O Curioso Mundo Das Maravilhas
3 Às portas do desconhecido
Escuridão, vozes à distância, mais alguns passos e parecia estar mais e mais ofegante. O medo a cercava de uma forma nova, intensa, irreal. Já esteve por tantas vezes em lugares ainda mais obscuros onde as vozes à distância pareciam ser completamente maléficas. O que havia de mal com aquelas vozes de pessoas loucamente felizes? Talvez fosse isso que a amedrontasse, o som do distante casarão que seu vizinho havia entrado minutos antes soava a insanidade. Já abraçou a insanidade, por muitos anos a teve na palma das mãos. Contudo nunca a encarou sóbria, com os olhos da inocência.
Alice então parou em frente àquela casa. Sentou-se em uma das escadas e, atordoada, segurou o rosto com as mãos. Vamos dar uma pausa na história e nos seus acontecimentos e tentar compreender a aparência da protagonista. Uma vez fora bela como os contos, suas madeixas loiras eram brilhantes, seus olhões azuis tão inimagináveis e os lábios eram finos, porém bem contornados. Sua pele, mesmo branca, tinha uma bela coloração acompanhada com algumas charmosas sardinhas e um sorriso tão bonito que poderia ser enxergado a distância. Agora apenas sobrou de Alice um cabelo seco cortado estilo joãozinho e uma pele sem cor. Era dona de lábios raxados e dentes amarelados, um sorriso quase inexistente e de um olhar repleto de dor e noites mal dormidas. Para a moça, a perda de sua natural beleza não era lá tão deprimente, o que a deixava repleta de sofrimento era não conseguir mais usar de sua capacidade intelectual como antes. Não conseguia mais ler e compreender, não passava de um ser humano que fora excluído da sociedade.
A melancólica moça derramou uma pequenina lágrima com saudade de algo que não sabia, alias, não tinha ideia se aquilo que sentia era de fato saudade ou apenas uma dor inexplicável. Levantou-se, enxugando seu pálido rosto e bateu na porta três vezes. Toc, toc, toc.
— Quem é? – uma voz grossa e máscula perguntou por trás da grande porta.
— Alice.
— Alice da onde?
— De lugar nenhum, apenas Alice. – respondeu imensamente confusa, afinal, nem mesmo a própria poderia dizer quem verdadeiramente era.
— Qual a senha para entrar "Alice de lugar nenhum"? – perguntou novamente a voz soando ameaçadora e ansiosa.
— Eu... – pausou – Não faço ideia.
Naquele instante ela se sentiu em um daqueles filmes antigos que alguém por algum motivo tem que entrar em um bar mesmo sem saber a senha. Quase achou graça se não fosse tudo tão apavorante. Voltou a se sentar nas escadas, conformado-se com o silêncio da voz com que conversava e ouvindo os barulhos que saiam pelas paredes. Talvez se eu fosse menor, pensou, eu conseguiria entrar por debaixo da porta ou pelo buraco da maçaneta. Talvez se eu fosse maior, pensou novamente, eu poderia destruir toda essa casa e ver o que se passa aí dentro.
Irritada foi novamente para frente da porta e a chutou.
— "Desculpe. Adoraria conversar, mas estou atrasado!" – resmungou usando um tom um tanto quanto debochado.
Deu meia volta então para ir para casa e viver a sua patética e humilhante vida. Quando estava prestes a dar seu terceiro passo para bem longe daquele misterioso casarão, ouviu então um rangido de porta se abrindo. Seu corpo rugiu em alegria ao perceber que sua entrada havia sido permitida. Atrasado que nada! Aquele gorducho provavelmente estava tentando somente decorar a senha. Assim que entrou, intrigou-se. O mais intrigante naquele lugar era o vazio do primeiro cômodo. A sujeira, os móveis velhos, era como um antigo filme de terror. Pensou em fugir, ir embora, porém pode ouvir a porta se fechar assim que entrou. Distraiu-se com o fato de todas aquelas vozes, agora ainda mais altas, estarem no fim de uma escada ainda mais empoeirada que tudo e com degraus duvidosos. Colocou um pé em cima do primeiro degrau e, no instante que pegou impulso para repousar o outro pé no mesmo, uma mão segurou seu ombro, fazendo-a virar.
— Você está perdida? Parece confusa "Alice de lugar nenhum". – disse o homem com olhos tão expressivos quanto de um gato e um larguíssimo e amedrontador sorriso.
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