O Criminoso Perfeito
19 Capítulo 19 - Chuva
Notas iniciais
– DEU POSITIVO, ESTOU GRÁVIDA! – Um grito feminino irrompeu a sala de descanso da delegacia em uma tarde chuvosa e tranquila.
Todos da delegacia soltaram uma exclamação de surpresa, antes de parabenizá-la pela futura maternidade. Todos menos Moblit, que engasgara com o café que não havia cuspido na hora.
– G-G-Grávida? – Perguntou o loiro mais surpreso que qualquer um no recinto.
– Sim! Olha! – Hanji estendeu o resultado do exame – Acabei de imprimir!
– Q-Quando? Como...
– Lembra daquele dia em que a gente tava sem cami-
– Sim! Eu lembro, Hanji. Eu lembro.
– Então!
– Mas... isso é... meio repentino...
– Olhe aqui – Hanji foi até Moblit e o agarrou pela gola da camisa – você vai assumir essa criança, se não vou enfiar essa xícara na sua bunda! Entendeu? Você não me comeu durante esses meses pra dar uma de covarde agora, entendeu?
– S-Sim, eu nunca disse que não assumiria, eu te amo Hanji, claro que vou assumir.
– Bom mesmo, também te amo coisa fofinha da mamãe. – A mulher comprimiu fortemente os lábios nos do loiro, ouvindo um pigarro atrás de si.
– Bem, parabéns Hanji. – Nanaba sorria – Já sabe o nome?
– Não sei nem o sexo, quem dirá o nome. Espero que seja uma garota.
– Sério? Por quê?
– Pra que ela seja foda como eu, claro.
– Uma frase bem a sua cara mesmo. – Dessa vez foi a vez de Mike falar, antes de tomar um gole de café.
– Parabéns, Hanji. – Eren sorriu – Finalmente uma noticia boa.
– Verdade. Mas e então, vamos comemorar ou não? – Propôs Hanji animada.
– Você não pode mais beber, Hanji – Interveio Moblit.
– Como assim não posso mais beber?
– Pode fazer mal para a criança.
– Faz nada! Vou beber pouco, juro.
– Hanji, você só para de beber quando está mais bêbada que um gambá!
– Bem... isso é verdade... Mas ainda assim...
– Não.
– Mas Moblit...
– Parece que a rotina voltou por aqui. – Eren sorriu – Isso é bom.
– Sim, muito bom. – Concluiu Nanaba enquanto ria das tentativas de negociação entre Hanji e Moblit.
Apenas mais um dia tranquilo na delegacia.
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– AQUELE FILHO DA PUTA! – Gritou o loiro, jogando tudo que estava na mesa no chão – Aquele canalha fodeu com tudo!
– Já descobrimos quem deu todos os detalhes da entrega a Kenny, o que vai fazer com ele? – Perguntou Mikael, observando as reações do namorado.
– Mate ele, não tenho porquê passar a mão na cabeça de quem me traiu. – Os olhos azuis praticamente faiscavam de raiva – E diga que não serei piedoso com o próximo que me trair, a morte será o menor dos problemas.
– Tudo bem.
Mikael saiu da sala pensando em como Antonnie mudava quando não estava com ele. Chefiando a família ele era frio, calculista e não tinha pena de matar qualquer um que o desafiasse, muito diferente do Antonnie que se enroscava nos braços do moreno quando dormiam juntos. Sorriu ao perceber que era o único que conhecia o lado mais manso do loiro.
Enquanto o namorado e guarda-costas seguia em direção ao delator, Antonnie pensava no que faria. Era a segunda vez que Kenny tentava roubá-lo em menos de três dias. Da primeira vez seus homens conseguiram conter o ataque, mas não foram bem sucedidos na segunda tentativa. Mordeu o lábio ao pensar na alternativa que lhe cabia, antes de pegar o celular e retornar a ligação que havia recebido noites atrás.
– Alô? – Disse a voz do outro lado da linha.
– Eu aceito. Vou te ajudar a matar o filho da puta do Kenny.
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Quando Armin finalmente pôde sair do jornal, encontrou-o esperando na porta do prédio. Sorriu, mesmo que não estivesse com ânimo para tal. Estavam saindo há mais de uma semana e sempre conversavam sobre tudo, desde coisas sérias até as triviais, o outro já tinha se tornado um amigo insubstituível para Armin. Sentia que podia falar tudo para ele, sorrir sem medo de ser julgado ou se sentir culpado por isso.
Seguiu o rapaz de olhos verdes até um café pequeno que havia por ali, que se não fosse pelo outro, nunca teria descoberto. Sentaram-se na ultima mesa, onde o frio da janela aberta em um dia nublado não os alcançaria.
– Você não me parece bem... – Começou o outro, fazendo com que Armin balançasse a cabeça afirmando levemente.
