O Enforcado
6 O Corvo e a Raposa

Havia uma enorme lista de exercícios que o professor de Astronomia havia pedido para eles responderem e sobre a importância dos quais Helena agora ouvia um sermão, já que a garota não entregara o seu pergaminho com as respostas. Já era a segunda lição de Astronomia que o Professor Tittensor ficava sem receber e aquilo o deixava extremamente frustrado.
“Não me obrigue a informar a sua mãe sobre o que está acontecendo, Lady Ravenclaw,” ele repetiu pela terceira vez durante o seu discurso e tudo o que a menina pôde fazer foi suspirar e tentar não revirar os olhos. Não era como se Rowena já não soubesse de tudo o que acontecia dentro daquele castelo.
“Sim, professor,” ela murmurou, respirando fundo enquanto desviava o olhar para o céu estrelado que podia ver dali da Torre de Astronomia.
“Helena!” A bruxa virou-se de volta para ele abruptamente. “Será que você consegue entender que todos nós estamos apenas tentando ajudá-la aqui? Você pode ser filha de Rowena, mas só isso não vai lhe garantir nada… Caso contrário nem precisaria de aulas!”
“Eu sei disso, professor,” ela respondeu. “Peço desculpas pelo meu descuido.”
“Quero esse mapa para semana que vem,” disse o homem, voltando a se empertigar enquanto andava até o telescópio mais próximo para guardá-lo. “E um texto sobre a influência da lua negra em rituais realizados na época do Samhain.”
Assentindo de leve com a cabeça, a garota levantou-se, pegou as suas coisas e saiu da torre o mais rápido possível. Sua vontade era passar a noite ali, como fazia de vez em quando para poder ficar mais perto das estrelas, mas não queria ficar mais tempo perto do professor. Almeric Tittensor não era uma pessoa ruim e, na maioria das vezes, Helena gostava das aulas dele, mas nas últimas semanas qualquer aula parecia irritá-la de uma forma absurda e tudo o que queria era poder ficar escondida em seu quarto, estudando por conta própria, ao invés de ter que sentar no meio dos outros alunos e praticar com eles.
Mas é claro que pedir para fazer isso seria assinar uma declaração assumindo que todos os rumores sobre ela ser esnobe e rude eram verdadeiros. E Helena, apesar de reassegurar para si mesma todos os dias que não se importava nem um pouco com o que falavam de si, ainda não conseguia deixar de se sentir mal ao ouvir o que alguns alunos falavam… Ela não se achava melhor que os outros por ser filha de Rowena Ravenclaw e definitivamente não acreditava que, por ser quem eram, não precisava se esforçar tanto quanto os outros. O problema era que sempre parecera difícil ficar confortável perto das pessoas quando estar sabiam quem era a sua mãe e a tratavam de forma diferente. E, por conta desse desconforto, ir para uma aula se tornava uma tarefa árdua.
A única pessoa com a qual se sentia realmente à vontade era Sigfried, que já havia terminado os estudos, apesar de continuar praticamente morando ali. Além dele, Helena sentia-se mais tranquila com os alunos recém chegados, quando conseguia pegá-los ainda antes de estes ficarem sabendo de sua mãe… Gostava de explicar sobre Hogwarts e contar a história do lugar, de fazer com que eles se sentissem bem dentro do castelo logo nos primeiros dias depois de suas chegadas. Seu pai costumava fazer isso e ela sempre achara uma ação interessante.
* * *
“Entre todas as estrelas que já lhe eram familiares, havia uma que parecia brilhar mais e que ele nunca vira por ali. Ela era linda e tinha aquele brilho que ele notara nos olhos da moça…” murmurou Helena, sorrindo fraco ao ver os olhos da menina que estava deitada no leito da enfermaria se arregalarem de um jeito engraçado. “Daquela noite em diante, o homem soube que a mulher não o abandonara. Ela ainda estava lá, meio distante, mas sempre o ouvindo, contando-lhe histórias e olhando por ele.”
“Ela era uma estrela?” a criança perguntou.
