O Enforcado
8 A filha de Ravenclaw
Notas iniciais
Quando Helga se sentou ao seu lado e perguntou se Helena preferia dividir o dormitório com as outras meninas que iriam começar o primeiro ano em Hogwarts naquele Outono, a menina disse que não. Não foi preciso mais do que cinco minutos para chegar a essa resposta: Helena Ravenclaw queria ficar sozinha.
Os últimos dois meses haviam sido repletos de dias silenciosos em seu quarto. Sem o som da harpa, sem a voz de seu pai cantando e contando histórias, sem brincadeiras e sem aventuras pela floresta. E Helena achava que seria melhor continuar assim, no silêncio, longe do barulho que outras meninas da sua idade poderiam fazer, longe de possíveis colegas acordando com pesadelos ou chorando com saudades de casa.
Hufflepuff não discutiu aquela decisão, apenas apoiou as mãos no ombro da menina e sorriu, deixando sobre a cama dela uma muda das vestes que serviam de uniforme: uma túnica preta sem mangas e aberta nos lados a qual era fechada com um cordão, também preto, na cintura. Ela devia usar aquilo por cima do vestido e, depois que o Chapéu escolhesse a sua casa, o cordão iria adquirir a cor desta. Helena não queria admitir isso, mas estava apavorada com a dúvida sobre qual cor o seu cordão iria ser.
Sua mãe apareceu em seu quarto naquela noite, mas não falou nada. Apenas sentou-se ao seu lado na cama e acariciou-lhe os cabelos com calma, em silêncio, como se falar qualquer coisa fosse machucar uma delas. No fundo, talvez até machucasse, mas nenhuma das duas tinha coragem de testar essa possibilidade.
Os carinhos de Rowena em seus cachos a colocaram para dormir e Helena podia jurar que ouvira a voz da mãe em algum momento, mas não conseguia se lembrar do que ela falara. Foi quando ela estava entre dormir e acordar, já com um pé dentro de seus sonhos. A noite foi repleta de sonhos estranhos e cansativos: a floresta parecendo um labirinto, cavalos macilentos com asas de morcegos, seu pai a chamando em algum lugar e o som de sua mãe chorando em algum canto da floresta.
Quando acordou na manhã seguinte, seus olhos estavam fundos e havia marcas arroxeadas abaixo destes, do mesmo jeito que seu pai ficava quando se lembrava da fogueira durante a noite.
***
"Ravenclaw, Helena!" Helga chamou e sorriu ao ver a menina subir os degraus até o banquinho, ignorando o burburinho que se levantou dos alunos que esperavam serem selecionados. "Boa sorte, querida."
A garota respirou fundo assim que o salão à sua frente se tornou negro quando o Chapéu tapou a sua visão. Seus ouvidos se encheram com diversos sons: as magias de sua mãe e dos outros fundadores... A harpa, o rouxinol anunciando o fim da noite, a chuva e o a batida de metal contra metal.
"Ah, eu estava esperando por você," disse uma voz por sobre a cacofonia causada pela magia. "Estava ansioso por conhecê-la... Vamos ver. Hm. Interessante... Seu pai era da Lufa-Lufa e você tem muito dele. Ah, sim, ele já me experimentou uma vez, apenas por curiosidade! Você tem muito dele, sim, mas vejamos, você realmente é filha da sua mãe... Mas talvez fosse interessante se tentássemos...? Não, não." O Chapéu ficou em um silêncio profundo por alguns segundos que pareceram horas, antes de voltar a falar: "Essa sede de conhecimento só pode pertencer à um lugar... CORVINAL!"
Helena ouviu os outros ocupantes do Grande Salão baterem palmas, antes de ver o local voltar a aparecer na sua frente. Em silêncio, a garota desceu os degraus e foi até a mesa de sua nova casa — nova? Ela nasceu uma Ravenclaw... -, sentando-se entre as meninas. Quando olhou para as próprias vestes, viu que o cordão segurando a túnica negra no lugar havia mudado de cor, tendo agora fios azuis e bronze entrelaçados.
"Olá!" Uma menina de cabelos loiros presos em tranças a chamou, acenando. "Meu nome é Bathilda! Meu pai conhece a sua mãe, do Conselho."
