O Dom

4 Old and New Perspectives


Notas iniciais
Para quem acompanha, aqui está mais um ^^

- 14 de Setembro, Tokyo, 2:45 am –

Mesmo numa das cidades mais populosas e industriais do Japão, de madrugada já muita gente se tinha recolhido em casa, ou então simplesmente não gastavam o seu tempo a passar pelas ruas da zona industrial, local onde as maiores empresas do país asiático tinham as suas firmas de vários andares. Mesmo assim naquele particular dia da semana, Kenato tinha a certeza que dali a nada, alguém sairia do edifício majestoso das Industrias Tsukisaki, como indicava o longo e gigante logotipo em forma de esfera trespassada por três círculos menores.

- Kenato-kun, o alvo encaminha-se agora para a saída. – Falava alguém do sexo masculino e de mais idade dentro do microfone que o rapaz usava por debaixo da máscara de seda preta que lhe escondia toda a face, menos os olhos. – Necessita do meu apoio?

- Por agora não Mordomo. Este até é fácil, dou conta dele sozinho. – Disse finalmente vendo o seu alvo a sair pela porta principal e despedir-se de alguém no interior, começando depois a andar calmamente para sul a pé. Se Kenato tinha estudado bem a vítima, iria pela ruela mais a sul, virando à esquerda, local que daria mais facilmente acesso à sua casa. – Konito Yamato, chegou a hora do seu julgamento...

Com isso colocou-se logo a mexer e em vez de correr para a rua da empresa Tsukisaki, foi em sentido contrário, mais para o interior da ruela escura onde se encontrava. Olhou de relance para saliências de ferro na superfície do seu lado esquerdo e com um impulso, saltou baixo e uma pessoa normal não tinha feito mais que se contentar com uma queda igualmente pequena, mas com o rapaz asiático era diferente, desde muito jovem aprendeu consigo mesmo que se tratava de uma pessoa diferente e por muitas vezes que tivesse alertado os pais para isso, eles nunca fizeram caso. Mas Kenato conseguia controlar uma força que ele próprio criava e só ele via quando queria. Uma força que naquele contexto esticou-se até à saliência e conseguiu elevar Kenato até ao teto do prédio. Era aquela energia mística e de certa forma invisível que o acompanhara na jornada contra as Industrias Tsukisaki, para as quais guardava um rancor do tamanho do mundo. Com a origem delas nos seus tenros 5 anos, os seus pais deixaram de se importar tanto com ele, sempre em viagens de negócios e apegados à vida profissional. Ele ficava primeiro com uma ama e depois, quando cresceu mais, apenas o dia todo sozinho, já que conviver com os serventes da sua mansão estava fora de questão. E por isso desde que o seu “poder” um dia surgiu do nada, ele aproveitou-se para começar a treinar, para o dia em que vingaria a sua infância em certa parte roubada. Mais ou menos interligados com as empresas, Kenato torturaria e assustaria os grandes e pequenos clientes que viessem fazer negócio com eles em Tokyo. Aquele, Konito Yamato era o novo grande investidor que viajou de Kyoto para a cidade apenas para fazer um acordo qualquer com a empresa de forma a ambas prosperarem. Aquilo pareceu agradar e muito os superiores e dia 15 certamente estariam a assinar o primeiro acordo. Logo Yamato seria a boa próxima vítima.

Saltou para o prédio seguinte um pouco mais baixo e conseguiu cair nele, mas mesmo que tivesse escorregado e acertado ao lado, continuaria a não cair da altura de 12 metros no chão devido à possibilidade de se agarrar com a ”energia”. E foi isso que fez com o seguinte que era mais distante. Depois espreitou para o solo novamente, Yamato continuava a andar sem preocupações até começar a ter o intuito de virar. Nesse momento Kenato lançou-se para o chão e foi amparado por 1 metro de algo invisível, até voltar a pousar os pés no solo. Correu e teve de esperar um pouco para passarem os carros e fez os possíveis para não dar de caras com ninguém até se encaminhar para a ruela entre vários edifícios. Ele ainda ali estava, já pronto para acabar de atravessar toda a extensão. Ai o rapaz voltou a comunicar com o microfone.

- Pensando bem, avance com o telecomando Mordomo. Acabo isto mais depressa. – Falou, recebendo uma confirmação do outro lado da linha.

- É para já Kenato-kun. – E assim voltou a interromper a ligação.

Quase que instantaneamente, dois camiões dos grandes atravessaram ambas as saídas da rua pequena, deixando o cliente encurralado e confuso. Se já tinha percebido algo estranho, não demostrara até ao momento, pois só quando viu a sua hipótese de fuga impedida é que olhava em todas as direções, confuso e desorientado, acabando por até bater na parte traseira do camião da frente, pedindo que ele se mexesse dali. Enquanto isso acontecia e ainda no anonimato o rapaz da máscara, que escondia o verdadeiro rosto de Kenato, aproximava-se dele sem grandes preocupações e sem ao menos ao inicio, ele perceber que existia naquela ruela, alguém mais que apenas ele.

