O Enforcado
7 A proposta de Sir Ulmer

De vez em quando, alguns membros do Conselho apareciam em Hogwarts. Às vezes eles visitavam porque tinham algum assunto para discutir com algum professor, outras era para verificar as condições do colégio. Independente da razão, Helena sempre tentava se manter afastada. A garota se lembrava das coisas que já ouvira os membros do Conselho falando sobre os seus pais e preferia se manter longe deles para não virar outro alvo de comentários.
Mas, naquele dia ensolarado na metade de Julho, foi impossível se esgueirar para longe quando eles a encontraram enquanto ela e Sigfried treinavam juntos com espadas de madeira no pátio do castelo. Na verdade, demorou alguns minutos ainda até perceberem que estavam sendo observados e foi só depois de cutucar o amigo e vencer aquela rodada que Helena virou-se, ainda rindo, e se deparou com três homens que acompanhavam um Godric que não parecia muito feliz.
“A senhorita deve ser a filha de Lady Ravenclaw, não?” perguntou o homem que parecia o mais velho dentre os três, sorrindo enquanto fazia uma reverência com a cabeça. “Faz alguns anos que não a vejo, mas é uma alegria ver que cresceu para se tornar uma jovem tão bela quanto a sua mãe, Lady Helena.”
“Helena, este é Lord Coven, do Conselho,” disse Gryffindor, observando os homens de um jeito sério. “E estes são Sir Ulmer Taggart e Lord Aldus Cavanaugh.”
A garota fez uma reverência, depois de entregar a espada de madeira à Sigfried. Se lembrava de Aldus Cavanaugh, o homem de cabelos brancos e bigode extravagante, já que fora dele que ouvira a maioria dos comentários em relação ao fato de seu pai não conseguir fazer magia. Coven já era um velho conhecido e, apesar de ser um dos velhos do Conselho, ainda parecia o mais fácil de aguentar. Já Ulmer Taggart, ela nunca havia visto e nem ouvido falar. Ele parecia bem mais jovem que os outros dois bruxos, com cabelos e barba loiros e olhos escuros que chegavam a dar-lhe um certo desconforto.
“Ah, e este é Sigfried Belmis,” disse Godric, indicando o rapaz atrás de Helena. “Estudou aqui e agora nos ajuda em diversas tarefas. Já devem ter ouvido falar do irmão dele, Sigmund?”
“Sigmund Belmis… Não foi um rapaz que voltou a pouco do oriente, trazendo meia dúzia de garrafas com djins dentro?” perguntou Aldus.
“Meu irmão gosta de estudar seres e criaturas mágicas,” disse Sigfried, sorrindo meio sem graça. “Principalmente aquelas mais perigosas. Ele quer descobrir se algum djin consegue ensiná-lo uma forma de controlar o Fogomaldito.”
“Ora, parece interessante,” disse Coven. “E o senhor não tem interesse em viajar com ele?”
“Às vezes eu o acompanho, mas prefiro ficar aqui e ajudar com a escola.”
“Sigfried recruta alunos trouxas ou bruxos de famílias mais simples,” disse Helena.
“É o mínimo que posso fazer depois que Lady e Lord Ravenclaw resgataram a mim e ao meu irmão quando éramos meninos,” ele explicou e a garota pôde ver o olhar de Ulmer e Aldus parecer ficar um pouco menos agradável.
“Quanta gentileza do senhor, Sr. Belmis,” disse Cavanaugh, sorrindo de maneira falsa. “Acho que talvez nós devêssemos concluir a visita, não acha, Godric?”
“É claro.”
“Foi um prazer revê-la, Lady Helena,” disse Coven, inclinando a cabeça outra vez e sorrindo. “E parabéns pela luta.”
“Foi um prazer conhecê-la, Lady Ravenclaw,” Ulmer falou, também sorrindo e fazendo uma reverência mais demorada, antes de olhá-la mais uma vez e então seguir os outros.
Quando os quatro homens finalmente saíram do pátio, indo na direção da ponte de madeira que levava até o outro lado do vale, Helena virou-se para Sigfried, arqueando uma sobrancelha.
“Sei que não gosta que sua mãe fique sempre por perto, mas seria interessante ter ela por aqui agora para vê-la espantar aqueles velhos com apenas um olhar,” o rapaz resmungou. “Já é a segunda leva de homens do Conselho que me olham torto quando percebem que sou nascido trouxa.”
“Ora, pare com isso,” a garota falou, andando até ele e apoiando uma mão no ombro dele. “Você devia parar de se preocupar com essas coisas… Eles são só bruxos velhos e orgulhosos com medo de que alguém de fora roube o lugar deles no Conselho, como se não houvesse mais nada no mundo para se fazer.”
