O Descendente da Guerra
2 Minha casa está mais bagunçada que meu quarto
A primeira coisa que consegui pensar foi: caramba, ela precisa de uma nova marca de creme dental. Enquanto a Sra Hudson voava em minha direção, ela se transformava. Ficou com uma aparência ainda mais feia, os cabelos pareciam ganhar vida, e pequenas asas brotaram de suas costas. Achava que o cheiro que sentia vinha de sua boca, e não estava nem um pouco a fim de descobrir. Quando dei por mim, estava em posição de combate, como se estivesse no modo automático. Então, mediante aquela situação, fiz a coisa mais heroica que poderia ter feito. Dei meia volta e sai correndo.
Não sei explicar nem o porquê, muito menos como sabia que a Sra Hudson estava a 11,3 metros de distância enquanto eu corria. Sabia também que em 4min e 34s ela me alcançaria. Precisava pensar em algo, e rápido. Avistei o cemitério de meu bairro, então uma ideia apareceu em minha cabeça. Geralmente tenho ideias assim, fazendo coisas do cotidiano. Comendo pão, fazendo o dever, fugindo da minha vizinha monstro que quer me matar. Tudo normal, não precisaria me preocupar, certo? Certo.
Entrei no cemitério e corri, saltando por cima de lápides. Tinha que cuidar onde pisava, pois, a aparência delas estavam mais para: “Pise aqui e ganhe uma visita para a tataravó de seu amigo”. Enquanto corria, acabei derrubando um monte de flores de um túmulo. Fiz uma anotação mental de arrumar flores para aquela pessoa mais tarde, caso sobrevivesse.
– Ahá, uhú, a Esteno vai almoçar! – Sra Hudson cantava enquanto me perseguia. Ótimo, tinha uma vizinha-monstro amante de karaokê.
Cheguei ao fim do cemitério. Um muro de dois metros impedia minha passagem. Porcaria! Esqueci que haviam reformado os muros do cemitério. Era obrigado a pensar rápido, caso contrário, viraria comida de Esteno.
– Então, quem é você? – perguntei, buscando ganhar algum tempo. Não sei explicar, mas não sentia medo. Sabia que precisava distraí-la. Era como se meu corpo soubesse o que fazer em uma situação dessas.
– Eu sou Esteno – respondeu Sra Hudson – A Górgona mais linda, mais poderosa e mais amada das três irmãs! E agora vou almoçar você.
– Acho que hoje não. – Agarrei um pedaço de madeira que havia no chão e acertei no rosto de Esteno, a Górgona cantora. Ela aparentou estar tonta, então a empurrei para ter uma visita com a Sra Almarez – que descanse em paz – e sai correndo, direto para minha casa.
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