A seguir desistiu de bater no metal e voltou a virar-se, deparando-se com o jovem Tsukisaki. Tinha um ar acima de tudo, aterrorizado.

- Quem é você? O que se passa aqui? Também está encurralado?! – Não lhe foi possível pronunciar mais nenhuma pergunta sem resposta, pois a energia invisível de Kenato formou quase que uma espécie de mão, apertando o pescoço de Yamato e até elevando-o alguns metros no ar. Isso deixou-o ainda mais assustado, já que o rapaz não tinha mexido nem um dedo, tal não era já o seu controlo sobre o seu dom especial.

- Eu sou aquele que te vai dar o julgamento necessário. E nada mais necessita de saber. – Comentou ele, usando por de baixo da máscara negra, um modificador de voz, de maneira a tornar a sua voz mais grossa ainda, mesmo para um jovem de 17 anos. O cliente esperneava-se, mas não estava a sufocar. – Não tenho nada contra ti, mas sim contra a tua empresa e com a relação que estão a tentar estabelecer com as Industrias Tsukisaki. Nós aqui em Tokio estamos bem sem os vossos investimentos!

- ... Eu... eu não tenho nada a ver com isso, sou um simples representante... – Ainda conseguia falar, mas com uma voz fraca e alterada, pelo facto de ter o pescoço semi-estrangulado.

- Nesse caso como um bom representante, vais-me dar as informações sobre quem representas. Tudo o que me puderes dizer antes que eu faça ainda pior que isto. – A força invisível voltou a destabilizar e mesmo que transparente, alguns espinhos encostavam na barriga do homem de negócios, apenas para o deixar com receio.

- Sim, sim, tudo o que quiseres! Não me mates! – Gritou o homem, mas decerto, ninguém o ouviria. O Mordomo estava sempre alerta a movimento pelas ruas onde Kenato “trabalhava”. – Eu trabalho para a “SEC”, uma empresa ainda em ascensão na área do investimento imobiliário. Trouxeram-me aqui para que propusesse às Industrias Tsukisaki a compra e investimento em novos edifícios para a empresa em outros países, incluindo a América e a Europa.

Kenato não gostou do que ouviu, o plano da SEC era pior do que ele pensava. Levaria os Tsukisaki para os outros países e assim o negócio prosperaria ainda mais. Isso deixava Kenato ainda com mais rancor e mais sede por vingança, mas já sabia o que tinha de fazer.

- Onde fica a sede dessa SEC? – Perguntou ele, esperando que o cliente fosse honesto. Também se não o fosse, procurá-lo-ia para o matar depois, se fosse necessário.

- A sede mais próxima é onde eu trabalho, em Kyoto. Tenho dentro da pasta a morada e localização. – E dito isso, o rapaz mascarado aliviou os espinhos da barriga de Yamato para poder controlar a energia para com cuidado mover a pasta do ombro do homem e deita-la ao chão. Depois finalmente moveu-se do lugar até onde então permanecera estático e caminhou para apanhar a mala, começando a vasculhar nela. Sem querer estar ali mais tempo à procura, resolveu ficar com tudo. Voltou a olhar para o representante da SEC.

- Foste útil e como tal não te vou torturar como os outros. Considera-te especial. – Comentou, virando-lhe costas. – Agora nunca mais voltes a por os pés na Tsukisaki ou a trabalhar na SEC para esse fim, ou irei atrás de ti para acabar o serviço.

Yamato quase não teve tempo para acabar de acenar em confirmação com medo, já uma palma da mão enorme bateu-lhe de frente, ao mesmo tempo que aquilo que o sufocava cedia. Ele voou alguns metros e acabou por parar quando bateu de cabeça contra um recipiente do lixo. O trabalho por ali estava concluído.

- Mordomo, apanha-o e coloca-o a quilómetros de Tókio e de Kyoto, não quero que ele me volte a importunar tão cedo. – E dito isso voltou a esticar o poder para o cimo de um prédio e saiu dali tal e qual como chegou.

Voltou para a sua mansão ainda não passava das 4 da manhã. Tinha demorado mais um pouco que costumava, mas estava satisfeito com a caçada do dia. Ao deslizar a porta da frente e fecha-la atrás de si, voltou a sentir o silêncio de uma casa vazia. Vivia com os pais numa mansão rica fora do centro de Tókyo, uma moradia ao estilo tradicional da china, mas muito mais requintado e protegido. O problema era que quase nunca estava com os familiares, não fossem eles o Sr. e Sra. Tsukisaki, donos das indústrias.

De certa forma ele sabia que afastar possível investimento positivo para a empresa, era a ruína de tudo o que os pais andavam a construir, mas com a riqueza que já possuíam, ele não via motivos para eles continuarem a passar dias fechados no prédio das industrias, ou só voltar a casa para dormir às 6 da manhã, para depois saírem pouco depois das 7. A vingança que ele procurava não era má, era algo que ele precisava de revolver com o passado que sempre o deixou afastado da família: As Industrias Tsukisaki.

