O Enforcado

2 O reino das águias


Helena estaria mentindo se dissesse que não sentia falta de casa. Aquela área do Império Búlgaro era estranha... Já havia passado pelo litoral, onde o clima era quase quente demais – e onde, agora, se arrependia de não ter passado mais tempo explorando as praias e indo atrás das sereias que os locais diziam existir naquelas águas -, mas onde estava agora era frio, apesar de longe de ser o frio da Escócia no meio do inverno. E ela sentia falta daquele frio, daquela umidade e daquele cheiro de terra e mato.

Mas não podia voltar agora. Depois de quase seis meses – ou havia sido mais? -, não podia voltar para Hogwarts, mesmo já tendo muito material coletado em suas pesquisas, material suficiente para pelo um livro sobre tradições e práticas mágicas dos lugares por onde passara. Depois do Império Búlgaro, seu destino seria o Principado de Kiev, afinal, não iria viajar por todo o continente e não ir ver as florestas de bétulas sobre as quais seu pai falava ou os homens que dançavam com as espadas sem que estas nunca os tocassem.

Agora, no entanto, tinha aquele lugar. Que estava longe de ser as paisagens tão conhecidas de Alba, mas ainda continuavam belas, como a enorme montanha que avistava das margens da cidade onde estava se hospedando no momento.

“É o lar de um gigante,” disse a mulher do estalajadeiro na segunda manhã que passava ali, enquanto olhava pela janela do lugar e observava a paisagem. “Ele protege a cidade.”

“Um gigante?” Helena arqueou uma sobrancelha, mordendo o lábio inferior para não sorrir mais do que o necessário. Ainda não vira gigantes na sua viagem.

“Sim. O velho En,” a mulher – Blerina, se não estivesse enganada – explicou, apontando para a montanha. “Ele é casado com a Terra. Durante o dia, ela fica com a sua irmã, o Mar, mas a noite os ventos a levam de volta à casa de En. Do outro lado da cidade, é possível ver o Monte Shpirag. Lá mora outro gigante, Shpirag.”

“Muitos gigantes para uma cidade só, não?” A garota riu fraco. “Ele é casado com quem, esse Shpirag?”

“Com ninguém. Ele vive sozinho na sua montanha. Uma vez ele tentou tomar a cidade, mas En ficou sabendo e o enfrentou. Os dois ficaram terrivelmente feridos e a Terra levou En para a sua casa. O Rio Osum nasceu das lágrimas que ela derramou ao ver o marido tão machucado,” a mulher continuou, antes de suspirar. “Desde então, ele continua nos protegendo.”

“É uma bela história,” disse Helena. Uma bela história que, de certo, tinha algum fundo de verdade. Muitas das histórias que ouvira ao longo de sua viagem eram baseadas em seres ou pessoas mágicas, mas que, aos olhos trouxas, se tornavam figuras míticas.

“Com certeza, mas acho que uma moça como você não veio até Berat apenas para ouvir histórias de gigantes.” Blerina riu, recolhendo os pratos nos quais havia servido o café da manhã. “É difícil vermos gente de fora por aqui, mas aí você aparece, uma mocinha de... Nem sei da onde você veio, querida.”

“Alba,” ela falou, inconscientemente se encolhendo um pouco contra o batente da janela. Sabia que aquela mulher não era bruxa e nunca conheceria Rowena Ravenclaw, mas ainda era automático ficar com medo de dizer a sua origem e alguém a reconhecer.

“Alba... Isso é longe?”

“Muito. Do outro lado do continente, além do mar.”

“E o que você veio fazer nesse lado do mundo?” a mulher perguntou, rindo outra vez.

“Quero conhecer lugares novos, pessoas novas,” ela explicou.

“Uma menina bonita como você se arranjaria bem por aqui,” disse Blerina, voltando a se aproximar e arrumando melhor o xale ao redor da cabeça. “Rinor, o rapaz que a trouxe até aqui ontem, não tinha olhos para outra coisa a não ser você.”

Helena arqueou uma sobrancelha, encarando a mulher por um momento, antes de respirar fundo, desviando o olhar. Até ali...

“Infelizmente, não estou a procura de um marido, senhora,” a garota falou, tentando não soar rude, mas, depois de ouvir aquilo tantas vezes durante a sua viagem, aquele assunto estava começando a ficar cansativo.

“Já é casada?” Os olhos arregalados de Blerina deixavam evidente que ela se perguntava que tipo de marido deixava a esposa viajar sozinha.

“Sim,” disse Helena. Havia usado aquela mentira algumas vezes já, para escapar de maiores questionamentos. O bom de ter conhecidos homens sobre os quais sabia até que bastante coisa era que podia usá-los nessas mentirinhas. “Na verdade, ele é uma das razões para eu estar viajando. Estou... Indo encontrá-lo.”

“Oh, isso é ótimo. Deve estar sentindo falta dele, senhora...?”

“Belmis,” ela falou, sorrindo meio sem graça. “Helena Belmis.”

