Notas iniciais
Não desistam de Klyra Thorne!

O outono começava a se despedir do pequeno condado de Irya, as últimas folhas caiam devagar e o frio se instalava aos poucos, sem pressa.
Já havia bastante madeira cortada e empilhada próxima à pequena e medíocre lareira da cabana de meus pais.
Uma cadela branca muito encardida e suja das cinzas do fogo cochilava aproveitando o calor, enquanto o membro mais novo de minha família, Hugh Thorne, de 4 anos, brincava com um pequeno cavalo de brinquedo entalhado.
Eu observava a cena, os últimos raios solares entrando pelas janelas e salpicando de tons de laranja suave o lugar onde meu irmão brincava.
O ensopado de legumes já estava quase pronto, e meu pai logo chegaria para jantar e descansar.
O senhor Walt praticava a caça para garantir o sustento da família com carnes e peles, enquanto mamãe, Flora, as vendia na feira da cidade, do outro lado das montanhas.
Enquanto meu pai não chegava, minha mãe remendava uma velha capa para ele usar nos dias mais frios que logo chegariam.
— Logo precisarei arrumar um novo livro, minha filha. Já tenho quase decoradas as palavras destes dois. — ela sorriu, indicando os exemplares solitários sobre uma cadeira.
— Não pensa em escrever o seu próprio? — perguntei, me sentando ao lado dela.
Flora era uma mulher incrível, sempre de bom humor e confiante de que o dia seguinte seria melhor. Algumas linhas finas começavam a sulcar sua testa e os cantos dos olhos, mas não existia em nenhum outro lugar olhos mais espertos e joviais do que os dela. Olhos que eu possuía na mesma cor e formato, mas não tão otimistas.
— Que tipo de conto alguém como eu poderia escrever? Talvez me chamassem de louca, minhas ideias não são exatamente comuns. — riu, fazendo aquelas linhas aparecerem ainda mais em seu rosto.
Minha mãe era formidável quando se tratava de resolver problemas mecânicos. Todo o restante da comunidade possuía algum tipo de magia, mas não os humanos.
Estes precisavam se virar manualmente, sem a benção da Chama Dourada.
— Ah, a propósito, esqueci de mencionar. A Iluminada foi escolhida. — ela sussurrou.
Engoli em seco. Não gostava muito de saber sobre a vida que acontecia lá fora, do outro lado das montanhas. Não suportava saber que os seres que lá viviam tinham mais facilidades por meio da magia, não passavam fome, nem frio, nem medo.
— A Chama nomeou a princesa Misty como a próxima na sucessão da Luz. — disse, com um sorriso suave.
Não pude evitar um revirar de olhos.
— Oh, puxa, que surpresa. Um membro da realeza mágica foi escolhido para ser ainda mais mágico. — desdenhei.
Minha mãe franziu o cenho e me encarou por alguns segundos, e eu a encarei de volta, mas depois suspirou pesadamente.
Era uma boa notícia, afinal. Pelo menos para a maior parte das pessoas.
A alegria do povo poderia durar mais alguns séculos, a magia da terra seria renovada e os líderes iriam respirar aliviados.
Não se falava em outra coisa nas ruas da cidade ao redor do palácio, e a notícia já se espalhara até às regiões mais longínquas e montanhosas. Menos ali. Eu não queria saber ou fazer parte daquele mundo.
A Chama Dourada, a deusa Henai, aquela que olhava pelo povo, protegia, cuidava e guiava com a luz do sol e o brilho das estrelas, havia finalmente escolhido a próxima Tocha, a próxima Iluminada.
O palácio estava em festa, as decorações começavam a aparecer nas torres, nas ruas da cidade, o povo estava feliz.
Ou, pelo menos, a parte que usava a magia, que se beneficiava dela.
Hugh passou o cavalinho de madeira por cima da cadela, Lessie, que resmungou e virou para o outro lado.
— Você sabe que todos precisamos da existência de um Iluminado, minha filha. São o símbolo de paz e esperança para o povo.
— O povo deles, não o nosso. — resmunguei, entre dentes. — Eles fingem que a gente não existe. Deveríamos fazer o mesmo.
Ela abriu a boca para debater, mas a porta da cabana se abriu, e meu pai entrou.
Parecia muito cansado e desanimado.
— Bem, hoje foi um dia complicado, minhas meninas. — ele sorriu, triste.
