O Enforcado
11 Prólogo
"Nós podemos caçar com corvos?" perguntou Helena, erguendo a cabeça para conseguir enxergar a ave que voava por sobre os campos.
Thomas Ravenclaw mantinha os olhos fixos no falcão, sorrindo ao vê-lo mergulhar no ar e quase sumir perto das urzes, parecendo se debater um pouco no chão e, depois, voltar a alçar vôo, carregando algo em suas garras.
"Nunca ouvi falar de gente usando corvos," ele falou, esticando a mão com a luva de couro para que, pouco depois, o animal pousasse ali. "Bom trabalho, moça."
O falcão guinchou, antes de abaixar a cabeça para arrancar um pedaço do coelho que havia trazido consigo. Helena ergueu a bolsa que eles traziam consigo e esperou que o animal terminasse de tirar a sua lasquinha da presa para depois pegar a caça e colocá-la ali dentro. Seu pai afagou a cabeça da ave, que soltou um guincho baixinho e satisfeito.
"Corvos são extremamente inteligentes," Thomas explicou. "Como você, minha luz."
"Godric diz que eles anunciam a morte," ela falou.
"Se formos levar em conta todas as coisas que anunciam a morte, todos nós já teríamos morrido há tempos." O homem riu. "Quer tentar?"
"Quero!" A bruxa deu um pulo de animação, antes de puxar a luva que estava presa em sua cintura para vesti-la.
Thomas abaixou o próprio braço até o falcão pular da sua mão para a da menina, parecendo um pouco confuso de início, mas logo voltando a olhar em volta com atenção.
"Deve ter mais coelhos por aqui," o homem falou, abaixando-se até ficar na altura da filha, parado atrás dela. "Sinalize para ela ir."
Helena assobiou e a ave alçou vôo, fazendo a bruxa sorrir largamente enquanto acompanhava o pássaro pelo céu. De vez em quando, a garota sentia um pouco de inveja de sua mãe, por conseguir se transformar em uma águia com tanta facilidade e poder sair voando por aí.
"O senhor gostaria de poder voar?" ela perguntou, ainda seguindo o falcão com o olhar.
"Ora, eu já voei," ele falou, rindo. "E não foi só uma vez."
"Eu sei, papa, mas sabe... Voar sozinho," a menina explicou. "Como a mama faz."
"Às vezes, sim, mas então eu me lembro que a primeira vez que voei, foi junto com a sua mãe," Thomas explicou. "Foi em um dragão."
"Você contou. Tinha as luzes do norte no céu."
"Foi uma das coisas mais belas que eu já vi," ele falou, suspirando fraco. "Eu penso nisso e vejo que, apesar de ter sido lindo, eu aproveitei ainda mais o momento porque estava com a sua mãe. Então, acho que eu já fico muito feliz de poder voar com vocês. Não posso pedir mais do que isso, pois é isso que me faz realmente feliz."
Helena sorriu, olhando o pai por um momento, antes de ouvir um guincho e ver o falcão voltando, agora com um animal menor em suas garras.
"Parabéns, Morgane," disse Thomas, rindo enquanto tirava um esquilo das patas do bicho e logo lhe entregava um pedaço de carne fresca que tirara de sua bolsa.
A menina riu, mas logo parou ao ouvir latidos não muito longe de onde estavam. Seu pai também ficou estático por alguns segundos, antes de assobiar baixinho e fazer o falcão voar outra vez. Assim que o animal estava longe, o homem pegou a bolsa com as caças, colocando-a no ombro para então segurar a mão da filha e se afastar rapidamente de onde estavam, deixando para trás o riacho ao lado do qual haviam ficado quase a tarde toda.
Apesar de todo o terreno ter poucas elevações, algumas conseguiam esconder pessoas e animais antes destes se aproximarem mais. E não demorou muito para que Thomas encontrasse algumas pedras mais elevadas e cobertas de musgo, atrás das quais ambos se encolheram, esperando que ninguém os tivesse visto. Helena ficou em silêncio, vendo Morgane voando para além das montanhas que rodeavam o vale enquanto se apertava mais contra o pai. O som dos latidos eram os únicos que conseguiam ouvir ali, junto com o vento e, ao longe, o som da água do riacho.
"Papa?" a bruxa chamou baixinho.
"Está tudo bem, raposinha," ele falou, sorrindo fraco. Helena sempre achava engraçado como as sardas dele sempre ficavam bem mais visíveis quando ele empalidecia.
"São trouxas?"
"Não sei," ele murmurou, puxando um cordão que usava ao redor do pescoço e esfregando a pedra que trazia nele com os dedos. A menina conseguiu sentir um arrepio atravessar o seu corpo, mas não sabia exatamente o que era. "Não vão poder nos ver, não se preocupe."