“É um belo nome. Ora, olhe eu aqui segurando a senhora,” disse Blerina, rindo e sacudindo a cabeça. “Espero que aproveite a cidade enquanto fica por aqui. Qualquer coisa, pode chamar por mim ou pelo meu marido.”

“Claro, muito obrigada, Senhora Yanev.”

Quando a mulher finalmente se afastou, voltando para a cozinha do estabelecimento, Helena permitiu-se olhar a montanha sobre a qual falavam antes. Era linda... Grande e com o topo esbranquiçado de neve. Aliás, se perguntava quando a neve viria ou se chegaria a vê-la naquela região a não ser no topo de montanhas.

Queria ir até lá. Queria subir aquela montanha e ver as árvores, ver as plantas que cresciam naquela área, ver os animais, procurar criaturas mágicas e, o mais importante, procurar pelo gigante da história que Blerina lhe contara. Talvez, se estivesse disposta, iria até o Monte Shpirag depois.

***

A cidade de Berat, vista de fora das muralhas da fortaleza, era estranha. Apesar de a estrutura a lembrar um pouco dos castelos e fortalezas escoceses, ainda havia algo diferente que ela não conseguia distinguir... Talvez fosse apenas a paisagem em volta, a falta da umidade e da aparência cinzenta de Alba.

De qualquer jeito, pouco antes do meio do dia, deixou a cidade e foi na direção da montanha do gigante. Caminhou parte do caminho, observando a paisagem em volta de si: tudo parecia um grande campo de um verde meio amarronzado, diferente do verde-musgo com o qual estava acostumada, e até mesmo o rio que passava ao pé da cidade tinha um aspecto meio lamacento.

Quando decidiu aparatar, já havia caminhado por pelo menos uma hora e, quando se viu parada no meio de uma floresta, achou que tivesse ido para o lugar errado. Teve que escalar uma árvore e olhar lá de cima, vendo os campos que vira de Berat, para reconhecer que estava na montanha do gigante. Ali parecia mais frio e o céu estava começando a nublar.

Não tinha idéia de quanto tempo ficou andando por entre as árvores, mas o céu começava a mudar de cor quando decidiu que, naquele dia, talvez não encontrasse o tal gigante da história. Mas havia encontrado diversas plantas que nunca vira na vida e, com cuidado, colhera algumas para estudar depois. Vira diversos animais também: ouvira o sibilar de cobras, tivera que subir em uma árvore para evitar um encontro com um javali e ouvira, ao longe, o que parecia ser os rosnados de um urso, o que a deixou mais alerta.

O que chamou a sua atenção, no entanto, foi uma raposa; de tudo o que achava que podia encontrar naquele lugar, não esperava ver uma raposa se esgueirando por entre as árvores, de certo caçando e tentando manter o silêncio. Apesar de adorável, ver o animal não a ajudou com todos os sentimentos que vinham lhe incomodando desde que chegara ao Império da Bulgária, aquela falta boba que sentia de Hogwarts e de Alba.

Decidiu voltar para Berat depois do encontro com o animalzinho. E o teria feito sem problema algum – o dia ainda estava claro – se, no meio do caminho, não tivesse parado um momento para olhar em volta e respirar fundo, sentindo o cheiro da floresta e ouvindo os sons que surgiam por entre as árvores.

Quando voltou a si, desconcentrando-se da floresta, percebeu que havia algo errado. Era como se os pássaros tivessem parado de cantar e os animais que talvez andassem pelas redondezas tivessem sumido. Tudo ficou imerso em um silêncio desconfortável, fazendo com que a garota ficasse com medo de se virar para olhar as pedras das quais havia acabado de pular para começar a descer a montanha.

Na verdade, não foi preciso se virar. Sentiu o ar quente bater em seu corpo, contrastando com o vento que havia esfriado durante a tarde, e o cheiro ruim que vinha com este, assim como ouviu o que parecia ser um leve sibilo. O mais silenciosamente possível, procurou pela varinha presa ao cinto e então, antes que a possibilidade de aparatar passasse pela sua cabeça, deu um pulo e virou-se, lançando o primeiro feitiço que lhe veio em mente – um feitiço estuporante – na coisa que estava atrás de si.

O feitiço não adiantou muito, apenas lhe deu tempo para ver o que era aquilo. Parecia uma serpente enorme, mas tinha pequenas pernas que faziam com que ela ainda arrastasse a barriga no chão. Nas costas, haviam pequenas asas que, de certo, não conseguiriam manter a criatura no ar, mas isso não era um problema: a imagem daquele dragão estranho de escamas verde-escuras e olhos amarelos era o suficiente para fazer qualquer um se assustar, mesmo que ele não pudesse voar.

O bicho pareceu confuso de inicio ao ser acertado no focinho pelo feitiço, mas logo se recuperou e abriu a boca, chiando para ela. Outro feitiço e nada do animal parecer afetado. Só então lembrou-se das histórias que seu pai contava: dragões tinham armaduras naturais, o couro deles era impenetrável por feitiços e as escamas protegiam de lâminas e flechas, mas ainda era possível derrotá-los se encontrasse um ponto mais macio no corpo deles (“Mas por que você iria quere matar um dragão, Helena?” seu pai perguntaria, é claro).

