O Enforcado
3 O homem sem morte

Seu pai sempre falava sobre a vez em que sua mãe o levara para conhecer uma vila de wicings no leste, onde ele conhecera um local em que bruxos e trouxas conviviam em harmonia, onde os homens eram enormes e fortes e as mulheres, tão fortes quanto estes. Mas o que sempre a mais fascinara foram os dragões. Seu pai amava os dragões e não economizava palavras para falar deles: como eles eram belos, como era fácil ter medo deles, mas como também era fácil ficar fascinado.
Não era a primeira vez que via um dragão, é claro, mas era a primeira vez que via tantos dragões sendo tratados como animais de estimação. Havia vários deles, de diversas cores e formas, mas todos obedeciam os bruxos e trouxas que viviam naquela vila nas margens do Mar do Norte. Era um lugar bonito e frio, mas não podia arriscar muito tempo por ali. Ainda era muito perto de Alba.
“É muita gentileza, senhor, mas eu realmente não posso ficar,” disse Helena, sorrindo da maneira mais educada que conseguia enquanto observava o chefe da aldeia, que parecia não querer se convencer que ela tinha que partir logo. “Peço apenas a gentileza de poder ter um prato de comida e uma cama onde possa dormir por essa noite, pois preciso partir assim que o sol nascer.”
“Ora, minha cara.” O homem riu fraco, apoiando a cabeça na mão enquanto se ajeitava melhor em sua cadeira naquela sala que parecia quase como um salão comunal, onde todos os outros homens e mulheres se amontoavam para ouvi-la. “Não sei se seria bem uma gentileza. Mais como uma troca... Você vem da Bretanha e é uma das feiticeiras deles. Nós temos nossos feiticeiros aqui, mas poderíamos usar um pouco de seu conhecimento.”
“Isso com certeza não seria problema algum, senhor, mas eu realmente não posso ficar mais de um dia.”
“Não, não, não...” Ele sacudiu a cabeça, finalmente levantando-se e descendo os degraus de seu púlpito até estar parado na frente da garota. Helena se perguntava como ele conseguia andar com aquela capa de pele que parecia ser bem mais pesada do que qualquer capa ou vestido que ela já havia usado na vida. “Você veio até aqui e precisa trocar algo, minha cara. Uma noite apenas não é o suficiente.”
Ótimo. Aquilo significava que eles a estavam fazendo de prisioneira? Primeira parada depois de sair de Hogwarts e já estava sendo ameaçada.
“Senhor... Eu realmente gostaria de poder ficar mais, mas isso não é possível.” A moça endireitou a postura, tentando ficar um pouco mais alta. Sua mãe fazia isso. “Mas posso deixar livros ou... pergaminhos com algumas informações.”
“Você entende, minha cara, que nós temos colônias na sua ilha?”
“Sim. Já ouvi falar delas.”
“Naturalmente nós queremos expandir esse território, mas para isso é preciso ir contra algumas pessoas. Com as pessoas normais nós conseguimos lidar, o problema são alguns bruxos,” o homem falou, antes de suspirar pesadamente.
“Posso lhe garantir, senhor, que o seu interesse deve ser maior em locais trouxas do que bruxos,” disse Ravenclaw. “Lá nós ainda somos caçados e mortos por praticar magia, vivemos escondidos.” Ouviu-se um burburinho baixo surgir ao fundo entre as pessoas que os observavam. “Não há nada que possa lhe trazer... Riquezas entre os bruxos.”
“Até mesmo dentro do Conselho de vocês?”
Helena ficou um bom tempo encarando o chefe, antes de não conseguir se conter e soltar uma risada baixa.
“Você quer atacar o Conselho?” perguntou, antes de sacudir a cabeça. “Seria o equivalente bruxo a atacar o rei.”
“Nosso povo já fez isso.”
“Sim, quando a Bretanha tinha reis fracos e povos desorganizados,” disse Ravenclaw. “Nem eu mesma sei que tipo de magia de proteção o Conselho utiliza. Como disse, fico a disposição para lhe entregar todo e qualquer tipo de informação que eu possua até ir dormir essa noite. Depois disso, quando amanhecer, tenho que partir.”
“Minha cara, eu não quero ter que-“
“Eu posso simplesmente sumir daqui,” disse Helena, estufando o peito. “E aparecer em outro lugar.”
“A magia de desaparecer no ar?” Foi outra voz que falou dessa vez e, ao virar-se, a garota pôde ver uma senhora empurrando algumas pessoas até conseguir sair do meio da multidão e ir na direção deles, observando-a com cuidado. Chegava a ser um tanto incômodo, o jeito como ela a olhava e como a magia dela parecia ficar mais e mais evidente a cada segundo. “Halstein, acho que posso cuidar dela.”
“Isso é assunto do chefe, não de uma seidr,” disse outro homem, que saiu da multidão e se aproximou com passos largos, segurando o ombro da mulher e a puxando para longe, mas isso não durou muito, pois logo ele estava caído no chão a alguns metros deles.