“Você não se irrita com isso, Helena?” ele perguntou, sentando-se na mureta do pátio. “Não se irrita quando a olham diferente porque Lord Ravenclaw era um aborto? Ou quando falam dele como se ele fosse inferior por não conseguir fazer magia?”
“Me irrito porque quando fazem isso estão degradando o meu pai,” ela falou. “Mas não acredito no que eles dizem, não fico duvidando de mim mesma porque tenho o mesmo sangue que um aborto… Eu sei do que sou capaz, assim como sei do que meu pai era capaz e sei que ele era um bruxo muito melhor do que aqueles homens, mesmo sem fazer magia alguma. Você pode se irritar com eles, mas a sua irritação, Sigfried, sempre parece mais uma frustração do que uma ofensa. É como se você realmente acreditasse no que os olhares deles dizem sobre você e é isso que você tem que parar de fazer.”
“É fácil dizer isso quando sua mãe é a bruxa mais inteligente da comunidade bruxa,” Sigfried resmungou e Helena sentiu o rosto arder.
“Eu não preciso dela pra saber do que sou capaz, Sigfried,” ela falou, antes de pressionar os lábios um contra o outro com força e ir até ele, arrancando as espadas das mãos dele. “Deixe que eu levo isso.”
“Não me diga que vai ficar emburrada porque falei isso!” o rapaz falou, levantando-se e logo se sentando de novo, sendo forçado por alguma força invisível. “Helena, me solte!”
Foi só quando já estava dentro do castelo, quase alcançando a sala das armas, que Helena deixou-se soltar o fio de magia que mantinha o rapaz preso à mureta do pátio. Guardou as espadas de madeira em seus devidos lugares e não demorou para sair dali, já esperando que o bruxo aparecesse na sala das armas em alguns minutos.
Sigfried era seu amigo, mas o orgulho dele de vez em quando a irritava. Ambos tinham que admitir que ele não era o aluno mais brilhante de Hogwarts, mas isso não significava que ele era um bruxo ruim com magia. Já perdera a conta de quantas crianças o rapaz já havia levado para Hogwarts e o quanto ele já ajudara ali dentro… Além disso, ele era um bom duelista com armas convencionais: Godric o treinara bem e ele era bem melhor do que o irmão, Sigmund, em combates com espadas e, graças ao seu pai, com adagas.
Mas aquele orgulho sonserino dele era o que o colocava para trás… Caso fosse em uma dose moderada, talvez aquilo até o ajudasse, mas o excesso de orgulho o fazia duvidar de tudo em relação a si. Qualquer crítica podia desengatilhar alguma discussão e Sigfried tinha um temperamento complicado quando ficava irritado. Certa vez, quando mais nova, Helena o vira brigar com alguns colegas depois de estes fazerem graça com o fato de que ele havia explodido um caldeirão na sala de poções. Somente Lord Slytherin e seu pai, juntos, conseguiram acalmar o garoto na ocasião.
E, quando estava nesses estados mais irritadiços, não era incomum Sigfried soltar algo que pudesse ofender alguém… Ele sabia que lembrar Helena do fato de que ela era mais respeitada que o normal por causa de sua a irritava, mas mesmo assim sempre acabava falando disso. De vez em quando a garota se perguntava se ele sentia alguma inveja dela por carregar o nome Ravenclaw enquanto ele tinha um sobrenome trouxa. Sigfried e Sigmund sempre foram tratados quase como filhos por Rowena e Thomas, mas, mesmo assim, nunca deixaram de ser nascidos trouxas enquanto ela era a filha de Rowena Ravenclaw.
“Helena, querida?” A garota se sobressaltou ao ouvir alguém a chamar, mas logo reconheceu a voz calma e doce, encontrando Helga esticando a cabeça para dentro do corredor, através de uma das janelas do jardim. “Que bom que a encontrei! Pode vir aqui um segundo?”
A bruxa assentiu e foi até ela. O jardim estava florido e Hufflepuff parecia o próprio estereótipo da boa bruxa com a casa cheia de flores que ajuda a todos, parada ali no meio com um sorriso gentil no rosto e as mãos sujas de terra.
“Está ocupada?” a mulher perguntou. “Ou pode me dar uma mão aqui? Estava transferindo algumas plantas-tentáculo para vasos maiores.”
“Claro,” a menina falou, sorrindo enquanto dobrava as mangas do vestido e seguia a outra até a bancada onde estavam os vasos nos quais ela trabalhava.
