O Destino da Sombra
2 Iguais
Sombras não tinham ambições. Era um fato conhecido, afinal, sua própria vida não seria mais sua.
O peso de minha nova realidade ameaçava me esmagar.
Sentada na carruagem branca impecável à caminho do lar dos Laroki, mil coisas se passavam por minha mente.
Minha mão roçava a leve protuberância em minha coxa onde escondia uma pequena adaga artesanal, feita por meu pai em meu aniversário de 13 anos. Parecia ter acontecido em outra vida.
— Minhas felicitações, senhorita Thorne.
Me virei em direção à janelinha da carruagem e puxei a cortina pesada.
Um lindo cavaleiro de rosto sardento estava ali, em seu cavalo. Seu elmo pendurado na sela do animal.
— Pelo quê? — indaguei.
— Completa um ciclo anual hoje, certo?
Minhas sobrancelhas se ergueram levemente.
— Como sabe que faço aniversário hoje? Também te contaram isso no palácio?
— Então, acertei. — ele sorriu, com triunfo. — Ouvi um boato, certa vez de que as Sombras precisam ter nascido no mesmo Ciclo Lunar que seus Iluminados. E hoje também é o aniversário de Vossa Alteza, então, a Chama com certeza já as havia predestinado e...
— Segure esta língua, soldado. — Crowley gruniu.
O rapaz se ajeitou na sela, engolindo em seco.
O capitão não parecia ter mais do que vinte e poucos anos com aquele rosto e porte juvenis, mas a aparência costumava enganar quando se tratava de seres como ele. Aquilo também era uma arma. Beleza absoluta, como aqueles olhos cor de mel e pele bronzeada de sol. Não tinha parado para realmente estudá-lo. Poderia muito bem ter décadas ou séculos de existência.
E, levando em consideração sua posição na Guarda Real, com certeza era mais velho do que isso.
— Sim, senhor, Capitão. — o jovem cavaleiro sardento balbuciou, voltando à formação.
— Se irei me tornar uma Sombra, não vejo motivos para não aprender mais sobre isso. — me debrucei sobre a carruagem, encarando o capitão.
— Como eu disse antes, — Dan virou o rosto em minha direção, desacelerando os passos de sua montaria — não podemos sair espalhando informações. Não podemos dar opiniões ou falar sobre boatos. — ele sibilou a última palavra na direção do soldado.
— Você ficaria muito mais bonito se tirasse essa carranca do rosto, sabia? — provoquei.
Já que iria ter uma pequena viagem, precisava de diversão.
— Somente tolos ignorantes andam por aí arreganhando os dentes em sorrisos alegres. Minhas presas foram feitas para cortar e dilacerar, senhorita.
Dito isto, Dan exibiu as presas num meio sorriso assustador que me fez lembrar imediatamente de quem ele era. De quais seres me escoltavam.
Lindos. Perigosos.
Dan Crowley era perigoso.
— Não assuste a moça, Crowley. — um cavaleiro mais velho riu baixinho, aparentando ter volta dos 40 anos em idade humana. — Assim fica parecendo que você é um cara terrível. Não se esqueça que ela será sua superiora em pouco tempo.
Dan bufou, mas voltou para sua posição, no início da cavalgada.
— Não o leve a mal, senhorita Thorne. Ele não faz por mal. — o homem virou a cabeça para mim, falando através do elmo. — É só um filhote com muitas responsabilidades.
— Guten, posso te ouvir daqui. — o capitão disse, em voz alta.
Guten gargalhou e tirou seu elmo. Tinha cabelos pontilhados com alguns fios grisalhos, barba espessa e olhos de um azul escuro que parecia sobrenatural. Também era extremamente bonito. Uma grande cicatriz marcava sua bochecha, subindo pelo nariz até o meio da testa. Era assombrosa, espessa e branca.
O que me assustou não foi a cicatriz em si, mas saber que algo havia feito aquilo com uma criatura que conseguia se regenerar de quase qualquer ferimento imediatamente. Não podia imaginar algo capaz daquilo.
Diante do meu olhar embasbacado, Guten sorriu para mim e passou o dedo sobre a linha grossa de pele brilhante.
— Um dragão me deu este presente na última Guerra dos Cogumelos.
Bufei uma risada surpresa, mas logo me arrependi. Guerras não eram engraçadas, e aquela marca em sua pele provava isso.
— Tudo bem, eu sei que o nome é diferente e bonitinho. — ele riu — Mas as criaturas que participavam...Ah, essas não eram amigáveis. — seu tom se tornou temeroso.