"Oh... Oi," Helena murmurou, forçando um sorriso a aparecer em seu rosto.
"Deve ser divertido morar aqui no castelo. Você deve conhecer todo mundo já... E deve conhecer todos os cantos daqui!" A menina riu. "Vai ter que nos explicar onde fica cada coisa para não nos perdemos. Ouvi dizer que as escadas se mexem sozinhas, é verdade?"
"Sim, isso estimula as pessoas a prestarem mais atenção aonde estão indo e descobrir mais do castelo quando se perdem," Helena explicou, lembrando-se da explicação de sua mãe quando perguntara sobre as escadas para ela.
"Vai ser legal estudar com você, Helena," disse Bathilda, antes de voltar a olhar o resto da seleção dos alunos.
Quando olhou em volta de si, percebeu que era fácil diferenciar os alunos recém chegados e aqueles que já haviam sido trazidos para o castelo antes, resgatados, mas que só estavam começando as aulas naquele momento. Estes últimos eram mais quietos, o seu fascínio era mais silencioso e eles pareciam carregar uma ansiedade maior em si... Boa parte deles eram crianças saídas de situações ruins, seu pai lhe dizia, que estavam tendo a primeira oportunidade da vida delas de estudar e conhecer coisas novas. Uma dessas crianças cujo silêncio denunciava a sua situação, um menino que parecia um pouco mais velho do que ela, encontrou o seu olhar e Helena sorriu para ele. Sentiu o sorriso sair mais fácil e também achou o sorriso dele mais verdadeiro que o de Bathilda... Ela se lembrava dele, o vira conversando com Helga há uma semana, quando chegara, trazido de um vilarejo trouxa.
A menina voltou a olhar o alunos que restavam serem selecionados. Quando a última menina — Leta Colleville — foi mandada para a mesa da Sonserina, Helena arriscou-se a olhar a mesa dos professores, vendo sua mãe correndo os olhos pelo salão, com o pescoço esticado como que para ter mais campo de visão. Quando o olhar de Rowena caiu sobre si, a garota viu o rosto da mulher relaxar e um sorriso que ela arriscava chamar de doce aparecer em seus lábios.
A menina apenas fez uma reverência rápida com a cabeça, sentindo algo em seu peito apertar, antes de voltar a olhar os seus novos colegas.
***
"Helena?"
A menina largou os pergaminhos nos quais estava desenhando e ergueu o rosto para ver Rowena entrando em seu quarto. A bruxa sorria daquele jeito que seu pai sempre dizia adorar: apenas os cantinhos de seus lábios faziam uma curva muito pequena para cima, um sorriso quase escondido.
Helena observou a mulher sentar-se ao seu lado, observando os desenhos tortos e desajeitados que havia feito, antes de erguer uma mão para afastar os cachos da menina da frente do rosto dela. Ravenclaw inclinou a cabeça enquanto afagava o rosto da filha, piscando diversas vezes e rapidamente por alguns segundos, como se tivesse algo em seus olhos.
"Seu pai estaria tão orgulhoso hoje," ela murmurou, sua voz saindo hesitante.
"Eu não fui pra casa dele," a menina murmurou.
"Ah, filhote." A bruxa riu fraco, antes de passar os braços ao redor dela e abraçá-la. "Ele não se importava para qual casa você fosse. Independente da casa, nós dois ficaríamos felizes de qualquer jeito."
Helena afundou o rosto nos cabelos da mãe, inspirando fundo e sentindo o conhecido cheiro de lírios que ela exalava. Foi automático, no entanto, sentir falta do cheiro das gardênias que normalmente acompanhavam os lírios. Os braços da mulher a apertaram com um pouco mais de força contra si e a garota ouviu o que quase pareceu um soluço baixinho, mas quando Rowena se afastou, a mulher se levantou tão rapidamente que foi impossível ver o rosto dela com nitidez antes que as velas se apagassem, sobrando apenas uma ao lado da cama acesa.
"Boa noite, minha luz," Ravenclaw murmurou, afagando os cabelos da menina outra vez. "Sonhe com as estrelas."
