O Cárcere da Alma
2 1. Sede de Sangue
Notas iniciais
–– O CÁRCERE DA ALMA ––
1. Sede de Sangue
O Honekui no Ido (o Poço Come-Ossos) foi o marco de uma nova era e uma cicatriz profunda no coração de alguns. Na Sengoku Jidai, a Era dos Youkais –– vulgarmente chamados de “demônios” –– os mesmos eram os que detinham poder sobre os humanos.
Muitos eram os “demônios” que saiam das bocas dos aldeões, mas a maioria mais fraca, tão ocupados com sua sobrevivência eram usados de iscas para propósitos maiores.
Havia alguns que mantinham e ostentavam essa fachada vulgar e se aproveitavam do sofrimento e do desespero dos youkais pacíficos para seus propósitos. E sendo assim, cada vez mais a Sengoku Jidai era tomada pela nuvem negra do caos.
Em qualquer era, o príncipe solitário pensava, youkais deveriam ser reverenciados por humanos e temidos como aqueles que inspiram o verdadeiro medo. Estar passando por tempos difíceis não era desculpa. Talvez devessem reafirmar o juramento que firmaram em nome de seu orgulho.
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–– Há quanto tempo, Ashimagari-dono. Vejo que o tempo não foi tão rude a você quanto a mim.
Com uma reverência a mulher abaixa-se em frente ao senhor que servia. Seu quimono prateado que arrastava no chão contrastava com a madeira rústica da sala. Pronunciara as palavras em tom de respeito e servidão. As notícias de mais uma derrota chegaram até os ouvidos de seu senhor e por isso sua presença ali era explicada.
Sem mover o rosto em direção a sua serviçal o homem responde:
–– Então você veio, Tenma. Acreditei por um momento que tinha esquecido de me manter informado daquele príncipe arrogante.
A voz arrastada e baixa do homem trazia conotações de ódio e repugnância ao pronunciar o nome do inuyoukai dono das terras do oeste.
–– Como eu me esqueceria mestre? Falando nisso, gostaria de reportar a situação incômoda em que ficamos.
Enquanto falava a mulher se levantou do chão afastando seus compridos cabelos castanhos para trás de suas orelhas, assim, dando mais liberdade a sua movimentação. Mesmo fazendo gestos simples falava eloquentemente.
–– Que situação? — Inquiriu o senhor.
–– A Jóia de Quatro Almas foi destruída e acredito que seja impossível recuperá-la, o contrato mágico foi feito a muito tempo. Ela deixou de existir, e por minhas investigações, a culpada foi uma miko que vive na aldeia de Inuyasha. O hanyo meio-irmão do nosso príncipezinho.
–– Ela é inútil para nós agora. Contanto, se o hanyo tem algo com essa miko, nós temos uma pequena chance de reaver o que foi roubado durante a segunda guerra. Sesshoumaru participara disso, mesmo que eles tenham a Tessaiga e a Tenseiga.
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De olhos fechados ele sentia o gramado ainda úmido de orvalho sob seu corpo. Ambos os braços estavam cruzados atrás de sua cabeça acomodando seus longos cabelos prateados. Aquela brisa suave que batia em seu rosto parecia sussurrar histórias em seus ouvidos, seguindo o ritmo de ondas batendo em algum lugar ao longe.
–– Sesshoumaru-sama! –– Gritava com tom alegre uma voz conhecida. Não precisava fazer esforço para reconhecer que era Rin que corria pelo campo até onde o youkai de cabelos prateados descansava sobre a relva. O perfume natural de sua pele era inconfundível ao youkai. Como que resoluto, Sesshoumaru decidiu ficar imóvel. Talvez a garota se distancia-se de si mais rapidamente. –– Sesshoumaru-sama. Ainda pensa que os seus olhos estarão protegidos de mim e minhas palavras se continuarem fechados? –– As palavras saíram doces e calmas dos lábios da garota, baixas e graves também, porque agora a garota estava de joelhos na grama ao lado do youkai numa proximidade considerada irritante ao príncipe dos Inuyoukais.
–– Não. –– Respondeu sucintamente Sesshoumaru.
–– O que está fazendo? –– Perguntou Rin inocente, enquanto o vento brincava com seus cabelos longos e negros.
–– Pensando. –– Disse ele sendo objetivo. Os olhos âmbar abriram-se lentamente e encontraram o céu azul acima deles. Os mesmos voltaram-se na direção de Rin, que o olhava numa mistura de ingenuidade e curiosidade.