Geillis havia sido trazida para Hogwarts fazia pouco tempo. Toda a sua família havia sido morta em uma perseguição à bruxas e apenas ela escapara, sendo encontrada por Godric, que então trouxe a menina de dez anos para o castelo.
“Uhum.”
“Estrelas são gente?”
“Olha… Se são gente ou não, eu não posso dizer porque não sei,” a bruxa falou, encolhendo os ombros. “Mas que elas têm vida eu sei que sim.”
“Mesmo?”
“Meu pai me disse que certa vez ouviu alguém perguntando se a razão de sermos humanos é porque olhamos as estrelas ou se nós olhamos as estrelas porque somos humanos… E disse que essa não é a pergunta certa a ser feita,” disse Helena, sorrindo de lado.
“E o qual é pergunta?”
“E as estrelas? Elas nos observam também?”
A criança sorriu largo, deixando a mostra o buraco causado pela falta de um dos dentes, antes de ajeitar-se melhor na cama.
“Elas observam?”
“Acredito que sim,” disse Helena.
Geillis esticou-se um pouco para olhar a janela atrás da cama, antes de suspirar e voltar a relaxar ali.
“Acha que elas conseguem ver a mamãe e o papai?” a menina perguntou.
“Elas vêem muitas coisas,” a bruxa falou, ajudando-a a ajeitar a coberta sobre si. “Nós aqui em Hogwarts, os bruxos do outro lado do mundo, as sereias no fundo do mar… Aposto que conseguem ver os seus pais. E, se não estiverem conseguindo vê-los, aposto que meu pai pode dar uma ajuda nisso.”
“Por quê? Ele conhece as estrelas?”
“Ele era muito querido por elas,” disse Helena, sorrindo de forma mais hesitante. “E agora que está junto delas, com certeza vai lhes dizer para cuidar dos seus pais também.”
A menina observou as estrelas por mais um momento, antes de suspirar e voltar a se ajeitar na cama, enfiando-se debaixo das cobertas. Helena sorriu ao ver que o hematoma que havia no rosto da criança quando esta chegara em Hogwarts finalmente havia desaparecido. Era horrível ver como os novatos que eram resgatados chegavam ali. Fazia sentido seu pai sempre tentar encontrar tempo para conversar com aquelas crianças, contar histórias e confortá-las… Elas realmente precisavam disso.
“O que vai acontecer agora?” perguntou Geillis.
“Você vai ficar em Hogwarts,” a bruxa explicou. “Vai aprender a controlar a sua magia e vai começar a usá-la do jeito certo para poder se proteger.”
“Papai dizia que só os ricos estudavam…”
“Bom, você vai estudar. Vai aprender tudo o que tem para aprender e vai poder satisfazer todas as dúvidas que tiver,” disse Helena, sorrindo ao ver os olhos da menina brilharem. “Vai ser divertido.”
“Tem outras crianças aqui?”
“Sim, várias crianças da sua idade. Você vai poder fazer vários amigos.”
Geillis mordeu o lábio inferior, como se tentasse esconder um sorriso, antes de se aconchegar melhor na cama da enfermaria.
“Boa noite, Lady Helena,” ela murmurou.
“Boa noite, Geillis,” a garota falou, afagando os cabelos da outra e esperando até que a respiração dela ficasse estável e calma para se levantar e sair da ala hospitalar.
Já estava tarde e Helena, muito provavelmente, deveria ir direto para a cama para poder aguentar as aulas no dia seguinte, mas apenas de lembrar que teria que voltar para uma sala de aula a garota já se sentia mal. Talvez pudesse inventar alguma desculpa? Podia dar um jeito de fingir alguns sintomas para conseguir ser dispensada, não devia ser muito difícil.
De qualquer forma, dormir era a última coisa que queria naquele momento. E, caso voltasse para o seu quarto, iria acabar dormindo por conta do cansaço… Por isso, ao invés de subir para as torres, desceu até as masmorras, tentando fazer o mínimo de barulho possível e rezando para que Pirraça não a encontrasse nos corredores.