Os passos da mulher foram se distanciando até não serem mais ouvidos. O que restara agora era o silêncio de seu quarto e o teto escuro. Depois de ficar alguns minutos olhando para o nada, vendo as sombras bruxulentes causadas pela chama da vela, Helena se levantou, apagando o fogo e saindo de sua cama na ponta dos pés para ir até a janela, carregando consigo sua coberta e seu travesseiro. Ajeitou-os no chão de um jeito que, ao abrir a janela, conseguia ver as estrelas lá fora.
Seu pai amava estrelas. Talvez ela conseguisse vê-lo entre elas se prestasse bastante atenção.
***
Quando Helena pensava no dia em que começaria a estudar em Hogwarts, nunca havia lhe passado pela cabeça o tão entediante tudo aquilo podia ser. As aulas em si eram boas e ela gostava de assisti-las, mas sempre que os professores inventavam de colocar os alunos em grupos para praticar, a menina queria pegar todas as suas coisas e voltar para o seu quarto para estudar sozinha como fazia antes.
Logo no final do primeiro mês de aulas, a garota percebeu que não conseguia se sair bem quando tinha que fazer magia na frente dos outros alunos. Seus feitiços, por mais simples que fossem, saíam bagunçados por conta do nervosismo e ela odiava a sensação horrível que sentia graças ao suor frio que se acumulava nas palmas de suas mãos e dificultava para segurar a varinha. Por isso preferia aulas como Poções ou Astronomia... Não precisava lançar feitiços na frente de seus colegasl. Além disso, Poções parecia muito fácil depois de acompanhar seu pai e Helga por tanto tempo e, Astronomia, era quase como ler um livro de histórias por crescer ao lado de sua mãe.
O grande problema disso tudo era que o fato de a filha de Rowena Ravenclaw não conseguir fazer uma pena flutuar durante uma aula era assunto suficiente para os sussurros dos outros alunos. Logo era possível ouvir seus colegas murmurando sobre suas tentativas falhas de fazer feitiços: Helena Ravenclaw explodiu uma pena hoje, a filha de Rowena Ravenclaw não conseguiu destrancar um baú com um simples Alohomora, a filha de uma fundadora de Hogwarts mal conseguia segurar a varinha sem tremer da cabeça aos pés... Ela odiava aquilo e só imaginar os novos murmúrios que viriam após outra falha já fazia o estômago de Helena embrulhar.
"Meu pai disse que o pai dela era um aborto." Certo dia, Helena ouviu um de seus colegas, um menino chamado Malin Fergant, comentar com as outras crianças um pouco antes da aula de Feitiços começar. "Será que é por isso que ela não consegue fazer magia direito?"
"Pode ser," disse Bathilda em um murmúrio. "Meu tio diz que sangue de aborto pode enfraquecer a magia em outras gerações."
Helena sentiu os olhos arderem, mas manteve-se em silêncio em sua mesa, fingindo estar lendo o pergaminho sobre magia elemental que havia pego emprestado da biblioteca. As conversas paralelas logo se interromperam quando Rowena Ravenclaw entrou na sala, fazendo todas as crianças irem para os seus devidos lugares. Ótimo, para melhorar, a aula naquele dia seria com ela.
Sua mãe era uma ótima professora. A mulher nunca se irritava quando perguntavam mais e sempre que havia uma dúvida, ela as respondia com toda a paciência do mundo, tentando fazer a sua explicação ser perfeita para o nível de compreensão do aluno. Naquele dia, Rowena explicava sobre feitiços simples de proteção... Talvez algo avançado demais para alunos de primeiro ano que estavam tendo aula fazia apenas um mês, mas Helena entendia a razão de ela explicar aquilo: os recém chegados de vilas trouxas ansiavam por feitiços como aqueles, coisas que pudessem lhes proteger. Para eles, pouco importava se eles podiam mudar a cor do cabelo dos outros, eles queriam mesmo saber como sobreviver lá fora.
Aquele feitiço em particular servia apenas para complicar a abertura de caixas e bolsas que não tinham fechaduras ou cadeados. Um jeito fácil de proteger os pertences daqueles que não tinham dinheiro para comprar baús elaborados e seguros. Para treinar, cada aluno tinha uma pequena caixinha de madeira sobre a mesa e eles tinham que conseguir trancá-la, apenas a abrindo depois de cutucá-la com a ponta da varinha que fez o feitiço.