Minha mãe me lançou um olhar que mostrava que aquela conversa ainda não acabara, mas se levantou e deixou de lado a costura, beijando o rosto do marido e ajudando-o a soltar o broche que prendia a capa. Papai largou a bolsa de couro pesada e a aljava cheia de flechas no chão, ao lado da porta. Beijou a testa de minha mãe e depois delicadamente seus lábios.
— Minha rainha. — ele a abraçou.
— Papai! — Hugh correu e agarrou suas pernas, deixando o cavalinho de madeira sobre o pêlo de Lessie, que levantou a cabeça e abanou a cauda para o recém-chegado.
— Meu campeão! — meu pai sorriu de orelha a orelha, levantando meu irmão no alto. Hugh gargalhava.
— Papai, que bom que está bem. — me aproximei e o abracei assim que Hugh voltou para o chão.
— Minha princesa. — ele apertou o abraço, puxando a esposa para aquele casulo de segurança e carinho.
Hugh corria ao nosso redor, enquanto Lessie latia, ainda sem se levantar. Estava velha e cansada para correr por aí, mas também amava aquele homem bondoso e dedicado.
Ela pertencia à família desde que fora encontrada perto de um rio, ainda filhote. Meu pai a trouxera nos braços quando eu tinha ainda 3 anos.
Ele se abaixou e afagou a cabeça peluda dela.
— Como vai, minha velha? Confortável, eu espero.
Lessie lambeu a mão dele, a cauda ainda balançando, e choramingou como um filhote.
Hugh foi até a porta e olhou lá fora.
— Papai, o arco?
Walt suspirou tristemente, se levantando e encarando a todos nós. O semblante desanimado voltando.
— Parece que precisarei fazer outro. Ele se partiu após cair de um desfiladeiro ao sul, enquanto eu perseguia um grupo de cervídeos.
Minha mãe empalideceu e levou as duas mãos ao coração, procurando imediatamente por ferimentos pelo corpo dele com os olhos, enquanto eu o encarava, incrédula.
— Minha nossa, se machucou? Dói em algum lugar? — ela se aproximou.
Ele levantou as mãos.
— Calma, quem caiu foi ele, não eu. — papai sorriu com suavidade. — Trouxe a corda, só precisarei entalhar outro arco.
Relaxando a postura com um suspiro e um tapa brincalhão no ombro do marido, minha mãe pegou Hugh no colo e afagou os cabelos escuros do filho.
— Bem, aposto que está com fome. Vamos comer, consegui fazer uma torta de frutinhas para a sobremesa. E, amanhã, faremos algo especial para Klyra. — minha mãe me encarou com carinho.
Franzi o cenho, mas logo ergui as sobrancelhas. Faria 17 anos no dia seguinte. Era sempre no fim do outono, como poderia ter me esquecido?
— Vocês são especiais pra mim, não precisam fazer nada. — cruzei os braços, e encarei o teto — Mas eu adoraria um pouco de mel sobre o pão e talvez geléia. — segurei o sorriso.

×∆×

Na manhã seguinte, eu abraçava meu próprio corpo enquanto encarava inexpressivamente a carta aberta sobre a mesa de jantar.
Minha mãe tremia levemente e meu pai andava de um lado para o outro.
— Só pode ser um erro. — ele ia e voltava no pequeno espaço, sem parar. — Mandaram para o lugar errado.
— Tem o meu nome na carta, pai. — eu disse, baixinho.
— Mas por que ela, Walt? — Flora secava as mãos suadas no vestido, pálida e nervosa. — Por que nossa filha?
Hugh brincava lá fora enquanto minha família discutia do lado de dentro. Amanhecera há menos de uma hora, e a carta estava sob a porta, como se tivessem colocado ali de madrugada.
Era sinistro pensar que alguém esteve ali e ninguém viu ou ouviu nada. E a pobre Lessie não conseguia mais vigiar os arredores.
Um arrepio percorreu meu corpo, e não era causado pelo frio da manhã. Meu chá esfriava na mesa, ao lado da carta aberta.
Não era exatamente o conto de fadas que eu imaginava.
Aquele tipo de coisa não acontecia com os humanos. Era coisa dos Escolhidos, os abençoados com magia.
O envelope estava lacrado com o selo da Família Real e o meu nome estava escrito em uma linda letra cursiva.
Absolutamente oficial.
Dentro estava a carta, com muitas palavras difíceis e floreios. Mas a mensagem era clara.
