O Destino da Sombra
3 Ansiedade
Notas iniciais
Meu coração definitivamente iria sair pela boca daquela vez. Eu sentia o maior medo de toda a minha vida.
Maior do que quando aprendi a nadar aos 7 anos enquanto tentava salvar Lessie de se afogar em um Poço Azul no meio da floresta de Malle.
Maior do que quando Hugh adoeceu em seu primeiro ano de vida e minha mãe trouxe para casa uma fauna que dizia poder curá-lo com ervas medicinais de outras terras. Coisa que ela realmente fez, e eu era muito grata.
Maior do que quando aqueles lobos apareceram em minha casa naquela mesma manhã e confirmaram a notícia da carta encontrada sob a porta, me declarando a próxima Sombra. Me levando para um mundo desconhecido.
Eu iria me encontrar com Vossas Majestades em poucos minutos. E se eles não gostassem de mim? E se achassem inaceitável uma humana ter sido nomeada para um papel tão importante? E se me prendessem na masmorra e castigassem minha família? E se me matassem por simplesmente existir, e nunca avisassem meus pais?
Ai, deuses...
Tanta coisa podia dar errado já naquele primeiro encontro. Não tinha pensado tão longe.
— Acalme-se, está hiperventilando. — Dan sussurrou a ordem ao meu lado, farejando levemente sem me encarar. — Mantenha a máscara que criou até aqui.
Suguei o ar até meus pulmões encherem totalmente e fui soltando devagar.
De novo, e de novo, e de novo.
Duas criadas se aproximaram e se curvaram levemente numa reverência. A primeira tinha uma linda pele dourada e longos cabelos negros presos em uma trança que alcançava sua cintura fina. Seus olhos castanhos me disseram que era humana. A segunda tinha lindos cabelos encaracolados num tom de ruivo terroso que desciam soltos até o meio das costas. Seus olhos eram de um verde levemente amarelado, com inúmeros pontinhos negros em meio à cor. Não sabia que tipo de feérica era, mas com certeza não era humana.
Ambas usavam vestidos de linho e algodão no tom de verde musgo com aventais marrons terrosos bordados com folhas, vinhas e flores em linha prateada e verde clara.
— Seja bem-vinda, senhorita. — disseram, em uníssono.
— Deixem-na apresentável para Vossas Altezas, meninas. Ela precisa causar uma boa primeira impressão. — Dan comandou, interpretando seu papel de Capitão Real novamente.
Enruguei o nariz com suas palavras, mas precisava concordar que estava terrível naquele vestido marrom velho e puído, as sandálias, as melhores que eu tinha, desgastadas e furadas. Meu cabelo loiro preso em um coque baixo já vira dias melhores, e meu rosto não tinha sequer um pouco de cor para enfeitar. Eu parecia um pano de chão em contraste com aquele piso brilhante de mármore polido. Podia ver meu próprio reflexo ali.
— Sim, senhor. — A moças se viraram na direção da escadaria que começava no fundo do hall e se dividia em duas direções diferentes, levando ao andares superiores. A ruiva levava minha bolsa de couro com facilidade.
Assenti para Dan e os outros, que ainda me observavam do lado de fora, e fui atrás delas.
— Boa sorte. — ouvi Pewt sussurrar.
Com os lábios apertados numa linha fina, retomei minha inspeção ao meu novo lar, me concentrando para não deixar meu pavor escapar.
No teto, no centro exato do salão, um enorme lustre de cristal pendia, iluminando o ambiente com um brilho suave e acolhedor.
As janelas traziam ainda mais beleza para o lugar, abertas para deixar entrar o cheiro das flores e o vento fresco.
Estatuetas e plantas ornamentais eram vistas em cada canto.
Haviam várias decorações em prol da comemoração do aniversário da princesa.
As criadas subiram as escadas à direita, cujos corrimões de carvalho eram entalhados com arabescos e gavinhas entrelaçados.
Desembocamos num extenso corredor com muitas portas parecidas, onde uma olhada nas paredes revelou diversos quadros retratando desde pinturas de elfos, faunos e sátiros em comemorações até guerras terríveis, batalhas inesquecíveis e vitórias impensáveis.
Eu podia ouvir música vindo de algum lugar ali perto, possivelmente a festa da Iluminada acontecendo em algum lugar daquele palácio gigantesco.
As criadas abriram a última porta no corredor que terminava numa enorme vidraça com visão para um dos jardins e para a cidade além, e esperaram até que eu entrasse.