“Encoste em mim outra vez, Ragnar Bergström, e eu uso seus olhos na próxima vez que precisar olhar o futuro.” A mulher falou, arqueando uma sobrancelha enquanto se apoiava melhor no cajado que carregava e, então, olhar para o chefe de novo. “Será que posso tomar conta da garota agora, Halstein?”
“Ela tem que ficar-“
“Acredito que ela realmente não tem o conhecimento que você quer, mas que pode me passar muitas informações interessantes em um dia apenas,” ela falou, sorrindo sutilmente e fazendo Halstein pressionar os lábios um contra o outro com força.
“Vá logo, suma da minha frente, mulher!” Ele abanou as mãos e deu-lhes as costas. “Mal espero o dia de sua volta para aquele fim do mundo...”
“E eu mal posso esperar para voltar para lá, meu amigo,” a mulher falou, apoiando uma mão no ombro de Helena e a guiando para fora da casa. “Vamos.”
A garota foi guiada pela vila até outra casa, tentando sempre manter o rosto erguido, apesar de não encontrar o olhar de ninguém. O lugar para onde foi levada era menor e mais estranho, com diversas coisas penduradas pelos cantos: penas, pedras, ossos, tecidos... Poderia passar dias ali se divertindo enquanto tentava descobrir as propriedades de tudo aquilo.
A mulher acenou para o que parecia ser um sofá improvisado de peles e tecidos, onde Helena foi se sentar, enquanto andava para lá e para cá, parecendo falar consigo mesma enquanto pegava algumas coisas.
“Não é todo mundo que conhece isso, a arte de desaparecer no ar,” a mulher falou, virando-se para olhá-la e, antes que Ravenclaw pudesse perceber, ela já havia sumido do outro lado do cômodo e reaparecido quase ao seu lado. “Meu nome é Helka, aliás.”
“Você certamente sabe,” disse Helena, arregalando os olhos. Em Hogwarts, isso já estava se tornando comum, mas sabia que fora da Bretanha, ainda era uma prática não tão conhecida. “Helena... Helena Belmis,” mentiu.
“Alguém me ensinou certa vez. Uma bruxa.Você me lembra muito ela,” ela falou, sorrindo fraco enquanto se sentava ao lado da moça. “Fala como ela e anda toda empertigada como ela quando quer intimidar alguém, mas os seus olhos são de outra pessoa.”
“Não tenho idéia do que a senhora quer dizer...” murmurou Helena, ajeitando-se melhor ali quando começou a se sentir desconfortável. Não era possível que logo ali iriam descobri-la.
“Não vou mandá-la de volta para Alba, se é isso que teme,” disse Helka. “Só estou comentando que você se parece com sua mãe. E com seu pai.” A bruxa olhou-a e riu. “Eu os conheci faz muito tempo. A última vez que os vi foi quando você ainda estava na barriga da sua mãe.”
“Isso faz tempo,” a garota murmurou.
“Percebe-se. Você tem o que... Dezoito anos?” a mulher perguntou, antes de sacudir um saquinho que trouxera consigo e estendê-lo para a outra. “Pegue uma.”
“Dezenove,” disse Helena, arqueando uma sobrancelha, mas não discutindo e enfiando os dedos no saquinho, tirando de lá uma pequena pedra com uma runa cravada em sua superfície. “Raidho.”
“Isso mesmo. Estudou elas?” Helka sorriu, pegando a pedrinha e a virando na mão enquanto entregava o saquinho para a garota.
“Meu pai estudou.”
“E o que significa?”
“Uma viagem, tomar conta de si mesmo... Coisas assim.”
“Uma viagem, sim. Uma que, pelo visto, você está iniciando agora,” a mulher falou, sorrindo de leve. “Você não quer ficar parada, pois já ficou muito tempo assim, e agora quer tomar suas próprias decisões e essa viagem está servindo para isso.”
“Se você sabe quem eu sou, isso não precisa de uma runa para ser visto,” murmurou Helena, se perguntando se seria assim para sempre: mencionar sua mãe e seu humor piorar. Esperava que não.
“Verdade, mas acho que com runa ou não, vale a pena lembrar que desse jeito você está agindo por conta própria. Suas ações não estão mais vinculadas a ninguém. Na verdade, elas já não estão mais ligadas a alguém faz algum tempo...” disse Helka. “O que você faz e o que acontece com você daqui para a frente é sua responsabilidade.”
Helena ficou em silêncio enquanto ouvia a bruxa falar, ocupando-se em brincar com as runas que estavam no saquinho que estava segurando. Se perguntava se aquela Helka já havia tentado adivinhar o futuro de sua mãe e qual fora a reação de Rowena com isso.