Infelizmente, ela nunca fora muito boa com rezas.
“O que temos aqui?” uma voz esganiçada cantarolou assim que ela terminou de descer as escadarias que davam para as masmorras, fazendo-a se encolher e xingar baixinho.
“Pirraça, por favor…”
“O que a sua mãe diria se a visse perambulando por aqui, Heleninha?” o poltergeist perguntou, finalmente se tornando visível. Bom, apenas a sua cabeça era visível já que o resto de seu corpo estava escondido atrás da parede de pedra. “O que está fazendo tão longe da sua torre, passarinho? Veio visitar alguém? Um rapaz, quem sabe?”
“Pirraça!” outra voz ecoou no corredor, dessa vez mais forte e firme. Helena apenas sorriu ao ver o poltergeist se sobressaltar e fazer uma careta. “Será que pode nos deixar em paz?”
“E o que o senhor faria se eu não os deixasse, Lord Belmis?” Pirraça perguntou, antes de mostrar a língua para o rapaz que agora estava parado no batente de uma das portas. “O senhor pode tentar, mas não consegue me pegar!”
“Quem sabe quando concluir minhas pesquisas sobre poltergeists eu consiga bani-lo daqui de uma vez por todas,” disse Sigfried, com a voz controlada.
“Você não tem graça,” o poltergeist resmungou, antes de virar-se para a garota uma última vez. “Cuidado, Heleninha, não faz bem uma moça ficar se enfiando nos aposentos de um senhor.”
Dando uma última gargalhada, Pirraça finalmente atravessou a parede e sumiu do corredor. Quando Helena se virou para a porta outra vez, riu enquanto andava até o rapaz, empurrando-o para o quarto, antes de segui-lo.
“Ele é só um poltergeist teimoso, não fique emburrado por causa das ceninhas dele, Sigfried,” a garota falou, socando de leve o braço do outro.
“Não fico emburrado com ele,” o bruxo falou. “Só tenho medo do que ele pode sair falando por aí. Pode comprometer a nós dois.”
“Todos sabem que somos amigos desde sempre.” Ela encolheu os ombros, andando até uma das poltronas do quarto e sentando-se ali, praticamente se empoleirando no assento.
“O Conselho não…”
“Então que bom que o Conselho não tem nada que se preocupar com a minha vida pessoal.”
“Você sabe que eles se preocupam e sabe a razão de tal preocupação.”
“Repito: eles não tem nada que se preocupar com a minha vida pessoal,” disse Helena, erguendo o rosto enquanto observava o rapaz ir se sentar na outra poltrona.
“A senhorita não devia estar dormindo?” ele perguntou, arqueando uma sobrancelha. “Não tem aula amanhã?”
“Você também não,” a garota resmungou. “Não estou com sono.”
“O que diabos estava fazendo acordada até agora? Pirraça tem razão, o que Lady Ravenclaw iria dizer se a encontrasse zanzando por aí nesse horário?”
“Estava conversando com uma menina recém-chegada lá na enfermaria,” disse Helena. “E Lady Ravenclaw nem mesmo está no castelo para me ver zanzando por aí.”
“Qual menina?”
“Geillis, foi Godric quem a trouxe,” ela explicou. “Os pais foram mortos em uma caça às bruxas. Eles também eram bruxos… O que foi?” ela perguntou, franzindo o cenho ao ver o sorriso quase bobo que apareceu no rosto do outro.
“Seu pai fazia isso,” ele falou. “Ficava horas conversando com os recém-chegados.”
Helena sorriu enquanto olhava o outro rapidamente. Sabia que Sigfried sempre tivera muito respeito e afeto por Thomas Ravenclaw, e sabia que isso era, principalmente, pelo fato de seu pai ter cuidado dele e do seu irmão quando eles chegaram em Hogwarts. O rapaz raramente falava sobre aquela época, mas, quando o fazia, sempre citava Ravenclaw.
“Como está Sigmund?” a garota perguntou, tentando quebrar o silêncio. “Ainda viajando?”
