O Coven dos Espíritos

1 Fumaça do Passado


1964

A mulher em vestido preto andava nas ruas, com o salto batendo no asfalto, produzindo um eco pela noite sombria. Estava de chapéu preto, que escondia a maior parte de seu rosto, mas seus cabelos loiros eram visíveis escapando pela fresta do chapéu. A Lua estava vermelha, o que indicava que ela poderia começar tudo. Acendeu uma vela numa calçada e assoprou o fogo. O vento que saiu de sua boca pareceu alimentar ainda mais o fogo, que aumentou, produzindo uma grande fumaça pela calçada. Fez do outro lado da rua. A fumaça que saia das duas velas parecia fechar a rua, como uma barreira. Magia representativa, ela pensou ao ver a fumaça.

Jenn chamou-os com a mente, colocando ansiedade em seus pensamentos, para eles pensarem que ela estava em perigo, como planejou. Os Andrad estavam do outro lado da fumaça, esperando. A fumaça escondia sua presença, mas a aura deles ainda exalava raiva. Quem diria Nico Andrad fazendo um trabalho com uma bruxa. Era de se esperar que ele arrancasse a cabeça dela, mas até ele tinha que admitir, o que ela iria fazer poderia acabar com a magia dos Bittencourt.

Primeiro James chegou, seguido por Josh. Keylan e Hidden andavam com total raiva, não olhando para os olhos de Jenn, muito menos para sua aura. Eles nunca checariam a aura dela de novo. Nem se quisessem poderiam. Barry, o que sempre estava atrasado, foi o último, resmungando e perguntando o que havia acontecido. Todos os irmãos, incluindo Jenn, possuíam olhos azuis cinzentos. Seus cabelos eram diferentes. Alguns irmãos possuíam cabelos loiros, enquanto outros, pretos ou castanhos. Mas todos, sem exceção, eram extremamente bonitos.

— Eu tive uma visão — começou Jenn e continuou quando eles pareceram interessados, afinal, suas visões sempre eram certeiras — A próxima geração dos Bittencourt também será de seis. E quando o número infernal se repete, quer dizer um agouro muito grande para a geração da próxima geração. Eu estou preocupada, o clã dos Bittencourt não pode ter tanta desgraça. Acho que o Clã Principal preferia que viessem doze fracos a seis amaldiçoados.

— Você praticamente já é o Clã Principal, irmã. O que vai fazer? — perguntou James, sorrindo de canto. Ele nunca pareceu irritado pelo o que Jenn fizera para todos os irmãos. Arrancar a magia deles era no mínimo cruel, mas James parecia aliviado.

Todos os outros seguravam para não linchá-la. Não por Jenn ser sua irmã, mas pelo fato de que ela poderia pará-los na hora e ainda condená-los a fogueira. Jenn moveu a mão, falando: — Já tenho a solução para isso.

Sua mão se moveu para a esquerda e seus irmãos, como bonecos jogados no vento, se moveram juntos. Todos caíram no círculo desenhado a giz na rua. No meio da rua, entre a barreira de velas. Quando estavam no círculo, Jenn assoprou sob o giz e falou as palavras: — Vinctos ad maius bonum.

Keylan foi a primeira a se levantar, tentou sair do círculo e deu de cara com uma parede que a empurrava. Não era nada como um vidro, mas sim era uma sensação de um sopro te empurrando, impedindo-a de sair.

— Não! Você não pode fazer isso conosco! — disse ela chorando.

— Eu sinto muito. — Lágrimas saíram do rosto de Jenn. Ela acendeu uma vela preta e cuspiu no fogo, que logo se transformou numa pequena brasa, apagando. Com a vela preta apagada, ela colocou de um lado do círculo.

Pegou uma vela laranja acesa e cuspiu em cima desta também. Mas o que saiu da boca de Jenn desta vez não era nada parecido com água. Uma lama marrom clara saiu da boca dela rápida para o fogo e se juntou a ele. Os dois não derrotavam um ou outro, simplesmente ficavam ali, juntos. Assoprou numa vela branca, que aumentou o fogo, como nas barreiras no começo da rua.

A última vela era vermelha. Ela não assoprou ou cuspiu nessa. Acendeu com a mão. Colocou seu dedo no pavio e de seu dedo a chama aumentou de modo redundante. Posicionou as velas como uma bússola, cada uma das quatro apontadas Norte, Sul, Leste, Oeste.

— Vocês, que estão no centro, são o Centro-Oeste. Dormiant somnum sempiternum sacrificium familiae.

Os irmãos pararam de falar, lutar ou tentar sair do círculo. Ficaram parados, com a boca aberta, olhando para o nada.