— Um dragão... — considerei — Como nas histórias? Grandes lagartos escamosos cuspidores de fogo?
Guten abriu a boca, mas Dan o interrompeu, voltando a se aproximar:
— Fogo, gelo, ácido, veneno. Mas nem sempre são estes grandes lagartos. Alguns se disfarçam em formas humanóides, e andam entre nós.
Guten fitou seu capitão, enquanto falava baixinho:
— Foi um desses que me pegou de surpresa. Na forma de um jovem rapaz assustado. Baixei a guarda.
— Erro perigoso em uma batalha. — Crowley assentiu, encarando o céu.
O dia estava bonito apesar do vento começar a esfriar.
As folhas de tons de laranja, amarelo e marrom salpicavam o chão num lindo tapete colorido. As árvores pareciam pintadas à mão.
Naquele momento, possivelmente estaria ajudando minha mãe a adiantar as refeições que consumiríamos no almoço, ou estaria ajudando meu pai a fazer seu novo arco.
Ele não havia voltado com uma caça na noite anterior, o que significava que não haveria carne na próxima refeição. O último pedaço do cervo acabara.
Rezei para que fossem logo realocados, conforme a palavra de Crowley.
Eu poderia me acostumar com aquilo, se soubesse que eles estavam bem, protegidos e assistidos.
Mesmo que trabalhassem todos os dias pelo resto de suas vidas, meus pais nunca alcançariam os níveis de riqueza e conforto que aquela oportunidade oferecia.
Meu destino ainda me era incerto, mas se isso significasse uma boa vida para minha família, eu aguentaria.
Suspirei baixo e respirei fundo. Atuar. Precisava atuar como se aquilo não me fizesse estremecer de medo.
Não passava do meio da manhã. Em poucas horas sairíamos da floresta, rumo ao norte, atravessando as montanhas.
— Como ela é? — perguntei — Vossa Alteza, a princesa?
— A própria perfeição... — o soldado sardento se virou para mim, olhos verdes arregalados — Gentil e bondosa, como nenhum dos grandes imortais costuma ser. Ela...nos vê, e se importa. — ele sorriu, contemplativo.
— Pewt morreria por ela, se ela assim pedisse. — Guten riu.
O jovem soldado sorriu de orelha a orelha, com um brilho invejável.
— Eu morreria. Com muito prazer.
Dan bufou um prece a seja lá quem ele cultuava, balançando os cabelos ondulados castanhos.
— Devemos viver para servir. Mortos, não temos serventia.
— Não vejo problema em morrer por aqueles que realmente amamos.- falei, com uma lembrança de Hugh ainda pequeno em meus braços, e a promessa que fiz de sempre fazer o que fosse possível para protegê-lo. Meu pequeno irmãozinho.
— Morrer pela família é um ato de amor. — Dan me encarou — Mas faça o possível e o impossível para viver por ela.
Assenti, um pequeno aperto no peito ameaçando surgir.
Aquele pequeno fragmento do capitão me fez acreditar que até mesmo alguns feéricos tinham coração.
— Vocês serão como minha família de agora em diante. — arrisquei, não sabendo qual seria a reação dos lobos ao meu redor.
— Nós servimos à corôa. E logo, nossa servidão se estenderá à senhorita. Será protegida com nossas próprias existências, enquanto a sua permanecer. — Guten disse, solene.
Enquanto a minha permanecer. Minha existência. Eu era mortal, então não teriam que cumprir aquela promessa por muito tempo. Uma vida humana se passava rapidamente, se vista pelo padrão deles.
Eu morreria quando se passassem algumas décadas ou quando cumprisse meu papel. O que chegasse primeiro.
Pude sentir a atenção dos cavaleiros em mim. Um arrepio me percorreu.
O clima ficou estranho em seguida. Como se os rapazes tivessem acabado de se lembrar o que eu me tornaria. O que eu seria para eles. O que possivelmente aconteceria comigo. Depois de me olharem por alguns segundos, voltaram novamente às suas posições, com excessão de Pewt. Ele parecia ser o mais otimista, e permaneceu do meu lado.
Ele piscou:
— Você vai gostar de viver lá. Se quiser conversar, pode me chamar.
Mordi o lábio e assenti, um leve rubor ameaçando surgir.
— O Capitão já faz a guarda da princesa, esse sortudo. Então, eu e Guten faremos a sua. Ficaremos bem próximos. — seu rosto sardento se iluminou com um sorriso. — E ainda por cima, poderei ver Vossa Alteza com mais frequência.
Segurei o riso. Pewt com certeza a amava.