Aquele era um quarto que somente a riqueza extrema poderia proporcionar.
O chão era coberto de tapetes macios e brancos, como os pêlos de um felino. As janelas estavam escondidas por opulentas camadas de cortinas de seda pesadas, que as meninas agora corriam para abrir.
A cama, no canto esquerdo, poderia abrigar confortavelmente toda a minha família e ainda sobraria espaço, com um dossel e cabeceira ornamentados. Travesseiros e almofadas fofas descansavam sobre as felpudas cobertas de algodão e plumas.
Ao lado da cabeceira, uma pequena lua pendia de um pedestal de metal em forma de redemoinho sobre uma mesinha, onde diversos livros de capas escuras repousavam.
No canto direito, próximas as janelas, poltronas e um pequeno sofá rodeavam uma mesa de centro coberta de materiais de papelaria, ao lado de uma lareira.
Decorações élficas pontilhavam as paredes, quadros de florestas e campos floridos, espelhos com molduras douradas e vasos com flores diversas.
Chegava a dar tontura tentar armazenar tantos detalhes em minha mente. Meus olhos acompanhavam, arregalados.
— Senhorita, seu banho já foi previamente preparado. Iremos auxiliá-la. — a criada de trança disse, numa leve reverência.
Engoli em seco.
— Como... Como posso chamar vocês? Quais são os seus nomes? — perguntei, devagar.
Elas se entreolharam e se voltaram para mim.
— Me chamo Tília, senhorita. — a humana sorriu enquanto segurava o avental, nervosa.
— Pode me chamar de Honan, senhorita. — a feérica inclinou levemente a cabeça.
— Tília e Honan. — anotei mentalmente — Obrigada por me receberem.
As duas ergueram tanto as sobrancelhas que achei que alcançariam o topo de suas testas.
— Senhorita, não precisa nos agradecer. — Tília balbuciou — Fomos designadas para lhe acompanhar, mas ainda assim é uma honra imensa poder serví-la.
— Eu não sou ninguém, acho que me escolheram por engano de alguma forma. — me mexi no lugar, desconfortável. — Não sei se ficarei aqui por muito tempo ou se as verei novamente depois de ser apresentada ao rei e à rainha.
— A Chama não erra, senhorita. — Honan piscou algumas vezes — Tenho certeza de que será bem aceita e cumprirá bem o seu destino.
Um arrepio me percorreu. Como podiam ter tanta certeza? Sabiam de algo que eu não sabia?
Com um leve aceno de aceitação, me dirigi até o local onde me lavaria, seguindo as moças.
Uma porta foi aberta na parede à direita, revelando um espaço absurdamente luxuoso.
— Minha nossa, eu vou acabar perdendo meu queixo por aí qualquer dia desses... — Sussurrei para ninguém em particular.
Os ombros de ambas chacoalharam contidos, segurando risadas.
O chão era todo forrado com pedra branca levemente porosa para evitar quedas quando molhasse. Uma banheira estava incrustada no chão alguns degraus abaixo, tão grande quanto a cama. Havia um extenso vidraçal ao fundo que fazia com que fosse possível enxergar todo o jardim do outro lado.
Corei e me virei para as criadas.
— Não é muito exposto assim?
Elas sorriram e Tília explicou.
— O vidro é encantado para não deixar quem estiver do lado de fora ver o que se passa do lado de dentro, não se preocupe. Tudo o que se vê de lá é um imenso vidro negro como ônix.
Estalei os dedos um a um, ainda desconfortável.
— Posso pedir para cobrirem, por favor? Não sei se consigo me despir com essa sensação de estar sendo observada.
— Não precisa pedir assim, senhorita Thorne. Ordene, e será feito. — Honan sorriu e soltou grandes cortinas de seda que estavam ocultas sobre o vidraçal, puxando um cordame fino.
A luz ainda atravessava o material, o que dispensava o uso de globos de luz enfeitiçados.
— Me chamem de Klyra, por favor. — desci os degraus até chegar na beirada da banheira, e comecei a tirar as peças que vestia. — Não faço parte da realeza. Sou tão humana quanto você, Tília. E tão nobre quanto você, Honan.
Tirei a adaga artesanal do esconderijo na coxa e o enfiei entre os panos. Se as meninas viram, não disseram nada.