Eu seria a próxima Sombra. O equilíbrio da Iluminada.
Meu coração ameaçava fugir numa escalada garganta acima, sendo impedido apenas pelo nó formado ali. Minha língua parecia pesada e seca.
Ser uma Sombra significava deixar sua família para trás e viver como uma pequena cópia da Iluminada, mas sempre um passo atrás. Como um contrapeso mágico.
E este era o grande problema ali. Eu não possuía magia. Nenhum pingo.
Mas a Chama não errava. Nunca.
Então, o que diabos estava acontecendo ali?
Naquele labirinto confuso que existia no lugar de meu coração, todas as saídas se fechavam comigo ainda lá dentro.
Meus pais conversando se tornaram uma imagem distante e abafada, como se estivesse em um sonho. Era difícil respirar.
E parecia que eu começava a cair, cair, cair...
Meu pai me amparou e me ajudou a me sentar na cadeira velha mais próxima.
Iria cair de verdade, se ele não tivesse me pego.
— Calma, minha menina. Vamos resolver isso, vamos convencê-los de que é um erro. — minha mãe se ajoelhou diante da cadeira e me abraçou forte.
— A Chama...não erra... — solucei, lágrimas silenciosas escorrendo pelas bochechas. Meu rosto estava quente.
A cabeça de Hugh apareceu na porta entreaberta, os olhos brilhantes e um largo sorriso. Mostrou o brinquedo em sua mão, levantando bem alto.
— Papai, o cavalinho chegou, muitos cavalinhos!
— Agora não, meu pequeno guerreiro. Papai está ocupado.
Meu coração deu um salto. Será que ele queria dizer que...
Hugh terminou de abrir a porta e apontou para fora. Sequei meu rosto.
— Mas veja! Veja! São muito cavalinhos bonitos!
Meu estômago se embrulhou quando me aproximei da entrada da casa e vi as figuras vindo pelas árvores, ainda ao longe. As armaduras brilhantes e o estandarte erguido não deixavam dúvidas sobre quem eram.
A Guarda Real.
Flora pegou a mão de Hugh e o puxou contra o próprio peito, como se pudesse protegê-lo do que estava por vir.
— Precisamos tirar você daqui. -meu pai segurou meu braço, me puxando para os fundos.
— Pai, isso não vai adiantar. — estanquei no lugar, resistindo ao puxão firme. — A Chama me encontrará. E, se eu fugir, podem vir atrás de vocês!
— Eu não posso deixar que levem você! Nunca mais a veríamos! — ele disse, a voz embargada, o aperto se intensificando no meu braço, deixando uma marca avermelhada.
— Pai, precisa me soltar. — eu disse, baixinho. — Vou tentar resolver isso, mas precisa me soltar.
Ele engoliu em seco.
— Walt... — minha mãe sussurrou, lágrimas começando a escorrer de seus olhos azulados.
O homem de cabelos escuros me encarou. Meu corajoso pai. Alguns fios brancos começavam a despontar aqui e ali em sua cabeça e na barba espessa. Preocupação sulcava sua testa, uma leve camada de suor começava a aparecer.
Era medo. Meu pai temia pelo futuro de sua primogênita.
— Pai... — tentei de novo.
Com um tremor e depois de piscar algumas vezes, ele me soltou devagar. Com uma inspiração profunda, me virei para a entrada da casa, onde os cavaleiros agora pareciam mais nítidos ao longe.
Precisava me preparar psicologicamente para o momento, como sempre fazia quando precisa realizar algo difícil ou assustador. Joguei os longos cabelos loiros para trás dos ombros e ajeitei a postura, como uma dama. Encararia aquilo de frente.

×∆×

Quando os cavaleiros se aproximaram mais e o cheiro dos cavalos invadiu meus sentidos, inspirei devagar pelo nariz e soltei pela boca.
Pela Chama...
Meu coração iria explodir.
A Guarda Real era composta em grande parte por metamorfos lupinos, os melhores para rastrear, perseguir e servir com lealdade.
Porém, não usavam suas formas animais com frequência. Os cavalos, as roupas e armas eram mera demonstração de civilidade e nobreza.
Não precisavam de cavalos para serem rápidos, armas para se defender ou roupas para se aquecer.
O guarda montado sobre o primeiro cavalo desceu do animal com graça e leveza, enquanto os outros aguardavam um pouco mais atrás. Tirou o elmo e deu algumas batidinhas no dorso da montaria enquanto se afastava.