— Farei o possível para mantê-lo nas graças da princesa. — brinquei.
O sorriso dele foi a coisa mais humana e real que eu via em horas.
— Seremos ótimos amigos. — ele se ajeitou na sela.
Ainda não podia confiar em ninguém, mas era bom saber que não estava totalmente sozinha com meu temores.
∆×∆
Depois de atravessar a última montanha numa jornada que se tornou interessante na companhia de Pewt e seus diversos assuntos aleatórios, eu podia finalmente ver a cidade começando a aparecer no horizonte.
Voltei a me sentar, um tremor de ansiedade subindo e descendo por meu corpo.
— Não vai demorar muito agora. — Gunt disse, assobiando uma cantiga.
Meu estômago voltou a se revirar. Em grande parte por medo, mas também por fome.
Não havia comido nada e meu chá ficara esquecido sobre a mesa desgastada da cozinha. Já haviam se passado muitas horas desde que havia sido levada.
Levada... soava como se tivesse sido sequestrada ou arrastada. Mas eu aceitei aquilo, tendo escolha ou não. Precisava manter minha mente tranquila, como se eu estivesse no controle. Era melhor me manter na beira do abismo do que no fundo angustiante dele.
— Vocês chegaram cedo na cabana de meus pais. Viajaram durante a noite, só para me escoltar? — perguntei.
O Capitão Crowley passou a mão vestida em uma manopla na crina trançada de seu cavalo.
— Montamos um acampamento mais ao leste de sua morada. Começamos nossa jornada ontem ao crepúsculo e paramos numa clareira. Precisávamos deixar as montarias descansarem.
— Quem deixou a carta sob a porta? — refleti de repente. — Já estava lá quando acordei.
— Um dos entregadores noturnos do palácio, possivelmente uma coruja ou um morcego. — Gunt gesticulou. — Trabalham bem sob a luz da lua e são rápidos.
Uma dúvida antiga tomou forma e saiu de meus lábios antes que eu pensasse direito.
— Vocês uivam para a lua? — perguntei, o mais seriamente possível.
Pewt bufou uma risada engasgada e pude jurar que rubor começava a cobrir o rosto de Dan.
— Não somos animais. — ralhou o capitão.
— Não que eu já não tenha sentido uma vontade ancestral de fazer isso. — Pewt confessou, sem um pingo de constrangimento.
Eu via nele uma alma livre, apesar das algemas da servidão.
— Dizem que os Antigos, os anciões entre os Lobos, uivavam quando a Lua de Sangue surgia, em suas juventudes. Era quando ficavam mais fortes, invencíveis. — Guten disse, sério.
— Quando os Lobos dominavam suas próprias vidas. — Pewt completou, com um semblante pensativo. — Quando caçávamos e corríamos juntos, quando não precisávamos usar estas formas. — ele levantou os braços para enfatizar.
Engoli em seco. Não parava muito para pensar em como as criaturas feéricas se alimentavam. E não estava disposta a pensar sobre o assunto naquele momento, com tantos deles à minha volta.
Sua pele podia parecer humana, mas seus corações e sentidos superavam em força dezenas de homens juntos. Um peteleco em meu nariz poderia quebrá-lo.
Todas as histórias contadas por meus pais voltaram, uma a uma.
Lobos que farejavam suas vítimas por dias, sem nunca perder o alvo.
Metamorfos que se transformavam em pessoas amadas, até mesmo os mortos, e torturavam mentalmente os humanos em suas aparições.
Fadas lindas e pequenas, medindo um palmo no máximo, que faziam maldades com quem invadisse suas florestas.
Criaturas aquáticas que usavam suas belas aparências para atrair e afogar desavisados.
Quanto mais me afastava de meu lar, mais a verdade ia ficando clara: eu estava sozinha, uma mosca na teia da aranha.
— No que está pensando? — Dan perguntou, enquanto farejava sutilmente.
Eles podiam sentir até as alterações em meu humor. Isso fazia deles os interrogadores perfeitos também.
A habilidade de sentir quando o outro estava mentindo.
— Isso tudo é muito estranho para mim. — admiti, mas sem revelar tudo.
Dan assentiu devagar.
— Não há nenhum humano como parte da realeza neste continente. Apenas alguns poucos na criadagem do palácio, mas não passa disso. Os outros vivem espalhados.
Franzi o cenho. Éramos considerados mais inferiores do que as raças mais baixas entre os feéricos.
— Precisa ser paciente. — ele continuou — As pessoas podem te olhar estranho, te julgar e menosprezar quando não estiver na presença de Vossa Alteza. O preconceito será grande, mas se quiser ter uma vida minimamente confortável, abaixe a cabeça e continue sendo apenas a Sombra.