“Fiz isso uma vez com seus pais,” disse a mulher. “Acho que hoje posso dizer que elas disseram à sua mãe que você logo chegaria. E ao seu pai... Que ele estava começando a viver. Isso foi da primeira vez que li as runas para eles, quer dizer... Que eles tiraram as runas, mas sua mãe não me deu tempo de lê-las.”
“E a segunda?”
“Ambos pegaram Gebo... União, troca de favores ou presentes. Hoje acho que se sua mãe não tivesse me interrompido da primeira vez, essa runa já teria saído.”
“Casamento,” disse Helena.
“E seu pai ainda tirou uma Hagalaz.”
“Harmonia?” a garota perguntou, arqueando uma sobrancelha.
“Onde ele está hoje?” a mulher falou, fazendo Helena engolir em seco.
“Morto,” ela respondeu. “Morreu quando eu tinha dez anos.”
“Hagalaz também pode indicar uma perda ou crise,” Helka explicou. “Algo estagnado, algo preso ao passado... Como um fantasma.”
“A parte da perda está certa, mas não o resto.” A moça sorriu sem graça. “Ele não podia ficar aqui, estagnado como disse. Ele era um trouxa.”
“Ah... Eu bem que desconfiei,” a bruxa sussurrou, antes de pegar a bolsinha de runas de volta, fazendo com que Helena ficasse apenas com uma pedra, com a qual brincava, na mão. “Ora, ora... Vamos ver?”
Helka tirou a runa de sua mão com delicadeza e virou a pedra em sua mão, mas a expressão leve dela pareceu tremer por um segundo, antes dela sorrir de novo.
“Thurisaz. Algo forte, como uma tempestade. Talvez seja você mesma,” ela falou, sorrindo. “Algumas brigas e discussões...”
“Então uma viagem longa que vai vir com algumas brigas e discussões,” disse Helena, encolhendo os ombros. “Acho que eu tinha consciência disso quando saí decidi vir.”
***
Já haviam se passado alguns meses desde a última vez que vira alguém que a reconheceu – Helka, a bruxa da aldeia wicing que fora a sua primeira parada – e, apesar de ficar agradecida por ainda não ter encontrado Rowena Ravenclaw na sua frente e por, até agora, ninguém a ver como a ‘filha de Ravenclaw’, Helena tinha que admitir que sentia um pouco de falta de alguém conhecido. Começara a sentir isso quando passou um tempo no Reino da Hungria, onde as noites frias do inverno que se aproximava começaram a assombrá-la, fazendo-a perceber que não podia fazer como quando era pequena e ir se enfiar dentro das capas de seus pais ou pedir alguma bebida quente para Helga. Só ficou pior com o tempo.
Depois de passar um dia inteiro despistando um grupo de homens que não paravam de segui-la, ainda nos últimos dias na Hungria, Helena decidiu entrar na sua próxima parada como outra pessoa. Não Helena Belmis, a senhora que estava indo encontrar seu marido no Principado de Kiev, e muito menos Helena Ravenclaw, mas um rapaz qualquer.
Não foi difícil enfiar-se dentro de algumas roupas de seu pai que havia afanado na saída de Hogwarts, prender os cabelos e fingir ser um rapaz mais novo. Aquilo lhe dava mais liberdade na hora de andar pelas ruas, isentando-a da preocupação de ter homens atrás de si e facilitando o seu acesso a várias coisas: não precisava mentir sobre ser casada para pegar um quarto na estalagem, não precisava abaixar a cabeça para algum homem para evitar confusão, entre outras coisas. E era exatamente isso que queria enquanto estava em Constantinopla.
Já havia ouvido falar muito sobre aquela cidade, sobre a quantidade enorme de pessoas de diferentes lugares do mundo que se reuniam ali, sobre a arquitetura, a religião, o comércio, a magia... Era possível ouvir diversos tons de magia pelas ruas, era possível ver todos os tipos possíveis de objetos mágicos expostos ou escondidos, passando-se por coisas ordinárias.
Já havia encontrado, dentro da cidade, um mercado voltado apenas para o comércio mágico. Lá podia comprar varinhas feitas por artesãos, ingredientes de poções, animais mágicos, livros e pergaminhos de feitiços, amuletos, tapetes voadores, vassouras mágicas e uma infinidade de coisas que nunca pensou que fosse ver na vida, como máscaras mágicas aparentemente usadas para moças atraírem maridos, almofarizes voadores e pós feitos para proteção contra espíritos do fogo. Era lindo e enorme e completamente seguro: qualquer trouxa que entrasse naquela área sem permissão não veria nada a não ser um mercado comum, mas nada atrativo.
Acabou comprando para Helga um pote com terra do oriente, aparentemente boa para fertilizar a terra, e para Godric, uma pequena escultura de metal de um soldado bizantino que decidia correr para lá e para cá quando havia perigo por perto. Até mesmo para Siegfried acabou conseguindo algo: um broche com duas cobras de metal entrelaçadas uma a outra. Ele adorava tanto a sua casa e sempre parecia meio ressentido de não poder usar jóias que representassem a representavam, como seus colegas mais abastados. A garota não tinha idéia de quando iria voltar, mas esperava que aquelas coisas sobrevivessem o restante da viagem... E, se não voltasse, daria um jeito de enviá-las.
