O Ceifador de Cartas
1 Jogando com a morte
Tudo era tão simples, uma vida tão fácil de se levar. Eu tinha tudo que um adolescente de dezesseis anos poderia querer, e mal sabia que a história ainda ia começar.
Meu nome é Oliver Vennet, vivo em Londres, Inglaterra. Moro com minha mãe, e minhas duas irmãs, Katie e Lauren. Nossas manhãs por aqui não são nada legais. Correria, é a palavra certa para definir esse curto período do dia. Como sempre, eu estava lá, sentado, tomando o café sozinho, esperando as meninas começarem. — Oliver! Onde está minha mochila?! — Lauren gritava como uma louca, aparecendo na porta com os cabelos bagunçados. — Você fica sumindo com ela! — Eu não sei onde está sua mochila, Lauren. Tem dezessete anos e nem sabe se organizar. — Falei, concentrado na comida ainda não devorada. — Garoto, eu ainda te pego! — Saiu, com o rosto vermelho de raiva. — Haha... — Peguei a mochila dela de baixo da mesa, com um sorriso maldoso no canto da boca. — Como pode ser minha irmã, e continuar sendo tão lerda... Uma coisa que vocês devem saber, eu amo brincar com as pessoas, mesmo elas não gostando muito. Não acho que isso fará mal para elas. — Vamos, crianças. Não quero que se atrasem para a escola. — Mamãe dizia a mesma coisa todos os dias, era como o sinal para a gente ir para o carro. — Katie fica em casa hoje, está doente. Bom, a gente não se importava muito com o que o outro faz ou deixa de fazer, não sabemos ainda porque a mãe continua falando. Chegando na escola, já dei de cara com meu melhor amigo, Bob. Ele é um garoto muito popular, está toda semana com uma garota diferente, e tinha o respeito de todos de lá, porém... Não foi sempre assim. Eu e Bob crescemos juntos, e sempre fomos melhores amigos. No começo da adolescência já percebemos o rumo que cada um iria seguir, ele um garoto popular, que jogava no time da escola, e eu, o gênio, nerd... Mesmo assim, ele sempre continuou me considerando, e não deixa ninguém falar mal de mim perto dele. — Oliver! Eu estava te esperando... — Sempre com aquele jeito gentil de falar, demos um rápido aperto de mãos. — Não vai dar para ir a sua casa hoje, apareceram algumas coisas, e... — Conseguiu um novo encontro de novo? — Falei, sem me importar muito, já esperando que isso fosse acontecer. — Tudo bem, já estou acostumado com isso. — Ah, não fique bolado... Vem, vamos para a aula. — Me deu um tapinha no ombro, e seguimos juntos para a sala. — Humpft... Só deixaram as piores cadeiras. — Falei para ele, caminhando para o centro da sala, onde haviam duas cadeiras livres. Nos sentamos, e deixamos a aula rolar. — Psiu! Garotinho gênio! — Disse Noah, que sentava atrás de mim. Era apenas um garoto chato que ficava me enchendo. — Que é, cara? — Disse a ele, sem nem mesmo me virar. — Eu soube que vão abrir vagas para monitor de idiotice, por que não faz a inscrição? — Disse o amigo do valentão. — Por que não se inscreve na creche, sua criança? — Falei, sem dar muita bola. Algumas pessoas riram da cara dele, o que chamou a atenção do Sr. Henry, o professor de História. — Algum problema, Sr. Vennet? — Resmungou o jovem professor, que caminhava até minha mesa. — Não, professor. Desculpe. — Falei, um pouco nervoso. — Então, por favor, vá resolver uma lista de exercicios na sala do diretor, agora. — Sr. Henry, nervoso, deu a ordem, voltando ao quadro. — Hum... — Sem falar nada, me levantei com a mochila, saindo. Cheguei na sala da diretoria, e a porta já estava aberta, a minha espera. Entrei, e a fechei. O velho diretor estava sentado, concentrado em um jogo de apostas que fazia através do telefone, com um de