“Elas estão crescendo bem e logo vamos poder colher as folhas para colocar no estoque de poções,” disse Helga, puxando um vaso maior para si e afofando a terra dentro deste.
“Elas eram quase xodós do Salazar, não?” perguntou Helena, pegando um vaso menor com uma planta cujos tentáculos logo tentaram se enrolar nela quando a garota começou a cavocar com as mãos ao redor das raízes.
“Sim… Sal gosta de coisas esquisitas,” a bruxa falou, rindo fraco e suspirando. “Ele deve ter um vaso com uma dessas em casa.”
“Como ele está?”
“Bom, está no Conselho, com uma esposa e alguns filhos já,” ela falou, encolhendo os ombros. “Daqui um tempo, alguns filhotes de Salazar vão vir para cá estudar. Sabe para quem vai sobrar a tarefa de cuidar deles, não?”
“Por que eu?” a garota perguntou, fazendo uma careta.
“Você foi a primeira filha de um de nós a nascer. É natural você ficar encarregada de cuidar dos outros.” A mulher riu, sacudindo a cabeça. “Pode ir treinando para quando tiver os seus próprios filhos.”
“Isso ainda vai demorar, Helga,” disse Helena. “Se é que vai acontecer.”
“Sabe quem falava a mesma coisa?” a bruxa perguntou, arqueando uma sobrancelha e tentando esconder um sorriso.
“Rowena Ravenclaw?”
“Dizia que não queria se casar, que não tinha interesse em construir uma família no sentido tradicional da coisa,” a mulher explicou. “Mas aí seu pai apareceu, outro que dizia que nunca pensara em nada dessas coisas, esbarrou nela e os dois caíram no meio de tudo isso e acabaram gostando. Eles nunca se arrependeram da família acidental que criaram.”
“Por que está me falando tudo isso, Helga?” Helena perguntou, franzindo o cenho, antes de segurar as raízes da planta e erguê-la, transferindo-a para o vaso maior.
“Você está crescendo, querida,” disse Hufflepuff, sorrindo de leve. “Logo essas coisas vão se tornar parte da sua vida.”
***
Quando Helga lhe disse que pensar sobre casamento e família logo se tornaria parte da vida de Helena, a garota não pensou que isso fosse acontecer tão rápido. E, pelo jeito, nem mesmo sua mãe havia considerado isso também.
Sir Ulmer Taggart voltou à Hogwarts quando o Outono começou a amarelar as folhas das árvores, dessa vez sem a companhia de Coven ou qualquer outro bruxo do Conselho. E dessa vez, o seu objetivo não era em uma visita de inspeção ao colégio, mas sim algo de seu próprio interesse.
Helena sabia que havia algo errado quando o bruxo lhe cumprimentou sorridente, depois de pedir para falar com ela e sua mãe em particular, e lhe presenteou com um um tipo de gargantilha de pérolas e pedras brilhantes e claras. O olhar de Rowena também denunciava que ela também não estava gostando da situação, apesar de se manter sendo cordial com o homem.
“A senhora deve ter muito orgulho da bela filha que tem, Lady Ravenclaw,” disse Ulmer, tamborilando os dedos sobre o tampo da mesa de madeira da sala de Rowena. “E aposto que seu esposo, que Deus o tenha, também ficaria muito orgulhoso dela.”
“Não duvido nem por um instante do orgulho que Helena traz para mim ou ao meu marido,” disse Rowena, sorrindo de forma discreta, antes de erguer o cálice para beber do hidromel que havia servido fazia pouco tempo. “Mas me diga, Sir Ulmer, o que o traz aqui hoje?”
“Lady Ravenclaw,” o bruxo começou a falar, ajeitando-se na cadeira e se inclinando para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. “Imagino o quão difícil deve ser para a senhora cuidar sozinha de uma filha tão brilhante quanto Lady Helena. Quero dizer, enquanto ela estiver aqui dentro de Hogwarts não há problema, afinal, todo o lugar é bem protegido de trouxas e bruxos das trevas. Mas uma moça como Helena não pode ficar o resto da vida trancada aqui dentro, não é mesmo?” O homem lançou um sorriso galanteador na direção da garota. “Eu sei que a senhora viaja pelo mundo sozinha, mas não vamos nem discutir isso, não é mesmo? Você é Rowena Ravenclaw, com pouca idade já havia passado por muita coisa que muitos de nós nem imaginamos-“
“Sir Ulmer, me desculpe interrompê-lo, mas… Será que pode esclarecer o seu ponto?” Rowena pediu, mantendo o sorriso no rosto, apesar de seus olhos estarem ainda mais frios e a sua magia estar começando a vibrar mais aos ouvidos de Helena.