Mas talvez, o que lhe chamara mais a atenção, depois do mercado, fora a enorme catedral que se erguia no meio da cidade. Hagia Sophia, eles a chamavam. Santa Sabedoria. Helena só conseguiu tomar coragem de entrar nela depois de alguns bons dias estando na cidade.
Crescer com seu pai lhe ensinou que, se havia um poder maior que cuidava de tudo no mundo, esse poder estava em coisas como o sol, as plantas, o lago, a chuva... Thomas Ravenclaw lhe contava que da onde ele vinha, havia uma igreja onde alguém já havia entrado e roubado a prataria uma vez, mas que, na sua opinião, a coisa mais bonita lá dentro eram os reflexos das janelas no chão de pedra nos dias de sol. Mas, de acordo com ele, Hogwarts parecia servir mais de um templo para algo maior do que aquela igreja. Hogwarts com seus jardins onde cresciam tantas flores coloridas e belas, com seus vitrais que refletiam luzes coloridas nas pedras, com seu lago que brilhava como um segundo céu nas noites estreladas, com sua floresta que emanava magia e suas paredes que pareciam ter um coração batendo em algum lugar dentro delas. Seus pais sempre fizeram o castelo parecer um ser vivo e consciente de tudo, e Helena nunca duvidara que ele fosse assim mesmo, mas nunca encontrara outro lugar que lhe passasse tal sensação.
Mas pisar naquela catedral foi como sentir aquela veia de magia que sentia em Hogwarts, apesar de bem mais fraca. O lugar era enorme, com paredes altíssimas e decoradas com mosaicos de anjos e governantes. Em algum lugar de sua mente, considerou que Hogwarts deveria ter algo assim em algum canto. Mas tal pensamento logo ficou ofuscado pelo deslumbre que sentia enquanto observava o interior do lugar: o sol adentrava pelas janelas nos topos das paredes e cúpulas, lançando feixes de luzes para o interior que quase pareciam magia pura descendo do topo da catedral até tocar o chão com delicadeza, aqui e ali refletindo o brilho dourado dos mosaicos.
Agora entendia a razão de ter ficado receosa de entrar ali. Era como Hogwarts: enorme e imponente, um lugar que a fazia se sentir minúscula e inútil. Tudo o que podia fazer era erguer o rosto e observar as paredes e janelas e colunas. Ela era uma expectadora ali, assim como em Hogwarts. Tudo já estava pronto e ela podia apenas olhar de fora. Não que fosse horrível... Era lindo e, apesar de sentir-se pequena, ainda sentia-se importante por poder ter a oportunidade de ver algo tão belo e grandioso. Ela, uma bruxa dos confins de Alba e que seguia os princípios das religiões antigas, pisando em chão que era sagrado para aqueles que perseguiam gente como ela, que condenaram seus avós e quase mataram seu pai. E ainda assim era lindo e aquela beleza a fazia se perguntar como um deus que ajudava seus seguidores a construir algo tão belo e, de certa forma, puro conseguia punir como tamanha severidade aqueles que eram diferentes. A única conclusão que conseguiu chegar foi que aquele deus não podia inspirar algo como aquela catedral e depois ser tão cruel, as pessoas que entendiam as coisas erradas.
Helena não tinha idéia de quanto tempo ficou ali, mas só percebeu que havia se passado tempo demais quando os raios de sol começaram a desaparecer até o céu lá fora escurecer. E agora, durante a noite, só conseguia imaginar aquele teto encantado e estrelado do quarto de sua mãe ali... Seria lindo e ela poderia muito bem dormir no chão frio de pedra se pudesse ver aquilo de novo e sentir o conforto de ter o sono guardado por aquelas estrelas outra vez.
Mas não havia nenhum céu estrelado no teto da Hagia Sofia, apenas os mosaicos com seus anjos e imperadores e imperatrizes olhando-a lá de cima.
“Você devia ver isso,” ela murmurou, por fim, enquanto tentava achar forças para deixar a catedral, olhando tudo com a maior atenção possível para, um dia quem sabe, mostrar as memórias daquele lugar para sua mãe.
***
“Nós vimos um lugar parecido uma vez,” disse Thomas Ravenclaw enquanto andava pelo salão enorme e iluminado pelos feixes de luz que desciam da janelas. “Era menor, mas... De certa forma, parecido.”
“Pensei que fosse uma igreja de madeira que vocês viram quando visitaram a Rus.” Helena se aproximou devagar, sempre mantendo-se alguns passos atrás do pai. Tinha medo de que, se chegasse muito perto, ele simplesmente desaparecesse.
