O Enforcado

10 O domínio da morte


"E aquelas são as Plêiades," disse Thomas Ravenclaw, apontando para as estrelas no céu escuro que parecia tão perto deles ali em cima, na Torre de Astronomia. "Alcíone, Asterope, Electra, Maia, Teigete, Celeno e Merope. Elas eram filhas de Pleione e Atlas, o titã que segura o céu nas suas costas... Um dia, Orion se encantou com a beleza de Pleione e de suas filhas e começou a persegui-las. Depois de muito tempo, Zeus decidiu intervir e transformou as garotas em pombas, que voaram para tão longe que viraram essas estrelas."

"Mas só tem seis estrelas ali," Helena murmurou enquanto inclinava a cabeça. "Está faltando uma."

"Merope é a plêiade que não mostra o rosto no céu noturno por vergonha," o homem explicou.

"Por quê?" a menina perguntou. "O que houve?"

"Ela se apaixonou por um mortal e, por isso, passou a se esconder por vergonha," ele falou. "Sisyphus, o rei de Ephyla, foi o mortal pelo qual ela se apaixonou. Ele tinha fama de enganar a todos, mortais e deuses, e um dia, irritado com tudo isso, Zeus decidiu se livrar dele, pedindo para Thanatos, o deus da morte, acorrentá-lo no Tártaro. Quando Thanatos chegou lá, Sisyphus pediu para que ele lhe mostrasse como as correntes funcionavam e acabou prendendo o deus da morte. Sem Thanatos, ninguém mais podia morrer, e assim ficou até que Ares, irritado porque sem morte a guerra não tem graça, o soltou."

"Quando Sisyphus morreu, ele pediu para a sua esposa jogar o seu corpo em praça pública ao invés de enterrá-lo. Dessa forma, quando acabou nas margens do Rio Styx, ele conseguiu convencer Perséfone de o deixar voltar para o mundo dos vivos porque a sua esposa não havia lhe dado um funeral de verdade," Thomas falou, vendo a menina ficar boquiaberta e rindo baixinho com a expressão dela. "Mais uma vez, Sisyphus escapou da morte, mas não por muito tempo, pois então Hermes foi atrás dele e o levou para a morte de vez. Como punição, o Rei Sisyphus foi condenado a passar a eternidade empurrando uma pedra redonda para cima de uma colina e, sempre que chegava no topo, a pedra rolava para baixo outra vez..."

"Tudo isso por que ele tinha medo de morrer?" Helena perguntou, fazendo uma careta.

"É." O homem encolheu os ombros. "Algumas pessoas fazem absurdos para escaparem de coisas que devem acontecer com todos, pequena."

"Papa," a menina chamou, voltando a olhar as estrelas. "Magia consegue evitar a morte?"

"Como sua mãe sempre diz: magia não é milagre e, se fosse, perderia toda a graça," ele falou, sorrindo enquanto afagava os cabelos da filha. "Existem coisas que estão acima até mesmo de toda a magia do mundo. Além disso, por que alguém iria querer evitar a morte a todo custo? Um dia, todos os que amamos irão partir e deve ser muito solitário e triste ficar aqui sozinho, sem poder conversar ou ficar com aqueles que amamos... Eu, por exemplo, nunca iria querer viver para sempre a não ser que pudesse ficar perto de você e da sua mãe."

Helena ergueu o rosto para olhar o pai, sorrindo fraquinho antes de o abraçar, fazendo o homem rir ao retribuir o abraço. Apesar do frio que fazia ali em cima, um tanto incomum para a Primavera, o abraço de Thomas era quentinho e confortável, e a menina podia passar a noite ali sem se importar.

"O que acontece quando a morte chega?" ela perguntou, fazendo o pai se afastar um pouco e a encarar com uma sobrancelha arqueada.

"Não acha que é uma pergunta muito séria para uma coisinha de onze anos como você, raposinha?" Ele riu, encostando o próprio nariz no dela e rindo. "Não sei e duvido que alguém realmente saiba... Talvez a morte seja diferente para cada um, pequena. Eu não me importo com o que tem lá, desde que um dia eu possa voltar a ver as minhas estrelas."