Percebi que o capitão não falara aquilo com o intuito de machucar e desmerecer. Ele falava como quem sabia o que era passar por aquilo.
— Vocês não parecem incomodados comigo, mesmo sendo humana. — falei, com cuidado.
Dan me encarou por alguns segundos antes de responder, silêncio absoluto dos soldados. Apenas o trotar dos cavalos e o som das rodas da carruagem chacoalhando.
— Não importa a sua raça, seremos iguais, de agora em diante. Ambos feitos para servir, mesmo que com propósitos diferentes. — ele ergueu o queixo, se voltando para a frente — Pela Chama.
Todos os cavaleiros ao redor bateram no peito com a mão direita e repetiram ao mesmo tempo, em voz alta
— Pela Chama!
×∆×
A cidade enfim tomou forma enquanto os cavaleiros e a carruagem atravessavam o último campo aberto.
Eu nunca havia visitado um lugar tão grande, barulhento e cheio de vida como a cidade de Antria. Minha mãe vendia as peles de animais e as melhores carnes em um condado menor, ao sul, onde haviam muitos humanos e menos ameaças para sua segurança.
As casas pintadas nos tons mais coloridos e vibrantes amoleciam alguma parte minha que eu não costumava notar. Guirlandas, fitas e flores já estavam dispostas penduradas em todas as casas.
Bandeiras e estandartes com o brasão dos Laroki dançavam ao vento, um escudo de forma alongada com um fundo azul safira, onde um campo esmeralda florido se abria, e no meio uma grande árvore frondosa simétrica brilhava.
Minha boca salivou com a riqueza de cheiros que invadiu a carruagem: bolos de trigo, pães de cevada, carne e milho assados, caldos e temperos diversos.
Meu estômago reclamou alto.
— Vou providenciar algo para você comer. — Pewt se afastou e entrou em meio à multidão antes que eu pudesse relutar, usando o cavalo para abrir caminho entre as pessoas que...
— Oh, puxa! — parei para realmente prestar atenção nos pedestres, pendurada na janelinha.
Goblins coloridos, sátiros festejando com flautas brancas e marrons, elfos em lindas vestimentas delicadas, metamorfos animais em grupos conversando animadamente e outros feéricos que se pareciam tanto com humanos que eu não podia identificar o que realmente eram apenas olhando.
A única coisa que os diferenciava eram os olhos. Alguns pareciam perfeitamente com pessoas comuns, mas seus olhos sempre tinham um brilho que eu poderia identificar imediatamente.
Isso me manteve longe de problemas muitas vezes vivendo na floresta de Malle.
Havia um lindo gato preto sobre o telhado de uma das casas. Ele me olhava diretamente. Não parecia um feérico, mas também não parecia um simples animal das ruas. Sumiu quando me distraí com a volta de Pewt.
— Tome, é um prato famoso aqui em Antria. — ele me entregou carne assada em um espeto, e o cheiro era tão, tão bom!
Alecrim, tomilho, sálvia, pimenta...
Mordi um pedaço e... pelos deuses. Divino!
Gruni de satisfação, aqueles temperos eram difíceis de conseguir tão longe da cidade.
— Isso não é nada. — Gunt garantiu, sorrindo diante de minha fome desenfreada. — Os banquetes no palácio são dignos da própria Chama.
— Não deveriam dar comida de rua para a futura Sombra, rapazes. — Dan zombou, parecendo pela primeira vez mais despreocupado.
— Se você comer assim na presença da realeza, vão te expulsar à base de chutes na bunda. — Gunt riu.
Eu não me importava naquele momento.
— Essa pode ser minha última refeição normal. — reclamei, segurando o riso enquanto mastigava — Depois disso, cada passo e gesto meu será vigiado e catalogado.
A música, a bagunça nas ruas, os cheiros no ar, as cores e criaturas se divertindo, aquilo era pura magia.
Gostaria que Hugh visse aquilo. Apesar do perigo de ser um mortal em meio aos feéricos, ele ficaria fascinado com tantos seres diferentes. Nunca teve medo, mesmo com todas as histórias e precauções que meus pais tomavam.
— Todas essas raças aceitam bem a soberania da família Laroki? Não vejo ninguém cabisbaixo ou transtornado.
Dan observou o movimento.
— Nem todos apóiam completamente alguém que não seja da própria raça no poder, mas o rei e a rainha fazem o possível para manter um reinado justo para todos.
Refleti por alguns segundos.
