O Dom
3 Strangers
-13 de Setembro, Boston, 14:12 pm-
Dos muitos aviões que planavam sobre o General Edward Lawrence Logan International Airport em Boston, um deles em especial estava naquele preciso momento a repousar, vindo do lado oeste dos USA, mais concretamente de Portland. Assim que fora permitido retirar os cintos de segurança, Adam esperou que na sua fila toda a gente saiu-se, para conseguir também ele passar pelas cadeiras anteriormente ocupadas. Tinha sido um voo de 1 dia e pouco e como não tinham feito uma pausa na viagem, o rapaz dormiu ali mesmo, num local que sempre achara um pouco desconfortável, para mais tendo de fazer de cama, o local onde passou todo o resto do dia a tentar se entreter entre ouvir música do seu MP4 e distrair-se com as nuvens lá fora. Estava feliz por tudo aquilo ter terminado.
Encaminhou-se pela porta e de certa forma encadeou-se com a luz do sol. Estava um belo dia por lá, mas isso não indicava em nada que estivesse menos frio que o esperado. A temperatura devia rondar os 9º C positivos. Desceu a escadaria e dirigiu-se com os outros passageiros para o interior do aeroporto, de maneira a ir buscar a sua bagagem. Estivera naquela mesma situação meses atrás, mas era diferente naquele dia. Não tinha ninguém para se apoiar, estava por conta própria.
Na base rolante demorou um pouco a encontrar as malas todas, num total de três, mas assim que o conseguiu, colocou uma às costas e às duas outras deixou rolar pelo chão. Depois de passar toda a burocracia que geralmente todos os aeroportos apresentam, saiu pela entrada atafulhada de gente. Já estava preparado para o que se seguia e os seus pais já lhe tinham dado o número que necessitava de marcar no telemóvel para chamar um táxi em Boston, já que nenhum parente o esperaria à chegada, afinal tinha lá os seus afazeres. Por gozo ou castigo, Adam também teria nas próximas semanas “coisas para fazer” e logo não informaria a ninguém que tinha finalmente chegado.
Com o número guardado na lista de contactos, foi apenas necessário um toque no botão de chamada e a ligação estava concluída. Atenderam-lhe da estação e desejando os bons dias como uma pessoa educada, o Derek pediu que o fossem buscar ao aeroporto. Com a confirmação da recepcionista, ficou também a saber que demorariam pelo menos de quinze minutos a meia hora a chegar, não fosse o grande trânsito que se instalava por aqueles lados.
E assim foi obrigado a fazer. Como tinha uma mala mais dura, colocou-a de pé e sentou-se sobre ela a um canto perto das portas rolantes, acabando por se encostar ligeiramente ao vidro atrás de si. Passou ali um grande momento de tédio. Apenas o ultrapassou, colocando-se a investigar a vida das outras pessoas que por ali passavam: Uma família numerosa que corria cheia de malas para apanhar um avião para o qual, decerto, estariam atrasados; Homens de negócios com fatos, gravatas e pastas negras sobre os ombros e prontos para viajar, ou regressar a casa; Mulheres todas arranjadas e de ar chique que levavam uma quantidade enorme de malas de todos os tamanhos e era necessário ir buscar um andarilho para levar tudo aquilo; Depois virou-se para a estrada em “c” a entrar para o aeroporto, com carros particulares e de múltiplas cores entrando e saindo, assim como táxis com tabuletas a apresentar diferentes números de série, dependendo do seu condutor. E foi nessa altura que Adam avistou o 555-XT-P a buzinar e lembrou-se que era essa a referência dada pela telefonista. Pegou nas coisas e com a ajuda dele, colocou na bagageira tudo o que tinha e a partir de um papel previamente escrito, indicou a morada do seu novo apartamento em Boston.
Foi rápida a viagem até lá, já que se localizava fora do centro da cidade e como o aeroporto também o era, usando ruas mais lineares e directas facilmente se chegava lá. Pelos vistos Boston era quase tão calmo àquela hora como Portland, confessando para si mesmo que talvez a sua terra natal fosse menos mexida ainda. Parou num passeio depois de esperar que o lugar fosse desocupado e estava já em frente da porta de entrada. Pagou ao motorista e desceu, dando de caras com o prédio alto e robusto, com muitas janelas e pelo menos 10 andares, que visitou no Verão passado na altura que acabou por o comprar com a ajuda do pai. E assim entrou, seguiu pelo elevador e recordou-se do caminho que tinha de fazer até à porta 51 no fundo do corredor de portas. Só se ouvia o som das rodinhas a rolar pelo chão de azulejo. Pegou na chave, ainda nervoso e rolou-a pela fechadura e ouviu-se um estalido de abertura. Rolou a maçaneta e entrou.
