O Descendente da Guerra
8 Me torno amigo da menina que gosta de invocar ossos
Seu grito ecoou no fundo de minha mente. Coisas estranhas invadiam meu cérebro. Coisas não, sentimentos e lembranças. Katherine deveria estar com muita raiva, pois estava expondo seus pensamentos mais íntimos. Pude sentir sua ira contra as pessoas que esperavam sempre o melhor dela. Vi o quanto a menina se repreendia. Presenciei seus piores traumas.
Frases aleatórias surgiram em minha mente, como do tipo: “Você sempre viverá às sombras deles”, “Jamais impedirá a derrota” e “Em breve serás só mais uma alma”.
Não sei se Katherine estava me influenciando ou não, mas ao ouvir aquilo senti o ódio crescer em mim de uma maneira incontrolável. O rancor dominava meu ser, até que me dei conta que esses sentimentos não eram meus. Não consigo imaginar como uma pessoa consegue carregar consigo uma dor tão grande.
— PARE COM ISSO – gritou Robert, com as mãos nos ouvidos – Faça parar, por favor!
Enfim, o silêncio. Os semideuses vestidos com armaduras enfim se estabilizaram novamente, agora com sua raiva estampada no rosto. Meus sentidos diziam que estávamos completamente ferrados, sem sombras de dúvidas. Porém, não contava com a grande ajuda que Robert nos deu, não calando a boca no devido momento.
— Você não é, e nunca será ninguém. Viverá sempre nas sombras de sua família – resmungou.
A expressão de Katherine era puro ódio, mas a semideusa parecia em transe, com seu olhar sem foco. Prestei atenção em seu rosto e puder perceber a primeira lágrima escorrendo. Foi então que o caos começou.
A terra explodiu em nossa volta, a temperatura caia de uma maneira muito rápida, a noite ficou mais escura. Fui atingido no rosto por raízes de árvores. O dia do juízo final acontecia em volta de Katherine, mas ela parecia não notar.
— Eu farei minha história – falou ela – Irão me conhecer pelos meus próprios feitos, e não pelo passado de meus ancestrais.
Não lembro se já disse, mas aviso nunca é demais. Jamais, com foco no JAMAIS, irrite uma menina. Ainda mais se ela conseguir invocar os mortos.
Mãos esqueléticas surgiam na superfície da terra, se agarrando nos tornozelos dos semideuses com plumas azuis na cabeça. Névoa branca começou a emanar do chão, a floresta ficou estranhamente silenciosa.
— Ergam-se e sirvam-me – disse Katherine, por fim.
Pouco tempo depois estávamos acompanhados de uns 20 soldados esqueletos, e alguns semideuses assutados.
— Esse é seu último aviso, Robert, filho de Mercúrio. Na próxima vez, tu se juntarás com minha coleção de soldados. – Katherine olhava nos olhos do nosso novo amigo, enquanto pronunciava essas palavras.
Eu estava completamente assustado e sem reação. Podia sentir o poder de Katherine, como se ele pinicasse minha pele. E de fato, erra isso que acontecia. Sombras dançavam ao redor de meu corpo. Minha amiga se dissolveu em escuridão, como se seu corpo se fundisse com as sombras. Escuridão esta, que logo e me alcançou e me lançou novamente para o mundo de trevas.
Alguns segundos depois o mundo clareou. Katherine cambaleou, mas logo assumiu uma expressão que dizia: “Estou bem. Não me toque. Caso contrário, te mandarei para uma viagem só de ida para a terra dos fracassados.com”.
Enfim, olhei ao meu redor. Estávamos em um pavilhão no estilo grego. Ou era romano? Aquilo era tão confuso, não conseguia mais diferencias esses aspectos que tanto aprendi nas aulas de história. Uma trombeta soou, e mais semideuses apareceram de vários pontos de dentro da floresta.
— Parece que o jogo acabou – Katherine comentou – Agora sim é que a diversão começa.
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