“Sim, mas vimos essa outra em um sonho... Ela era grande, não tão grande quanto esta, e colorida demais. Por dentro, parecia pequena. As cúpulas,” ele falou, apontando para o alto. “Cada uma de uma cor vistas de fora... E por dentro, um labirinto com todas as paredes pintadas do chão ao teto. Era mais fechada que essa aqui, bem mais fechada, mas era linda. Os cânticos ecoavam pelos corredores de um jeito quase assombroso.” Um sorriso curvou os lábios do homem, fazendo surgir rugas nos cantos dos seus olhos. “A sua harpa... Os entalhes foram tirados de lá.”
“Menos a águia e a raposa,” a garota murmurou.
“Menos elas.” O homem sorriu, virando-se para olhá-la. Ele parecia algo de outro mundo ali, parado logo abaixo de um dos feixes de luz e esticando uma mão para chamá-la.
“Queria poder ver,” disse Helena, andando até ele e esticando as mãos para segurar as dele. Elas estavam frias, mas isso não parecia importar, pois conseguia ouvir aquele leve som da harpa que sempre relacionava ao pai. “A do seu sonho e as de madeira.”
“Você vai ver as de madeira,” disse Thomas, sorrindo de leve. “E a outra... Quando voltar para casa, peça para sua mãe lhe mostrar.”
“Ela não vai-“
“Por que ela não mostraria?” O homem ergueu uma mão e acariciou com calma o rosto da bruxa. “Volte para casa, minha luz. Você sente falta de lá... E sua mãe sente sua falta mais do que qualquer coisa nesse mundo.”
“Não mais que a sua,” ela falou e o pai apenas riu fraco.
“O que é um homem para uma mulher perto da filha dela?” ele perguntou. “Absolutamente nada.”
“Mas você não é só um homem para ela. Vocês dois sempre foram... Um o outro.”
“Então o que somos de nós dois sem você, minha estrela?” O homem sorriu de leve, agora segurando o rosto da bruxa entre as mãos e o acariciando com os polegares. “Nós podíamos ter sido algo assim, mas depois de você? Não somos absolutamente nada sem a nossa luz.”
Helena observou o pai por um momento, antes de suspirar, levando uma mão para sobre a dele e sentindo os olhos arderem.
“Sinto sua falta,” ela murmurou. “Sinto falta de vocês dois.”
“Eu também, Helena... Sinto falta de vocês duas, minhas estrelas. Ainda posso vê-las, e deixe-me dizer que vocês continuam sendo as estrelas mais brilhantes do céu, mas sinto falta de estar com vocês.” Thomas suspirou, apoiando a testa na da filha e depois respirando fundo. “Volte para casa, estrela. Sua mãe precisa de você. Ela não vai impedi-la de sair depois, na verdade, ela vai empurrá-la até você ver tudo o que quiser. Mas agora... Tente voltar.”
“Acha que consigo apenas ver as igrejas de madeira antes?” a garota perguntou. “Estou tão perto agora...”
O homem a observou por um momento, antes de sorrir e acariciar-lhe o rosto de novo.
“Acho que sim.”
Helena continuou segurando a mão do pai quando este se afastou um pouco, apertando de leve os dedos dele como se não quisesse deixá-lo ir.
“Papa...?” ela chamou baixinho. “Por que nunca disse que você não era um bruxo?”
“Do mesmo jeito que o mundo trouxa não é muito gentil com bruxos, o mundo mágico não é gentil com gente como eu, Helena,” ele falou. “Nós tínhamos medo do que podia acontecer.”
“Ela podia ter me contado depois que você morreu...”
“Sua mãe a estava protegendo,” murmurou Thomas. “Ela a protege desde sempre, minha luz. E eu teria feito a mesma coisa com ela se ainda estivesse com vocês.”
Helena respirou fundo e apertou mais a mão do pai, sentindo um soluço querendo escapar de sua boca e conseguindo o segurar por alguns segundos, mas logo ele conseguiu sair, junto com uma lágrima que escapou de seus olhos.
“Eu amo você,” o homem murmurou, inclinando-se para beijar-lhe a testa enquanto a garota fechava os olhos para tentar sentir melhor aquilo. “Nós amamos você, nossa luz.”
A bruxa fechou os olhos com mais força quando sentiu outro soluço sacudir o seu corpo e, quando os abriu, tudo o que havia na sua frente era o teto da estalagem na qual estava passando a noite. Não havia Hagia Sofia outra vez e nem o toque delicado de seu pai. Tudo aquilo não passara de um sonho, como sempre.
Sentando-se na cama enquanto tentava enxugar o rosto, a moça puxou a bolsa que deixava pendurada na cama e a abriu. Enfiou a mão lá dentro e logo puxou o diadema de sua mãe. Ele continuava belo e delicado e Helena continuava com medo de colocá-lo na cabeça.