Estava tal e qual como quando o visitou com o pai. A mobília básica estava lá, como um sofá na sala quadrada, assim como uma televisão com alguma idade; um fogão, um micro-ondas e um frigorífico quase do tamanho dele; na casa de banho, apenas a sanita, a bacia e o polibã com chuveiro e no quarto, onde deixou as malas, uma cama de solteiro com um tamanho extra e uma mesinha para arrumar as coisas.
Voltou para a sala e dirigiu-se a uma das janelas panorâmicas e abriu a portada para dar uma vista de olhos por ela. Não tinha vertigens, mas a altura de 10 andares era respeitável, por isso só olhou uma vez para baixo e de resto, olhou em frente, onde contemplou os prédios mais elevados do interior de Boston lá mais à frente, bem no fundo do horizonte. Uma cidade compacta e do lado esquerdo banhada pelo Mystic River, que desaguava para o oceano quase fora de vista. Ali estava um misto de possibilidades.
Hoje Adam tinha planeado apenas arrumar as coisas e começar a ambientar-se aos novos ares de uma nova cidade. Talvez ainda tivesse tempo para siar um pouco e ver as paisagens de Boston, mas não se afastaria muito do bairro onde vivia, com o risco de se acabar por perder nas ruas e ruelas. Na manhã seguinte, ai sim partiria para a zona comercial e de maior população, onde se iria candidatar a qualquer emprego para começar. Sabia que era necessária muita sorte para à primeira encontrar algo que fosse realmente proveitoso, mas até lá, ficaria empregado em algo mais baixo só para se sustentar. Também sabia que se em 6 meses as coisas não corressem como o previsto, tinha sempre um avião par regressar a casa, para perto da mãe, do pai e de Gustava. Mas a principio, essa ideia estava fora de questão.
Começou por descompactar as malas e colocar as coisas em cima da nova cama. Meteu logo as roupas nas gavetas e as coisas mais básicas nos seus lugares da casa, como o shampoo, a escova de dentes, o telemóvel sobre a mesa da sala. Isso ocupou-o por bem mais de meia hora. Seguidamente passaria para a colectânea de livros e materiais que trouxera para se entreter e sentir em casa, assim como muitas outras coisas que lhe fazia relembrar o quarto em Portland. Colocava as últimas molduras empilhadas perto da televisão para posteriormente arranjar lugar, quando a campainha estridente do apartamento soou. Irritou-lhe os ouvidos, mas sabia que acabaria por se habituar. O que não estava mesmo à espera era de visitas tão cedo. Caminhou até à porta pé-ante-pé e com cuidado para não revelar a sua presença, acabando por perceber que estava a ser infantil, pois certamente quem estava à porta, já o tinha ouvido chegar à pouco. Destapou a ranhura na porta que lhe permitia espreitar e reparou que alguém do sexo feminino, que não dava para ver bem devido ao pó que o vidro tinha, estava lá fora parada e à espera.
Sem muito que recear, destrancou a porta e forçou-a a abrir, empurrando-a para trás e colocando primeiro a cabeça de fora por segundos antes de todo o resto do corpo.
- Olá... – Acabou por começar Adam, recebendo da rapariga um certo espanto, que talvez esperasse alguém mais velho.
Tinha também pouco mais de 16 ou 17 anos de idade e um rosto quase angelical e a pele ligeiramente bronzeada, mas não escura, a combinar com uns hipnotizantes olhos verde. O cabelo dava-lhe pelos ombros, de cor castanha clara o que lhe deixava as delicadas maçãs do rosto rodeadas de finos fios do mesmo. Acabou por sorrir talvez por cortesia e Adam fez o mesmo. Trocaram de olhares por momentos.
- Olá... Desculpa estar a incomodar-te. – Disse, em certa parte envergonhada, mas não tímida, e de vez em quando deitava olhares para o interior da sala que ficava atrás do hall de entrada. – Mas ouvi dizer que o novo inquilino chegava hoje e por isso vim dar as boas vindas pela minha família oferecendo-te isto. – Levantou a mão esquerda e foi só ai que o rapaz deu conta que ela trazia um cesto com comida embalada para lhe oferecer.