Sentiu algo batendo em seu corpo e, quando percebeu, havia ido parar no chão a alguns metros da criatura. Guardou a varinha, já que ela seria inútil, e enfiou a mão dentro da bolsa de couro que trazia consigo, sentindo a madeira de seu arco sob os dedos, mas não tinha certeza se conseguiria usá-lo com o dragão tão perto e a atacando com tanta ferocidade. Sentiu então o cabo da espada de seu pai e, respirando fundo, puxou-a.

Não queria usá-la, só a levara junto para tê-la por perto, mas não achava que aquela espada devia ser usada para lutas, afinal, seu pai nunca a usara para aquilo. Mas ali, cara a cara com um dragão, tudo o que pôde fazer foi descartar a bainha o mais rápido possível, a tempo de bater com a lâmina no focinho do bicho quando este tentou lhe dar o bote.

O dragão chiou mais alto, arreganhando os dentes para ela, antes de avançar de novo. Outra vez, bateu com a espada no focinho dele, agora com mais força, e viu que ele se encolheu inteiro. Quando a criatura deu a entender que daria outro bote, ergueu a espada e fez a única coisa que lhe veio em mente: gritou.

O animal pareceu surpreso, arregalando os olhos e a encarando como se ela fosse louca. Quando ele voltou a se esticar na sua direção, Helena repetiu o que havia feito e o dragão se afastou um pouco, empertigando-se e inclinando a cabeça enquanto a olhava.

“O que foi!?” ela gritou, sacudindo a espada na direção dele. “Sai daqui! Sai!”

Ele pareceu segurar o ar por um momento, antes de expirar meio entrecortado, quase como se... Como se estivesse rindo.

“Você não está rindo de mim, está?” perguntou, arqueando uma sobrancelha enquanto arriscava abaixar a espada e via o animal continuar com a sua risada gutural. “Não acredito nisso.”

Resmungando baixo, a bruxa se sentou em uma das pedras por entre as árvores, ainda observando o animal. Bom, pelo menos não precisara sujar a espada.

“Você ri,” ela murmurou, esticando a mão e invocando a bainha que estava caída no chão.

“Não é todo mundo que aparece aqui gritando e sacudindo uma espada.”

Helena pulou da pedra, voltando a segurar a arma com as duas mãos enquanto se virava para ver quem estava falando com ela. Com os olhos arregalados, viu um homem parado entre as árvores. Ele era velho, com o rosto cheio de rugas e uma barba cinzenta longa, presa no cinto. Conseguia perceber a magia dele. O som dela era como o som do vento assobiando pelas frestas de Hogwarts.

“Saia daqui,” ele falou, acenando para o dragão, que soltou um rosnado baixo, mas se apressou para se afastar. Ele era tão rápido que tudo o que Helena conseguiu ver foi a ponta do rabo do animal sumindo na copa de uma árvore. “As pessoas na cidade têm medo dele, mas não há com que se preocupar,” o homem falou, voltando a olhá-la. “Uma bruxa se aventurando por aqui... Isso é novidade. Achei que os bruxos haviam fugido dessas terras.”

“Por que eles teriam fugido?” perguntou, apreensiva, mas abaixando a espada.

“Desde que eu e Shpirag nos desentendemos, bom, outros bruxos evitam estar por aqui. Claro, há sempre bruxos e bruxas nascendo, mas eles não se arriscam a subir os montes, não quando há gente mais poderosa que eles por aqui,” o velho falou, encolhendo os ombros.

“Você e...? Espera, você é o gigante da história?”

“Eles gostam de dizer que somos gigantes, Shpirag e eu, mas somos apenas bruxos.” Ele riu. “Venha, está anoitecendo. Os drangues logo vão sair e até mesmo aquela bollur sabe que é melhor se esconder deles.”

“Os o que?” perguntou Helena, apesar de, inconscientemente, apressar o passo para segui-lo.

“Drangues. São criaturas meio humanas com asas e a força de mil homens. Eles arrancam árvores e atacam com elas. Gostam de matar bollurs, como a que você acabou de encontrar. E, como ela se distraiu com você, é capaz de um encontrá-la e, bom, você não quer ficar no meio de uma briga entre uma bollurs e um drangue.”

“Como posso saber que você não vai fazer nada contra mim?” a garota perguntou, parando de andar e estreitando os olhos para o velho, que apenas riu, antes de se aproximar em passos largos, segurando a mão de Helena. Era possível sentir a magia dele se esgueirando por entre os seus dedos e a sua indo na direção da mão dele.

“Lhe dando a minha besa,” ele falou. “Não vou lhe fazer mal. Você é minha convidada e, enquanto for assim, nada de ruim vai lhe acontecer vindo das minhas mãos.”

Sentiu um leve estalo da magia dele contra a sua, antes de o velho se afastar novamente, continuando a andar. Só agora percebera que havia anoitecido e o céu acima deles havia se tornado uma imensidão negra.