Deslizou um dedo pela águia esculpida no metal e pela safira no olho desta, lembrando-se de como, quando pequena, achava que sua mãe era a figura mais bela que existia naquele mundo quando a via com aquele diadema. Rowena Ravenclaw com seus belos vestidos e cabelos bem penteados, com o diadema na cabeça, e com seu pai ao lado dela, também bem arrumado e sorridente... Aquela era uma imagem que merecia um mosaico como os da catedral.
Suspirando pesadamente, a garota voltou a guardar o diadema na bolsa, antes de levantar-se da cama. Havia perdido completamente o sono.
Arrumou melhor as roupas para ficarem mais largas no corpo – era sempre bom fingir que as roupas eram maiores enquanto se passava por rapaz, nunca sabia se o feitiço que lançara na camisa de baixo realmente funcionava bem para manter seu peito mais parecido com o de um homem – e prendeu o cabelo, antes de pegar sua bolsa e sair do quarto. Não tinha idéia de para onde ia ou se iria voltar para a estalagem depois. Só queria andar.
E depois de talvez duas horas caminhando pelas ruas da cidade observando os transeuntes e de vez em quando parando para ouvir histórias, acabou se encontrando parada em cima de uma pequena barreira, observando o mar e algumas embarcações que estavam por ali, todas iluminadas pela lua cheia. Seu pai sempre dizia que se sentia imponente diante do mar, mas, mesmo assim, o amava.
“Também em busca de um pouco de silêncio?”
A garota deu um pulo e teve que esticar os braços e balancear o peso do corpo para não se desequilibrar e cair na água. Quando se virou, ofegante com o susto, encontrou um homem sentado na mureta, com os pés balançando acima das leves ondas que perturbavam a água escura. Ele tinha cabelos e olhos negros, um rosto que parecia ser moldado pelas sombras e parecia impossível determinar-lhe uma idade: de certo ângulo, parecia mais velho, mas de outro, parecia quase um rapaz novinho. As roupas eram diferentes das que via pelas ruas de Constantinopla e eram completamente negras, salvo por alguns bordados em prata que pareciam brilhar sob a luz da lua.
“Nunca morei em uma cidade grande como esta,” disse Helena, antes de suspirar e sentar-se no muro também. “Sinto falta do silêncio e do som da floresta.”
“Não está sozinho nisso. Sinto falta do vento assobiando e dos lobos uivando a noite,” ele falou, erguendo o rosto para olhar o céu. As estrelas eram visíveis, mas não era a mesma coisa que vê-las em Alba. “Até o céu parece estranho quando sentimos falta de casa.”
“Está muito longe?”
“A julgar pelo jeito que fala, estou mais perto da minha casa do que você da sua.” Ele sorriu de lado. “Gosto como feitiços de tradução conseguem nos ajudar a entender uns aos outros, mas ainda assim não vencem os sotaques. E o seu é de longe.”
“Verdade,” ela murmurou, só então percebendo aquele detalhe. Já havia percebido diversos sotaques diferentes durante sua viagem, mas nunca prestara atenção no fato de que o feitiço de tradução parecia falhar na hora de melhorar isso. Aquele homem, por exemplo, falava bem estranho, quase como se o inglês lutasse para sair de sua boca.
“Pode me chamar de Koschei Bessmertny,” o homem falou, fazendo uma leve reverência com a cabeça. “E o senhor?”
“Feliks,” disse Helena, prontamente. Por sorte, aquele nome falso já havia se tornado conhecido de sua língua.
“Feliks o que?”
“Apenas Feliks.” A garota sorriu, batendo de leve os calcanhares no muro.
“Sabe, apenas Feliks,” disse Koschei, estalando a língua e parecendo se conter para não rir. “Você pode enganar várias pessoas, mas alguém que já está vivo a algumas centenas de anos não pode ser enganado tão fácil.”
“Como é?” A bruxa arregalou os olhos.
“Ou você é um rapaz muito novinho e muito alto, ou tinha uma voz muito bela que decidiram mantê-lo assim para sempre... Ou é uma moça,” o homem murmurou. “Aposto mais na última opção. Eu sou bom em reconhecer moças... Principalmente aquelas mais brilhantes.”
“Está tentando me cortejar, senhor?” Helena perguntou, arqueando uma sobrancelha.
“De maneira alguma, devushka.” Ele riu, inclinando-se mais para trás e apoiando-se em suas mãos atrás do corpo.
“Devushka?”
“Ah, esses feitiços de tradução.” Koschei riu. “Significa ‘garota’.”
A bruxa franziu um pouco o cenho, antes de olhar o mar de novo. Mas tal observação não durou muito tempo e logo estava com os olhos grudados no estranho outra vez.
“Da onde você vem?”
“Do leste,” disse Koschei. “De um lugar onde o frio congela o sangue dentro das veias dos homens, mas que ainda é tão belo que qualquer um se arriscaria para ver os seus campos de neve e suas florestas de bétulas.”
“Bétulas?” A garota endireitou-se melhor para ouvi-lo.