“O meu ponto, Lady Ravenclaw, é que sua filha é uma jovem adorável e eu… Eu seria o homem mais feliz do mundo se a senhora me confiasse a segurança dela,” ele explicou e Helena podia jurar que, caso estivesse vendo a cena de fora, teria rido da expressão que tanto ela quanto sua mãe fizeram quase ao mesmo tempo. “Sem mais delongas, desde que vi a Lady Helena quando visitei Hogwarts em Julho, não consegui tirá-la de minha mente e gostaria de saber se a senhora me concede a mão de sua filha em casamento.”
O silêncio que se fez quando o bruxo terminou de falar só era quebrado pelo som da magia de Ravenclaw ecoando pela sala, abafando quase que por completo a de Taggart (aliás, a magia dele chegava a ser irritante, como um inseto zumbido no ouvido de Helena). A garota sentiu um vazio se abrir em seu estômago e tudo o que pôde fazer foi olhar para a mãe, tentando ver algum sinal do que se passava pela mente dela.
“Qual a sua idade, Sir Ulmer?” perguntou Rowena.
“Tenho trinta e cinco anos, senhora,” ele respondeu e tudo o que a menina pôde fazer foi arregalar os olhos. “Eu lhe garanto, Lady Ravenclaw, que posso cuidar bem da sua filha. A minha propriedade, na Irlanda, fica bem protegida de trouxas e bruxos das trevas, e o dinheiro da minha família irá providenciar a melhor vida possível para Helena…”
“Minha filha tem quatorze anos, Sir Ulmer,” disse Ravenclaw, franzindo o cenho.
“Mas de certo ela já se tornou mulher, não, senhora?”
“O desenvolvimento da minha filha ou a capacidade de ela gerar filhos não é a coisa mais importante no momento, Sir Ulmer,” Rowena falou, sua voz finalmente ficando mais firme. “Helena ainda é um jovem e eu desejo que ela aproveite a juventude dela sem ter que se preocupar com a obrigação de dar filhos à um marido ou cuidar da casa de um homem.”
“Lady Ravenclaw, a senhora vem de uma família antiga, deve entender a importância de se ter herdeiros… E, hoje em dia, quanto mais nova a moça for, maiores as chances de ela ter uma criança saudável e ela mesma correr menos riscos-“
“Senhor, minha filha terá muito tempo para ter filhos, caso ela deseje isso, sem ter que sacrificar a juventude dela-”
“Minha senhora, como já disse, será uma honra para mim poder proteger a sua filha,” ele continuou, ignorando a fala de Rowena. “Não duvido que o seu falecido esposo, que Deus o tenha, iria querer a filha dele sendo bem cuidada do mesmo jeito que ele cuidou da senhora.”
“Meu marido iria querer que a filha dele aproveitasse a vida dela do jeito que ela desejasse, pois ele sabia que ela tinha a capacidade de se cuidar por si só,” a mulher o interrompeu. “E, se algum dia Helena encontrar alguém que a ame e queira protegê-la, e ela também amar essa pessoa e desejar protegê-lo também, ai sim ela poderá se casar e fazer o que bem entender da sua vida. É isso que meu marido iria querer para a nossa filha e eu partilho desse desejo dele.”
Ulmer permaneceu em silêncio, boquiaberto, por um longo momento, olhando de Rowena para Helena enquanto parecia tentar buscar algo para falar. Depois de um tempo, limpou a garganta e bebeu mais um gole de hidromel, limpando os lábios com o dorso da mão.
“Entendo a sua preocupação, Lady Ravenclaw,” ele falou. “Mas não seria sensato deixar que Lady Helena dê a sua opinião no assunto? Afinal, é o futuro dela do qual estamos falando.”
“Sir Ulmer, pelas leis bruxas, minha filha ainda está sob minha proteção e assim ficará até se apresentar perante o Conselho,” a bruxa falou. “Então, a minha decisão fala por ela.”
“Mas, senhora…”
“O assunto está encerrado, senhor,” disse Ravenclaw, levantando-se e, pouco depois, sendo imitada pelo bruxo. “O senhor está convidado para passar o restante do dia aqui em Hogwarts, os elfos fazem comida o suficiente para que o senhor possa ter um bom jantar caso queira.”