Helena deixou que o homem guiasse o caminho, já que ele parecia conhecer a montanha, mas isso não impediu que ela acabasse arranhada graças aos galhos das árvores ou que seu cabelo não ficasse cheio de folhas presas nos cachos. A floresta ao redor deles se encheu de sons: patinhas de animais ligeiros amassando a vegetação rasteira, pássaros cantando, insetos e seus barulhinhos...

“Não é grande, mas é melhor do que ficar na tempestade,” disse o velho quando finalmente chegaram no que parecia ser a entrada de uma caverna, mas que era fechada com uma porta de pedra a qual se abriu quando eles chegaram perto.

“Não acho que vá chover, senhor,” murmurou Helena, erguendo o rosto para olhar o céu. Estava nublado, sim, mas não parecia prestes a ter uma tempestade.

“Vai vir uma tempestade,” ele lhe assegurou e, assim que ela entrou, viu o que parecia ser um salão iluminado por tochas presas às paredes de pedra.

Era um lugar... Bonito, quando se considerava que estava escondido no meio de uma montanha. Haviam peles de animais sendo usadas como tapetes ou camas e poltronas, algumas penduradas nas paredes como estranhas tapeçarias junto com plantas que cresciam nas pedras, até mesmo algumas flores. No centro do salão havia uma fogueira e, sentada ao lado desta, uma mulher.

“Pensei que não viria,” a mulher falou, levantando-se e alisando o vestido branco que usava com um tipo de casaco longo por cima. Ela tinha cabelos curtos e tinha algumas rugas nos cantos dos olhos, os quais estreitou quando eles se aproximaram.

“Uma bollur encontrou essa moça no meio da floresta,” o velho falou.

“Ah... Espero que elas cheguem antes da chuva.” Ela observou Helena por um momento, antes de gesticular para ela se aproximar. “Venha para mais perto do fogo, criança.”

“Minha esposa, Luljeta,” o homem falou. “É uma bruxa também, minha querida.”

“Outra bruxa?” a mulher sorriu largo quando a garota terminou de se aproximar. “Isso é ótimo. Facilita para preparar a comida. E qual o seu nome?”

“Helena.”

“Helena, eu sou En,” o velho falou, sorrindo fraco. “Apesar de que já tem gente inventando nomes novos. Alguns me chamam de Tomor.”

A moça viu o casal se sentar ao redor da fogueira e acabou por fazer o mesmo. Olhando rapidamente para a entrada da caverna, que permanecia aberta, perguntou-se aonde estava a tal chuva que os dois esperavam com tanta convicção.

“O que traz você aqui, Helena?” perguntou Luljeta, acenando com as mãos e fazendo algumas vasilhas de madeira irem até eles flutuando.

“Estou viajando,” ela falou. “Pesquisando.”

“E vem da onde?”

“Do oeste.”

A mulher ergueu os olhos, observando-a por um momento antes de sorrir e sussurrar algo que ela não entendeu.

“Minha esposa disse que você deve ser da terra da Mulher Águia,” o velho falou, rindo suavemente.

Helena estremeceu ao ouvir aquilo, mas forçou-se a permanecer firme ali, apenas observando o casal.

“Mulher Águia?”

“Há alguns anos... Na verdade, já faz tempo até,” disse Luljeta. “Alguns viajantes começaram a contar a história de uma águia que se transformava em mulher. E, como já deve ter percebido, há muitas águias por aqui. Logo o povo adotou isso como algum tipo de história.”

“Nossas meninas ficaram fascinadas,” disse En, rindo. “Elas queriam porque queriam ser águias também, como a Shqiponja.”

“São bruxas também,” a mulher explicou, antes de sorrir pequeno e dar uma piscadela. “Elas conseguiram.”

“Suas filhas são... águias?”

“Se transformam em águias,” o homem explicou. “Passam o dia voando por ai, mas devem estar chegando.”

Ótimo. Águias. Animagos que se transformavam em águias. Tudo o que precisava para piorar o seu humor. A partir dali, ficou em silêncio, apenas ouvindo o que os dois falavam. Eles contavam sobre a cidade de Beret e os dragões chamados bullars, além de, volte meia, comentarem sobre o bruxo Shpirag com sua cabana no topo da montanha oposta e sua propensão a roubar ingredientes alheios de poções.

“Conte a ela a história das águias,” disse En.

“É uma história antiga daqui,” disse Luljeta enquanto continuava a preparar a comida. “Uma vez, um rapaz viu uma águia voando pelos campos com uma cobra na boca. Ele foi atrás dela, encontrando o ninho cheio de filhotes e a cobra morta que ela dera a eles.”

“Mas a cobra não estava morta,” o homem interrompeu, recebendo um olhar enviesado da esposa. “Quando a águia saiu de perto, a cobra abriu os olhos e picou um dos filhotes. O rapaz, assustado, subiu no ninho, matou a cobra e pegou o filhote para cuidar.”