Helena tentou diversas vezes trancar a sua caixinha, mas ela continuava abrindo sempre que erguia a tampa dela. Já havia tentado pronunciar a fórmula do feitiço de diversas formas — Claudi-TIS, CLAU-ditis, Clau-DI-tis -, mas nada acontecia. Suas mãos já estavam escorregadias com o suor e seu coração já estava incomodando de tão rápido que estava batendo. Todos a sua volta já haviam conseguido trancar suas caixinhas e apenas ela e o menino nascido trouxa que sorrira para ela no banquete que estavam para trás.
"É melhor vocês irem," disse Rowena, observando os dois ao fim da aula. "Todos vocês. A próxima aula já está para começar e vocês não querem chegar atrasados. Quem não conseguiu hoje poderá tentar de novo na nossa próxima aula."
Os alunos logo se levantaram e começaram a sair da sala. Novamente, Helena sentiu seus olhos arderem e encherem de lágrimas, abaixando o rosto para que ninguém visse isso enquanto ela guardava as suas coisas. Quando ergueu o olhar novamente, viu sua mãe tirando uma dúvida do menino do banquete e aproveitou a distração dela para sair rapidamente da sala, de cabeça baixa e com passos largos enquanto sentia as lágrimas finalmente escaparem de seus olhos.
Só foi parar quando fechou atrás de si a porta da Sala Vai e Vem e esta fundiu-se na parede de pedra até desaparecer. Então deixou-se soluçar, encolhendo-se no chão enquanto chorava mais e mais, com raiva de seus colegas e de si mesma. Ela queria ter coragem de voltar e pedir ajuda para a sua mãe, mas não queria admitir que precisava de ajuda, ainda mais dela, principalmente porque se os outros a vissem fazendo isso, iriam comentar ainda mais.
Foi só depois de alguns bons minutos que a garota conseguiu parar de chorar, apesar de ainda soluçar fraquinho. Quando ergueu o rosto, viu que a sala havia, outra vez, tomado a forma daquele local enorme onde os alunos jogavam coisas velhas ou coisas das quais queriam se desfazer para não arranjarem encrenca. Uma vez ela fora ali com o seu pai e eles encontraram as coisas mais diversas, como uma caixinha que, quando aberta, emitia música, como se houvesse uma pequenina harpa ali dentro.
Mas agora Helena não estava com vontade de procurar coisas diferentes. A sala, mais uma vez, estava servindo o seu propósito de esconder algo, mesmo que fosse as suas lágrimas. A única coisa que não esperava era ouvir passos ali dentro... E, pouco depois, ver uma cabeça aparecer por entre as pilhas de livros e objetos abandonados, observando-a com curiosidade.
"O que está fazendo aqui, Helena?" Apesar de a sua visão estar ainda meio borrada por conta das lágrimas, a menina reconheceu a voz. "O que houve?"
"Não foi nada, Sigfried," ela resmungou, limpando o rosto com a manga do vestido enquanto o rapaz se aproximava.
Sigfried era quase como um irmão mais velho para ela. Ele certa vez lhe contara que foram os seus pais quem trouxera ele e o irmão para Hogwarts e por isso ele era tão apegado aos Ravenclaw. Ele já era bem mais velho, já havia se formado fazia alguns anos, mas continuava vivendo em Hogwarts, de vez em quando indo viajar com o irmão, Sigmund.
"Não parece que não foi nada, Helena," o rapaz falou, aproximando-se e se ajoelhando na frente dela. "O que houve?"
"Você acha que eu posso ser um aborto como o meu pai?" ela perguntou baixinho.
"O que? Claro que não, Helena." Sigfrid riu. "Você já faz magia há anos."
"E você acha que pelo meu pai ter sido um aborto, a minha magia é mais fraca?"
"Helena, eu já vi você fazer todas as velas do Grande Salão brilharem mais que as estrelas apenas rindo quando você tinha menos de dez anos," ele falou. "É claro que a sua magia não é mais fraca que a dos outros."
