O Curioso Mundo Das Maravilhas
2 Quase suicídio e o homem gordo
Ela não tinha certeza e muito menos razão. Tinha quinze anos e sabia apenas que corria por ruas estreitas, desconhecidas e que provavelmente seu pai não se agradaria por ela estar ali. Aquele pai que por Alice vivia, por Alice morria. Liberdade, tão deliciosa liberdade, agora que a tinha não sabia mais quando a deixaria ou se algum dia a deixaria escapar. Sorria, sorria e ria. Acabava-se em gargalhadas enquanto copos e copos de vodca compartilhava com estranhos. Em sua cabeça diversas músicas tocavam, com diversos ritmos em distintas situações até que após dez anos vivendo assim, ela se cansou. Tentou procurar caminhos que não a levassem a inauguração da nova boate do bairro ali perto ou a um novo traficante que barateava as drogas.
Entretanto, se conseguisse ficar dois dias longe desse viciante mundo era tempo demais.
Certo dia então, cansada de se trancar em seu pequeno apartamento que mesmo após os anos seu pai ainda pagava o aluguel, Alice decidiu acabar de vez com a sua vida. Depois da morte ela provavelmente conheceria o País Das Maravilhas que um dia vira na tevê, naqueles tempos onde a inocência ainda reinava sobre a sua vida. Inocência, tão deliciosa inocência, quando a tinha a deixou ir tão rápido e como sentia falta dela!
Subiu até o terraço do seu prédio e segurando o ar chegou até a ponta. Abriu os braços, fechou os olhos, se imaginou caindo para sempre. Devaneou. Caindo, caindo, caindo e nunca chegando ao chão. Para sempre aquele desespero de cair e jamais chegar a lugar algum.
Assustou-se de forma que se jogou para trás. Seu inferno pessoal parecia pior e suas lágrimas já não cessavam mais. Deitada naquele imundo chão onde passeavam insetos e mais insetos, manuseou um cordão em formato de cruz. Abriu-o, dentro dele havia cocaína, aquele pózinho branco que a fazia se sentir tão bem por algum tempo e que a trazia náuseas e calafrios, a proporcionava delírios, paranóias e já quase a prendeu por indeterminadas vezes. Colocou um pouco nos dedos, observou as estrelas por alguns segundos e pensou na consequência daquele ato. Alice, pela primeira vez em dez anos, se levantou do chão com toda a força que ainda lhe restava, soprou ao vento a droga que estava entre seus dedos e lançou sua cruz para fora do prédio.
Arrependeu-se instantaneamente. Desceu de forma furiosa, as escadas nunca pareceram tão poucas. Precisava daquilo não para poder viver, precisava para poder sobreviver nesse mundo onde tudo é completamente louco e selvagem. Tudo parecia dar certo. Pegaria seu pó e se drogaria em seu apartamento, no entanto um fato que chamou sua atenção aconteceu.
Um homem gordo e bochechudo descia as escadas mais rápido que ela. Descia ofegante e olhando a toda hora o relógio. Alice se preocupou, já que o moço parecia desmaiar de tanto suar.
— Está tudo bem? – ela perguntou juntando as sombrancelhas.
— Desculpe. Adoraria conversar, mas não posso. Estou atrasado. – respondeu o homem sem tirar os olhos do pulso.
— Atrasado? Já vi pessoas atrasadas e nunca tão desesperadas quanto você!
— Desculpe. Adoraria conversar, mas não posso. Já era para eu estar lá!
— Você por acaso vai para algum chá? – debochou levantando um sorriso no canto da boca.
O desconhecido parou quase sem respirar. Fez uma expressão brava, demonstrando seus olhos inchados e arroxeados, sua pele rosada de tão branca, sua papa debaixo do queixo e seus poucos cabelos jogados para trás com gel.
— Não importa a você aonde vou. Importa? – rudemente a questionou e se virou voltando a observar apenas o relógio e nada mais.
Por algum motivo surreal, ele a fez esquecer do que procurava e por algum motivo ainda mais surreal, naquela noite ela foi atrás dele.
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