“Vai me deixar contar?” a mulher perguntou, colocando as mãos na cintura e rindo. “Quando a águia voltou, estava desesperada atrás do filhote sumido e não descansou até encontrar o garoto, implorando para que ele lhe devolvesse o seu filho. Mas o rapaz dizia que ele não iria devolver, afinal, ela dera aos filhotes uma cobra ainda viva e havia sido ele quem cuidara para que o bichinho não morresse.”

“A águia disse, então, que se ele lhe devolvesse a sua criança, ela lhe daria a sua visão aguçada e a força de suas asas, assim ele se tornaria invencível e seria chamado pelo seu nome,” En continuou. “Ele lhe devolveu o filhote e, quando este cresceu, ele sempre acompanhou o rapaz, que virou o melhor caçador e guerreiro daquela terra, sempre com as águias o observando e o guiando. Ele foi escolhido para ser o rei do lugar agora chamado Shqipëria, o reino das águias, e passou a ser chamado Shqipëtar, o filho das águias.”

“Deixe-me adivinhar,” murmurou Helena, rindo sem humor. “Estamos em Shqipëria.”

“É claro.” A mulher riu e a garota se forçou a voltar a ficar em silêncio, ouvindo-os.

Foi só quando Luljeta entregou a cada um uma vasilha com o que parecia ser sopa que Helena saiu de seu silêncio, quase saltando ao ouvir o barulho de asas ecoar dentro da caverna. Em sua mente, viu Rowena Ravenclaw parada na entrada da caverna, séria como nunca, perguntando onde estava o seu diadema e dizendo que elas iriam para casa naquele exato momento.

Mas não foi Rowena quem viu quando se virou. Havia duas águias, sim, mas eram bem menores do que o animago de sua mãe e, quando se transformaram, viu duas moças de cabelos bagunçados que discutiam entre si algo sobre a floresta enquanto se aproximavam do fogo.

“Vimos um drangue,” disse uma das garotas enquanto se ocupava em puxar todo o cabelo castanho para a frente do ombro e trançá-lo rapidamente, antes de perceber a presença de Helena. “Estava sobrevoando os arredores.”

“Ele parecia atiçado,” a outra menina falou. Ela parecia mais nova e tinha os cabelos curtos como os da mãe e grandes olhos castanhos. “Quem é ela?”

“É uma convidada, o nome dela é Helena,” disse En. “Essas são minhas filhas, Thëllënza.” Ele apontou para a garota de cabelos longos e, depois, para a irmã desta. “E Rovena.”

***

Realmente, havia uma tempestade no lado de fora, mas não era chuva e sim neve. Era possível ouvir os trovões, mas tudo o que caía era neve, sendo levada para todos os lados pelo vento. Helena não se importava, só queria ir embora.

“Não pode sair assim, garota,” disse En, seguindo-a até a entrada da caverna.

“Preciso,” ela falou, antes de enfiar uma mão na bolsa de couro, puxando uma capa de lá de dentro e a vestindo. Não iria ajudar muito, mas não custava tentar se manter um pouco aquecida. “Até quando isso vai durar?”

“Até amanhecer, muito provavelmente.”

Respirando fundo, a bruxa voltou-se para olhá-lo. En parecia sério demais. Ele ficara assim desde que suas filhas chegaram, mas Helena não podia culpá-lo. Seu humor piorara de maneira absurda desde que conheceu as meninas, mesmo estas não tendo culpa alguma que a sombra de Rowena continuava a seguindo mesmo ali do outro lado do continente. E o velho percebera, é claro.

“Ouça o conselho de um velho, menina,” ele murmurou. “Fique aqui mais alguns dias. O ar aqui em cima é bom, ajuda a pensar. Posso lhe mostrar o resto da floresta, pode fazer muitas pesquisas por aqui. Posso lhe mostrar as águias...”

“Eu realmente não preciso ver mais águias,” a garota falou, antes de se amaldiçoar por soar tão rude.

“Claro que não,” o homem falou, sorrindo fraco. “Você cresceu sendo cuidada por uma.” Helena franziu o cenho, encarando o bruxo. Claro... Ele entrara em sua mente e nem percebera. Aquilo a fez se odiar ainda mais. Como podia deixar a mente tão aberta assim? “Vá, mas tome cuidado, criança. A tempestade de certo irá parar essa noite, mas continuará na noite que vem. Nós ficaremos aqui dentro, para evitar encontros indesejados, mas pode bater aqui se precisar de algo.”

“Certo... Muito obrigada pela comida,” Helena murmurou, fazendo uma leve reverência com a cabeça.

“Outra coisa, Helena: a história que minha esposa contou hoje, da águia e seu filhote?” En a chamou quando a garota havia acabado de pisar para fora da caverna. As palavras dele já se perdiam ao vento. “Toda águia daria qualquer coisa para ter seu filhote em segurança.”

***

A noite fora terrível. Quando conseguiu chegar em Berat, estava quase amanhecendo e estava coberta de neve e gelada. Conseguiu se esgueirar para o seu quarto na hospedaria sem que ninguém notasse, mas não conseguiu dormir. Tudo o que conseguiu fazer foi trocar de roupas e encolher-se na cama, tirando o diadema que escondia em sua bolsa e o segurando firme entre os dedos, olhando a águia esculpida no metal com seus olhinhos de pedra azul.