"Talvez a gente fique junto com elas, não?" a bruxa perguntou, apontando para o céu estrelado. Seus pais sempre lhe diziam para sonhar com as estrelas ou que elas iriam guardar o seu sono. Talvez aqueles que já haviam partido, como seus avós, estivessem por lá, cuidando deles enquanto dormiam.

"Talvez... Quem sabe todos estejam lá em cima, olhando por nós junto às estrelas," ele murmurou, sorrindo fraco.

Helena suspirou, encostando a cabeça no ombro do homem enquanto continuava observando os pontos luminosos perdidos no meio do céu escuro. Sua mãe estava fora, havia feito uma viagem para pesquisas, e quando isso acontecia, ela e seu pai aproveitavam para tirar algumas horas na Torre de Astronomia, nas margens da floresta ou na beira do lago. Ela sentia falta de Rowena nesses momentos, gostava quando estavam todos juntos, mas sabia que assim que a mulher voltasse, eles provavelmente iriam fazer algo parecido, trocando histórias e músicas e abraços. Mesmo que os últimos tempos estivessem sendo difíceis para Hogwarts, eles sempre achavam um momento para ficarem juntos.

"Papa," a menina chamou baixinho.

"Diga, minha luz."

"Salazar vai voltar?" ela perguntou, erguendo os olhos a tempo de ver a expressão do homem mudar, parecendo preocupada.

"Não sei, pequena," ele falou, suspirando fraco. "Não posso lhe prometer nada em relação a isso."

"Mas o senhor falou com ele, não?" Agora sim ele pareceu surpreso, arregalando os olhos enquanto a olhava. "A magia dele... Ainda dá pra ouvi-la um pouco em você."

A magia de seu pai sempre fora muito parecida com a de sua mãe, ambas soavam como a vibração das cordas de uma harpa. O bonito mesmo era vê-las juntas, elas interagiam de uma forma bonita, juntas elas eram o dueto mais belo que Helena já ouvira. Já a de Salazar soava como uma tempestade e, naquele momento, ela ainda conseguia ouvir o barulho leve da chuva por sobre as notas da harpa. Thomas tinha tendência a atrair magia demais para si, era como se a magia dos outros se grudasse no homem e ele a carregasse por um bom tempo até que tudo se dissipasse, Helena já percebera aquilo fazia tempo e sempre se perguntava se aquilo incomodava o homem.

"Eu não posso falar nada sobre isso, Helena," disse Thomas, sorrindo de forma triste, antes de abraçá-la novamente. "Desculpe."

"Está tudo bem," ela murmurou. "Mama sabe? Que vocês conversaram?"

"Talvez. Existem muitas coisas que sua mãe sabe que eu não tenho idéia." A risada fraca que ele soltou foi interrompida por uma tosse. "Está ficando frio, talvez nós devêssemos voltar para dentro... Quer um chá? Posso levar algo até o seu quarto. E talvez alguns chocolates, se Helga não me surpreender no corredor."

***

Helena normalmente conseguia ter uma boa noite de sono quando dormia com os pais. Tanto Rowena quanto Thomas tinham o sono tranquilo e dormir em três na cama do quarto de seus pais nunca fora algo ruim, mas, naquela noite, a tosse de seu pai não cessou mesmo depois de duas canecas de chá quente para esquentar-lhe a garganta. No fim das contas, a menina conseguiu dormir, mas, ao acordar na manhã seguinte, percebeu que o homem não dormira quase nada, a julgar pelas olheiras embaixo de seus olhos.

"Não se preocupe, raposinha," ele lhe disse, antes de ela sair para brincar pelo castelo. "Vou pedir à Helga algo para a garganta e logo isso passa."

No fim do dia, o homem realmente estava tossindo menos e parecia mais disposto, apesar de Helena não saber se isso era porque ele melhorara ou porque Rowena estava de volta ao castelo. Thomas sempre ficava radiante quando a esposa estava por perto.