— Não podemos, senhorita. Se formos pegas te tratando informalmente, pode nos trazer problemas. E, se alegarem que estamos muito próximas, podemos ser substituídas. A completa lealdade aqui é exigida pelo rei. — Tília me ajudou a desamarrar o cordame do corpete simples enquanto Honan enchia a banheira com pétalas de flores, essência de lírios e óleos naturais.
— O rei... Ele é bom para vocês?
As criadas assumiram uma quietude quase animal antes de voltarem com suas atividades.
Tília respondeu, a voz baixa.
— Ele é sábio e justo. Ajuda todos como pode.
— Mas é fraco. — Honan disse, inexpressiva.
Tília a encarou com reprovação no olhar.
— Não fale assim, ele faz o possível para manter um reinado que agrade a todos.
Entrei na banheira e me deitei, deixando apenas a cabeça do lado de fora.
— A rainha...? — ousei perguntar.
Tília abriu a boca, mas Honan a interrompeu.
— Logo descobrirá, senhorita Thorne.
Bufei de frustação na água, fazendo bolhas. Então, seria na base da surpresa.
Ótimo.
Tília me fez afundar mais na água e, quando voltei à superfície, esfregou meus cabelos como minha mãe fazia, enquanto Honan esfregava meus braços com uma esponja natural.
Minhas unhas foram limpas, cortadas e lixadas.
O cheiro da água era delicioso, espuma cobria a superfície e a temperatura estava perfeita. Olhando para cima, vi um objeto de metal e mármore que se assemelhava a uma grande flor cheia de furinhos. Um cano a mantinha no lugar, e ficaria a uma curta distância de minha cabeça caso estivesse em pé.
— O que é aquilo? — apontei.
Honan seguiu a direção de meu dedo.
— Serve para tomar banho em pé. Um dos inventores do palácio o colocou para funcionar com ferro e magia. A água sai por aqueles pequenos furos, soando como a chuva.
Franzi o cenho. Minha mãe certa vez tentara fazer algo parecido, mas disse: a pressão não é suficiente, e a cabana não aguentaria um reservatório de água no teto. Teria que fazê-lo com um material leve e resistente.
Meu pai sempre a fitava com brilho nos olhos, dizendo que se tivessem condições e materiais, sua esposa seria uma ótima inventora. Ela pensava nas mais diversas maravilhas mecânicas.
Uma barra de sabão com cheiro de jardim surgiu nas mãos de Tília, e logo me foi entregue.
— Você parece não ser mais velha do que eu, Tília.
Ela confirmou com um aceno.
— Tenho 16 anos.
— Eu tenho 42. — Honan sorriu largamente. — Sou quase uma criança para os padrões de minha espécie.
Eu a encarei, incrédula. Uma feérica que possivelmente teria beleza eterna.
— Não te daria mais de 19. — inclinei a cabeça.
Ela se empertigou, adorando o elogio.
— Puxei os traços de minha mãe. Ela sim era maravilhosa. Eu não passo de seu rascunho.
Era.
A palavra saiu num sopro triste. Aguardei por mais algum pedaço de confissão, mas quando este não veio ofereci uma verdade.
— Não sei o que realmente me aguarda, mas peço à Chama que tudo se ajeite e que meus pais realmente recebam o apoio que o Capitão Crowley prometeu. Minha mãe adoraria ter mais livros para ler e acesso a materiais para inventar.
Tília corou levemente à menção de Dan, e um sorriso travesso pintou meus lábios.
— Conhecem os cavaleiros da Guarda Real?
Tília se esforçou para manter a postura, respirando calmamente enquanto um tom de vermelho intenso começava a cobrir suas bochechas.
— São muito honrados e corajosos. — falou, com a voz mais firme que conseguia.
Honan segurava o riso com todas as forças, mantendo o profissionalismo.
— Tília acha Dan muito bonito enquanto se exercita no campo de treinamento, ao amanhecer.
Tília acotovelou Honan com força, pedindo que parasse de falar coisas impróprias. Agora o vermelho se espalhara por todo o rosto e orelhas.
— E você, Honan? Tem alguma preferência neste palácio? Alguém que você goste? — sorri.
Nunca havia tido aquele tipo de conversa com ninguém, mas o meu lado sociável ajudava a apaziguar o nervosismo do que me aguardava dali a alguns minutos.
— Nunca dei espaço para sentimentos aqui dentro. Não se sabe o que pode acontecer com quem amamos. Não quero passar pela dor da perda novamente. — ela falou, séria.
E foi isso. Voltamos ao silêncio.
No fundo, eu soube que ela falava de sua mãe.