– É... Bem, aconteceram umas coisas...
– O que aconteceu?
– O namorado do cara que eu gosto morreu...
– Nossa... Nem sei como falar alguma coisa. – Eren chamou a garçonete – Aquele que também trabalhava com você?
– Sim.
– Bem... Sei que dói perder alguém perto assim, mas até parece que foi seu namorado que morreu... Desculpa se fui insensível.
– Não... – O loiro suspirou enquanto a garçonete se aproximava – Eu só... me sinto culpado...
– Ah – Eren falou com a garçonete — vou querer um café e uma torta de frango, e você Armin?
– Um suco de laranja e um pastel de forno está bom.
– Mas então – O moreno continuou quando a mulher se afastou com o pedido de ambos – por que se sente culpado?
– Porque o cara me beijou, o namorado dele viu e saiu correndo para o carro... E bem, depois disso ele bateu.
– Dirigir assim sempre dá merda.
– Pois é.
– Mas se sente culpado só porque o cara te beijou? O filho da puta foi ele, não você.
– Eu sei, mas... Todo mundo sabia que eu gostava dele.
– Você pediu o beijo?
– Não.
– Foi o primeiro a beijar?
– Não.
– Então não tem motivos para se sentir culpado, o cara que deve se sentir culpado.
– Eu sei. Mas não quero que ele se sinta culpado...
– Armin – Eren colocou a mão em cima da do loiro antes de continuar – não se culpe. Se ele quiser se culpar, o problema é dele. Você não fez nada de errado. Ele que traiu o namorado, agora que conviva com isso.
– Mas...
– Pare de se preocupar com isso.
– Tudo bem. – Armin olhou para o outro e sorriu timidamente, fazendo Eren sentir algo esquentar dentro de si – Obrigado, Eren.
– N-Não tem nada...- Olhou ao redor a procura da garçonete, sentindo um alivio ao vê-la se aproximando com uma bandeja com os pedidos – Vamos comer agora, tudo bem? Depois te levo para casa.
– Já disse que não precisa...
– Eu insisto.
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O quarto parecia mais escuro do que Jean lembrava. Estava deitado na cama desde que se lembrava, o único momento em que se levantou foi para abrir a porta para a mãe, que viera lhe trazer uma torta que havia preparado. Não tocara na torta, mesmo que soubesse que estava deliciosa, não queria comer nada, apenas colocou na geladeira e voltou a deitar-se fitando o teto.
Não teve coragem de ir para o enterro de Marco, sabia que não conseguiria encarar o caixão com o namorado. Sentia-se a pior pessoa do mundo por ter cometido aquele erro, por ter beijado o Armin de forma inconsequente. Não podia responsabilizar Armin, embora no começo tenha pensado que a culpa era do menor, agora percebia o quão idiota e impulsivo fora e por causa disso estava pagando o preço.
Queria pelo menos ter dito que sentia muito, que nunca amaria outra pessoa além dele, mas sabia que agora não adiantaria mais pensar nessa possibilidade. Ouvira desatentamente sua mãe falar que ele não poderia passar a vida toda naquela cama, que isso faria mal para ele e que Marco não iria querer que ficasse mal. Queria ter algum ânimo para voltar a viver, para continuar sem o sardento, mas não conseguia pensar em nada que o prendesse a vida.
Pegou o celular e olhou as notificações de mensagens mandadas por Armin perguntando se ele estaria bem. Tinha consciência de que deveria avisar no trabalho de que não estava muito bem para ir trabalhar por um tempo, nem nunca mais. Pensou em ligar para o loiro, mas a ultima pessoa que queria ver e falar era o menor.
Suspirou sentindo as lágrimas secas serem substituídas por novas. Marco nunca o perdoaria por ter feito o que fez antes do namorado morrer e depois viver tranquilamente como se não houvesse feito nada, a culpa da morte do outro era dele e aceitou isso, mas era um peso que não conseguiria carregar.
Sorriu amargamente ao pensar na única solução que lhe vinha à cabeça.
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Patrick enroscou-se nos lençóis ao ouvir a chuva que começara. Sentiu os braços do outro enlaçar sua cintura e sorriu, era bom sentir aquilo. Seu coração ainda estava preso a Levi, mas aos poucos Auruo conseguira fazer com que ele se soltasse e ficasse mais à vontade. Antes que percebesse estava sorrindo com as flores que ele lhe dava, ou quando lhe sujava de sabão enquanto lavavam a louça. Nem lembrava quando fora a ultima vez que Auruo tinha ido para casa.
– Lavou o cabelo? – Perguntou Auruo apertando o abraço em Patrick; o rosto escondendo-se no cabelo do menor.
– Sim, estava começando a coçar.
