O Ceifador de Cartas
3 Renascendo das palmas
No momento que ouvi que poderia voltar para o mundo dos mortais, de imediato um sorriso nasceu em meu rosto, e nem ouvi as outras coisas que o homem disse, respondi sem nem pensar.
— Sim, eu aceito. — Respondi, me levantando. — Ótimo, então... — O estranho tirou uma folha de papel velha de dentro do terno, junto de uma caneta um tanto quanto curiosa, toda preta, com alguns desenhos. — Basta assinar isto. — Certo. — Peguei a folha e a caneta, assinando sem ler nada que estava escrito ali. — Aqui está. — Muito bem. — Ele guardou as coisas dentro do terno novamente, sorridente. — Então, como vou voltar? — Estava extremamente ansioso, e muito feliz em saber que não estava morto. — Uhm... — Ele não disse uma palavra, apenas bateu as palmas, e quando pisquei, estava deitado na cama da sala do hospital, sem nenhum ferimento. Não sabia mesmo o que pensar, não sabia se era um sonho, um pesadelo, ou se eu mesmo criei aquelas imagens na minha cabeça, como forma de me divertir, e acabei esquecendo de tão real que foi meu pensamento. De toda forma, nada mais importava, eu estava ali, muito bem, e o mais importante, estava vivo. A enfermeira abriu a porta do quarto, ela estava com um prato de comida em mãos, era hora do almoço. Resolvi ignorar todas as lembranças sobre aquela sala branca, concluindo que foi tudo um pesadelo, e que estava tudo muito bem. — Aqui está, Sr. Vennet. — Ela deixou o prato na mesa ao lado da cama, saindo do quarto em seguida. Estava com fome, comecei a comer, mas sobraram alguns restos. Naturalmente, cai no sono após a refeição. — Um ano, apenas um ano. — Aquela voz esquisita invadiu a minha cabeça, me acordando. — Hum?! — Assustei, arregalando os olhos. Olhei todos os cantos do quarto, tentando achar alguém. Sem sucesso, tentei voltar a dormir. O sonho que tive foi um tanto quanto curioso. Geralmente, não lembro dos sonhos que tenho, porém, esse foi especial. Estava em um bosque cheio de flores, a temperatura estava agradável. Quando abro os olhos, em meio todo aquele campo, um estranho ser, com um manto extremamente escuro, segurando uma espécie de foice. Fui acertado pela foice, acordando neste exato momento. Dias depois, fui liberado do hospital, podendo finalmente voltar para casa. Logo que cheguei, uma linda mesa armada em meio a sala. Tinha bolo e alguns salgados. Bob, Katie, e Lauren estavam sentados no sofá, mamãe se sentou ao lado das meninas. — Isso ai, Oliver! Esse é meu garoto! — Bob se levantou, correndo até mim, abraçando-me. Ele parecia realmente feliz com minha volta, afinal, era meu melhor amigo. — No final, você foi forte, fracote. — Lauren, continuava sendo a mesma chata de sempre, mas se levantou e veio me dar um abraço. — Não, mamãe! — Katie gritou do nada, e saiu correndo para o quarto, sem falar nada comigo. Antes da corrida, ela teria me olhado estranho, como se estivesse com medo de alguma coisa. Não nos importamos, era só uma garotinha de dez anos, com alguns problemas psicológicos. Mesmo assim, mamãe foi para o quarto ver o que ela tinha. — Obrigado, pessoal. Vocês foram muito legais. — Caminhei até a mesa, pegando um salgado qualquer, devorando-o. Me joguei no sofá em seguida, fitando o teto. — Katie está bem, só lembrou de outro pesadelo. — Mamãe saiu do quarto, sozinha. — Tudo bem, mãe. Depois eu vou no quarto e falo eu mesmo com ela. — Disse, sorridente. Algumas horas se passaram, devoramos toda a comida que estava sobre a mesa, e Bob foi embora. Lauren foi para o quarto dela, dormir. Mamãe fez o mesmo. Fiquei sentado no sofá, olhando novamente para o teto. Estava lembrando de tudo naquela sala branca esquisita, e do homem que ali estava. — Vou falar com Katie. — Me levantei, rumo ao quarto de minha irmã mais nova. — Oliver...? — Katie