaressa eram um par de amigos curiosos. Dois cachorrinhos que juravam ser como irmãos, mas que nitidamente tinham algo mais.

Dogão e Doguinho não eram muito inteligentes, compensando isso com uma alta dose de afetuosidade. Já Doggo era uma exata combinação de ternura e brutalidade – era a alma de brincadeirinhas quase violentas em nosso grupo.

Além deles, Drago e Reno, que apelidávamos carinhosamente de Guardas Reais Um e Dois, se juntavam de vez em quando ao nosso pequeno “batalhão”. Todos nós formávamos um grupo inusitado, cujas esperanças se moldavam como uma só.

Com a influência positiva deles, cresci cada vez mais convicta de que era aquilo que eu queria. Nós tínhamos um ideal em comum, que nos dedicaríamos a alcançar.

O sonho maior – a supremacia de todos os desejos do povo subterrâneo – era o de conquistarmos a liberdade, retornando para onde havia sido nosso lar. Destruirmos a barreira que nos prendia abaixo da terra, tirando todo o povo monstro de seu terrível cárcere.

E era com esse estímulo que mantínhamos a perseverança em nossos corações.

Se eu queria me mostrar digna de carregar o nome Nacabi, teria que me dedicar por inteiro àquela causa.

Ser imbatível. Incorruptível. Jamais fracassar. Lutar pela justiça.

De frente para o inimigo, eu jamais deveria demonstrar fraquezas. Cortar o mal pela raiz. Sem hesitação. Sem piedade.

No entanto, algo futuramente surgiria em meu caminho. Algo que mudaria para sempre meu modo de enxergar o futuro. Que poria à prova tudo aquilo que sempre havia sido palco de certezas em minha vida. Um monstro que me faria rever todas as coisas nas quais eu havia acreditado um dia, fazendo emergir emoções que eu jamais sonhara em sentir.

Nitch Buster.