“Acho que é melhor eu ir, Lady Ravenclaw,” ele falou, inclinando a cabeça em uma reverência enquanto Helena se levantava também, ficando parada um passo atrás da mãe e observando o homem dar a volta na mesa e esticar a mão para segurar a sua. A contragosto, a garota lhe entregou a mão, a qual ele segurou, apertando um pouco os seus dedos, e então beijou. “Podemos discutir o assunto novamente em alguns anos, minha jovem. Até lá, pense com carinho na minha proposta sempre que olhar este meu presente,” ele falou, soltando a mão dela e tocando com a ponta dos dedos as pérolas da jóia que havia lhe presenteado.
“Não irei me esquecer do senhor, Sir Ulmer,” disse Helena, sorrindo cordialmente.
“Willy,” Rowena chamou e um elfo-doméstico com grandes olhos castanhos apareceu no meio da sala. “Acompanhe Sir Ulmer até os portões, sim?”
O elfo fez uma grande reverência, antes de guiar o bruxo para fora da sala. Assim que a porta se fechou, Rowena suspirou pesadamente e se sentou outra vez, afundando na cadeira e apoiando a testa em uma mão.
“Achei que eles haviam aprendido comigo a parar de pedir moças da nossa família em casamento tão cedo,” ela murmurou enquanto a garota dava a volta na mesa e ia se sentar em uma das poltronas da sala, evitando o assento antes ocupado por Taggart. “Espero que não fique chateada por eu ter tomado as rédeas na situação, mas ele não iria deixá-la em paz tão cedo se eu deixasse você falar por conta própria.”
Helena apenas assentiu com a cabeça. Não iria admitir ali, mas ficara aliviada quando viu a mãe conduzir a situação sozinha.
“Não se impressione com presentes,” disse Rowena, finalmente voltando a se levantar e andando até a filha. “Eles virão aos montes, um mais belo que o outro, mas sempre se pergunte se um homem está lhe dando um presente para lhe impressionar ou porque sinceramente quer compartilhar algo com você.”
“O que papa quis compartilhar com a harpa?” Helena perguntou quase sem perceber ao sentir a mão da mulher em seus cabelos, afagando-os com calma.
“Agradecimento,” ela falou. “E música. Para ele, a música era uma das formas mais puras de expressar todo e qualquer sentimento.”
***
Helena acordou assustada ao ouvir algo bater na janela ao seu lado. Estava na biblioteca, pesquisando sobre Hipátia de Alexandria e as descobertas astronômicas dela, quando adormeceu e sonhara com o seu pai (ele estava lhe falando algo sobre música, sobre como ele sentia que era possível alcançar as mais diversas sensações através dela, assim como os sentimentos mais fortes). E agora havia um corvo batendo o bico contra a janela ao seu lado, fazendo barulho para acordá-la.
Esfregando os olhos e forçando a visão para conseguir enxergar no escuro, a garota abriu a janela e o animal entrou batendo as asas e fazendo uma bagunça em cima dos pergaminhos. Ele deixou cair sobre a mesa uma uma bolsinha de tecido, antes de sair voando para longe outra vez.
Franzindo o cenho, a bruxa abriu a sacola e apenas riu ao ver ali dentro um bolinho junto com um pedaço de pergaminho com as letras ‘SB’ rabiscadas nele. Sacudindo a cabeça e rindo baixo, Helena guardou o bolo na sacola outra vez e passou a guardar os pergaminhos. Quando terminou de organizar as coisas, deixou a biblioteca em direção às masmorras.
“Está tentando me impressionar com um bolo?” ela perguntou, assim que bateu em uma das portas e esta se abriu, revelando Sigfried, já em suas roupas de dormir.
“Você podia avisar que era você!” ele reclamou, procurando por uma túnica e a colocando. “E só estou tentando me desculpar.”
“Você é um bobo,” a garota falou, rindo fraco enquanto tirava o bolinho da bolsa e o dividia em dois, entregando uma metade ao rapaz. “Obrigada.”
“De nada,” Sigfried murmurou, pegando o doce e mordiscando um pedaço. “Que Helga não saiba que afanei isso aqui da cozinha.”
“Foi por uma boa causa,” disse Helena, dando uma mordida no bolo também.
“Sim… Belo colar,” o rapaz falou, indicando a gargantilha que a garota estava usando. Desde que Ulmer Taggart fora embora, não havia tido tempo de voltar para o seu quarto e tinha medo de guardar a jóia no vestido e depois perdê-la.
“Parece uma coleira,” ela falou, terminando de comer o doce e então procurando o fecho do colar para tirá-lo. “Como se eu fosse algum tipo de cão para ser mantido preso.”
“Deve ter custado uma fortuna,” Sigfried murmurou, esticando o pescoço para espiar melhor a jóia que ela agora segurava na mão.
“Deve,” ela concordou. “Mas seu bolo foi muito melhor do que isso aqui.”
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