“Quando é que Sigmund não está viajando?” o bruxo resmungou. “Se bem que tudo isso logo vai acabar…”
“Ele vai mesmo casar com aquela garota da Gália?”
“Os pais dela aceitaram o casamento,” ele explicou. “Logo vamos ter uma Senhora Sigmund Belmis. Imagine só o que nossos pais iriam dizer se o vissem agora, casando com uma moça de boa família.”
“Olha, não sei o que eles diriam, mas meu pai ficaria muito feliz,” disse Helena, sorrindo de leve ao ver o fantasma de um sorriso aparecer no rosto do outro. “Você sabe que vocês eram como filhos para ele.”
“Quem precisa de filhos como nós se já tem uma filha como você, Helena?” ele perguntou, rindo fraco. “Você já supre todo o orgulho que dez filhos podem dar à um pai… E todo o problema também.”
“Como é que é?” a bruxa perguntou, pulando da poltrona e o encarando enquanto ficava parada na frente dele, com as mãos na cintura. “Está dizendo que eu causo tanto problema quanto dez filhos homens?”
“Bom, sim,” ele falou, encolhendo os ombros.
“Mesmo? E quem é que me acompanha nesses problemas?” ela perguntou, antes de avançar para cima do rapaz, esticando as mãos para fazer-lhe cócegas no abdômen e rindo enquanto o via se contorcer e rir na poltrona, tentando se encolher para fugir dos dedos da garota e conseguindo apenas escorregar até o chão. “Quem é o meu cúmplice, hein!?”
“Eu! Eu sou seu cúmplice!” o rapaz falou, ainda rindo e tentando recuperar o fôlego quando a bruxa cessou as cócegas. “Essas coisas não se faz, Helena!”
“Você precisa rir mais, Sigfried,” a garota falou, ajoelhando-se ao lado dele e rindo. “Se todas as vezes que perdesse a calma você risse ao invés de ter um ataque de raiva, aposto que viveria muito mais.”
“Eu não tenho ataques de raiva.”
“Tem sim. Não o julgo por isso, mas você tem… Não é a toa que Pirraça tem um pequeno respeito por você, já que uma vez você atirou nele todos os livros ao seu alcance.” Helena suspirou, dando um tapinha de leve no braço do outro. “Ele sabe que está perdido caso um dia você vire um fantasma.”
“Acho que não tenho a menor vontade de virar um fantasma, Helena, mesmo que isso significasse que eu finalmente poderia esganar o Pirraça.”
“Seria divertido se pudesse fazer isso…”
“É. Ser um fantasma por apenas um tempinho, pra poder suprir esse desejo.”
A garota riu fraco pelo nariz, antes de suspirar e encostar a cabeça no ombro do amigo. Estava cansada, passara o dia fazendo o mapa astrológico que Tittensor havia pedido, mas se sentia mal só de pensar em ir para a aula de Astronomia na noite seguinte para entregar aquilo.
“Queria que você estivesse nas minhas aulas,” ela murmurou.
“Duvido disso, Helena. Eu sou devagar e você teria que me aguentar lhe pedindo ajuda o tempo todo.”
“Pelo menos você estaria junto comigo…”
“Ora, você tem seus amigos,” disse Sigfried e a bruxa não conseguiu conter uma risada sem humor algum.
“Você sabe muito bem o que todos acham da minha pessoa,” ela falou.
“E você sabe muito bem que todos estão enganados,” o bruxo murmurou, antes de segurar a mão dela com leveza e apertá-la sem muita força. “Vá dormir, Helena. Caso contrário vai ficar andando por aí com cara de louca amanhã.”
“Ainda não me chamaram de louca. Talvez eu devesse adicionar esse adjetivo à lista deles,” ela falou, rindo, enquanto se afastava e se levantava. “Desculpa por lhe incomodar nesse horário.”
“Não se preocupe… Agora vai, antes que Pirraça volte!”