–– Sesshoumaru-sama? –– Em tom de cautela Rin perguntou baixinho, mas sabia que o inuyoukai a ouviria. Ruborizou levemente desviando seus olhos para o horizonte numa tentativa de esconder algo. Sesshoumaru não respondeu. Manteve-se quieto e decidiu deixá-la ter seu tempo para falar. –– Você sabe o que... quer dizer.... querer ficar com uma pessoa.. digo, querer e não poder? –– Estranha. Era o mínimo que era a pergunta de Rin. Sesshoumaru seria hipócrita se respondesse tal pergunta. Manteve-se calado. –– Sabe... é que... eu queria passar um tempo com a Kagome-chan na aldeia da Kaede-baa-sama, mas não quero deixar o senhor sozinho Sesshoumaru-sama.
–– Não diga besterias. –– Concluiu o inuyoukai se levantando da relva. –– Se quer ir, vá. Não te impeço. –– As palavras foram duras. Se a garota começava a pensar em besterias como aquela, já seria tempo de que ficasse na aldeia com os humanos. Virou as costas e saiu andando da clareira para dentro da floresta fechada. Para Rin, que acostumada com o tratamento mais frio e impessoal do homem de cabelos prateados, sorriu feliz. Afinal não daria dois dias e estaria desfrutando da companhia de Kagome que agora tinha uma profunda afeição.
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–– Ande mais rápido Rin, ou Sesshoumaru-sama te deixará para trás. –– Inquiriu já com tom de impaciência na voz Jaken que reclamava de seu hábito incompreensível, uma vez dito por ele, de colher flores.
–– Mas olhe Jaken-sama. Não são lindas? –– Disse Rin mostrando a Jaken algumas flores que estavam em suas mãos.
–– Pare com isso menina. Vamos indo. AAArrhhgg... –– Jaken para, esbarrando nas pernas de Sesshoumaru que parou repentinamente. –– O que aconteceu Sesshoumaru-sama?
–– Vá Rin. –– Foram as únicas palavras ditas pelo youkai. Parecia que tentava se controlar para não sair do lugar. Seus olhos estavam fixados em um ponto específico no pé da colina.
–– KAGOME-CHAN! –– Gritava Rin já descendo a colina correndo ao encontro de Kagome.
A mesma, surpresa, olhou na direção do grito. Sua expressão tornou-se de pavor, um de seus braços involuntariamente deixou a cesta com mantimentos que estava colhendo para Kaede cair e se esticou na direção da garota que agora havia tropeçado e começaria a cair colina abaixo.
–– RIN-CHAN! –– Kagome gritou, mas antes que a pequena se machuca-se o Inuyoukai que observava a cena já a havia pego e em segundos estava “aterrizando” na frente da miko, surpresa pelo resgate.
O olhar de Sesshoumaru era duro e severo, não precisava de palavras para repreender Rin. Soltou a garota em seguida.
–– Desculpe-me Sesshoumaru-sama. –– A garota dizia com voz chorosa visivelmente constrangida. Sem palavras, o mesmo já estava se virando para ir embora, mas foi parado por aquela voz suave e calma da miko.
–– Obrigada Sesshoumaru.
–– Ummph. –– Soltou o grunhido em resposta e saiu rapidamente da visão das três mulheres. Kagome, Rin e Kaede.
–– O que faz aqui Rin-chan? –– Perguntou Kagome surpresa.
–– Bom, eu estava com saudade e... TOMA! –– Rin estendia a Kagome, com suas mãozinhas, uma flor amassada que segurava com força.
–– Isso é pra mim?! –– Surpresa, pegou a flor da pequena. Vendo o constrangimento da garota, um sorriso gentil se formou no rosto de Kagome. –– Obrigada Rin-chan. É muito fofinha!
–– Você gostou mesmo?
–– É claro! Porque não iria gos... RIN-CHAN CUIDADO!
Um youkai se aproximara da aldeia e trazia sua cena de batalha para a mesma. Kagome desviou o ataque dos grandes tentáculos que o monstro possuía da direção de Rin, mas foi ferida no peito. Por incrível que fosse, era Kikyo que lutava contra o mesmo, mas no minuto seguinte estava sendo arremessada de encontro ao chão brutalmente! Após a derrota de Naraku, Kikyo se manteve na aldeia de Kaede. Kagome refletia muito sobre isso, pois agora, Inuyasha era de Kikyo e somente dela.