- Oh... Não incomodas nada... E obrigado. – Acabou por aceitar, estando a escaços centímetros de lhe tocar na mão. – Estava mesmo a precisar de encontrar um supermercado para fazer as compras, mas sozinho não ia lá. – Disse, ao rir-se. Ela fez o mesmo.
- Espera, quer dizer que vieste morar sozinho?
- Sim, venho em busca de um emprego melhor aqui por Boston. Ouvi dizer que tem óptimas propostas e um futuro risonho.
- Bem, sim, acho que sim. E bem se estás à procura de emprego, talvez eu te possa ajudar. Conheço alguém que está a necessitar de pessoal... – Voltou a olhar lá para dentro do apartamento de relance. – Se quiseres eu amanhã posso levar-te lá. Se estiveres disponível, claro.
- Sim, sim, amanhã parece-me bem. – Não conseguia retirar o sorriso parvo da cara ao olhar para a rapariga. – Pode ser quando te der jeito.
- Tudo bem, às 16, eu vivo no 29. Vai lá ter então. – E depois sorriu uma última vez e começou a andar para fora dali. Adam fê-la parar.
- Espera! – Ela olhou para trás, com o cabelo quase a voar. – Não me cheguei a apresentar. Adam, Adam Derek. – Ela riu-se baixinho.
- Mia, Mia Lance. – E desceu as escadas.
Quando chegou a porta, Adam já se tinha esquecido da roupa fascinante que ela vestia, mas não do seu rosto belo. Ficou parado por um tempo na porta como um louco, sem pensamentos na cabeça e forçando a mão direita com o cesto a não ceder à gravidade. Era estranho a rapariga ter aparecido assim tão rapidamente ao seu apartamento, mas acabou por concluir que talvez tivesse sido uma mais-valia ter ido para Boston naquele dia e nos meses que se seguiriam.
-13 de Setembro, Nova Iorque, 18:11 pm-
Com mais um dia de negócios encerrado na “Sporting Corporation”, Dwayne guardava os últimos documentos de contas e projetos na sua pasta e preparava-se para abandonar o escritório naquele preciso momento. Tinha combinado uma saída com o velho amigo Chris para aquela noite e como ainda não tinha jantado, encomendou por telemóvel uma pizza e mandou-a entregar dali a uma hora onde residia. Nesse compasso de tempo, iria a andar a pé até lá. Ficava a quatro quarteirões da empresa e como não suportava entrar tão cedo em pequenos compartimentos amarelos com rodas, com o carro ainda por arranjar, foi o que pensou fazer naquele dia. No anterior fizera essa experiência e mesmo tendo de percorrer uma grande distância parecia-lhe estar a fazer bem caminhar um pouco para variar. Também podia dar uso à sua habilidade sobrenatural, mas fazia-o sentir-se esquisito, como que uma experiencia do estado e quanto menos se lembrasse disso e de todas as perguntas sem respostas que tinha sobre esse assunto, mais valia ele ficar arrumado no inconsciente se possível para sempre.
De pasta de baixo na mão direita, encostada sobre a zona lombal, pôs-se a caminho entre a multidão de pessoas apressadas de Nova Iorque, enquanto as luzes se iam acendendo em um ou outro prédio à medida que as pessoas iam chegando a casa. As publicidades brilhantes também já dominavam o olhar de qualquer um que passava pelo Time Square como ele. Percorrida este local, restava agora penetrar por ruas menos movimentadas e ver À frente as primeiras árvores da parte sul do Central Park, local que tinha de ultrapassar cortando caminho, se queria chegar a Upper West Side ainda a horas de comer a pizza quente que iam entregar. Mesmo que mais escuro, o parque era iluminado aqui ou ali por uma lamparina com luz fraca, mas como à muito tinha ultrapassado o medo da escuridão, nada impedia Dwayne de prosseguir sem receios, como se calhar uma mulher por aquelas bandas não faria tão descontraidamente. Estava já quase completamente noite, não fosse também o juntar de árvores e árvores que tapavam ainda mais o céu.