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Não havia raposas nos terrenos de Hogwarts, mas lá estava ela, correndo atrás de uma raposa enquanto esta se esgueirava por entre as árvores da floresta, às vezes se enfiando por debaixo de raízes, outras pulando por cima de arbustos, sempre parecendo um borrão alaranjado no meio da imensidão de verde e marrom que era aquela floresta.
“Hey!” Helena chamou, rindo, quando viu a raposa cavocar ao lado dos arbustos que ela já sabia que levariam até o ninho de fadas. “Não precisa ficar fazendo buracos, é só…” ela começou a falar, antes de ver o animal se enfiar pelo buraco recém feito e subir por entre a folhagem.
Suspirando, a garota deu a volta nas árvores e arbustos que envolviam a clareira até encontrar um espaço livre para adentrar o local. Estava tudo muito quieto ali e o único barulho que ouvia era o movimento da água no pequeno laguinho enquanto a raposa bebia água. Sem sinal das fadas, sem sinal de todo o brilho que aquela clareira adquiria quando caía a noite.
“Pra que correr tanto se depois vai ficar assim morrendo de sede?” ela perguntou, indo se sentar ao lado do animal e esticando os pés para enfiá-los dentro da água e só então percebendo que estava descalça.
A raposa ergueu a cabeça e a encarou, antes de deitar-se ao seu lado, apoiando a cabeça em seu colo e suspirando profundamente.
“Se queria carinho, não precisava ter fugido,” a bruxa murmurou, coçando atrás das orelhas do bicho.
“Acho que ela só queria que você risse um pouco.”
“De novo, não precisava correr tanto,” disse Helena, virando-se e sorrindo ao ver seu pai se aproximando até se sentar ao seu lado enquanto observava a raposa, que agora se esticava inteira para receber mais carinho.
“Mas ai não teria graça,” ele falou, rindo fraco enquanto erguia uma mão para tirar algumas folhas que estavam presas nos cabelos da garota. “Parou de levar tronquilhos para casa, estrela?”
“De vez em quando eles ainda grudam em mim,” a bruxa falou, suspirando enquanto parava de mexer os pés na água e esperava até a superfície ficar mais estável para poder ver o reflexo dos dois ali. Seu pai parecia cansado, mas o sorriso em seus lábios era tão calmo e reconfortante que a fazia se esquecer desse detalhe. “Onde o senhor esteve?”
“Fiquei um tempo fora com a sua mãe,” ele explicou. “Mas achei que talvez fosse bom dar uma olhada em você, para ver se não estava colocando o castelo abaixo.”
A garota riu, inclinando-se para se encostar no homem e sorrindo ao sentir o braço dele ao redor de seus ombros. A raposa ergueu a cabeça para olhá-los, como se quisesse saber a razão de não ser mais o centro das atenções.
“Como ela está?”
“Preocupada com você,” ele falou. “O que está havendo, minha estrela?”
“Nada.”
“Eu já usei essa desculpa muitas vezes para acreditar nela,” disse Thomas, afastando-se um pouco apenas para conseguir olhá-la nos olhos. “Vamos lá, o que está acontecendo?”
Helena encarou o homem por um longo momento, sentindo o próprio peito parecer ficar cada vez mais pesado com o passar do tempo. O que iria dizer? Que estava se sentindo mal todas as vezes que ia para alguma aula? Que sentia-se agoniada quando estava perto de seus colegas? Que estava deixando de fazer suas tarefas, às vezes porque queria ver se isso chamava a atenção e sua mãe e, outras, porque simplesmente não conseguia achar vontade para fazê-las?
“Não quero ir para as aulas,” ela murmurou. “Quero poder estudar sozinha. Eu sei que consigo, já fiz isso antes e deu tudo certo… Só não quero… Não quero voltar para as aulas.”
“Helena, aconteceu alguma coisa?” seu pai perguntou, tirando o braço de seus ombros e usando a mão para acariciar-lhe o rosto com calma.