“Sim. Nossas bétulas...” Ele suspirou e seu olhar pareceu vago por um instante, antes de voltar a se focar em Helena. “A ilha de Buyan, mais especificamente.”
“Onde fica?”
“Se procurar direito, a encontrará em algum lugar no meio do maior lago do mundo.” O homem deu uma piscadela e riu baixinho.
“Está fazendo um péssimo trabalho não escondendo um flerte...”
“Ah, devushka, queria eu poder fazer isso com você.” Ele suspirou pesadamente. “Mas cada um tem o seu destino e o meu implica em não ter futuro algum com alguém como você. Por isso nem tento.”
“Ora, destino não funciona assim...”
“Quando você já viveu tanto quanto eu, quando suas vidas já se repetiram tanto, você vê que sim, o destino funciona assim. Ele pode mudar alguns detalhes, como o seu nome ou onde você nasceu ou como você irá morrer, mas muitas coisas são iguais, mesmo que apenas até certo ponto,” Koschei explicou, parecendo ficar sério. “Nossas vidas são como contos que se repetem cada vez que são contados, mas sempre tem alguém que muda um detalhe ou outro... A base, no entanto, sempre será a mesma.”
“Você diz sobre viver demais... Mas você-“
“Sou muito mais velho do que pareço, devushka.” Ele sorriu fraco. “Sou um dos primeiros da minha terra e com certeza continuarei vendo os filhos dela daqui muitos e muitos anos.”
“Como...?”
“Isso é um segredo,” o homem murmurou. “Mas não está no seu destino descobrir ele.”
“Por que não?”
“Porque você é a menina do oeste que se veste de rapaz para conseguir conhecer mais do mundo,” disse Koschei. “As meninas destinadas a descobrir o meu segredo são aquelas que irão liderar exércitos e serem chamadas de rainhas na minha terra. Não estou dizendo que você não pode fazer algo parecido um dia! Mas as moças que descobrirão o meu segredo são moças da minha terra, as moças que vão erguer uma espada contra mim e me prender em masmorras até outro amante delas me encontrar e me libertar por acidente.”
“Como é?”
“É o destino, devushka. A base do meu destino consiste em algumas figuras: a rainha, o amante e outras princesas,” ele explicou. “As princesas se repetem com mais freqüência, mas de anos em anos a rainha reaparece, junto com o amante, e tudo recomeça. Uma pessoa normal morreria depois da primeira vez, mas, como disse, eu já vivi demais.”
“Isso não faz muito sentido, desculpe,” murmurou Helena, franzindo o cenho enquanto tentava imaginar uma rainha prendendo aquele homem em algum porão escuro.
“Faz depois de um tempo.” Ele sorriu, parecendo quase triste. “Agora, será que posso perguntar o seu verdadeiro nome, Feliks?”
A garota o encarou por um tempo, antes de suspirar.
“É Helena, Helena Ravenclaw,” ela confessou.
“É um belo nome...” ele murmurou, inclinando a cabeça enquanto a observava com cuidado. “Yelena. Conheci muitas Yelenas.”
“Princesas os rainhas?”
“Yelenas são princesas, assim como as Vasilisas. Maryas são as rainhas.” Ele piscou um olho para ela. “Mas minhas Yelenas todas tinham cabelos claros ou vermelhos, assim como as Vasilisas. As Maryas, no entanto, tinham os cabelos negros como uma noite sem estrelas.”
“A julgar pelo modo como fala, você prefere as Maryas e seus cabelos negros,” a garota falou, sorrindo de lado.
“Elas são mais perigosas e eu acabo não resistindo, infelizmente.”
“Já tentou a sorte com alguma moça que não seja uma Marya, uma Yelena ou uma Vasilisa?”
“Não. Quero dizer... Não foi tentar a sorte, eu não me apaixonei e nem a queria por perto como minha tsarina,” disse Koschei, olhando o mar de novo e deixando um sorriso perdido aparecer em seu rosto. “Mas uma vez houve uma moça de cabelos escuros como a noite e olhos claros como estrelas. Ela não era uma Marya, apesar de lembrar uma. Ela era como eu e como você, havia magia nela. E ela tinha um marido, eu me lembro dele também... Criaturinha teimosa.”
O homem respirou fundo, fechando os olhos por um momento como se saboreasse a brisa vinda do mar, antes de abri-los e olhar o céu.
“Houve um acidente com magia, algum experimento que deu errado, e a vida dela ficou por um fio,” ele explicou. “Não sei como essas coisas funcionam com vocês, mas da onde eu venho... As almas que ficam assim, entre a vida e a morte, ficam em Buyan-“
“Como? Almas não funcionam assim... Quero dizer, almas não são coisas palpáveis ou que possam andar por aí,” disse Helena.