Algo se moveu nas sombras, mas o Carter não reparou, afinal, era algo distante dele. Uma respiração quase ofegante mas baixa fazia-se ouvir no cimo de uma árvores alta, onde mais tarde ao perceber, alguns pássaros voaram a chilrear alto. Esse comportamento estranho Dwayne ouviu nos animais e olhou em redor, continuando a andar depois normalmente. Depois, essa mesma figura desceu e a sua postura robusta caminhava sem fazer qualquer barulho, fora do alcance de visão do jovem empresário, devido a essa figura se misturar com todo o negro em redor. Ouviu-se ligeiramente um ramo a partir debaixo de um pé e mais uma vez Dwayne olhou, mas agora só para trás de si, de onde o som veio. Agora tinha a certeza que algo estranho se passava, mas continuou, com um passo mais acelerado, mas não demostrando receio demais.
Ouvia muitos casos de assaltos em Central Park e não estava com muita disposição para ser mais uma das vítimas. Também não sabia que tipo de ladrão o seguia e se daria conta dele sozinho. Se algum confronto ocorresse sempre era melhor fora que dentro daquele parque onde a falta de visão predominava. Por isso, quando teve a certeza mais uma vez que algo se podia estar a aproximar, decidiu medir uma corrida com isso.
- “Se me queres roubar terás de me vencer numa maratona, seu bastardo!” – Pensou, ao começar a cruzar as árvores em zigue-zague quando sabia que faltaria pouco mais de 15 metros para chegar ao seu bairro e 20 para o seu apartamento. Ai sentiu que alguns passos eram também dados a correr atrás dele e assim sendo, ainda acelerou mais. Quando tinha menos idade fora várias vezes campeão de corrida no liceu e por uma vez participara numa maratona em Nova Iorque e aliando isso às vezes que ia ao ginásio pelo fim-de-semana por mês, estava preparado para aguentar muito.
Finalmente deixou os arbustos altos para trás e estava agora em plena estrada, quase dando de frente com um carro ao passar sem olhar. Do outro lado do passeio abrandou, enquanto continuava a olhar para trás, ver se algo surgia de onde ele tinha vindo. Nada.
Estava agora acompanhado por mais pessoas e deixou de se preocupar tanto, mas não deixou de ficar alerta até chegar à porta de casa e entrar para o elevador do prédio. Nessa altura ainda respirava fundo e bufava, mas quando saiu no seu andar, já se sentia recuperado. Tinha de seguir curvando à direita e à esquerda até à sua porta e depois da primeira viragem, voltou a ver um vulto a segui-lo. Era agora ou nunca para acabar com o vigarista que o seguia, fosse ele quem fosse. Quando deu de caras com a porta do apartamento, parou a olhar para ela e começou a ouvir os passos baixos a andarem e aproximarem-se dele cada vez mais, até que conseguia distinguir uma sombra escura ao seu lado, indicando que o inimigo estaria já atrás dele. Nesse momento ganhou o resto da coragem necessária e virou-se pronto para esmurrar a figura.
- Ei! Ei! Calma! – Gritou Chistopher atrás de si, afastando-se para trás de forma a não levar um murro na cara. – Então, para que foi isso?! – Dwayne ficou confuso.
- O que estás tu aqui a fazer? – Perguntou confuso.
- Bem, como sai mais cedo, decidi vir aqui ter para te dar alguns panfletos de carros bons para ti. Tenho estado à tua espera ali sentado nas escadas, mas não esperava um agradecimento tão agradável. – Brincava Chris com a situação, entregando os papéis para o amigo.
- Desculpa lá, estava a pensar na vida e sabia lá eu se não podias ser um assaltante.
- Espero é bem que não tentes esmurrar toda a gente que te tente fazer uma surpresa. – Sorriu e depois forçou Dwayne a apertar-lhe a mão. – Espero por ti logo no bar do costume. Até logo! – E foi-se embora.
- Até logo... – Disse Dwayne, acabando por abrir a porta e entrar na sua suite de luxo. Ainda estava confuso com tudo o que aconteceu no caminho, mas decidiu esquecer. Foi tomar banho antes que o jantar chegasse.
Lá fora as ruas estavam iluminadas em pontos estratégicos e as pessoas passavam pelas ruas sem notar na figura negra pela falta de luz, de capuz sobre a cabeça, a olhar para o prédio daquele rapaz que antes seguia. Desistira por aquele dia. Tentaria noutro. A frustração corria-lhe nas veias não como sangue a bombear, mas leves faíscas luminosas nas mãos descobertas. Por pouco a eletricidade do local não era afetada.
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