Parte de si queria ter coragem de jogar aquele diadema na parede quantas vezes fosse preciso até que ele quebrasse, mas outra queria apenas abraçá-lo em uma esperança boba de chamar a atenção de Rowena. Aquela segunda parte a irritava profundamente, mas era só isso que conseguia se forçar a fazer até amanhecer e conseguir olhar pela janela, vendo que a neve, na verdade, não chegara até o vilarejo, apesar de estar muito frio.

Forçando a si mesma a se arrumar, Helena voltou a guardar o diadema e suas coisas na bolsa. Iria embora do Império da Bulgária e daquele ‘reino das águias’, seguiria viagem para a Rus’ Kievana e depois... Depois veria o que iria fazer.

O plano era simples: dizer a Blerina Yanev que iria embora, seguiria em frente para encontrar o seu ‘marido’, e assim que saísse da cidade, procuraria o primeiro traço de magia que não fosse a de En e sua família e o seguiria até o bruxo mais próximo que pudesse lhe ajudar com uma chave-de-portal para lhe poupar uma aparatação muito longa.

Teria sido muito simples se não tivesse descido e encontrado uma Blerina sorridente demais.

“Não precisa se preocupar em viajar mais, querida!” A mulher sorriu mais largo, dando-lhe um tapinha nas costas enquanto a levava para o salão da hospedaria. “Seu marido a encontrou antes que precisasse se cansar mais com viagens.”

Já ia perguntar do que diabos a mulher estava falando quando viu um rosto conhecido e sentiu o ar faltar.

“Que merda está fazendo aqui?” perguntou em um sibilo, antes de desfazer o feitiço tradutor que sempre mantinha ao redor de si nas viagens.

“Aparentemente vim atrás da minha esposa, Lady Belmis,” disse o rapaz que estava sentado em uma das mesas, mas logo se levantou e andou até ela devagar. “Pelo menos é o que essa senhora parece achar que vir fazer.”

“Sua esposa deve estar em outro lugar então,” murmurou Helena, olhando de relance para Blerina, que os observava de olhos arregalados agora. “Aproveite a cidade,” disse, antes de tentar forçar passagem, mas sendo segurada pelo rapaz.

“Helena,” ele murmurou, sua voz parecendo mais suave agora. “Vim como amigo.”

“Um amigo a mando de quem, Sigfried?”

“Sua mãe está doente, Helena. Ela só quer lhe ver,” o bruxo falou e a garota puxou o braço do aperto dele.

“Vá embora.”

“Deixe de ser tão infantil, Helena!” Sigfried esbravejou. Ele já estava perdendo o controle. Talvez a viagem o tenha cansado demais para ele conseguir se manter calmo por mais tempo.

“Vá embora!” ela gritou, antes de esticar o braço e acertá-lo com o punho fechado logo abaixo do peito, vendo-o parecer perder o ar e cair no chão, gemendo. Um dia teria que agradecer a Godric por ensiná-la aquilo.

Blerina Yanev ficou estática o tempo inteiro, até mesmo quando a garota que hospedara por pouco tempo simplesmente sumiu da porta de sua casa.

***

E lá estava ela de novo na montanha de En. Ou pelo menos estava tentando chegar nela. Acabou aparatando no mesmo lugar do outro dia, ainda antes de começar a subir o monte, mas já dentro da floresta, no meio da neve. Não sabia se queria subir até En e sua família. Só queria fugir de Sigfried.

Foi uma hora, talvez um pouco mais, vagando por entre as árvores e tentando decidir o que faria. Sigfried dissera que sua mãe estava doente, mas quem garantia que ele não estava apenas tentando convencê-la de ir com ele? Ele era, afinal, um sonserino, e faria de tudo para alcançar os seus objetivos.

Voltou a tirar o diadema da bolsa, olhando-o com cuidado e traçando os entalhes no metal. Ele era lindo, sempre achara isso, e sua mãe ficava linda com ele. Fora quase uma decepção quando, ainda no início de sua viagem, o colocara e não vira diferença alguma, não sentira os pensamentos ficarem mais afiados como os de Rowena, não sentira nada e, ao olhar-se com ele, não vira nem sua mãe e nem a si mesma. Agora apenas o carregava sem razão alguma.

Sobressaltou-se ao ouvir um barulho baixo da neve sendo amassada, mas, ao olhar, era apenas uma raposa. Outra raposa. Essa parecendo curiosa, já que se aproximava, farejando, até chegar aos seus pés.

“Olá, pequena,” a garota murmurou, sorrindo fraco enquanto se abaixava e esticava uma mão para o animal cheirar. “Não está com frio?”

A raposa esfregou o rosto em seus dedos e a moça permitiu-se acariciar a cabeça dela, sentindo os olhos arderem. Não durou muito o seu pequeno momento de paz com o bichinho, já que este pareceu se alarmar com algo e correu para longe. Conseguia ouvir também passos por perto e não precisou olhar para saber quem era. Reconhecia aquela magia.