Os dias que se seguiram foram calmos e o calor do Verão começou a se fazer cada vez mais presente a medida que Junho terminava e Julho avançava. Aquele calor significava que seria possível passar mais tempo nos jardins, cavalgando ou brincando ou explorando a floresta... Helena adorava o verão por isso, adorava poder andar a cavalo e dividir Warlock com a mãe ou brincar na beira do lago enquanto seu pai estava ocupado procurando por pedras-de-bruxa ou algas que pudessem ser usadas na enfermaria. Naquele início de Verão, no entanto, Thomas volte meia parava de correr atrás do cavalo de Rowena, quando este fugia dele, para poder respirar melhor, apoiando uma mão no lado do peito por um momento, antes de voltar à brincadeira deles. A menina também o pegara respirando com mais dificuldade depois de subir até a Torre de Astronomia, puxando o ar com respirações curtas e rápidas enquanto fazia uma careta cada vez que seu peito se expandia.

Ele continuava dizendo que não era nada e, realmente, tais episódios eram esporádicos e logo Thomas Ravenclaw voltava ao seu normal, sem queixar-se de nada. Era difícil achar que talvez pudesse ter algo errado quando ele estava sempre com um sorriso no rosto e disposto a fazer qualquer coisa.


***

Helena aconchegou-se mais no colo da mãe enquanto observava Thomas tocar a harpa para elas. Eles revezavam naquilo, com as músicas, e as noites não podiam ser melhores na visão da menina... Não havia nada melhor do que se aninhar nos braços de Rowena, brincando com os cachos dela, enquanto ouvia o pai tocar e cantar, ou o contrário. Era sempre bom, era algo tão simples e rotineiro, mas que lhe causava um sentimento tão confortável que ela não o trocaria por nada no mundo.

"Vamos, raposinha," ela ouviu a voz do pai a chamar e só então percebeu que estava quase dormindo enquanto Rowena penteava os seus cabelos com os dedos e cantarolava a música que estava sendo tocada na harpa até alguns minutos atrás. "Eu levo você."

A garota automaticamente ergueu os braços para enroscá-los ao redor do pescoço do homem, ouvindo Ravenclaw rir atrás de si enquanto murmurava um 'boa noite' para ela. Helena abraçou mais o pai, escondendo o rosto na pele quente do pescoço dele e fechando os olhos, apenas sentindo os braços dele ao redor de si e o balançar suave que os passos dele causavam enquanto ele a levava para o quarto.

Quando sentiu a cama sob si outra vez, apertou um pouco mais o abraço, inspirando fundo para sentir o cheiro das gardênias, tão típico do homem, antes de soltar e se deitar. Thomas sorriu fraquinho, sentando-se na beirada de sua cama e afastando-lhe os cachos do rosto com a mão, antes de acariciar o rosto da menina com calma.

"Luz da minha vida," ele murmurou, sorrindo de leve enquanto inclinava a cabeça. "Eu amo você. Nunca se esqueça disso, sim?"

"Amo você, papa," ela balbuciou, meio atrapalhada com o sono.

"Sonhe com as estrelas, raposinha," o homem sussurrou, inclinando-se para lhe beijar a testa com calma.

Não houve nem tempo do pai sair de seu quarto, antes de Helena afundar em um sono calmo que a envolveu até o som dos pássaros do lado de fora a acordar. Mas o som dos pássaros não prendeu a atenção da bruxa por muito tempo, pois logo ouviu passos apressados passarem pela frente de sua porta e sumirem escada abaixo, acompanhados do som de tosse vindo do quarto de seus pais. Além disso, o som das harpas... Em sincronia, apesar de parecerem quase que desesperadas.

Sentindo um frio incômodo surgir em seu estômago, a garota saiu de seu quarto, cobrindo-se apenas com uma manta por cima das roupas de dormir, e subiu as escadas até o quarto dos pais. Ao chegar lá, bateu na porta de leve e entrou, apesar de duvidar que tenham lhe ouvido, pois a tosse de seu pai era tão forte que pouca coisa conseguia superá-la ali dentro.

"Papa?" Helena chamou baixinho, esgueirando-se para dentro e franzindo o cenho ao ver o homem ainda na cama, sentado, mas inclinado para fora desta e quase se jogando para o chão enquanto tossia sem parar, cobrindo a boca com a manga da roupa de dormir. "Papa, está tudo bem?"