Não demorou muito tempo para um cão cinzento surgir correndo pela planície, parando a poucos metros deles enquanto continuava a latir. Agora podiam ouvir vozes, gritos muito ao longe. Deviam ser homens caçando a julgar pela aparência do cão e a maneira como ele farejou o local e logo correu por entre as urzes. Quando o animal voltou a se erguer do mato, ele tinha um coelho na boca.
O cão parecia satisfeito com a sua caça e já estava pronto para voltar para junto de seus donos, mas simplesmente parou no meio do caminho, soltou o coelho morto e ergueu a cabeça, alerta. Ao longe, a caçada chamava pelo animal, mas este não voltou com a presa, como o esperado. Depois de alguns segundos, o cão ganiu e saiu em disparada, abandonando o coelho no chão.
Outro animal apareceu, surgindo por entre as urzes. Com aparência canina, pelos negros lustrosos e enorme, o animal se aproximou da presa abandonada, farejando-a com seu focinho longo. Depois, voltou a erguer a cabeça e olhar na direção deles, como se os enxergasse por debaixo do feitiço que os escondia. Ele tinha os olhos negros, parecidos com os de qualquer cão, mas Helena sentia-se como se estivesse encarando uma criatura milenar.
O animal então ergueu a cabeça e uivou.
Imediatamente, Helena sentiu as mãos do pai em seus ombros a puxarem para mais perto de si ao mesmo tempo que um calafrio percorreu o seu corpo ao ouvir o som melancólico que o cachorro emitia e que ecoava por todo o vale. Parecendo não estar satisfeito, o animal parou por alguns segundos, antes de soltar um segundo uivo, tão alto e penetrante quanto o primeiro, mas este não durou muito tempo, sendo interrompido por um guincho alto vindo do céu.
Foi uma questão de segundos para que uma ave enorme descesse e voasse perto demais do animal, que se assustou e interrompeu os uivos melancólicos. Ele não ganiu quando deu meia volta a correu, não parecendo assustado. A ave, uma grande águia dourada, não chegou a pousar por completo, pois o que pisou no chão ao invés dela foi uma mulher.
"Vamos," disse Rowena, correndo para os dois e logo lhes esticando uma mão. Morgane, o falcão, apareceu pouco depois, pousando no ombro de Ravenclaw.
Helena sentiu a mão do pai segurar a sua com firmeza, antes deste se levantar e segurar a mão de Rowena, entrelaçando os dedos nos dela. A bruxa mais velha olhou em volta, parecendo perturbada com o som dos uivos do cachorro que haviam recomeçado, mas logo todo o vale desapareceu, girando e girando ao redor deles.
"Muito obrigada, garota." A menina ouviu a voz de sua mãe falar assim que o mundo voltou a tomar forma e, quando a olhou, viu a mulher dando um pedacinho de carne para o pássaro, que o comeu e logo saiu voando outra vez. Ao fundo, era possível ver o castelo de Hogwarts. "Então, o que pegaram?"
"Alguns coelhos," disse Thomas, sorrindo de leve para a bruxa. "E Helena pegou um esquilo."
"É mesmo?" a mulher sorriu, afagando os cachos da filha. "Daqui a pouco teremos que arranjar um falcão para você também."
"Ela disse que quer um corvo," o homem falou, dando uma piscadela para a menina. "Porque corvos são tão inteligentes quanto ela."
"Ora." Rowena arqueou uma sobrancelha, mas riu. "Quem sabe possa treinar um corvo para lhe ajudar a construir armadilhas? Eles são bons em enganar e fazer joguinhos lógicos."
"Viu?" Helena falou, olhando o pai.
"Eu nunca disse que era impossível caçar com corvos." Ele encolheu os ombros e riu, antes de se abaixar e pegar a filha no colo, ouvindo-a rir alto antes de abraçá-lo pelo pescoço.
"Você vai ser a primeira menina de onze anos a treinar um corvo para caçar, pequena," Rowena falou, rindo enquanto acariciava as costas da menina. "E aposto que ele irá ser muito melhor que os cães do Conselho... Agora, se vocês não se importam, eu preciso dar apenas mais uma esticada. Volto já."
A bruxa sorriu de forma doce para eles, antes de beijar o rosto da garota e, depois, os lábios do homem. Depois disso, ela apenas começou a correr na direção do lago, mas, antes de chegar na água, deu um salto e, no meio do ar, transformou-se na enorme águia dourada que já lhes era familiar. Helena apenas sorriu ainda mais enquanto observava o pássaro voar sobre as águas escuras do lago, volte meia brincando de abaixar-se o suficiente para tocar a superfície da água com suas garras.
"Acha mesmo que nós conseguimos achar um corvo para eu treinar?" ela murmurou, vendo o homem franzir o cenho e depois sorrir.
"Claro que sim," Thomas falou, erguendo uma mão e cutucando a ponta do nariz da garota, fazendo-a rir. "Nós damos um jeito. Nós sempre damos um jeito, não é verdade?"
Fale com o autor