— É o que importa, no fim das contas.
Dan assentiu.
— Sabe, não poderemos ser tão diretos e pessoais com você lá dentro. — Pewt me observou — Na verdade, não deveríamos ter sido desde o primeiro encontro.
Ergui as sobrancelhas, em surpresa.
— Ordens de cima. — ele completou, antes que eu pudesse me virar na direção de Dan.
— Nosso capitão é bom, não se preocupe. É rígido, mas é bom.
Crowley revirou os olhos, mas não escondeu o leve sorriso, que sumiu um segundo depois.
— Somos seres sociáveis. Eu já sabia que seria um caso perdido pedir pra esses lobos manterem as fuças fechadas. — o capitão se explicou.
Dito isto, todos voltaram a se concentrar em suas posições. A cidade fervilhava.
Como ainda não havia sido nomeada Sombra, as pessoas não sabiam quem era a figura que agora andava na carruagem cercada de cavaleiros. O que era ótimo.
Seria melhor o anonimato. Não queria nem pensar na reação deles quando soubessem que aquela coisinha humana insignificante era a notícia principal. Que teria um papel importante na existência deles.
Escolhida pela própria Chama Dourada. A Chama não errava. Então, eu precisaria descobrir como diabos havia conseguido chamar a atenção dela. O que havia provocado a escolha. Nunca houve um humano naquela posição.
A surpresa de Dan e dos lobos em seu primeiro encontro horas atrás comprovava a surpresa. Não sabia que eu seria uma não-feérica.
Me enfurnei de volta no fundo da carruagem e terminei de comer a carne assada, a adaga em minha coxa um lembrete frio do que me aguardaria se não tomasse cuidado.
×∆×
As muralhas que cercavam o palácio se erguiam imponentes. Era possível ver montanhas colossais cobertas de árvores ao fundo, que davam ao lugar um ar de grandiosidade e proteção.
O lar da família Laroki enfeitava o lugar como uma grande jóia encrustada entre gigantes adormecidos.
Mesmo antes de atravessar o gigantesco portão prateado intrincadamente desenhado com arabescos dourados, eu já conseguia sentir o cheiro das flores que com certeza enfeitavam os jardins internos.
Não sabia muito sobre como seria o interior de um palácio em geral além das histórias que ouvia de pessoas que trabalhavam lá ou que conheciam a criadagem, mas eu descobriria em breve.
Moraria ali, afinal. E daria um jeito de manter contato com minha família de algum modo. Não ia cortar o nosso laço assim. Precisava saber que estavam bem, que o meu sacrifício valeria a pena.
Ao atravessar os portões, exalei em surpresa.
Uma vasta alameda de pedras claras partia de onde a carruagem estava até a entrada principal no final. O caminho era flanqueado por majestosas árvores entrelaçadas por trepadeiras. Jardins floridos enfeitavam ambos os lados em meio às vegetações exóticas, exalando os mais delicados e doces perfumes que eu já sentira.
Estátuas de deuses que eu desconhecia pontilhavam aqui e ali, alguns cobertos de Hera como se não fossem tocados há séculos. Outras reluzentes como se fossem polidas todos os dias.
Pequenas fontes cheias de passarinhos canoros coloridos podiam ser vistas nas sombras das árvores, as aves em alvoroço se banhando nas águas cristalinas. Achei ter visto um gato escondido nas flores, observando o possível banquete à sua frente.
Lanternas Mágicas em formato de pequenas luas, abastecidas com a luz da Iluminada, ladeavam a alameda, brilhando levemente, prontas para iluminar o caminho na chegada do crepúsculo.
Guardas de diversas outras raças patrulhavam o perímetro pelas pequenas vias de paralelepípedos reluzentes que entremeavam naquela absurda floresta particular.
Suas vestimentas eram mais finas, com capas de veludo e lanças afiadas enfeitadas. Quase pareciam fazer parte da decoração.
Aquele lugar era tão seguro que não precisavam de armaduras.
À medida que a carruagem se aproximava da entrada principal do castelo, meu queixo caiu. Com a ajuda de Dan para descer o degrau alto, fui recebida por um par de portas colossais de madeira maciça, ricamente entalhadas com cenas de batalhas lendárias e festins régios.
Sentinelas, postadas ao lado de cada porta, abriram-nas com uma reverência silenciosa, revelando o majestoso salão de entrada que aguardava além.
Sequei minhas mãos suadas nas saias do vestido puído e desejei ter algo melhor para usar.
Afinal, em alguns minutos, eu conheceria a família real.
E a Iluminada.
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