Pulvis meum powder. — Os olhos deles fecharam e cada um não se moveu mais. Jenn começou a chorar, lembrando que precisava proteger o Clã. Mas a que custo?

No ano de 2015, Jenn Bittencourt de 70 anos acordou de seu sonho, acordou suando e pensando... Quando esse sonho iria acabar? Quando ela iria ter paz? Um Nunca foi sussurrado ao vento.

***

Stephen Bittencourt arrumava suas coisas. Pegou uma cachecol, uma calça jeans, um tênis Nike e a camisa de uniforme de sua escola. Só de olhar na tela no celular e ver que no próximo dia, ele estaria tendo que enfrentar escola de novo, era difícil pensar nisso.

Ainda mais com Finn Donovan e Camile Knoux por aí, andando de mãos dadas, se beijando, esfregando tudo na cara de Stephen, como se os dois sentissem prazer nisso. Percebeu que seu punho se fechara e estava tremendo enquanto pensava nos dois. Stephen realmente precisava aprender a controlar sua raiva. Foi muita sorte de Finn que Stephen desmaiara logo após tudo acontecer. Toda a humilhação, toda a chacota. Enfrente a toda escola. Todos rindo e ele sendo o fraco da história.

Colocou um caderno qualquer na bolsa junto com um lápis, caneta e borracha. Stephen odiava ir comprar materiais ou qualquer baboseira. Para ele, era suficiente um caderno com papel para escrever e um lápis, caneta e borracha bons. Quase nunca errava quando escrevia de caneta, portanto não precisava de corretivo. Também não errava com o lápis, mas a borracha era para emprestar ou jogar no teto quando ele estivesse entediado. Tudo o entediava fácil. A fala arrastada da professora, como se ela quisesse morrer por estar ali, os cabelos de algumas pessoas, os olhos de coitados de algumas crianças.

Ou seja, ele era alguém difícil de se entreter. E quando alguém fez isso, com muito esforço, essa pessoa o quebrou em partes. Mas se alegrou. Mesmo se entediando fácil, odiando algumas coisas e não gostando de várias outras. Afinal, era a Hawlock Green. Sua escola dos sonhos. De todo mundo, pois era uma escola que tinha de tudo, para agradar a todos. Desde atletas a nerds. Biblioteca enorme, sala de jogos, laboratórios de ciências e biologia, quadra de natação, quadra de futebol, quadra de futebol americano. A estrutura dos prédios principais onde aconteciam as aulas era parecido vagamente com um castelo, lembrando Hogwarts ou castelos medievais.

— Stephen? — disse a voz de sua mãe, Kourtney, uma mulher de estatura média, morena, com o cabelo preto curto. Todos seus amigos diziam que ela era bonita para idade, Stephen concordava com isso. — Boa noite filho.

— Boa noite mãe. Mãe? Fala para o tio David falar mais baixo, por favor? — David era seu tio que se fora chutado pela esposa e agora estava vivendo com eles.

— Claro.

Deitou-se, observando seu quarto, como fazia toda noite para ver se havia algo faltando ou fora do lugar. Seus pôsteres de Game of Thrones estavam no lugar e na ordem. Daenerys com Drogon, Tyrion, Cersei, Jon e Arya. Sua escrivaninha com todos os objetos importantes, como um globo de cristal ou a adaga da Revolução, estava lá, em seus lugares. Sua roupa para a escola estava bem onde Stephen deixara como se fosse possível ela saltar da poltrona. Ele dormiu, com seu último pensamento sendo qual fosse as chances de todo o ano passado ter sido esquecido por todos.

***

— Tira isso da sua boca agora! AGORA! — Anna Karch-Bittencourt gritou nervosamente.

— Mãe, por que eu não posso usar um batom? — gritou Nylie Bittencourt de volta para a mulher de saia longa e preta e coque parada de frente a ela.

— Deus não gosta de meretrizes com a boca vermelha. Agora vá lavar isso agora e venha jantar. Fiz uma sopa deliciosa.

Nylie correu para o banheiro e lavou a boca, com as lágrimas saindo de seus olhos lentamente. Lavou seu rosto, para sua mãe não ver que ela estava chorando, se visse, provavelmente iria falar que era feio chorar por um pecado. Deus estava vendo. Se viu no espelho do banheiro. Viu uma menina de cabelos loiros, olhos verdes (todo primo Bittencourt tinham olhos verdes), alta, com o corpo curvo. Seus lábios eram gorduchos, como os da Angelina Jolie. Todos diziam que Nylie era bonita, mas ela nunca se achava.

Foi jantar, onde ficou observando os pais, Anna e Kyle conversando sobre trabalho e política. Seus pensamentos estavam em Nova York, onde moravam os primos, os seus tios e toda sua família. Seus pais não tiveram a mínima decência de perguntar se ela queria ir para Washington, simplesmente disseram um mês antes de irem que tinham conseguido um emprego bom e uma casa boa, que eles iriam se mudar.