Seu porte e confiança gritavam Capitão antes mesmo de abrir a boca.
Ele farejava suavemente o ar ao redor, e eu pude perceber que havia surpresa em seu semblante. Parou e encarou minha família, que agora se apinhava às minhas costas. Parecia procurar dentro da casa também, e ao redor.
— Vossa Divindade, a Chama Dourada, convoca a senhorita Klyra Thorne para comparecer ao palácio e assumir seu cargo como Sombra da Iluminada, Sua Alteza Real, Princesa Misty Laroki. — ele disse, em voz alta e clara.
— Sou eu. — ergui o queixo, com uma coragem que não tinha. Ele podia farejar o meu medo?
O capitão parecia surpreso pela segunda vez, erguendo as sobrancelhas alguns milímetros. Farejou mais uma vez.
— Sim, sou humana. — respondi à pergunta que estava escancarada no rosto dele.
O Lobo pareceu lutar contra alguma coisa interna antes de se endireitar e se curvar levemente.
— Senhorita. — ele se voltou à posição inicial. — Me chamo Dan Crowley, Capitão da Guarda Real da Família Laroki. Sua Majestade me incumbiu de lhe acompanhar até o palácio, mas antes, devo informar como será a vida de sua família à partir de hoje.
Dei um passo à frente, mantendo meu corpo entre a criatura à minha frente e minha família logo atrás. Meu estômago se revirava e uma leve dor de cabeça começava a espalhar, se iniciando pelas têmporas.
Meu pai se aproximou e apertou meu ombro. Sua esposa e filho pequeno logo atrás. Não deixariam que eu passasse por aquilo sozinha.
O Capitão Crowley inspirou suavemente e eu soube que ele podia sentir cada mudança em meu cheiro.
Eu precisava esbanjar coragem.
Dan pigarreou:
— À partir de hoje, a família Thorne receberá uma casa de alto padrão na cidade de Antria, nos arredores do palácio. Serão criadas contas com grandes valores e poupanças no nome da família Thorne, até do membro mais jovem. — Hugh se escondeu ainda mais atrás das saias da mãe, enquanto o lobo o observava. — Seu novo lar já está sendo mobiliado, as despensas estarão sempre cheias, roupas serão feitas sob medida e haverão mestres para dar a melhor educação possível para o jovem Thorne. Não irão mais precisar se preocupar com lenha no inverno ou com a caça para viver. Tudo o que precisarem será fornecido.
Se meu queixo não fosse preso ao meu corpo, teria caído diretamente no chão naquele mesmo momento. Minha mãe soltou um arquejo baixo e papai cambaleou um passo.
— Cavalinho? — Hugh deu um passo à frente, mostrando o próprio brinquedo de madeira
— Quantos desejar. — o capitão sorriu para o menino.
Aquilo era extremamente suspeito. Abri a boca para perguntar, mas Hugh começou a pular, puxando minhas saias enquanto berrava.
— Cavalinhoooo!
O cavalo alguns metros atrás de Crowley relinchou alto. Fiquei em dúvida se havia sido coincidência ou se o animal entendera. Era um animal mesmo, certo? Num mundo como aquele, tudo era suspeito.
Me remexi no lugar, desconfortável. Senti o dedão do pé esquerdo atravessar o buraco do calçado gasto que eu usava. Queria gritar com o capitão, mandar que voltasse de onde veio, esquecer que aquela visita estava acontecendo, acordar de qualquer que fosse aquele sonho que com certeza era uma grande mentira ou armadilha. Mas, ao invés disso, perguntei:
— Qual é o preço? O que devo sacrificar por isso? Nada é de graça neste mundo. Qual é o trato?
Hugh parou de pular. Era uma verdade universal. Humanos deveriam ter cuidado com tudo o que era ofertado por seres que possuíam qualquer tipo de magia. Uma vez acordado, não poderia voltar atrás. E isso poderia trazer consequências terríveis por gerações.
— Não estou autorizado a falar tudo, e não me foram passadas todas as condições. Vossa Alteza me pediu apenas para repassar estas informações e lhe acompanhar, — ele disse, e pareceu sincero — senhorita.
Meu pai pigarreou, e me virei para ele.
— Minha filha tem razão, é uma oferta extravagante e não há razão para acreditar que não hajam artimanhas por trás. — ele cruzou os braços firmemente.