"Eu não consigo fazer magia," ela admitiu, sentindo algo em seu peito doer ao falar isso. "Eu não consigo fazer nenhuma magia durante as aulas. Nem fazer as coisas levitarem. Todo mundo acha que eu não..." ela começou a falar, sentindo sua voz começar a sair mais esganiçada. "Que minha magia é mais fraca porque eu tenho sangue de aborto ou que eu não sou uma Ravenclaw de verdade."
"Garota," Sigfried a chamou, sorrindo fraquinho para ela. "Isso é ridículo. Eu já vi você fazer magia muito mais forte que a de muita gente que vive nesse castelo... E eu sou um dos poucos ex-alunos que continua aqui e pode dizer que conversou com você antes de você nascer. E sei muito bem que eu estava conversando com a barriga de Lady Ravenclaw e não de outra mulher."
A menina riu, sendo interrompida por um soluço. Ela observou o rapaz na sua frente enfiar a mão no bolso do casaco, tirando dali uma bolsinha de tecido e pegando o que parecia ser um dos bom-bons feitos por Hufflepuff.
"Helga vai brigar com você se souber que continua afanando chocolates da cozinha," disse Helena, mas não recusou o doce que ele lhe entregou.
"É por uma boa causa," ele falou, pegando um para si e dando uma mordida.
"Obrigada," ela falou e mordeu o seu doce.
"Sabe, se quiser, posso tentar lhe ajudar com feitiços. Não sou a melhor pessoa com eles, mas se quiser ajuda." Sigfried encolheu os ombros.
"Mesmo?"
"Claro." Ele sorriu largamente. "Por que eu não a ajudaria com isso, Heleninha?"
***
O banquete de final de ano letivo parecera levar séculos para chegar e, depois, os meses de férias — nos quais os alunos que tinham famílias bruxas ou trouxas que os aceitavam voltavam para as suas casas — passaram como se fossem apenas uma semana. Quando Helena percebeu, o seu segundo ano já havia começado e quase nada havia mudado... Bom, ela agora conseguia fazer magia na frente dos outros, graças à ajuda de Sigfried, mas ainda ficava nervosa com isso, fazendo com que cada dia de aulas práticas fosse um pesadelo.
Com a chegada do segundo ano, Ravenclaw decidira que iria se ater aos estudos e não gastar energias em tentar fazer amizades. Claro, de vez em quando ela falava com outros alunos: o menino do banquete, cujo nome, ela descobriu, era Eldon, era um de seus colegas com o qual ela normalmente fazia trabalhos... Eldon era um rapaz tranquilo e ainda tinha uma certa dificuldade para ler e escrever, e de vez em quando Helena o ajudava com isso também. A menina também começou a passar mais tempo na biblioteca, procurando por pergaminhos e livros que lhe fossem úteis, ou assistindo os treinos de Godric com os alunos mais velhos. Naquele novo ano letivo, para não se deixar levar pelo silêncio de seu quarto, a garota tentava fazer o máximo de coisas possíveis: estudar, ajudar alguns alunos com leituras e escrita, ver os treinos de espadas, treinar arco e flecha com Helga, ajudar nas estufas, arrumar a biblioteca... Qualquer coisa que a distraísse.
Aquele sentimento pesado de algo agarrando-se em seu coração e fazendo um buraco crescer dentro de si voltou apenas com a chegada do Outono e a aproximação do Samhain. No ano anterior, ela não havia tido coragem de comemorar a data... Sabia que sua mãe o havia feito, mas se recusou a participar. Não queria ter mais crises de choro na frente de Rowena.
Mas naquele ano a menina sentia que seria errado não fazer nada. Por isso, acendeu algumas velas sobre a mesa de seu quarto e colocou ali em cima, alguns lírios e gardênias, além de outros objetos que lembravam o seu pai: a pequena águia e a raposa de madeira que ele havia esculpido para ela, o lenço que ele dera para a sua mãe e que Rowena depois lhe dera de presente, uma raposa feita de tecido estofado com lã com a qual ela normalmente dormia, alguns desenhos que ele fazia para ela, a pedra de bruxa que ele usava pendurada no pescoço... Depois, apenas sentou-se de frente para altar que criara e o observou por um longo tempo, vendo as velas irem derretendo lentamente, até sentir, pela primeira vez em um ano, uma vontade surpreendente de tocar a sua harpa.