Ela odiava Washington com todas as forças que podia. Odiava as pessoas, odiava a escola, odiava não fazer amigos. Colocou toda a raiva que podia no bife que estava cortando. Logo terminou e levantou. Lavou seu prato, como sua mãe sempre lhe ensinara. Foi até sua cama e se deitou. Era óbvio que não iria dormir agora, iria sim conversar com alguém ou ver vídeos de algo engraçado na internet. Pensava em matar o primeiro dia de aula. Afinal, ninguém notaria.

***

John Bittencourt saía do banho, indo para seu quarto rápido, antes que alguém o visse só de toalha e visse o estrago que Nicole causava com suas unhas quando os dois transavam. Aquela menina era um porre como namorada, mas uma puta profissional na hora de transar.

Ele não sabia porque não tinha terminado ainda, não era só por causa do sexo. Sexo bom ele poderia ter com outra menina. Talvez fosse porque não quisesse achar outra namorada ou outra ficante. Isso era cansativo e John procurava se manter longe de coisas assim, cansativas. Ele era preguiçoso e presunçoso. Mas ela também não era perfeita.

Nicole era psicótica, louca, ciumenta e grudenta. Era como o diabo em pessoa, ligava para ele a cada trinta minutos, literalmente. E John nunca havia traído ela, para dar essa desconfiança. Ele nem tinha fama de cafajeste ou algo assim. Se olhou no espelho para ver se as marcas estavam saindo. Um pouco. Ele gostava de sua aparência, tinha que admitir. Cabelos castanhos claros, olhos verdes (marca dos primos Bittencourt), altura média.

Nicole e ele formavam um casal bonito, mas se beleza fosse perfeição... Nicole era bronzeada, baixa, com cabelo Chanel loiro escuro e seu corpo eram de outro mundo... Terminar com Nicole, para ele, não era questão de magoá-la ou algo assim. Era do trabalho que ia dar, do choro que ia ter que ouvir.

No fim, sempre quando queria tomar essa atitude, John se acomodava.

Eles dois ficaram falando no telefone até umas dez da noite, e por mais que John falasse que amanhã seria o primeiro dia de aula, que eles tinham que dormir cedo, ela não o ouvia. Cansado, parou de ouvir o que ela falava, só respondendo aham quando dava um espaço em silêncio. Até que realmente ligou o foda-se. Desligou o celular na cara dela e foi dormir. Antes, desligou o celular totalmente, para ela não retornar a ligação. Amanhã, quando se encontrassem pessoalmente, inventaria alguma desculpa.

***

1964

Os Andrad ultrapassaram a barreira quando os irmãos Bittencourt cairiam no feitiço de Jenn. Pegaram os corpos quase sem respiração e colocaram dentro dos caixotes que eles tinham trago consigo.

— Vocês me entenderam? Não os queime. Os enterre. Eu preciso deles vivos.

— Sinto muito, mas precisamos queimar bruxa. Queimamos todos os bruxos que encontramos e você nos dar uma geração inteira, salvou sua pele e nos deu uma trégua. Não queimar a próxima geração, pois eles também não irão ter magia. Ok, aceitamos a trégua. Mas nos deixe fazer nosso trabalho.

— Me escute aqui, Nico. — Jenn disse com os olhos arregalados. Tinha tirado o chapéu, revelando seus olhos azuis cinzentos e seu cabelo longo caiu como numa cascata. — Eu pareço ser qualquer droga para você? Eu não fiz isso por mim. Fiz isso pela cidade, você não sabe o que um Coven do número maldito pode trazer. A cidade pode sofrer mais do que a família que tem o Coven. Me entendeu? E se você queimá-los garanto que eu acordo todos eles antes disso e faço o Coven se formar de novo. Mas dessa vez, eu ajudo a destruir o estado. Garanto que meus irmãos vão estar bem furiosos e vão querer descontar em algo.

— Está me ameaçando e ameaçando toda Massachusetts?

— Não. Estou dizendo com educação para você enterrá-los. Preciso deles vivos.

— Tá bom. Vamos até a mata então.

Eles foram, com os Andrad e seus escravos carregando os cinco caixões, com Jenn do lado de Nico. Ele era tão bonito para ser um inimigo, Jenn odiava quando isso acontecia. Estava com medo, tantos homens e escravos que odiavam bruxos e ela era uma mulher sozinha e bruxa. Mas também sabia que os Andrad tinham palavra, mesmo que fosse aquela bem duvidosa.