–– KIKYO! KIKYO! –– Kagome ouviu as primeiras palavras de Inuyasha ao ver a cena. Ouviu atentamente e seu coração chorava não só de dor, mas de um amor incurável. Sango e Miroku estavam fora tentando arrecadar algum dinheiro, afinal agora tinham família. As meninas e o bebê ficaram na responsabilidade de Kagome. Shippou havia ido com eles. Somente Inuyasha ficara, e nem com ele ela poderia contar.
–– Rin-chan... –– Falava Kagome com dificuldade. –– Está... bem?
–– Kagome?! KAGOME-CHAN!!! –– Rin gritou chamando a atenção do hanyou.
–– KAGOME! –– Inuyasha gritara já longe demais para ser ouvido com clareza.
–– Ora, ora... –– O youkai que atacara as mikos se pronunciava pela primeira vez, um veneno roxo e borbulhante saía de sua boca. –– Se não é a “miko-gêmea” da Kikyo-sama? Que divertido... e nem o hanyou pode salvá-la não é? Ouvi muito sobre vocês de meus irmãos! Agora, que tal uma vingança?! –– A voz saía lenta e cheia de ódio. Inuyasha se dirigia a Kikyo que estava desacordada. –– Ora, ora... trocou a viva pela morta Inuyasha-san? Que desperdício de carne fresca!
–– EU VOU TE MATAR! –– Gritara Inuyasha, empunhando a Tessaiga cedendo as provocações.
O youkai atacou com seus tentáculos mais uma vez, um deles foi em direção de Kikyo, Inuyasha vendo isso a salvou no último instante. O outro, entrou dentro do corpo já ensanguentado de Kagome à levando a inconsciência.
☼
Kagome abriu seus olhos lentamente. À claridade à incomodava. Tentara levantar da cama que estava, mas não conseguia se manter ereta então recostou-se novamente. Estava enjoada e com muita dor no peito. Em um pequeno flash a realidade atingiu sua consciência. Inuyasha a deixara e a dor era grande. Mas agora era tarde para voltar. O poço se fechara para sempre e ela havia escolhido ficar com Inuyasha.
–– KAGOME-CHAN!! Você acordou, você acordou!! Eu, eu.. me desculpe, eu... eu só atrapalhei! –– Quebrando o silêncio repentinamente, uma garotinha agora soluçava à seu lado. A voz fina e jovial eram reconhecíveis.
–– Rin-chan... não chore. Nada foi culpa sua. Eu fico feliz que esteja bem! –– Sua voz não saíra do modo desejado. Estava um pouco rouca. –– Por quanto tempo estive fora? Umas doze horas?
Rin ficou em silêncio por alguns minutos.
–– Rin?
–– Na verdade.. você esta dormindo faz uma semana contando com hoje Kagome-chan!
–– UMA SEMANA! –– Gritou, mas não era pra gritar. Com o ocorrido, a velha senhora Kaede entrou na casa para ver o que acontecia. Sango também entrou em seguida.
–– KAGOME! –– Elas falaram em uníssono. Sango veio mais rápido que Kaede e abraçou Kagome com força. Kagome protestou com dor e ela afrouxou o abraço. Lágrimas já escorriam de seu rosto.
–– Você não sabe como fiquei preocupada com você Kagome! Por favor, não faça mais isso. Prometo não ficar fora da vila por muito tempo.
–– Não é a minha intenção repetir a dose. — Respondeu Kagome tentando fazer um pouco de graça.
–– Como se sente Kagome? –– Perguntou Kaede, que agora se sentava ao lado das meninas tocando o grande curativo que estava no peito da mesma.
–– Já estive melhor vovó Kaede.
–– Seu ferimento irá cicatrizar, mas a marca não irá sair. –– Séria a senhora Kaede fitava os olhos de Kagome. –– Sinto muito, eu fiz tudo que podia.
–– Não diga isso. Salvou minha vida vovó Kaede! Não poderia pedir nada em troca. –– Disse Kagome agora tocando a mão de Kaede que repousava em cima de seu peito. –– Mas, gostaria de pedir sua ajuda em outra coisa...
–– O que irá fazer agora? –– Sango disse preocupada. –– Tenho que lhe contar sobre Inuyasha... e bem, o que aconteceu enquanto estava dormindo.
–– Não se preocupe Sango-chan! Não há necessidade. Eu mesma quero ouvir de Inuyasha o que ele tem a dizer, se tiver algo a me dizer. –– Sango assentiu.
–– Do que precisa minha criança? –– Kaede direcionava agora à palavra a Kagome.
–– Tentar ser discípula de Reishin Oono!
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