∆×∆
Sentada em frente a penteadeira de bétula branca entalhada com um enorme espelho ornamental pendurado à frente, eu me concentrava em meu reflexo.
O vestido rosa chá composto por diversas camadas de tecido não era exatamente o tipo de roupa que eu compraria. Era prático de usar, mas pesava a cada passo. O tecido transparente que brilhava furta-cor quando a luz batia faziam parecer que havia sido desenhado por fadas.
O que foi confirmado por Honan, enquanto eu o analisava entre os dedos.
Assim que me vesti, peguei a adaga nas antigas roupas e a escondi novamente na coxa. Fato que não passou despercebido pelas criadas. Ainda assim, não falaram nada, não julgaram ou reprovaram.
As mangas do vestido desciam por meus braços e paravam nos pulsos na parte de baixo, enquanto a parte de cima se afinava e envolvia meu dedo médio em um anel de metal rosé.
Pelo menos os sapatinhos eram delicados e confortáveis, fazendo parecer que andava apenas de meias.
Meu rosto fora pintado, empoado e enfeitado com produtos cheirosos que eu não conhecia. Eu parecia nobre. Ainda sim, me deixavam com um ar dócil e feérico.
Meu cabelo havia sido trançado e enrolado no alto de minha cabeça, formando um tipo de coroa. Pequenos ramos e flores douradas foram encaixados com grampos e pequenos brincos em forma de rosas adornavam minhas orelhas.
Entre as jóias dispostas à minha frente, uma caixinha preta forrada em veludo chamou minha atenção.
Ao abrir, um delicado anel discreto de pedra negra repousava na almofada azul cerúlea. A pedrinha tinha um formato familiar.
— Precisamos nos apressar. — Tília me fitou pelo reflexo. — Já quase se passou uma hora desde que chegou, e Vossas Majestades a aguardam na comemoração.
— Inclusive, desejamos felicitações, senhorita Thorne. — Honan reverenciou. — Soubemos que faz aniversário hoje também.
Sorri e me levantei, colocando o pequeno anel no dedo anelar da mão direita.
— Muito obrigada, meninas. E obrigada por me deixarem tão bonita, nunca me vi assim.
— A beleza já estava aí, só precisava ser exposta. — Tília ajeitou meu vestido uma última vez, com um sorriso contido.
∆×∆
Os jardins na parte norte do palácio eram onde as comemorações realmente ganhavam vida.
Ao chegar lá, escoltada por um Pewt impressionado com minha mudança e um Gunt de expressão firme, mas orgulhosa, me maravilhei com a quantidade de pessoas e criaturas que fervilhavam entre música, dança e comida.
Todos convidados exclusivos e importantes. Nobreza feérica, que agora me notava e me olhava da cabeça aos pés, sem disfarçar.
Os guardas lobos daquele lado também estavam vestidos com pompa para a ocasião. Nada de armaduras ou espadas. Eles mesmos eram máquinas de matar, me lembrei.
Queixo erguido com coragem ou olhos no chão com submissão?
Eu não sabia o que fazer com a mãos, que agora suavam, ou com a minha respiração irregular, que entregava meu medo.
— A máscara, senhorita Thorne. — Pewt sussurrou, sem se voltar para mim, apenas encarando de volta os olhares curiosos e de desprezo em minha direção.
Metamorfos felinos, criaturas com escamas, outras com grandes olhos brilhantes e pêlos, alguns com garras à mostra e couraças, asas e presas.
Predadores.
Ali eu era um ratinho num ninho de cobras. Cobras que podiam voar, dilacerar, me arrastar para o fundo de lago e sumir com o meu corpo. Mesmo sem qualquer habilidade, podia sentir a magia no ar, uma leve tontura me embriagando.
A urgente necessidade de manter meu corpo encolhido e sem chamar atenção, o instinto de uma corça. Instinto do alvo, da caça.
Música élfica soava, conversas animadas fluíam, taças tilintavam e uma pequena crise de ansiedade se instalava.
Não consigo não consigo não consigo.
Um leve toque de Gunt em minhas costas me lembrou que eu deveria continuar caminhando.
Certo. Atuar. Eu precisava atuar. Acabaria logo, assim que percebessem que eu era humana. Daria um jeito de convencê-los a manter a assistência à minha família, mesmo que precisasse trabalhar ali para sempre. Talvez me tornasse amiga de Tília e Honan, e elas me ensinariam as regras daquele lugar.
Minha nossa minha nossa minha nossa.