“Todo mundo espera que eu seja… Nem sei o que eles esperam de mim, mas esperam algo diferente,” a garota sussurrou. “Porque eu sou filha da fundadora da escola e todos acham que eu estou esperando ser tratada diferente por isso, mas não, são eles que me tratam diferente! Eu só quero poder estudar sem ficarem me lembrando das consequências do que poderia acontecer se a mama descobrisse que não estou me dedicando… Nem parece que ela tem coisas mais importantes com as quais se preocupar.”
“Minha luz, você é a coisa mais importante para a sua mãe,” o homem falou, colocando uma mecha de cabelo da garota para trás da orelha dela. “Se ela não está se manifestando em relação à tudo isso, é porque ela sabe que você quer cuidar de si mesma…”
“E todos ficam esperando que eu seja… Que eu seja tão inteligente quanto ela,” disse Helena, engolindo em seco e se repreendendo mentalmente por estar sentindo um nó se formar em sua garganta. “Tão inteligente e respeitada quanto ela, e tão gentil quanto o senhor, mas eu não… Eu não consigo, papa. Ela é Rowena Ravenclaw, a bruxa mais inteligente que existe, além de ter aquele diadema para ajudar, e o senhor… Eu não consigo ser como o senhor.”
“Helena, minha luz,” o homem murmurou, segurando o rosto dela entre as mãos e o erguendo até ela o olhar. O sorriso continuava em seus lábios. “Nem eu e nem a sua mãe queremos que você seja igual a nós. Você é Helena Ravenclaw, não Rowena ou Thomas. Você é tão inteligente quanto a sua mãe e eu não duvido nada da sua gentileza, mas você não precisa ser como nós para ser excepcional. Sua inteligência é única, sua gentileza é única, sua magia é única… Você é única no mundo, minha luz, e eu e sua mãe seríamos loucos se quiséssemos que você fosse uma cópia nossa.”
“Mas…”
“Sabe que eu amo chamá-la de ‘raposa’, não é?” perguntou Thomas, rindo ao ver o animal no colo da filha erguer a cabeça para olhá-los de novo. “Mas eu sempre a chamo assim porque… Porque fico meio magoado de ser a única raposa da família. Você realmente é uma raposinha para mim, assim como é um filhote de águia para a sua mãe, mas nós dois sabemos que, no fundo, você é um corvo, o mais inteligente e brincalhão deles.”
“Corvos são agouros de morte, papa.”
“Corvos são extremamente inteligentes,” ele a corrigiu. “Além de serem o símbolo da família Ravenclaw… Sabe, quando eu era garoto, eu costumava dar as migalhas das comidas para um corvo que vivia rodeando o lugar onde eu morava. Um dia, eu comecei a perceber pequenas pedrinhas na minha janela… O corvo as trazia para mim. Ele me trazia presentes em agradecimento à comida. E não eram pedras quaisquer, eram sempre cascalhos bonitos, parecia até que ele escolhia a dedo.”
A bruxa riu fraquinho, antes de abraçar o pai com força e inspirar profundamente. Até mesmo ali o cheiro de gardênias ainda estava presente.
“Pode cantar alguma coisa?” ela pediu, ajeitando-se melhor no abraço e sentindo a raposa subir mais em suas pernas, até estar aconchegada entre os dois.
“Algo específico, minha luz?”
“Qualquer coisa.”
“Oh, o verão está chegando, e as folhas vão mudando, e o tomilho das montanhas, floresce pelas urzes. Vamos, moça, vamos, e vamos todos juntos, colher o tomilho das montanhas, pelas urzes que florescem. Vamos, moça, vamos,” Thomas começou a cantar baixinho, fazendo a garota sorrir mais largo e apertar um pouco mais o abraço. “Ao meu amor, uma torre, lado a lado de uma fonte, e ao redor colocarei, as flores da montanha. Vamos, moça, vamos… E vamos todos juntos, colher o tomilho das montanhas, pelas urzes que florescem. Vamos, moça, vamos.” 1
Helena apenas continuou sorrindo, fechando os olhos enquanto afundava no abraço do pai e se perdia na voz dele. Sentia tanta falta daquilo… Lembrava-se de quando era pequena e era comum ouvir seu pai e sua mãe cantando juntos, Rowena normalmente tocando a harpa junto. Era lindo e de vez em quando a bruxa se perguntava se tudo aquilo não passava de alguma criação de sua mente, pois parecia tão distante agora.