Levantando-se rapidamente, Helena foi até a árvore mais próxima. Era grande e o tronco forte tinha um buraco no meio. Sua reação imediata foi jogar o diadema ali dentro, antes de virar-se e ver Sigfried atrás de si.

“Helena,” ele falou, arfando e apertando de leve o ponto onde ela o socara. “Vamos voltar. Estou falando apenas a verdade quando digo que sua mãe está doente e só quer lhe ver.”

“Por que você?” a moça perguntou, sentindo um frio ruim surgir em seu estômago. “O que ela lhe ofereceu?”

“Nada, Helena. O que diabos ela poderia ter me oferecido?”

“Um casamento, talvez,” a bruxa murmurou. Sabia que Sigfried tinha uma certa esperança de que um dia ela fosse vê-lo como mais do que um amigo, mas, para si, aquilo era uma possibilidade horrível. Ela o conhecia desde criança e nunca passaram daquilo: bons amigos.

“Não seja tola,” o rapaz resmungou. “Sabe que ela não faria isso, caso contrário já estaria casada com aqueles homens que o Conselho mandou.”

“Então por que você?” ela repetiu a pergunta, ajeitando melhor a alça da bolsa no ombro.

“Porque eu a conheço e sou seu amigo, Helena. Ela achou que... Que talvez fosse mais fácil para você conversar comigo do que com Lord Gryffindor.” Bom, eles estavam enganados. Se fosse Godric ali, provavelmente já o teria abraçado ou algo assim. Sentia falta dele. Sem contar que Gryffindor era muito mais tranqüilo. “Vamos voltar, Helena, por favor. Não por mim, mas pela sua mãe e... Pelo seu pai. Lord Ravenclaw não gostaria de vê-las assim...”

A ardência em seus olhos ficou ainda mais forte e sua garganta pareceu fechar. Aquela parte de si que queria ficar agarrada ao diadema e que sentia falta de Alba estava falando mais alto outra vez, estava lhe dizendo para voltar para Hogwarts, para casa.

“Eu...” Helena murmurou, antes de respirar fundo. “Me dê um tempo para pensar.”

“Um tempo para pensar?” Sigfried repetiu, parecendo incrédulo. “Foram seis meses, Helena! Seis meses fugindo e se escondendo feito uma criança! E depois você se pergunta por que não a levam a sério. Você tem dezenove anos, Helena, já não é mais uma criança. Sabe o que dizem por ai? Que com dezenove anos sua mãe-“

“Eu não sou ela!” a garota gritou, sentindo sua magia crescer subitamente dentro de si e vendo o bruxo ser empurrado para longe, caindo na neve a alguns metros e parecendo surpreso. “Eu não sou a minha mãe! Meu nome é Helena e não Rowena! Pare de me comparar a ela, pare de dizer que eu tenho que fazer o que ela fazia com a minha idade! Eu já fiz tanta coisa nesses últimos seis meses, Sigfried, tanta coisa! Mas é claro que eu ainda não enfrentei o conselho, ainda não virei uma linda águia gigante, não desafiei toda sociedade bruxa e não fundei uma escola, então de que adianta, não?” ela continuou, rindo sem humor no final. “Eu não sou ela. Eu sou filha de Rowena e Thomas Ravenclaw, mas eu sou Helena. Não sou nenhum dos dois. E eu sei que estou longe de ser eles, não preciso de gente como você me lembrando disso!”

Quando terminou, sentia seu coração batendo com tanta força que tinha medo que ele pulasse de seu peito. Sua magia continuava em polvorosa enquanto via Sigfried se levantar com certa dificuldade.

E então tudo aconteceu muito rápido. Em um momento via o rapaz parado a alguns metros dela, olhando-a um tanto surpreso, e no outro sentiu o ar sumir de seus pulmões antes de cair de costas na neve. Quando foi se levantar, sentiu um peso sobre si impedindo-a de fazer aquilo e logo viu o bruxo ali, segurando-a no chão.

“Você é tão tola!” ele praticamente rosnou e, antes que ela pudesse usar magia, desferiu um tapa no rosto da garota, deixando-a atordoada o suficiente para confundir a magia dela. “Tão criança. Por isso que ninguém te leva a sério. Mas ninguém tem coragem de fazer algo porque você é filha de Rowena Ravenclaw.”

Helena arregalou os olhos ao sentir uma mão do rapaz apoiada em seu peito, impedindo que ela se levantasse. A garota forçou mais o corpo contra o dele e Sigfried pressionou o quadril contra o dela, mantendo-a imóvel. Ravenclaw sentiu as palmas das mãos suarem, o coração acelerara ainda mais e os olhos arderem.

“Você está louco!” ela gritou, tentando usar as mãos para afastá-lo, mas o máximo que conseguia era arranhar o rosto dele. “Sai daqui! Me larga!”

“Cala a boca, Helena,” o bruxo resmungou, antes de pressionar os lábios contra os dela.