estava escondida nas lindas e fofas cobertas de ursinho, com a luz da luminária acesa. — Sim, maninha. — Caminhei até sua cama, sentando-me. Tirei a coberta de cima da cabeça de Katie, olhando em seus olhos. — Me desculpe, Oliver. Não queria sair correndo durante sua festa de chegada. — Ela me abraçou, mostrando que estava arrependida. — Está tudo bem, certo? Agora quero que vá dormir. — Desliguei a luz, levantando-me. Sai do quarto em seguida, indo em direção ao sofá da sala novamente. Voltei a pensar em tudo aquilo, o que me deixava cada vez mais assustado. Lembrava de suas roupas coloridas, mas o que mais me chamou atenção, foi aquela bengala. Lembrei também do papel que ele me fez assinar, e se tudo aquilo foi mesmo real. Bom, isso não importava muito. Eu estava ali, e estava bem. — Ainda está cedo, e de noite. Já sei onde ir. — Fui até meu quarto vestir uma roupa de frio. Terminando, sai de casa, indo até as ruas próximas a escola, onde ocorriam as apostas noturnas. Levei comigo minhas economias, guardadas dentro de um saquinho qualquer. Chegando lá, fui direto na roda que eu mais jogava. — Vejam, vejam... Oliver está de volta. — Frank, o chefe das apostas daquele beco. Eu não gostava muito dele, mas precisava ficar na minha para não me dar mal.
— É, Frank. Pensou que fosse se livrar de mim? — Me aproximei um pouco sentando-me no chão mesmo. — Lógico que não, você é um de meus favoritos, garoto. — Ele pegou dois dados, lançando-os para mim. Os peguei com facilidade, sorrindo. — Vamos, não enrole. Entre nesta, se conseguir um seis, você vence. Se conseguir um dois, ou um cinco, perde tudo. — Aquele olhar sempre calmo, Frank era realmente um cara frio. — E se der qualquer outro número, jogo de novo. Certo. — Coloquei o saco com o dinheiro sobre a bancada, lançando os dados em seguida. Eles saltaram algumas vezes na caixa, e inesperadamente, caiu no número seis! — Vejam só! Oliver conseguiu vencer. — Frank parecia satisfeito. Ele pegou uma sacola com o dinheiro de todos que apostavam, passando para mim. — Vou indo, até. — Peguei meu dinheiro também, virando as costas para os presentes. — Ei, ei... Como assim? Não vai apostar novamente? — O "chefe" parecia irritado com minha atitude. Dois de seus homens seguraram em meu ombro, puxando-me novamente para a mesa. — Preciso ir, Frank. Amanhã eu volto. — Olhei nos olhos dele, tentando transmitir confiança em minha palavra. — Ah, não me venha com essa, Vennet. Sabemos que você não volta tão cedo quando ganha uma boa grana. — Disse Frank, irritado. — É sério, cara. Eu vou voltar. — Estava um pouco assustado, e tentei me levantar para ir embora novamente. — Não, você não vai agora. — Ele pegou uma faca atrás da mesa, mirando-a para mim. — O que é isso? Quer me machucar, Frank? Sério mesmo? — Tentei acalmá-lo com palavras, mas não estava dando muito certo. — Ei, o que é isso?! — Dois guardas noturnos apareceram no beco do nada, tirando a atenção dos apostadores. Aproveitei o momento para correr, indo para longe dali. Cheguei em casa um pouco depois, assustado. Tranquei as portas, e me sentei no sofá. Já tinha passado por situações parecidas, mas não sabia se ia ficar tudo bem dessa vez. Foi a primeira que corri. Acabei cochilando por alguns momentos, até que ouvi a campainha tocar. Fui abrir a porta, um pouco sonolento. Me surpreendi com a visão que tive. — Uhm...? Quem é você...? — Realmente muito surpreso. Do outro lado da porta, um homem com óculos gigantes, bem enfeitados, e coloridos. Sua roupa era extravagante, combinando um preto bem escuro com rosa também bem escuro. Ele segurava uma maleta, e sorria. — Uhm... — O estranho levantou os óculos, me olhando diretamente nos olhos, com um sorriso malicioso no rosto. — Oliver Vennet?
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