O Descendente da Guerra
7 Já perdi as contas de quantas vezes presenciei minha quase morte
O mundo parece ficar extremamente gelado, tento respirar e a dor enche meus pulmões. A sensação mais estranha e agonizante de toda minha vida, com toda certeza. O embrulho no estômago passa e minha mente fica mais clara, então percebo que essa agonia não era dor. Era água. Eu estava me afogando e nem sabia onde.
Depois de muito lutar para voltar à superfície, o frio começou a congelar meus músculos. Já estava preparado para a morte. Já estava preparado para me encontrar com meu pai. Meu verdadeiro pai.
Tudo que eu via não passava de umas imagens turvas. A água já estava afetando meu cérebro, pois ao olhar para cima, via uma lua brilhante no céu. Em outras direções, via o que parecia ser fantasmas de mulheres, que tremulavam como a água. E então eu vi…
— Katherine — tentei falar, mas apenas deixei escapar as últimas bolhas de oxigênio que havia em meu organismo.
A menina me agarrou pelo braço e começou a me puxar para cima. Cada vez a lua ficava mais próxima.
— Você não vai morrer agora, não depois de tudo que eu fiz para salvá-lo — resmungou.
Comecei a tossir e a água era expelida de meu corpo como se não quisesse ficar ali.
Depois de alguns minutos, já me recuperava sentado à beira de um lago com algumas canoas. A água era quase congelada, e o frio fazia meus ossos tremerem. Katherine me apoiou em seu ombro e começou a me carregar por uma trilha, rodeada de árvores. O silêncio era total, como se a própria natureza tivesse resolvido tirar um cochilo.
Katherine percebeu o ataque antes de mim, mais uma vez. Com um salto, ela me empurrou para baixo alguns momentos antes de uma flecha passar pelo lugar em que minha cabeça estava.
— Parem! — ela gritou – Estou com um novato!
— Vocês estavam no lugar errado e na hora errada, time vermelho – disse uma pessoa de armadura, com o sorriso sarcástico e uma pluma azul pendurada no elmo.
Eu percebia a raiva crescer dentro de Katherine. Ela se levantou e se enrijeceu, apertando os punhos. Sua respiração era forte e ela mantinha os olhos fixos no adolescente.
— Você irá se arrepender desta noite, Robert. – resmungou Katherine.
Então, algo dentre de mim soou como alarme. No mesmo instante me virei ao ponto de ver alguém apontando uma besta para às costas de Katherine. Levantei-me, sem saber o que fazer. Não teria tempo para avisar a menina, então segui meus instintos. Apontei para a besta e me concentrei. Senti como se uma represa estivesse rompido dentro de mim, e com ela veio uma sensação maravilhosa.
— Ai! – gritou a menina que segurava a besta – está queimando!
Só então Katherine compreendeu o que estava acontecendo. Sua fúria se tornou visível, em sua volta. Sombras dançavam ao seu redor, frio emanava de seu corpo. E então ela pirou.
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