E ela tocou. Tocou as músicas que seus pais costumavam tocar, a música da primavera de sua mãe, as músicas dos campos de seu pai, as músicas que já havia ouvido outras pessoas tocando em Hogwarts... Tocou até sentir as pontas de seus dedos, já desacostumados com as cordas, doerem.
Foi só quando se deitou, levando consigo a raposa de tecido, que caiu no choro. Fazia um bom tempo que não chorava pelo seu pai, talvez um ano mesmo, e agora parecia que tudo voltava à sua mente: o choque que sentiu ao saber que ele havia morrido, o desespero ao perceber que nunca mais o ouviria cantar, a raiva quando via sua mãe ficar tão séria diante de tudo o que estava acontecendo, a dor no peito ao ver o barco dele queimando no meio do lago... E ela chorou e chorou até que o sono viesse e cessasse os seus soluços.
***
"Minha luz, o que houve?"
Helena arregalou os olhos ao ouvir aquela voz conhecida lhe chamar. Fazia tanto tempo que não a ouvia que ela quase lhe pareceu estranha, mas era impossível esquecer aquele tom de voz calmo e gentil.
Quando virou o rosto, sentiu o coração pular uma batida. Seu pai estava sentado ao seu lado na cama, sorrindo tranquilamente para ela como se nada tivesse acontecido. Seria errado dizer que ele estava exatamente como o vira pela última vez, pois ele parecia melhor, mais saudável.
"Papa," ela chamou, baixinho, sentindo os olhos arderem e logo se pôs sentada na cama e pulou nele, abraçando-o com força. "Papa!"
"Luz da minha vida," o homem murmurou, abraçando-a com força. A menina inspirou fundo e sorriu largo ao sentir o cheiro das gardênias. "Está tudo bem, raposinha, estou aqui."
"Papa," a garota repetiu, chorando baixinho enquanto escondia o rosto no pescoço dele. "Senti tanto a sua falta... Por favor, não... Não some de novo, por favor."
"Estou sempre aqui, minha luz," ele falou, afagando-lhe os cabelos. "Eu vou sempre estar aqui com vocês. Eu seria louco de abandonar as minhas estrelas."
Helena apertou mais o abraço, deixando-se chorar ainda mais. Não importava se estava sendo ridícula chorando... Ela sentia tanta falta de tudo aquilo, daquele abraço, daquela voz, daquela sensação de tranquilidade, daquele sorriso e daqueles olhos. Iria chorar até não conseguir mais, até que toda a saudades que sentia sumisse.
"Me diz, pequena," disse Thomas Ravenclaw, afastando-se um pouco para poder olhá-la, mas sem sair do abraço. "O que está acontecendo com as aulas? Eu vejo você fazendo tantas coisas... Vejo você aprendendo a lutar com Godric e aprendendo a usar o arco com Helga, aposto que vai ser muito melhor do que eu! Vejo você no jardim e sei que as flores a amam, vejo você explorando aquela biblioteca até sugar a última gota de conhecimento que há lá dentro, como a sua mãe, mas você parece triste com as aulas..."
"Eles não gostam de mim, papa," a menina falou, sentindo aquele nó chato se formar em sua garganta. "Eles acham que eu sou ruim com magia e que me acho melhor do que eles por causa da mama... Eu só quero estudar em paz, papa. Eu só quero aprender magia e ser tão boa quanto a mama."
"E você vai ser, minha luz," ele falou, sorrindo gentilmente enquanto erguia uma mão para enxugar as lágrimas da menina. "Você não precisa ter medo do que eles dizem... Eles nunca viram o tipo de magia que apenas a sua risada é capaz de fazer, eles nunca viram um quarto se encher de luz apenas com a sua presença. Você é cheia de luz e magia, pequena. Você conhece a sua mãe, ela não lhe deu esse nome por nada. Nomes têm poder e o seu não podia combinar mais com você, coisinha pequena."
"Mas..."