Viu-os enterrarem seus irmãos em covas rasas enquanto ela fazia feitiços para ninguém se aproximar dessa área, nem animais. Precisava do corpo intacto. Do receptáculo intacto. Ela canalizaria energia deles para suprimir as outras gerações, até a situação no Coven melhorar, até eles receberam a geração fraca de doze ou uma celestial de nove, ou apenas três poderosos. Esperava por esse dia assiduamente.

Desculpe, falou mentalmente para eles, se perguntado se eles poderiam ouvi-la.

***

Stephen acordou com o alarme tocando violentamente uma música do Michael Jackson. Levantou, tomou banho, se vestiu, comeu alguma coisa e escovou os dentes. Enquanto fazia isso, se avaliou, para ver se estava apresentável para o primeiro dia: olhos verdes com olheiras não muito funda, cabelo ruivo caído na testa, rosto ainda magro e côncavo ainda fundo. Ele queria tanto ter bochechas, mas seu rosto era colado ao crânio, crescera bastante nas férias, já era considerado alto antes, agora ainda mais, já que tinha que se abaixar para se ver no espelho do banheiro. Esperava Kourtney tirar o carro da garagem, às 06h40min, como todo dia ele fazia. O portão abria as sete, então dava tempo. Tudo ocorria como sempre, nada fora do normal.

Era um dia bom, já na rotina, sem atrasos, como Stephen gostava. Não que ele gostasse de rotina, mas odiava se atrasar e odiava sair da rotina. Ele era complicado.

Chegara na escola, falou tchau para Kourtney, que fez meia-volta para voltar para sua casa e entrou na escola, exatamente as sete. Viu que em que sala caíra, sem checar as pessoas que caíram junto, temendo que encontrasse Camile ou Finn nela. Mas torceu para que Scott e o resto de seus amigos caíssem com ele.

Encontrou Scott, que falou rápido para ele.

— Stephen, uma pessoa quer te ver no bosque. Vá lá.

— Quem? — perguntou desconfiado. Scott nunca soube guardar segredo ou mascarar ansiedade.

— Finn.

— Porra nenhuma que eu vou ver ele. O maldito faz o que faz, finge ser meu amigo e depois quer falar comigo no bosque, onde não tem ninguém e é longe da escola? É muito fácil a resposta.

— Não, não, ele quer pedir desculpas, falou isso para mim. Quer que tudo se resolva para vocês.

Resolvendo acreditar em Scott, mesmo com aquela pulga atrás da orelha, Stephen caminhou até o bosque. Logo no meio do bosque, encontrou Finn. Assim que olhou para o rosto do maldito, lembrou-se de tudo que não queria lembrar.

Toda a escola, na arquibancada, todos eles o olhando, rindo dele, tapando a boca. Flashes de Camile andando até Finn e rindo dele também foram demais para Stephen continuar andando. Diminuiu o passo e ficou uns dez metros de distância de Finn.

— O que você quer? — perguntou Stephen, educadamente, mas com agressividade escondida na voz. Não podia evitar: a cara dele era socável demais.

— Eu queria conversar. Convencer o bobo do Scott que queria pedir desculpas, foi fácil. Ao contrário do idiota, eu sei mentir. Mas na verdade, queria saber. Como você, seu estúpido idiota, que foi humilhado na frente de toda a escola, consegue sair como a vítima da história? Como o herói?

— Como assim cara?

— Você se isolou tanto nas suas férias na Inglaterra que não percebeu que todas as meninas da escola estão loucas para ficar com você. Todos os garotos estão achando que você é um máximo e falando que você joga basquete bem.

— Mas eu jogo basquete bem, seu filho da puta.

— O ponto não é esse, o ponto é, porque estão falando isso. Você sempre consegue tudo o que quer, não é? Eu estou cansado disso.

Finn foi até Stephen que já estava com o punho fechado. Finn queria começar uma briga, pois que comece. Eles trocaram alguns socos até cair no chão e sair rodando pelas folhas do bosque. As folhas estavam quebrando sob suas costas, e os dois ficavam numa guerra para ver quem conseguia subir e socar a cara do outro. Até que Finn empurrara Stephen de cima de si e Stephen bateu com as costas numa árvore.

Stephen não aguentou isso. O cara se dizia amigo dele, roubou a garota que ele gostava, fez de tudo e ainda queria brigar, pois Stephen tinha sorte? Sorte que ele merecia? Stephen imaginou Finn morto, com toda sua força, enquanto esperava o próprio se levantar, o que pareceu ser uma eternidade, entre os três segundos em que Finn fez.

Finn se levantou, mas começou a tossir lentamente, até que a pequena tosse virou um ataque e ele foi perdendo o ar rapidamente. Caiu no chão, roxo. Estava morto.

O babaca se levantara para cair de novo.