seus amigos desconhecidos, que ele insistia em dizer que eram de uma sociedade de homens "independentes". — Ah, entre, Sr. Vennet. — Desligou o telefone quando me viu, mas continuou com o papel de apostas sobre a mesa. - — O professor Henry me pediu para fazer uma lista de exercicios aqui. — Falei, já me sentando. — Sim... Pode começar. — Ele pegou uma caneta, e começou a anotar coisas no papel, tentando armar uma estratégia para suas apostas. — O senhor devia tentar trocar o ponto três pelo dois, as chances iriam dobrar. — Não resisti, e dei a dica. Ele fez de conta que não tinha ouvido, mas pude perceber que ele ficou surpreso com o que falei. Existia um lado meu que apenas Bob conhecia, nem mesmo minha mãe, nem minhas irmãs, nem ninguém. Só ele. E nem mesmo vocês, até agora. Por trás do gênio, existia um outro lado. Eu apostava nos becos próximos a escola, apostava nos dados, apostava em cartas... Bom, eu era apenas um amador, mas amava tudo aquilo. Nas rodas de aposta haviam bebidas, e várias coisas do gênero. E eu simplismente me transformava quando entrava nisso. Bob nunca gostou disso em mim, mas ele teve que aceitar. Eu perdia na maioria das vezes, e mesmo sabendo que sacaneavam comigo nos jogos, eu ainda continuava ali, porque era tudo uma maravilha. O sinal tocou, e sai da sala sem dizer nada, deixando a lista com o diretor. Depois disso nada de mais aconteceu, esperei a hora de sair, e fui embora. Bob ia para seu encontro, então segui sozinho.
Passava por um beco qualquer, quando vi um senhor velho e barbudo, que me pedia esmola sempre que o via. — Jovem Oliver... Ajuda, por favor. — O senhor apontava o chapéu rasgado para mim. — Desculpe, estou sem. — Passei reto, virando a esquina. Era mentira, eu tinha alguns trocados, mas ia usar para comprar chicletes. A rua sempre bem movimentada estava vazia, não passava um carro. Não me importei, fui atravessar com os fones de ouvido. Cheguei na calçada, estava escuro. Não fui bem recebido pelos moradores de rua que estavam ali. Falaram algumas coisas chatas para mim, mas continuei o caminho. Já devia saber que não ia ficar barato eu ter os ignorado, e antes de virar a esquina, um deles me acertou com uma garrafa de vidro na cabeça, e cai no chão. Não estava apagado ainda, mas muito tonto. Não conseguia me levantar. Me jogaram novamente em um beco. Uma luz branca apareceu do nada, o carro de um bêbado entraria no beco em questão, passando por cima de mim com tudo. Apaguei rápidamente, sem chance alguma. — Senhor... Oliver Vennet, correto? — Um estranho dizia meu nome, aquela voz fina como a de uma criança, que não assustava nem mesmo um bebê. Estava em uma sala toda branca, onde não havia nada. Podia ver um homem encostado na parede, com uma bengala preta, e um terno rosa. Ele estava de cartola, e sorria de forma irônica. Não falei nada, deixando-o no vácuo, afinal, estava assustado de mais para falar. Pude perceber que nas paredes haviam algumas manchas pretas, não dei bola. Não conseguia ver o rosto de tal estranho, havia uma espécie de pano colado na cartola, que cobria o rosto quase por inteiro, me deixando ver apenas um pouco de sua barba pouco longa. — É, deve ser você mesmo. — Falou novamente, girando a bengala. — Deve estar se perguntando o que aconteceu, se é tudo apenas um sonho, reparando em cada canto desta sala... Claro que está. E por favor, não repare no meu manto, certo? Fiquei assustado com as deduções dele, mas o choque de estar ali ainda era maior. — Não vou deixá-lo curioso, vou te dizer o que aconteceu... Você morreu.
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