"Você tem direito de se sentir chateada com o que dizem" disse Thomas, sorrindo fraco. "Mas não acredite nem por um segundo. Não acredite quando dizem que sua magia é fraca ou que você é uma pessoa ruim. Você é uma bruxa excepcional, como a sua mãe, e é uma ótima pessoa." O homem suspirou, tocando de leve a ponta do nariz dela com a ponta do dedo, fazendo-a rir baixo. "Não existe nada que nos dê mais orgulho do que essa luz linda que surgiu em nossas vidas sem querer e que tomou conta delas em uma questão de segundos."
"Amo você, papa," Helena murmurou, tentando conter as lágrimas, mas desistindo assim que viu que o homem também estava chorando em silêncio.
"Ya tebya lyublyu," ele sussurrou em resposta. "É assim que o povo no leste fala, na terra das igrejas de madeira e do bruxo sem morte."
"Ya tebya lyublyu," ela repetiu, devagar.
"Eu amo você," Thomas falou, devagar, como se quisesse que tudo aquilo demorasse o máximo possível. "Eu amo muito, muito, muito você, luz da minha vida."
"Eu amo você, papa," a menina falou, abraçando-o com força de novo.
Os braços do homem ao seu redor a apertaram com mais força, como se ele tivesse medo que ela fosse escapar dali a qualquer momento, enquanto ele passava a cantarolar baixinho perto de seu ouvido. A música e o calor do abraço foram o suficiente para fazer com que o coração de Helena se acalmasse até ela estar, outra vez, imersa no sono.
***
Rowena parecia não ter dormido direito na manhã seguinte à noite de Samhain. Ela tinha olheiras profundas debaixo de seus olhos e parecia estar lutando para não deixar transparecer que alguma coisa a estava preocupando enquanto dava aula para a turma de segundo ano. Helena conseguia ver aquilo muito bem... De vez em quando a mulher parava e ficava olhando para o nada, como se estivesse em um lugar completamente diferente, antes de voltar a prestar atenção nas crianças de sua classe.
Eles tinham que encantar um animal e transformá-lo em uma taça cheia de água. Helena não sabia exatamente qual a utilidade daquele feitiço, mas tentava entender como ele funcionava para ver se iria conseguir transfigurar a coruja que pegara emprestada do coruja para aquela aula.
"Vocês tem até o final da aula para praticarem," disse Rowena, antes de voltar para a sua mesa e sentar-se ali, parecendo exausta. "Se não conseguirem, não se preocupem. Podem continuar tentando na próxima aula."
Logo a sala estava cheia de vozes entoando a fórmula do feitiço. Algumas corujas saíam voando, assustadas com os barulhos altos que algumas varinhas soltavam, enquanto alguns sapos tentavam alcançar as varinhas de seus bruxos com as línguas compridas e pegajosas. Helena tentou uma, duas, três vezes, sentindo duas mãos suarem com cada falha, mas, ao ver um grupinho de alunos a observando, respirou fundo e sorriu para a pequena coruja marrom que havia tomado como sua companheira naquele dia.
"Vai dar tudo certo," ela disse à ave, que soltou um piado baixinho enquanto fechava os olhinhos com o carinho que recebia na cabeça. "Vera Verto."
Helena sorriu mais largo do que havia sorrido em meses ao ver a sua coruja transformar-se em um cálice de bronze cheio de água até quase a boca. As crianças a sua volta caíram em silêncio enquanto observavam o cálice e Rowena, que até então parecia distraída com os próprios pensamentos, praticamente saltou de sua cadeira para se aproximar, pegando o objeto nas mãos e o analisando enquanto um sorriso se formava em seus lábios.
"Muito bem, Helena," ela falou, pressionando os lábios um contra o outro até o sorriso assumir uma forma mais discreta, enquanto colocava o cálice sobre a mesa da menina outra vez. "Ficou perfeito."
A garota assentiu, mas franziu o cenho ao ver a mãe segurar as próprias mãos, como se estivesse escondendo algo entre elas... Talvez fosse apenas um truque de luz, mas Helena podia quase jurar que vira um arabesco dourado escapar por entre os dedos de Rowena Ravenclaw enquanto ela voltava para a sua mesa.
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