“Como eu disse: não sei como as coisas funcionam com vocês, mas lá é assim,” ele falou, sério. “Buyan não está nem aqui e nem ali, ela se esconde por entre os véus da realidade. Talvez seja por isso que as almas vão para lá... Uma vez em Buyan, elas podem se recuperar e voltar ou seguir em frente. Isso depende do estado delas. O problema é que algumas se esquecem do que houve e, mesmo estando fortes, não conseguem achar o caminho de volta para a vida.”
“E o que acontece com elas?”
“Elas acabam indo de encontro à morte, pois assim é mais fácil, menos dolorido do que ficar perdido entre dois mundos, sem viver e sem morrer, sem entender o que está acontecendo...” explicou Koschei. “Morrer não é difícil, devushka.”
“Essa moça... Ela estava muito fraca para voltar?”
“Não, ela era uma alma forte. Emanava força e magia, mas não se lembrava de nada,” ele falou. “Ela ficou em Buyan um bom tempo, não queria desistir e se entregar. Enquanto isso, o marido teimoso não se conformava com o que havia acontecido... Até hoje eu não sei como, mas ele chegou em Buyan. Apareceu pingando a água gelada do lago e procurando pela esposa.”
“Ele a encontrou?” perguntou Helena, arregalando os olhos.
“Ah, encontrou. Ele a encontrou e a abraçou até ambos estarem encharcados e gelados, murmurou várias coisas no ouvido dela e beijou-lhe o rosto e, quando todos já achavam que teríamos que jogá-lo de novo no lago para terminar de congelar e morrer, a moça se lembrou.” Koschei sorriu quase bobo. “Os olhos dela brilharam feito duas estrelas na hora e eu nunca senti magia mais forte quanto naquele dia... Na verdade, aquele foi um dia de coisas que nunca mais vi: uma magia tão forte, uma alma tão poderosa, uma pessoa sem magia tão resistente.”
“O marido dela...?”
“Um trouxa, como vocês os chamam.”
“E eles tinham nomes?”
“O melhor nessas horas é se manter distante e, para fazer isso, é preciso não saber de nomes, mas todos ouviam o homem chamá-la de zvizdá,” disse Koschei, sorrindo. “Estrela.”
Helena ficou em silêncio, encarando o bruxo, mas sem realmente vê-lo. Estava ocupada imaginando a história que ele acabara de contar e, sem conseguir se conter, imaginando seus pais percorrendo os passos daqueles personagens. Se perguntava se aquilo realmente acontecera ou Koschei estava apenas inventando coisas.
“Quando eu a vi parada ai.” O homem indicou a beirada do muro onde ela estava sentada. “Eu pensei ter visto aquela moça, mas depois vi que você é diferente... Você, Lena,” ele falou, sorrindo de lado. “Pode não ser uma Marya ou uma moça como essa, mas eu posso sentir que você é tão forte quanto essas mulheres... E eu espero um dia ouvir a sua história pela boca dos outros.”
A bruxa ficou o olhando, antes de sorrir fraco. Era bom ouvir aquilo. Era bom saber que alguém, mesmo que fosse um desconhecido, ficaria feliz de ouvir falar dela no futuro.
“Obrigada,” ela murmurou, antes de sacudir a cabeça e começar a se levantar. “Eu devia ir... Estou pensando em deixar a cidade ainda hoje.”
“Ora, e para onde quer ir?”
“Pensei em ir para o norte, o Principado de Kiev, mas... Ouvi algumas histórias sobre o reino da Bulgária também,” disse Helena, mordendo o lábio inferior enquanto se lembrava do sonho com seu pai. “Me falaram das sereias que habitam as praias de lá e dos dragões das montanhas. Sei que a viagem será maior depois, mas acho que estou guardando o melhor por último.”
“Posso lhe garantir que a neve vai esperar por você na Rus, para você poder ver as nossas florestas de bétulas se camuflarem por entre a neve. E o céu extremamente azul, como os seus olhos, devushka,” disse Koschei, levantando-se também e esticando uma mão para segurar a dela. “Espero que o seu nome passe pela boca das pessoas até chegar a mim novamente um dia, Helena Ravenclaw.”
“Quem sabe?” a garota riu, observando o outro beijar-lhe o dorso dos dedos. “Tem certeza que não pode me dizer o seu segredo? Sobre viver tanto... Não é vontade de fazer isso, prometo, é só-“
“Curiosidade?”
“É. Acho que é alguma maldição da família.” Ela encolheu os ombros.
“Bom...” Koschei respirou fundo, antes de inclinar-se na direção dela e sussurrar: “O segredo de não morrer, é esconder a morte fora do próprio corpo. Um corpo sem morte não pode morrer.”
“Esconder a morte...?”
“Uma agulha, um ovo, um ganso, uma lebre, um baú, um carvalho.” O homem sorriu mais largo, antes de se afastar outra vez e voltar para o seu lugar, sentado no muro e balançando os pés sobre a água. “Boa sorte na sua viagem, devushka. Estarei esperando o seu nome chegar aos meus ouvidos outra vez.”
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