Mas, naquele momento, não importava se estava delirando ou sonhando ou se tudo era realidade… O importante era que seu pai estava ali e ela podia sentir o abraço dele e ouvir a voz dele outra vez.
* * *
“Vamos, moça, vamos,” Helena cantarolou enquanto dedilhava a harpa, tentando se lembrar de como tocava aquela música. Havia sonhado com aquela canção e agora queria conseguir tocá-la de novo, pois parecia que, assim, não iria esquecer daquele sonho com tanta facilidade.
A garota suspirou fraco, apoiando as mãos nas cordas para fazê-las parar de vibrar e interromper o som enquanto observava o céu azul do lado de fora da sua janela. Mas o som das notas leves da harpa não cessaram, apesar de este não estar mais vindo do seu instrumento… Respirando fundo e apoiando a harpa no chão, Helena virou-se e se deparou com sua mãe parada no batente de sua porta, apoiada ali enquanto a observava em silêncio.
“Estava indo bem,” a mulher falou, sorrindo fraco, antes de se desencostar da parede e adentrar o quarto, indo até a cama e sentando-se ali. “Como estavam as coisas por aqui enquanto estive fora?”
“Calmas,” disse Helena, desviando o olhar para o instrumento e traçando os entalhes na madeira.
“Será que… Pode tocar mais uma?” perguntou Rowena, parecendo um tanto hesitante enquanto apontava para a harpa.
Helena fitou a mulher por um momento, antes de assentir em silêncio e puxar o instrumento para si novamente. Não tocou a música com a qual sonhara, mas sim outra que sempre ouvia seu pai cantando pelos cantos de Hogwarts… Lembrava-se de ele dizendo que sempre morara perto de Scarborough, mas só conseguiu visitar a feira de lá depois que conheceu Rowena. Talvez fosse por isso que gostasse tanto daquela música, ela de certo avivava a sua imaginação, fazendo-o fantasiar sobre como era a feira de Scarborough antes de finalmente conseguir visitá-la.
A garota tentou improvisar alguns arranjos, acelerando o ritmo da música de vez em quando e, por fim, não resistindo e cantando junto. Seu pai sempre fazia isso, inventava arranjos diferentes no meio da música, cantava junto e parava na metade, para depois retomar a cantoria mais para a frente… Era engraçado como ele se perdia de um jeito bonito com a música. Quando a canção foi chegando ao fim, Helena deixou-se diminuir a velocidade novamente, voltando ao arranjo tradicional até finalmente parar.
Um pouco hesitante, a bruxa virou o rosto para olhar a mãe, surpreendendo-se ao não encontrar o olhar sempre tão sério dela… A expressão no rosto de Rowena parecia mais doce do que o normal enquanto ela a observava. Mantendo o silêncio, a mulher se levantou e foi até ela, apoiando uma mão em seu ombro e se inclinando para beijar-lhe o topo da cabeça demoradamente.
“Foi lindo, pequena,” ela murmurou, apertando de leve o ombro da filha, antes de esticar a outra mão para colocar no colo da mais nova um objeto pequeno embrulhado em um lenço escuro.
Helena esperou até que os passos de Rowena se afastassem e a porta do quarto se fechasse para então apoiar a harpa no chão outra vez e pegar o embrulho em seu colo, abrindo-o com cuidado. Dentro do lenço, havia um broche metálico adornado com nós célticos e o desenho de quatro corvos, um em cada quadrante do círculo, com pequenas pedras azuis servindo de olhos nos animais. Sorrindo fraco, a garota deixou os dedos contornarem os traços do broche… De vez em quando, era impossível não se perguntar se havia a possibilidade de seus pais continuarem em sintonia mesmo depois de tantos anos.
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