Thomas tossiu mais algumas vezes, antes de conseguir voltar a respirar e erguer-se para olhar a garota. O homem estava tão pálido quanto a coruja-da-neve que vivia no coruja do castelo, apesar de sua pele parecer quase brilhar por conta de uma fina camada de suor que a recobria.

"Minha luz," ele falou, sua voz saindo rouca e fraca, depois de abaixar a mão e sorrir. "Já está acordada? Ainda é cedo..."

"O senhor está bem?" ela perguntou, aproximando-se rapidamente e arregalando os olhos ao perceber uma pequena mancha que parecia ser sangue no lábio inferior do outro.

"Está tudo bem," Thomas falou, logo limpando o lábio com o dorso da mão ao ver o olhar assustado da menina. "Não se preocupe, raposinha."

"Onde está a mama?" ela perguntou, pulando na cama e indo até o lado dele. Automaticamente, imitou o que já vira Helga fazendo com alguns alunos: levou uma mão até a testa do homem e se assustou com o quão quente a pele dele estava.

"Ela foi chamar a Helga," ele explicou, voltando a se encostar nos travesseiros, ficando meio sentado na cama. Agora a bruxa podia ver como parecia exigir um esforço enorme para que o peito dele se elevasse com cada respiração que saía chiando de seus pulmões e fazendo com que, de vez em quando, ele fizesse uma careta de dor ou apoiasse uma mão no peito. "Elas vão dar um jeito nisso... Helga é boa nisso e sua mãe... Já viu sua mãe não dar jeito em alguma coisa?"

Helena franziu o cenho, sentindo um nó se formar em sua garganta enquanto via os lábios pálidos do pai se curvarem em um sorriso quase sofrido enquanto ele a olhava.

"Eu já lhe disse, minha luz," Thomas murmurou e agora a garota podia ver os olhos dele também ficarem mais brilhantes, como se ele estivesse prestes a chorar. "Que uma vez sonhei com você... Eu não estava mais aqui, mas eu encontrava com você e eu estava perdido. E você, pequena, me ajudava tanto. Eu estava perdido e você me explicava o que estava acontecendo, me mantinha companhia... Você e sua mãe sempre conseguem fazer isso. Você estava tão bonita, tão crescida, como a sua mãe. Minhas estrelas..."

"Papa," a menina murmurou, afastando os cabelos dele que estavam grudados na testa por conta do suor e então afagando-lhe os cachos.

"Amo você, raposinha," ele sussurrou, ainda sorrindo fraco e erguendo uma mão trêmula para segurar a dela e então a beijando com calma.

"Amo você, papa..."

"Ele começou com febre essa noite," a voz de Rowena invadiu o quarto e, ao virar-se, a garota viu a mãe e Hufflepuff paradas na porta. "Helena, querida, será que pode... Helga precisa ver o seu pai."

A menina assentiu e já ia descer da cama quando sentiu os dedos do homem segurarem a sua mão com um pouco mais de força. Quando o olhou, perdeu-se um pouco nos olhos claros dele. Sua mãe dizia que os olhos de seu pai eram como o mar, tão difíceis de decifrar quanto as águas salgadas que se quebravam em ondas na praia e com uma força tão forte quanto a da maré para fazer com que qualquer um se perdesse neles. Agora ela realmente não sabia o que via ali no meio de todo aquele azul. O rosto pálido demais, com as sardas saltando aos olhos por conta da palidez, também a distraía demais no momento.

"Que tal uma música nova na harpa, hm?" ele perguntou, acariciando-lhe a mão com o polegar. "Quando melhorar, vou lhe ensinar uma música nova. Prometo."

Helena sorriu e assentiu, apertando a mão dele uma última vez para só então pular da cama e ir até a porta. Antes de sair, ainda virou-se para trás por um momento, vendo os olhos de Thomas ainda fixos em si e o sorriso, tão pequeno e ainda assim tão carinhoso, ainda pendurado nos lábios dele.