Eu não conseguia respirar direito, a tontura estava piorando, a visão estava embaçando, minhas pernas fraquejavam.
— Erga o queixo. — uma voz masculina suave ordenou ao meu lado. — Não se entregue tão rápido, alguns aqui se alimentam do medo. Controle sua respiração.
Inspirei, expirei. Inspirei, expirei. Inspirei, expirei. Devagar. Profundamente.
Sentia o calor dos corpos pelos quais ia passando, os cheiros de seus perfumes, suas bebidas. Ouvia as risadas, os grunidos e rosnados.
Sentia a presença de Pewt e Gunt atrás de mim, me seguindo. Porém, não sentia nada a respeito do dono da voz que me instruíra momentos antes.
Ousei erguer o rosto para procurá-lo, mas não havia ninguém ali.
— Meus caros convidados e amigos! — uma voz soou, forte e alta no fim da multidão. — A Sombra, escolhida pela Chama, já se encontra entre nós!
Era a voz do rei, eu soube em meu interior.
O caminho se abriu por onde eu passava, sobrancelhas se erguiam com incredulidade, sibilos e arfadas surgiram. E, pouco mais à frente, esperando que eu chegasse até eles, a família real me aguardava.
Sem focar naqueles que me cercavam, segui os últimos passos, me sentindo a criatura mais solitária e vulnerável do mundo.
Aquilo só podia ser um sonho febril causado por um cogumelo Calugue. Ou um pesadelo após ter sido picada pela aranha Azeli.
O rei era um elfo alto de traços faciais nobres e angulosos, olhos penetrantes e sagazes num tom verde floresta profundo. Seus cabelos eram longos e bem cuidados, num tom de prata que transpirava experiência e sabedoria. Apesar da cor dos fios, seu rosto era jovial e esbanjava empatia.
Ele usava vestes régias em tons de verde escuro, azul real e prata, feitas de seda e veludo, adornadas com bordados intrincados que representavam a natureza. Uma coroa em forma de gavinhas e galhos retorcidos adornava o topo de sua cabeça, feita de ouro puro.
A rainha, ao seu lado, transbordava beleza serena e etérea. Olhos grandes de um azul cristalino que não revelavam nada me encaravam. Seu vestido continha as mesmas cores das roupas de seu marido, e sua coroa era delicada e alinhada, com pequenas pedras brilhantes em formato de lágrimas adornando cada ponta. Seu cabelo era de um dourado resplandecente como o sol, longos e fluídos, postura ereta e graciosa.
E a princesa... Se parecia muito com a mãe, mas com os olhos gentis do pai e cabelos brancos platinados. Brancos como Luz pura.
Seu vestido era azul cerúleo, com linhas douradas formando desenhos de seres da floresta, vinhas e flores nas barras.
Sua tiara era delicada, de ouro branco e prata, incrustada com pequenas jóias coloridas. Usava um colar simples com uma folha laranja do outono eternizada e transformada em pingente.
O sorriso dela foi tão sincero ao me ver que fazia parecer a qualquer que já me conhecia há anos.
Segurou o excesso de suas vestes e correu até mim, me abraçando com força.
— Feliz aniversário, Klyra!
×∆×
Assim que ela se afastou e deu alguns passos para trás a fim de me observar melhor, segurei as laterais de meu vestido e me curvei profundamente, numa reverência.
— Majestades.
Balbuciei também meus parabéns para Misty, desajeitada.
O Capitão Crowley estava seríssimo alguns passos atrás da realeza. Assentiu discretamente ao me ver.
Eu com certeza estava vermelha como um tomate, meus batimentos ecoavam fazendo tum tum tum em meus ouvidos. E não sabia o que fazer em seguida.
O rei e a rainha menearam as cabeças levemente, em aprovação.
Misty pegou minha mão e me levou até o lugar onde os pais estavam.
O rei levantou o braço e declarou, quando os burburinhos começavam a ameaçar me fazer encolher novamente:
— A Chama Dourada nos revelou a próxima Sombra! Aquela que guiará este continente para a luz, aquela que manterá o equilíbrio junto da Iluminada. Eu apresento a vocês Klyra Thorne, Portadora da Primeira Magia!
Segurei minha expressão o máximo possível. Eu não tinha magia nenhuma, era totalmente humana.
Ah céus, ah deuses!