Como tal, brevemente daria o golpe que talvez fosse o seu melhor em anos.

Acabou por retirar primeiro a roupa negra que vestia, ficando apenas de t-shirt e calções, para depois retirar a máscara negra e voltar a colocar os óculos de intelectual sobre o rosto. Escondeu a roupa do seu alter-ego no armário do costume que nunca ninguém mexia sem a sua autorização.

Entretanto ouviu a porta da frente, mas já sabia quem era e nem se mexeu. Tinha demorado mais de uma hora a voltar, mas finalmente o Mordomo deveria ter acabado o seu serviço. Yuu, a gata foi a primeira a aparecer do corredor e deitou-se ao lado da almofada onde Kenato estava sentando. O rapaz sorriu e fez-lhe algumas festas no pelo. Depois apareceu uma pessoa, um homem alto com 45 anos de idade e o cabelo grisalho de ambos os lados perto das orelhas. Também trazia uma máscara, mas acabou por retira-la ao chegar. Já o tinha contratado para aqueles serviços especiais à certa de 3 anos, quando ele era um simples mordomo da casa, mas que tinha experiência como ex-militar do exército japonês. Era também a única pessoa que até então sabia da habilidade de Kenato e quem tinha aceitado tal bem.

- Kenato-kun, o trabalho está concluído. Konito Yamato demorará dias ou até semanas para conseguir encontrar o caminho para casa. Mas deixei-o num local onde não morrerá de fome.

- Muito bem Mordomo. – O homem fez uma vénia de confirmação.

- Necessita de mais algo por hoje menino? – O rapaz ficara pensativo enquanto ajeitava os óculos na cara.

- Compre dois bilhetes para Kyoto. Tenho assuntos a resolver por lá.

- Têm a certeza? Nunca nos deslocamos de Tokyo para enfrentar clientes de outras cidades.

- Mas esta empresa é diferente e muito mais perigosa para o meu plano. É necessário afasta-la daqui o quanto antes. Colocar-lhe algum medo não fará diferença.

- Pretende faltar à escola?

- Partimos este sábado e ficamos lá o tempo necessário. A escola pode esperar. Os meus pais não darão por isso e tu ganharás mais se continuares comigo... – Chantageou ele ao sorrir e o ex-militar fez o mesmo.

- Sabe bem Kenato-kun, que mesmo com o salário atual estarei sempre ao seu lado...

O jovem voltou a acariciar Yuu e manteve-se sentado por mais 15 minutos. Depois todos dispersaram, como se nada tivesse acontecido. Kenato iria ao colégio no dia seguinte e por isso tinha de descansar um pouco.

- 14 de Setembro, Boston, 4:26 am –

Não sabia onde estava, mas tinha plena consciência que aquilo não era a vida real, mas sim algo mais, o que tornava tudo ainda mais estranho.

Adam permanecia sentado sobre a beira de um prédio estranho e alto muito alto, mas não sentia medo algum de cair dali. Olhava para baixo e só via pessoas em miniatura a caminharem normalmente pela rua; olhava para cima e via um dia de melhor tempo, nublado, mas o sol aparecia de vez em quando no céu. Ao seu lado apenas existia mais edifícios, uns maiores que outros. Não se tratava de nenhum local onde estivera estado no passado ou presente, nem se parecia com Boston, que ainda pouco conhecia.

Levantou-se e tentou andar para trás, para se afastar da beira do prédio e olhou novamente em seu redor, com um desconhecimento no olhar notável. Por instantes teve de se distrair, afinal não sabia o que fazia ali e por isso começou por pensar no que Mia pensaria se ele não aparecesse. Pelos vistos já era de dia e ele estava naquele local desconhecido sem saber por onde ir, nem existia saída ou descida possível. De repente sentiu que alguém estava atrás de si e ao virar-se olhou Mia, a rapariga simpática do dia anterior, ali vinda do nada, sem se mexer, apenas a sorrir para ele.

- Mia!? – Disse ele, sem obter qualquer movimento ou resposta. Ela mantinha-se a sorrir. – Como? O que fazemos aqui? – Ela manteve-se como apareceu.

Adam acabou por lhe virar costas apenas para pensar. Nada ali batia certo...

- “O que se passa aqui?” – Pensou o rapaz, ao mesmo tempo que o pensamento se fundia com a voz de Mia e ele voltou-se para ela. Engoliu em seco. Voltou a pensar em algo. – “Mia?” – E ela voltou a gesticular a fala ao mesmo tempo que ele a pensava. Assustou-se.

Esse mesmo susto pareceu distorcer aquele local e quando viu o chão debaixo dele desaparecera, assim como Mia. Estava a cair para o nada, mas foi salvo ao acordar pensando nisso mesmo. Olhou em redor e viu o novo quarto à luz da lua, ouviu a sua respiração ofegante e sentiu o suor a escorrer pela cara e corpo. Pelos vistos tinha sido um sonho muito estranho.