– Mas você já tinha lavado há três dias.
– E daí?
– Lavou de novo?
– Sim. E você também precisa lavar o seu.
– Por que você não vem lavar então? – Patrick pôde ouvir o riso baixo do outro.
– Vou lavar seu cabelo e esfregar sua cabeça até sangrar.
– Quanto amor.
– Pois é, meu amor é assim.
O loiro riu baixo enquanto puxava mais para cima o lençol que os cobria. Sempre sonhara com aquele momento, mal podia acreditar que finalmente tinha conseguido fazer Patrick começar a se abrir para ele.
– Patrick.
– Hmn?
– Tenho algo pra te pedir, algo que já vinha pensando há um tempo.
– O quê? Se for pra transar de novo, já disse que estou cansado.
– Não... Também preciso descansar, sabia?
– Espero que sim.
– Mas não é isso.
– Então o que é?
– Não acho muito justo ficar morando em uma casa que não é nossa, sabe... E ela é tão grande, acho meio desnecessário...
– Pare de enrolar e desembucha.
– Venha morar comigo, em minha casa, Patrick. Não, em nossa casa.
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Os dois correram quando os pingos de chuva começaram a cair. Armin ainda ria ofegante vendo Eren reclamar que parecia um gato molhado. Entraram na recepção do prédio observando a chuva que engrossava.
– Ah maravilha, como vou voltar para casa? – Perguntou Eren olhando para o céu nublado.
– Pode ficar um pouco aqui em casa.
– Tem certeza?
– Sim. Pelo menos se enxuga e não fica parecendo um ‘gato molhado’. – Concluiu Armin, voltando a rir ao lembrar-se da expressão que o outro havia feito quando comparou a si mesmo com um gato molhado.
– Você ainda está rindo disso?
– Desculpa mas... foi engraçada a cara que você fez.
– Pelo menos alguém achou engraçado – Respondeu Eren fazendo um biquinho.
– Então, vamos subir.
– Acho que nem precisa – Eren olhou para a chuva que afinava, tornando-se um chuvisco – a chuva está parando.
– Que tempo maluco.
– Sim... Mas esse chuvisco é pior, porque pode durar a noite toda. Bem, vou pegar um taxi e ir para casa, não se preocupe. Já está tarde, amanhã tenho que trabalhar.
– Vá com cuidado. Agasalhe-se bem para não se resfriar.
– Irei. – Eren observou os olhos azuis do menor e sorriu. Como ele conseguia ser tão fofo e doce depois de tudo que havia vivido?
Uma gota caía do cabelo loiro e escorria pelo seu rosto; Armin tremia levemente. Eren envolveu o rosto de Armin com uma mão, sentindo calor em sua pele fria. Por algum impulso louco simplesmente se inclinou e beijou levemente o menor, surpreendendo-o. Como ele conseguia ser tão quente nesse frio? – Pensou.
– Boa noite. – Disse por fim, ainda com o rosto próximo ao do outro – Durma bem.
Armin observou Eren correr mais uma vez pela rua, acenando desesperadamente para um taxi que parou logo em seguida, deixando que ele entrasse. Seu rosto com certeza estava mais vermelho do que gostaria, mas a sensação de ter Eren beijando-lhe era tão quente e calma... Muito diferente do beijo rápido de Jean, que levara a tantos problemas.
Subiu as escadas entorpecido, sua mente recusava-se a pensar corretamente, mas se viu entrando em seu apartamento e fechando a porta. Encostou-se nela e escorregou até o chão, passando os dedos pelos lábios e sorrindo. Sempre pensara em Eren como um amigo, mas não tinha rejeitado o beijo que ele lhe dera, pelo contrário.
Ainda estava avoado quando sentiu o celular vibrar, alguém ligava para ele. Atendeu tentando se concentrar.
– Alô?
– Armin? Tudo bem com você?
– Sim. Aconteceu alguma coisa, Rico?
– Sim, Nile disse que você poderia ter o resto da semana de folga... Sabe, depois de tudo que aconteceu, ele achou melhor deixar você descansar. Deve está sendo tão difícil para você... Sinto muito.
– Ah, tudo bem. Obrigado. Acho que aos poucos vou me acostumar com a ausência do Marco...
– Todos nós teremos que nos acostumar com a ausência do Marco e do Jean... Mesmo que não assumissem, tava na cara que se amavam.
– Como assim do Jean também?
– Você não sabe?
– Sabe do quê?
– O Jean, Armin. Achei que você estaria sabendo, é a única coisa que passou nos jornais essa noite.
– Eu não estava em casa.... O que aconteceu?
– Ah não, eu vou ter que dar a noticia a você? – A mulher do outro lado da linha suspirou — Ele se matou Armin, se jogou da sacada do seu apartamento. Eu sinto muito.
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