Dizer que sentira vontade de vomitar não teria sido um exagero. Queria sair dali, queria se afastar dele e vomitar, queria se livrar da sensação dos lábios e das mãos dele, mas tudo o que conseguia fazer era se debater, já que sua magia ainda parecia abalada. Quando sentiu o peso do homem diminuir sobre si, a bruxa ergueu uma perna e acertou-o com o joelho na barriga. Helena o empurrou para longe de si e correu. Correu o máximo que a neve lhe permitia fazer, o que não foi muito, antes de sentir o peso de Sigfried em suas costas outra vez, mas agora era diferente.

Com um braço ele a segurava pelo pescoço, pressionando o próprio corpo contra as costas dela e a mantendo em pé. Mas a sensação de falta de ar causada pelo aperto em sua garganta não era nada quando comparada com a dor que surgiu no lado de seu corpo enquanto ele pressionava o que devia ser uma lâmina ali, empurrando-a o mais fundo que podia.

Helena abriu a boca, mas nenhum som saiu. Queria gritar por causa da dor e xingar e amaldiçoar, mas tudo o que conseguia fazer era arregalar os olhos e abrir e fechar a boca enquanto gemia baixinho com a dor. Quando sentiu a lâmina sair – e aquilo doeu ainda mais -, arfou forte e caiu na neve, levando uma mão até o lado do corpo e vendo os dedos voltarem ensangüentados.

“O que você fez?” ela sussurrou, percebendo que sua voz não conseguia sair muito mais alto que aquilo. “O que você fez!?”

Mas ele não respondia. Ouvia a respiração acelerada dele perto de si, mas não conseguia se virar para ver, antes de ouvir o som de passos abafados pela neve. O idiota havia fugido. Sigfried a esfaqueara e fugira.

Helena tentou se levantar, mas a dor no machucado a fez cair outra vez. Não sabia o que fazer, todos os possíveis feitiços que podiam ajudá-la fugiram de sua mente enquanto se arrastava pela neve, pressionando o machucado com os dedos e gemendo. Não demorou muito para perceber que estava difícil de respirar.

A cada inspiração, a dor começava a se espalhar para todo o seu peito, como se tudo lá dentro estivesse machucado. E não conseguia puxar o ar direito. Por mais fundo que inspirasse, era como se seus pulmões não se enchessem. E doía, como doía.

Quando não conseguiu mais agüentar o próprio peso apoiado em um braço, deixou-se cair no chão, sentindo o corpo afundar um pouco na neve enquanto se virava para olhar o céu. Iria morrer. Iria morrer longe de casa. Iria morrer por ser tola. Aquilo só a fez chorar mais e, por mais tola que parecesse, a única coisa que queria naquele momento eram seus pais. Queria o abraço confortável de seu pai e os sussurros baixos de sua mãe. Queria sua mãe, queria Rowena. Queria agarrar-se a ela como fazia quando tinha pesadelos quando pequena, queria ouvir a mulher chamá-la de ‘filhote’.

Fechou os dedos com força, mas o que sentiu foi apenas a neve gelada queimando-lhe a pele ao invés de o tecido dos vestidos de Rowena. Quando inspirou fundo, sentiu o cheiro de sangue e do vento da montanha, não o perfume de sua mãe. Sentia o corpo tremer com os soluços quando um calafrio percorreu o seu rosto. Algumas pessoas diziam que calafrios eram a morte... Talvez fosse a morte vindo buscá-la.

Se aquela era mesmo a morte, ela até deixaria que ela viesse se continuasse com aquele toque gentil em seu rosto que parecia até uma carícia delicada, como seu pai fazia nela e em sua mãe. E, enquanto fixava o olhar no céu cinzento e a atenção nos calafrios delicados, podia jurar que, por entre o vento da montanha, conseguia ouvir um leve som conhecido, tão delicado quanto a chuva, mas que a lembrava a primavera. Mas seria muita loucura alguém estar tocando uma harpa no meio daquela floresta.

Notas finais
1) Tomor / En: o Monte Tomorr, no sul da Albânia, é a representação da figura folclórica Tomor/Baba Tomor/En, que se acredita vir da mitologia ilírica e que segue firme e forte na Albânia até hoje. Tomor era um gigante casado com a Terra e com os ventos e duas (ou quatro) águias sempre ao seu dispor. Shpirag seria outro gigante, o inimigo de Tomor, e é representado por outra montanha, oposta ao Monte Tomorr. 2) Albânia e as Águias: o nome indígeno do país é Shqipëria, que significa "reino" ou "terra" das águias. A história desse nome vem do mito que Luljeta conta nesse capítulo, sobre o caçador que ganhou o auxílio das águias e acabou virando o chefe daquela terra. 3) Bollur / bolla: na mitologia albanesa, elas são uma fase intermediária da kulshedra, uma serpente da água/fogo/tempestades. O inimigo delas são os drangues, criaturas meio humanas e aladas. 4) Besa: uma promessa que não pode ser quebrada na cultura albanesa. 5) Alba: um nome gaélico da Escócia. "Rìoghachd na h-Alba" é "Reino de Alba", a Escócia entre 900 e 1286 D.C.