Ousei olhar para as pessoas que me cercavam. Muitos estavam desconfiados, surpresos, embasbacados, suas palmas eram por pura educação. Mas haviam outros que aplaudiam com fervor, assobiavam, comemoravam de verdade, como um grupo de metamorfos borboletas, sátiros, elementais de água e fogo e os líderes lobos.
Estes sim me deixaram inquieta.
Abri a boca para negar aquilo e acabar com meu sofrimento de uma vez, quando vi na multidão um gato preto. Apertei os olhos, tentando enxergar direito. Era familiar. E me encarava.
Ele fazia que não com a cabeça desesperadamente, balançando de um lado para o outro. Provavelmente, rejeitando minha posição tanto quanto eu.
— Você perdeu a Benção Matinal e o primeiro banquete, mas ainda podemos comemorar o seu aniversário, Klyra. Venha, vamos nos servir. Passei tanto tempo recebendo convidados que meu estômago implora por uma mordida de qualquer coisa — Misty sorriu, e me puxou em meio à multidão para as mesas abarrotadas de comidas que eu nunca vira.
— Não tem problema eu comer? Eu sou humana, Vossa Alteza. — arrisquei dizer. Acabaria com aquilo ali, naquele momento.
— Eu sei que é. A comida é segura, nada te fará mal. — ela pegou uma tortinha que cheirava muito bem. — A previsão foi precisa quanto à sua natureza, não se preocupe. Já sabíamos há algum tempo, desde a revelação da Chama.
Senti todo o sangue fugir do meu rosto.
— Então, não há nenhum engano? Sabem que sou humana e que não possuo magia, não é? — falei baixinho. — E que não faço ideia do que seja a Primeira Magia.
— Não faça essa cara tão preocupada. As coisas vão se desenrolar da maneira que a Chama previu. E sua família será muito bem cuidada, não entristeça o seu coração com dúvidas.
Olhei ao redor, sabendo que muitas orelhas pontudas ouviam e tentavam a todo custo tirar informações daquela conversa. Confessar minha natureza ali era perigoso. Todos esperavam que eu tivesse algum trunfo, alguma carta na manga que me trouxe até aquela posição.
Misty também percebeu isso, e voltou a cumprir seu papel de princesa Iluminada serena e etérea, com um suspiro.
Aquilo me fez compreender que ela também parecia atuar. Também tinha um papel difícil.
Seus pais conversavam com convidados de alto padrão abarrotados de jóias e roupas de tecidos caros.
Ela parecia solitária.
— Podemos conversar depois, então, Vossa Majestade. Quando a comemoração acabar. — falei, pegando um pãozinho assado que parecia ter sido recheado com geléia de uva.
A princesa sorriu contidamente e assentiu.
— Me chame de Misty. Seremos faces da mesma moeda em breve. E, espero, ótimas amigas também.
O crepúsculo se aproximava algum tempo depois, e diversas pequenas luas cheias começaram a acender, uma a uma, dando um ar bruxuleante e ainda mais mágico ao jardim lotado.
Não vi mais o gato e não reconheci na multidão a voz que me tirara do torpor momentos antes.
Queria agradecer, seja lá quem fosse.
Pewt e Gunt voltaram a aparecer perto de mim algumas horas depois, quando fui escoltada para meu quarto. Permaneceram do lado de fora, vigiando a porta.
No silêncio, enquanto Tília e Honan me ajudavam a me despir e a desmontar o penteado complicado em minha cabeça, me perguntei se meus pais já estavam na casa nova com Hugh e Lessie. Se sentiam medo por estar em uma cidade estranha cercada pelos feéricos que tanto evitavam. Me perguntei se pensavam em mim, como eu pensava neles. Pediria informações para Dan quando acordasse.
Tília penteou meus cabelos pouco depois de Honan ter me ajudado a vestir uma confortável camisola verde água.
As duas pareceram genuinamente felizes com a minha permanência.
O encontro com a família Laroki fora tão confuso que minha cabeça ainda girava.
Teríamos longas conversas depois do amanhecer, onde os pingos seriam postos nos 'i'.
As festividades ainda aconteciam lá fora, e eu sabia que dormiria ao som de música e risadas dos convidados que ficaram.
Muitos permaneceriam no palácio.
Eu ainda precisava tomar todo o cuidado possível.
Ter cuidado com palavras e promessas. Eu não estava em território seguro ainda.
O sono de encontrou e me deu uma bela rasteira.
Poderia jurar que antes de apagar por completo, grandes olhos felinos coloridos me encaravam pela janela.
E que ali ficaram. Durante muito, muito tempo.
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