— Ousa dizer que Vossa Alteza está usando de ardis? Está indo contra a palavra da Chama Sagrada? — o capitão Crowley sibilou entre dentes.
Aí estava. A verdadeira natureza de um Lobo. Lealdade acima de tudo.
O outros cavaleiros rosnaram, mesmo estando consideravelmente distantes para entender a conversa, e seus cavalos bateram os cascos no chão, revolvendo a terra.
Audição aguçada, me lembrei.
A privacidade era uma piada quando havia um deles por perto.
— Cuidado, caçador. — ele exibiu os dentes, falando num tom perigosamente baixo.
Mesmo sentindo o gosto do medo em minha língua, me livrei do toque de meu pai e encarei Dan com o que restava de minha ousadia.
— Se machucar minha família, falarei para a princesa. Aí você terá problemas de verdade para lidar, Capitão Dan Crowley.
O Lobo parecia surpreso outra vez. E eu tinha a impressão de que ele não era do tipo que se surpreendia tanto em um único dia.
Poderia jurar que algo que beirava o desprezo passara rapidamente pelo rosto do capitão, mas sumiu num piscar de olhos.
— Darei algum tempo para que se despeça adequadamente de sua família, senhorita Thorne. — ele disse, se virando e seguindo em direção ao grupo que o acompanhava. — Voltarei em uma hora.

×∆×

— É uma oportunidade única, mãe. — eu dizia, enquanto colocava alguns poucos pertences em uma bolsa de couro de veado pequena. Minhas mãos tremiam de leve.
Tinha certeza de que boa parte dos itens seriam substituídos no palácio. Não poderia usar aquelas roupas na realeza.
— É como se estivessem comprando você de nós, oferecendo riquezas e status! — Flora chorava, o rosto escondido nas mãos finas e brancas.
Meu pai a abraçava, o cenho franzido. Concordava com mamãe.
Eu precisava desempenhar um papel, como uma atriz, se quisesse que eles me deixassem partir.
No fim das contas, não tinha escolha. Uma vez declarada Sombra, a pessoa deveria seguir até quem quer que fosse o Iluminado. Nem que fosse arrastado. O capitão Crowley havia sido até que bastante gentil em lhe conceder tempo e espaço para lidar com aquilo.
— Mãe, quando eu chegar lá, podem perceber que tem algo errado e me liberar. E então, voltarei para vocês. Afinal, sou humana. Nenhum humano jamais virou Sombra.
Era uma mentira descarada, aquela promessa de uma possível liberdade. Uma feita para apaziguar seus corações.
— Mas vejam bem, mesmo se for verdade, posso fazer amizade com a Iluminada e pedir que ela me deixe visitá-los sempre que possível.
Outra mentira bonita. Sombras não saíam de perto de seus Iluminados.
— E hoje é meu aniversário, não quero ver vocês tristes quando vou viver uma vida de princesa. — tentei brincar, mas minha voz não saiu tão firme quanto eu desejava.
— Deve haver uma brecha, algo que possamos fazer. — meu pai disse, baixinho, olhando para Hugh, que agora brincava com uma Lessie sonolenta, mas acordada.
— Encontrarei uma. — prometi. — E enquanto isso, aproveitem. Tirem tudo o que puder deles. Sem piedade.
Quando terminei de rechear a bolsa, abracei meus pais e Hugh com força. Passeei pela cabana uma última vez antes de sair, decorando o cheiro da cozinha, a cor da prateleira velha pintada de um verde esquisito, os dois livros solitários de minha mãe, as marcas das mãozinhas de Hugh na porta do quarto de meus pais.
Era hora de interpretar um papel. Precisava parecer saber o que estava fazendo, precisava aguentar firme, ou quebraria. Faria isso por eles. Por minha família. Por minha mãe que agora poderia ter sua própria biblioteca, cheia de livros. Por meu pai, que não precisaria mais se arriscar na mata para caçar o que comer e pele para vender. Por Hugh, que agora poderia ter um futuro brilhante e cuidar de seus pais na velhice. Por Lessie, que passaria seus últimos dias em uma confortável cama de penas de ganso, deitada na frente de uma lareira que não a sujaria nem queimaria, com toda certeza.
Quando o Capitão Dan Crowley bateu em minha porta exatamente na hora que havia combinado, eu estava pronta.
Era hora de conhecer a Iluminada.

Notas finais
Já tenho outros 16 capítulos prontos. Preparados?